As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 32 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Sete

 

O fato é que, quando o coração está sangrando, em algum lugar ele não

percebe que está sangrando .

— SIPORAH TEHORI, NASCIDA HELENA CITRON (nº 1971)

EM 1º DE DEZEMBRO DE 1942, “o nível de ocupação do campo

feminino de Auschwitz-Birkenau é de 8.232 detentas”. 211 Mas, no mesmo dia, as recém-chegadas foram tatuadas com os números de 26.273 a 26.286. Para onde haviam ido todas as outras? Mais de 6 mil mulheres e meninas foram selecionadas ao longo de três dias em outubro, mas, sem cálculos sólidos quanto à população no final do mês, não temos ideia de quantas mulheres realmente havia em Birkenau antes de dezembro. Se o nível de ocupação relatado na Crônica de Auschwitz estiver correto, o que estava prestes a acontecer seria impossível.

No dia 5 de dezembro de 1942 se comemoraria o Sabá de Chanucá, segundo o calendário judaico — coincidindo com o dia de São Nicolau na observância cristã, um dia de dar presentes e celebrar as crianças que foram boas no ano que passou. O Sabá de Chanucá carrega um significado especial e tem um “profundo significado cabalístico que reflete as energias

espirituais dos participantes”. 212 O ritual começa com as velas de Chanucá sendo acesas, porque, tão logo o Sabá se inicia, você não pode “acender” mais velas ou trabalhar — o Sabá celebra a “humanidade por meio do ato

de descanso”. 213 O Chanucá, por sua vez, celebra o milagre da luz, a retomada do templo e a salvação da destruição — por parte de Deus — de Seu povo escolhido. Serem salvas da destruição era o milagre de Chanucá de que Edith e Lea agora precisavam.

De manhã, antes da chamada, Edith arriscou sua vida novamente para entrar no Bloco 25. Ela tinha que ir trabalhar, mas não suportava deixar sua irmã sozinha.

“Lea estava na parte mais baixa dos beliches. Ainda no chão. Deitada na sujeira. Definhando. Estava muito frio. Ela estava em coma agora.” Edith não sabia se Lea podia ouvi-la falando com ela, orando a Deus para salvá-la. Nas proximidades, nas sombras, também morrendo de tifo, estava a querida amiga de infância de Giora Shpira, a filha de Adolf Amster, Magda. Sozinha no escuro, Magda não obteve nem o conforto de um beijo.

QUANDO EDITH E AS POUCAS privilegiadas em lenços brancos e vermelhos saíram do campo para trabalhar em Auschwitz I, o resto das mulheres ainda estava em pé na chamada. Assim que as responsáveis pela organização das roupas se foram, as mulheres na formação da chamada receberam ordem de tirar o uniforme e ficar nuas na neve. Em meio ao mundo congelado e esquecido de Birkenau, os SS estavam prestes a levar adiante uma seleção maciça das que tinham tifo.

Estava muito frio.

“Aquelas pobres, amaldiçoadas meninas”, Moses Sonenschein, filho de um rabino polonês, disse a Rudolf Vrba. “Elas vão congelar até a morte. Elas vão morrer devido à exposição a esse clima.”

Quarenta caminhões aguardavam para carregar as selecionadas para as câmaras de gás.

Entre as que foram forçadas a ficar nuas na neve o dia inteiro estavam pelo menos três meninas do primeiro transporte: Rena e Danka Kornreich e Dina Dranger. Apesar da prodigiosa memória de Rena e de sua atenção aos detalhes, ela nunca menciona o frio ou o fato de terem ficado nuas o dia inteiro na neve. Será que ela o faz para nos proteger (e a si mesma) da vergonha ou será que é simplesmente insuportável demais para lembrar? Em algum momento, a mente se fecha para o horror.

