As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Dezessete
A história, apesar de sua dor pungente, não pode
deixar de ser vivida; mas, se confrontada com
coragem, não precisa ser vivida novamente .
— MAYA ANGELOU
DE VOLTA À ESLOVÁQUIA, TANTO NÃO JUDEUS quanto judeus ficavam cada vez mais transtornados pelas deportações. Em 26 de abril de 1942, uma multidão de eslovacos não judeus se organizou do lado de fora do campo de trânsito de Žilina, onde mulheres e homens jovens eram mantidos para o próximo transporte. Eles “protestavam pelos judeus que estavam sendo concentrados [lá] e sendo deportados. Quase chegou ao ponto de haver uma revolta de verdade. Os guardas [Hlinka], que deveriam
vigiar os judeus, não sabiam o que fazer com a multidão”. 144 Foi um dos poucos atos de resistência pública realizada por não judeus em nome de judeus. Outras ações foram menores, mais pessoais e menos propensas a chamar a atenção da Guarda Hlinka ou da polícia.
O pai de Ivan Rauchwerger havia encontrado um emprego para seu filho em uma fábrica de couro que pertencera a um velho amigo da escola e que, depois de arianizada, foi assumida por um luterano que mantinha boas relações com os judeus. Por exercer um trabalho que era importante para o esforço de guerra, Ivan não corria risco de ser deportado, mas “éramos sistematicamente desumanizados tanto pelo Estado quando pela Igreja Católica”. Havia um custo emocional envolvido quando se recebia uma exceção. Aos 16 anos, Ivan já tinha visto sua namorada embarcar no trem para o “trabalho”. Agora, via os seus amigos de infância deixando a cidade em vagões usados para transporte de gado. “Nós, que ficamos para trás, continuamos nossas vidas sem alegria, como se fôssemos ninguém.”
Sua amiga Suzie Hegy 145 enfrentou os guardas da Hlinka quando se viu forçada a entrar em um dos transportes de abril. “Eu não fiz nada de errado!”, ela gritou. “Eu ainda não vivi e você vai me matar?”. Ivan nunca mais viu Suzie.
Em 29 de abril de 1942, ao todo dez transportes eslovacos já tinham levado 3.749 garotos judeus e 6.051 garotas judias para Auschwitz
ilegalmente. 146 Nenhuma família havia sido deportada ainda.
Para os judeus poloneses, as coisas eram bem diferentes.
Durante a chamada em uma manhã no início de maio, Edith e Lea notaram que uma enorme tenda de lona havia sido montada no centro da Lagerstrasse . Elas estavam na parte mais externa da formação quando um dos Kapos passou. “Lembro que ele usava o triângulo verde dos criminosos e falou: ‘Vocês sabem o que tem lá dentro dessa tenda? Sapatos infantis. E vocês sabem onde estão as crianças? Estão vendo a fumaça? São as crianças’.”
“Por que ele diria algo tão louco?”, Edith sussurrou para a irmã. “Não havia crianças no campo. Era uma coisa tão estranha de se dizer… Um cérebro normal não entenderia.” Elas simplesmente não puderam acreditar nele.
As janelas do Bloco 10 haviam sido vedadas para impedir que as meninas pudessem ver o pátio do Bloco 11 e a parede de execução. No entanto, havia pequenas aberturas nos nós da madeira usada na vedação, por
meio das quais elas podiam ver o que acontecia lá embaixo. 147 Um dia, quando as meninas estavam no trabalho, a Kapo Luise Mauer foi abordada por Elza, a supervisora do Bloco 10, que tinha visto algo e queria lhe mostrar. Do lado de fora da janela, no terreno ensanguentado entre os Blocos 10 e 11, a SS estava atirando “sem piedade em mulheres e crianças que já estavam mortas e naquelas que ainda estavam vivas”.
Este não foi o único incidente que Luise Mauer e sua colega Bertha Teege testemunharam. Um dia, depois de terem retirado todas as prisioneiras da Lagerstrasse , como haviam sido instruídas a fazer, as duas mulheres retornaram à sala de Johanna Langefeld e espiaram pelas aberturas da janela. “Cerca de trezentas pessoas — mulheres, crianças e homens, jovens, idosos, saudáveis e doentes, alguns de muletas — caminhavam pela estrada do campo. Depois, foram levados a uma passagem subterrânea, que se parecia com um descascador de batatas gigante dotado de dutos de ar. Então, vimos dois homens da SS nos dutos de ar, usando máscaras de gás. Lá, eles esvaziaram cartuchos do que mais tarde saberíamos ser o notório Zyklon B, gás responsável pela morte de milhões de pessoas. Gritos horríveis preencheram o ar — as crianças gritaram por mais tempo —, então tudo o que podíamos ouvir eram lamúrias. Elas pararam após quinze minutos. E assim soubemos que
trezentas pessoas haviam sido assassinadas”. 148 Na verdade, haveria muitas mais.
Entre 5 e 12 de maio, transportes poloneses carregando 6.700 judeus (homens, mulheres e crianças) foram enviados diretamente para as câmaras de gás recém-inauguradas para as primeiras execuções em massa em
Auschwitz. 149 Ainda não havia crematórios, então os corpos tinham de ser enterrados em grandes valas.
Quando Langefeld voltou para a sua sala, “pálida e perturbada”, 150 Mauer e Teege revelaram que tinham visto o que acontecera. Langefeld disse a elas que “não tinha ideia de que pessoas seriam mortas aqui. E que de forma alguma deveríamos contar a alguém o que vimos, sob pena de sermos condenadas à morte”. A ironia dessa afirmação fala por si só e revela o duplo paradoxo que os assassinatos em Auschwitz envolviam.
