As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 6 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Um

 

É uma situação triste, talvez até mesmo pior do que as estrelas

com as quais eles um dia nos marcaram...

porque, dessa vez, irá atingir as nossas crianças também.

— LADISLAV GROSMAN , The Bride

28 DE FEVEREIRO DE 1942

O BOATO COMEÇOU como boatos normalmente começam. Primeiro, apenas como um palpite. Um mal-estar no estômago. Mas era ainda apenas um rumor. O que mais eles poderiam fazer com os judeus? Até o clima parecia estar contra eles. Era o pior inverno já registrado. Montes de neve tão altos que ultrapassavam a altura da cabeça das pessoas. Se o governo tivesse algum sentido prático, teria baixado uma ordem obrigando as pessoas baixas a ficarem dentro de casa, devido ao medo de que pudessem desaparecer em meio à neve. A retirada da neve com pás cobrava um preço das costas de todos. As calçadas tornaram-se parquinhos instantâneos para crianças que não tinham trenós, mas podiam deslizar pelos amontoados de neve usando suas partes traseiras. Deslizar era o novo passatempo nacional — isso e escorregar no gelo.

Cada nevasca era seguida por temperaturas negativas e rajadas de vento das montanhas Tatra. Cortando através de casacos finos e grossos, eram democráticas e impiedosas tanto para ricos como para pobres. O vento podia encontrar seu caminho entre as costuras das roupas mais bem-feitas e machucava a pele com crueldade, como uma navalha. Lábios e mãos estavam secos e rachados. Sobras de gordura de ganso eram aplicadas nas narinas para evitar hemorragias nasais. Enquanto lufadas de ar se esgueiravam por frestas de janelas e portas, pais cansados recebiam vizinhos cansados para juntos se sentarem em banquinhos na frente do fogo e se preocuparem com o boato, embora muitos se sentassem diante de lareiras frias — era difícil até mesmo encontrar lenha. Algumas famílias judias mal tinham comida. Era ruim para todos, mas pior para alguns.

Chamas de dúvida e incerteza eram apagadas pela razão. Se o rumor fosse verdadeiro, dizia o mais razoável, e se realmente o governo levasse as meninas, elas não seriam levadas para longe. E, se fossem, seria apenas por um tempo. Somente até a primavera — quando e se a primavera chegasse. Se , isto é, o rumor fosse verdadeiro.

O “se” era tão amedrontador que ninguém se atrevia a dizê-lo, para evitar que a própria palavra os amaldiçoasse com a sua realidade. Simplesmente tinha que ser um boato. Por que alguém iria querer levar meninas adolescentes?

A NEVE COMEÇARA A CAIR enquanto mães judias de toda a Europa Oriental preparavam as velas do Sabá. Na casa dos Friedman, Emmanuel Friedman entrou pela porta da frente batendo palmas e cantando: “Shabat

Shalom! Shabat Shalom! Shalom! Shalom! Shalom! 2 ”. Aplaudindo e cantando, as crianças se juntaram ao pai. Então, a família se reuniu ao redor da mesa de Sabá para ver a mãe acender as velas. Depois de circular as mãos sobre as chamas três vezes, ela aproximou a luz do coração — pois é responsabilidade da mulher trazer luz para o lar —, colocou as mãos sobre os olhos e murmurou a bênção do Sabá:

Barukh ata Adonai Eloheinu Melekh ha-olam, asher kid’shanu b’mitzvotav v’tzivanu l’hadlik ner, l’hadlik ner shel Shabat . (Bendito és Tu, ó Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos, e nos ordenou acender a vela do santo Sabá.)

Edith e sua irmã Lea assistiam com adoração reverente, enquanto a mãe rezava silenciosamente. Ela então piscou três vezes e depois abriu os olhos. “Bom Shabes!”. Suas filhas a abraçaram e ela as abençoou com um beijo cada por ordem de idade, da mais velha à mais nova, mas deu um beijo um pouco mais longo na testa das filhas adolescentes, Lea e Edith. Já houvera antes outros rumores, que nunca foram concretizados, ela disse a si mesma, abraçando as meninas perto de seu coração. Sua oração secreta a Deus naquela noite rogou para que esse rumor também fosse falso.

Lá fora, trovões soavam como grandes tambores no céu. Relâmpagos reluziam. Neve caía aos borbotões. Ninguém conseguia se lembrar de quantos anos se passaram desde que houvera uma tempestade como aquela.

Na manhã do Sabá, a tormenta havia descarregado por volta de trinta centímetros de neve e, perto do meio-dia, os montes já estavam batendo nas coxas. Como sempre, alguns indivíduos leais começaram a retirar a neve com pás, pensando que era melhor fazer o trabalho pela metade e ter que repeti-lo do que esperar e ter que trabalhar em dobro de uma só vez. A tabacaria não só fora parcialmente limpa como estava aberta. O clima nunca seria páreo para um fumante inveterado.