O clima era brutal, mas elas ficaram ali o dia inteiro, e quando a última garota foi selecionada para morrer já anoitecia. Quando os caminhões com milhares de meninas e mulheres deram a partida nos motores para seguirem

às câmaras de gás, “um uivo de * banshee ”se ergueu daquelas condenadas, “um protesto perturbador que apenas a morte poderia interromper”. Então, uma das meninas saltou da caçamba de um caminhão. E outra. E depois outras. Elas não seguiriam mais como ovelhas ao matadouro. Elas experimentariam a vida uma última vez e tentariam escapar. A SS perseguiu as meninas que fugiam com cachorros e chicotes.

“Deus não existe”, gritou Moses Sonenschein. “E, se existir, eu O

amaldiçoo. Eu O amaldiçoo!”. 214

A FOME NÃO favorece o surgimento de pensamentos claros ou focados, mas Edith passou o dia inteiro orando por um milagre para salvar sua irmã. Enquanto examinava os bolsos e forros dos casacos dos judeus mortos, ela acreditava no poder daquele dia, dentre todos os outros, porque o Chanucá era um lembrete de que “havia coisas pelas quais valia a pena lutar; ele marcava o fim de uma guerra e a liberdade da tirania” e o Sabá celebrava um “mundo sem luta, a interrupção do trabalho e a redenção da

escravidão”. 215

Edith se apegou às mensagens do Sabá e do Chanucá, mas seria praticamente impossível voltar a acreditar nelas se, todavia, sua irmã morresse. Lea tinha que sobreviver. Edith não tinha velas para acender na hora mais sombria de sua jovem vida. Tudo o que ela tinha era um fino fragmento de esperança de que haveria um milagre.

À luz fraca daquela tarde de inverno, Linda, Helena, Edith e as outras organizadoras de roupas voltaram para Birkenau. No portão, a SS ordenou que as meninas parassem e se despissem. “Tivemos que atravessar nuas o portão de volta para o campo.” Sem roupas sob o vento rigoroso do inverno e descalças na neve, as meninas marcharam uma a uma diante dos homens da SS, que vestiam longos casacos escuros de lã, botas, chapéus e luvas de couro. De pé ao redor das meninas trêmulas, eles procuravam alguma erupção que revelasse a mancha do tifo nos corpos de cada uma delas. A inspeção foi rigorosa. Todas que tinham alguma manchinha ou ferimento foram direcionadas para o quartel da administração, à direita. Lá, seus números foram anotados por um dos escreventes do campo, e então seguiram para os caminhões, “que as levaram para as câmaras de gás”.

À esquerda ficava o campo e a vida. “Se é que você pode chamar de vida o trabalho escravo”, Linda diz com um suspiro. “Aquelas que estavam marcadas, exaustas ou não se pareciam mais com seres humanos” foram mandadas para a direita. As meninas que ainda eram fortes o suficiente gritaram e gritaram, protestando contra a injustiça do inevitável.

“Galinhas valiam mais do que pessoas”, diz Martha Mangel (nº 1741). 216 Felizmente para Edith, sua erupção na pele desaparecera e a SS não prestou atenção a ela. Colocando o vestido listrado de volta, ela apanhou os sapatos e correu descalça pelas fileiras de blocos até o Bloco 25. Na crescente escuridão da noite, algo estava estranho. Mas o quê? Ela não parou para ponderar. Ela tinha que encontrar Lea. No Bloco 25, ela passou facilmente através do portão. A SS não estava lá. Nem Cilka. O pátio estava vazio. A porta rangeu quando ela a abriu. Então, entrou no bloco. Não havia nenhuma garota nos beliches ou no chão. Edith deu meia-volta e correu para fora; dobrou a esquina e olhou para as ruelas de Birkenau. Elas deveriam estar cheias de mulheres. Seu corpo inteiro começou a tremer. Os dentes batiam. Frio. Medo. Para onde todas foram?

Cilka apareceu no crepúsculo.

“Onde elas estão?”, Edith perguntou.

“Embora… Todas foram embora.”

Quando Linda entrou em seu bloco, alguns poucos rostos brilhavam no escuro, pálidos como se pertencessem a fantasmas. Das mil meninas que estavam em seu bloco naquela manhã, restavam apenas vinte. Por todo o campo, as meninas que retornavam do trabalho de organização entravam em blocos vazios. Restaram vivas apenas nove das amigas de Linda. Das de Edith, uma.

Lea desaparecera.

Bertha Schachnerova, 27 anos, desaparecera.

Lea Feldbrandova, 19 anos, desaparecera.

Alice Weissova, 21 anos, desaparecera.

Nossa beldade de pescoço longo, Magda Amster, 19 anos, também desaparecera.

A oração de Sara Shpira pairou sobre as cinzas: “É simplesmente lindo viver. O mundo é perfeito.” Que todas elas pudessem ter abraçado o mundo de Sara no lugar deste.

A SELEÇÃO DE 5 DE DEZEMBRO DE 1942 é uma das poucas registradas daquele ano, mas, não obstante o detalhamento meticuloso pelo qual os nazistas eram conhecidos, há uma discrepância entre os números administrativos da SS e os relatos das sobreviventes. O registro histórico afirma que aproximadamente “2 mil mulheres jovens, saudáveis e aptas” foram mortas pelo gás. Os sobreviventes — homens e mulheres, sem contato uns com os outros e anos após o fato — dizem que 10 mil meninas e mulheres morreram naquele dia. Essas testemunhas incluem os sobreviventes Rudolf Vrba e seu amigo Moses Sonenschein, que, do campo masculino, assistiram à seleção; mulheres que passaram o dia todo em pé e sobreviveram à seleção, como Rena e Danka Kornreich; e cerca de trezentas das organizadoras de roupas que retornaram ao campo esvaziado.

“O campo estava superlotado. E os nazistas, a SS, esperavam novas chegadas. Então, eles tiveram que se livrar de nós”, Linda diz com naturalidade. “Na manhã seguinte, acordamos e o campo estava quase vazio. Ouvimos dizer que durante a noite eles queimaram 10 mil meninas. Saímos para a contagem. Vimos apenas algumas das pessoas que

conhecíamos”. 217 Apenas algumas.

Como os dados referentes às mulheres provavelmente foram destruídos, talvez nunca conheçamos os números exatos da seleção do Sabá de Chanucá. Mas em quem devemos acreditar? Nos registros da SS sobre as mulheres, que eram notoriamente imprecisos, ou nas sobreviventes e testemunhas que estavam lá?

Seja qual for a verdade, quase 20 mil mulheres da população prisional morreram em um período aproximado de oito meses, e a maioria dessas mortes ocorreu entre 15 de agosto e 5 de dezembro de 1942. Segundo a dra. Manci Schwalbova, pelo menos 7 mil mulheres e meninas que estavam no “hospital” haviam sido enviadas para o gás.

“Depois disso, a maioria das meninas do primeiro transporte que ainda estavam vivas sobreviveu”, diz Edith. As poucas exceções foram as que pereceram na marcha da morte ou vítimas de tifo. Esta foi a última seleção em massa que resultou em meninas do primeiro transporte sendo enviadas para o gás. Isso porque, em janeiro de 1943, a nova superintendente do campo feminino, SS Maria Mandel (que substituíra Johanna Langefeld), ordenou que meninas cujos números fossem de quatro dígitos, especialmente se começassem com o dígito 1, fossem preteridas durante as seleções. A menos que estivessem gravemente doentes, é claro. “Foi legal da parte dela, porque, das que tinham o número mil, restavam trezentas”, afirma Bertha Berkowitz. Provavelmente, a única coisa legal que Mandel já fez.

Banshee é um espírito feminino do folclore irlandês que prenuncia a morte de um familiar. (N.T.)

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