Era incomum para o pregoeiro da cidade fazer anúncios aos sábados, ainda mais raro que trovões em uma tempestade de neve. Normalmente, os comunicados eram feitos no mercado às sextas ou às segundas-feiras. Mas, naquela tarde, em frente a prefeituras de todo o leste da Eslováquia, os tambores começaram a bater e, apesar da nevasca, alguns indivíduos não judeus na rua pararam para ouvir. O vento era forte e a neve estava alta, abafando o som do tambor. Ninguém no bairro judeu, do outro lado do pequeno rio que fazia uma curva ao longo da margem sul da cidade, ouviu. O clima — que, apesar de estar sempre aí, naquele dia estava ligeiramente acentuado — não ajudou.

No meio da multidão reunida em torno do pregoeiro da cidade estava Ladislav Grosman, de 21 anos, que, por razões conhecidas apenas por ele, encontrava-se na praça em vez de na sinagoga ou em casa. De olhos escuros e expressão ingênua, era mais provável que Ladislav motivasse um sorriso do que uma careta, risos ao invés de lágrimas. Tinha alma de poeta, e por isso talvez estivesse dando um passeio depois da refeição em família, apreciando o tapete branco sem rastros do outro lado da praça, estremecendo com a ferroada fria da neve batendo em seu rosto. Ou talvez ele só precisasse de um cigarro. Seja qual fosse o motivo, quando o pregoeiro da cidade começou a tocar seu tambor, Ladislav se apressou junto aos poucos que estavam perambulando pelas ruas para ouvir as últimas notícias.

Normalmente, o pregoeiro esperava juntar uma multidão antes de começar o anúncio. Nesse dia, não. Ele começou imediatamente, para que pudesse abrigar-se logo do clima horrível, que molhava o seu colarinho e congelava o seu pescoço. Os flocos que caíam sem distinção sobre os judeus e os não judeus já estavam grandes e úmidos, um sinal claro de que a tempestade estava terminando.

Para alguns, estava apenas começando.

Sobre os resquícios da tempestade, o pregoeiro da cidade gritou: “Todas as meninas judias de dezesseis anos ou mais. As meninas solteiras [estão] obrigadas a ir ao escritório de registro designado; detalhes da inspeção médica e a finalidade de todo o negócio [a] serem oficialmente informados

oportunamente”. 3 Não havia quase ninguém ouvindo. Afinal, caía uma nevasca. Apenas alguns fumantes inveterados, mas os homens que ouviram se viraram para seus vizinhos e disseram: eu avisei.

Não havendo mais informações sobre datas, horários ou locais a acrescentar, o pregoeiro da cidade finalizou o anúncio com sua própria assinatura verbal, como uma espécie de despedida do Pernalonga, e um último rufar de seu tambor: “E isso é tudo, toda a informação, os detalhes a que o público deve prestar atenção, ponto-final, fim, acabou, finito, todos vocês para casa, nesse clima amaldiçoado que ninguém nem ao menos colocaria um cachorro para fora…”.

Não havia mais “e se”, “vai que” ou “mas”: o boato era verdadeiro. Na manhã seguinte, mesmo com a neve amontoada contra as portas, todos sabiam disso. O último anúncio caiu sobre a comunidade judaica tão pesadamente quanto pedaços suspensos de gelo caindo dos telhados, mas de maneira muito mais ameaçadora.

QUANDO SE TRATAVA DE MEDIDAS DRACONIANAS contra os judeus, o governo eslovaco parecia querer superar os alemães. Jovens

delinquentes, 4 que haviam se juntado à Guarda Hlinka, uma organização fascista eslovaca, intimidavam e espancavam meninos e homens judeus que estivessem usando as braçadeiras obrigatórias, que agora adornavam estrelas amarelas. Lápides eram derrubadas ou danificadas, lojas eram pintadas com frases antissemitas. Nas cidades maiores, entoavam-se canções nacionalistas de congelar o sangue, ritmadas pelo barulho de pedras arremessadas e de vidraças quebrando como batidas nos pratos de uma

orquestra. As bancas de jornais distribuíam o 5 Der Stürmer (O atacante), o

jornal de propaganda nazista que alimentava a ignorância e a ideologia racista, publicando caricaturas difamatórias de judeus estereotipados estuprando virgens eslovacas, cortando gargantas de crianças e coletando seu sangue para preparar o matzá, sentados com as pernas abertas em volta da Terra, como se o globo fosse um cavalo para cavalgar e conquistar, enquanto os heroicos soldados alemães lutavam contra o judeu diabólico — o demônio da humanidade.

Uma mulher no mercado até perguntou a Edith: “Onde estão seus chifres?”, e quando Edith mostrou que ela não os tinha, a mulher ficou em choque. Como alguém pode ser tão estúpido a ponto de pensar que os judeus tinham chifres, faziam matzá com sangue de crianças ou que até mesmo mataram Deus? Os judeus inventaram Deus, pelo amor de Deus!

Como alguém poderia realmente acreditar no que os jornais propagandistas diziam?

Em setembro de 1941, o governo eslovaco estabeleceu um código judaico: leis e regulamentos que seriam implementados com frequência

crescente ao longo do outono. 6 A certa altura, era como se todos os dias o pregoeiro da cidade fizesse pronunciamentos contra os judeus eslovacos. Um dia, ouviu-se:

Por meio deste, comunicamos a todos que os judeus devem registrar

a si mesmos e a todos os membros de suas famílias no gabinete do

prefeito nas próximas 24 horas, com uma lista de todos os seus bens

imobiliários.

No dia seguinte:

Os judeus devem apresentar seus registros bancários, de bancos

locais e estrangeiros, e, a partir de agora, estão proibidos de residir em

qualquer rua principal, devendo desocupar as residências em ruas

principais dentro de sete dias.

Na semana seguinte:

Os judeus devem usar uma estrela amarela de 24 × 24 centímetros

em todas as suas roupas.

Os judeus não podem sair da região e, para viagens locais, devem

ter uma permissão por escrito da Guarda Hlinka, que custa cem coroas.

Eles podem obtê-la apenas se a Guarda Hlinka considerar válida a sua

solicitação.

Mas que judeu tinha cem coroas 7 e que judeu conhecia um guarda da Hlinka que validaria seu pedido?

Os judeus devem depositar todas as suas joias dentro de 24 horas na

sede da Guarda Hlinka.

Os judeus não podem ter animais de estimação — nem mesmo um

gato! —, não podem ter rádios nem câmeras, para não se tornarem

propagadores de mentiras da BBC.

Os judeus devem depositar seus casacos de peles no posto de

comando da Guarda Hlinka.

Os judeus devem entregar suas motos, carros e caminhões.

Os judeus não serão admitidos em nenhum hospital e não serão

submetidos a quaisquer cirurgias.

Os judeus não podem mais frequentar nenhum colégio de Ensino

Médio, nem exigir comprovantes das várias autoridades estatais.

Edith ainda balança a cabeça negativamente quando se recorda das leis que interromperam sua educação. “Meus irmãos ainda iam à escola, estavam no Ensino Básico, que ia até a quinta série. Mas, quando terminaram, a lei dizia que eles tinham que ir à escola até os quatorze anos”. Então, eles tiveram que repetir a quinta série três vezes! Enquanto isso, Edith e Lea caíam na situação difícil de já terem mais de quatorze anos e, apesar do desejo por conhecimento da mente afiada, os judeus não tinham permissão para terminar o ensino médio.

Então, outra lei foi aprovada:

Os judeus não podem entrar em nenhum parque público.

E outra:

Os judeus não podem empregar arianos, nem socializar com

nenhum ariano, visitar teatros, ou festividades culturais, nem se reunir

em número maior que cinco. Nenhum judeu pode ficar na rua depois

das 21 horas.

Ninguém poderia ter previsto a arianização das empresas judaicas, que permitiu que os não judeus assumissem legalmente as empresas judaicas e “todas as práticas comerciais, para assim propiciar a transferência mais rápida possível de todos os negócios para mãos arianas”. Nenhuma compensação era paga ao empresário judeu que perdesse seu negócio.

“A única coisa permitida aos judeus era cometer suicídio”, 8 disse a mãe de Ivan Rauchwerger.

E, agora, eles queriam suas meninas?

Não fazia o menor sentido. Por que alguém iria querer levar adolescentes para trabalhar? Adolescentes são preguiçosos e briguentos. E as garotas? São as piores! Elas estão rindo em um segundo e começam a chorar no outro. Elas têm cólicas e ficam irritadas. Elas se preocupam mais com seus cabelos e unhas do que com cumprir as tarefas do dia. Basta olhar para o chão da cozinha, que Priska deveria ter varrido! Basta olhar para a louça na pia, com kugel ainda grudado, porque a responsável pela lavagem estava olhando pela janela para Jacob, o filho do rabino, em vez de fazer o serviço. Sem as mães para ensiná-las a limpar e a se orgulhar de trabalhar, a maioria das meninas nunca faria o mínimo de esforço! Que adolescente gosta de trabalhar?

E, no entanto, o mundo gira por causa das meninas. Quando são doces e gentis, são as mais doces e gentis das criaturas. Quando elas tomam o seu braço no delas, você se sente a criatura mais amada e valorizada do universo; até as estrelas param de girar nos céus para dizer: “Olhem para isso!”. Dependemos das meninas por causa da sua inteligência, da sua paixão, da sua esperança. Da sua inocência.

Por isso era tão difícil acreditar no rumor que circulava pelas cidades e vilarejos da Eslováquia — um boato que estava prestes a se tornar uma lei. Por que alguém iria querer que as adolescentes fizessem serviços para o governo? Por que não levar os meninos? Era uma situação triste, todos disseram.

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