ENQUANTO ISSO, NA ESLOVÁQUIA, a indignação havia aumentado não apenas porque jovens mulheres solteiras estavam sendo removidas da proteção da casa de seus pais, mas porque famílias estavam sendo
separadas. 151 Os protestos de abril em Žilina atrasaram as deportações por tempo suficiente para que o presidente Tiso tranquilizasse o país, prometendo agir como uma “pessoa boa e humana e interromper as deportações de meninas solteiras”. Ele reiterou essas garantias em todos os seus pronunciamentos no rádio, em todos os jornais e em eventos públicos: “É princípio básico da fé cristã que famílias não devem ser separadas. Esse princípio será observado quando os judeus forem enviados para suas novas
instalações.” 152 Todo mundo, até o Vaticano, acreditava (ou talvez apenas quisesse acreditar) em suas mentiras. Na realidade, Tiso estava apenas esperando a Assembleia Eslovaca aprovar a legislação que tornaria legal o “restabelecimento” dos judeus. Essa decisão seria tomada em 15 de maio de 1942, quando a Assembleia Eslovaca debateria se a deportação de judeus deveria ser legal.
A atmosfera na galeria da assembleia foi descrita como “opressiva”, pois
a Guarda Hlinka se posicionou em frente aos “deputados votantes”, 153 a fim de intimidar aqueles que estavam preocupados com as implicações morais e religiosas do projeto. Quando a votação foi aberta, a maioria havia saído, tendo escolhido não votar. O projeto foi aprovado. Instantaneamente, tornou-se legal que os judeus fossem deportados e, uma vez deportados, perdiam sua cidadania e suas propriedades. Os judeus eslovacos não precisavam mais ser chamados de “trabalhadores voluntários”. Somente aqueles com exceções estariam seguros agora. Uma nova onda de pedidos inundou o Ministério do Interior.
Com as deportações legalizadas, o próprio Adolf Eichmann chegou a Bratislava para garantir ao governo que “os judeus eslovacos trabalhavam
felizes em seus novos lares”. 154 Nos meses seguintes, 20 mil judeus
eslovacos seriam enviados para Auschwitz. 155 Assim como Tiso prometera, as famílias seriam deportadas juntas. Somente quando chegassem a Auschwitz ou Lublin elas seriam separadas — pela morte.
Com os três meses de seu suposto “contrato” com o governo já expirados, as meninas assistiam aos transportes chegando da Eslováquia com uma sensação de desespero crescente. Algo muito diferente do que haviam imaginado estava acontecendo agora. As mulheres jovens não eram mais os únicos alvos. Algumas das meninas entravam em choque porque, embora não estivessem mais privadas da companhia materna, estavam condenadas a sofrer com a mãe. “Fomos dominadas pela desesperança”, escreve a dra. Manci Schwalbova. “Filhas que tentavam ajudar as mães tinham que testemunhar como elas eram espancadas e como sucumbiam ao fardo do trabalho pesado e das condições desumanas.”
EM HUMENNÉ, LOU GROSS Correu para ajudar a avó de um amigo com sua mala, mas foi arrastado pela babá, chorando. Nos poucos meses desde que Adela havia saído de casa, ele crescera além dos seus quatro anos de idade.
Giora Shpira teve a sorte de obter uma exceção do governo graças ao trabalho de seu pai no depósito de madeira, mas, aos 14 anos, ele testemunhava não apenas ruas inteiras de Prešov serem deportadas, mas famílias que ficaram para trás serem levadas à praça e abatidas a tiros. “Esse foi o destino da maioria dos moradores da rua K.”, escreve Giora. Mesmo com as isenções, seu pai temia que os meninos se tornassem alvos em breve, então ele os levou escondidos para a Hungria. O irmão de Giora se escondeu em um orfanato, enquanto Giora trabalhava como aprendiz de eletricista.
Em Rožkovany, a família Hartmann trabalhava em suas criações de gado e nos campos agrícolas, tentando levar a vida normalmente. Eugene trabalhava em dobro, cuidando de sua mãe doente e ajudando seu pai. Eles ainda não haviam recebido nenhuma notícia de Magduska. Seu pai estava chateado, pois a promessa de lhe providenciar um pacote com itens de primeira necessidade não havia sido cumprida, mas ele não tinha ideia de para onde deveria enviá-lo.
Como os Hartmann tinham exceções porque administravam uma propriedade vital para o suprimento de alimentos do país, outros familiares foram morar na fazenda com eles. Uma prima, no entanto, Lenka Hertzka, ficou em Prešov, tendo sido deportada de repente em junho. Felizmente, a irmã de Lenka, Lilly, seu sobrinho e sua mãe (tia de Magduska) já estavam a salvo na fazenda.
Ninguém em Auschwitz estava seguro, mas Lenka havia conseguido arrumar trabalho como assistente de um dos principais membros da Gestapo. Um de seus privilégios era ter acesso ao correio. Naquele mês de julho, chegou um cartão-postal de Lenka, de Auschwitz. Os Hartmann finalmente tinham um endereço para enviar as coisas de Magduska e Nusi e imediatamente escreveram para Lenka, fazendo as perguntas que tanto preocupavam a família.
Por que Lenka podia escrever, mas não Magduska e Nusi? Certamente, Lenka era mais velha e mais madura, mas Magduska sempre agiu com responsabilidade. Ela estava tão ocupada que não podia escrever para sua família? O que havia de errado com ela? Também chegavam cartões-postais de outras garotas que haviam sido deportadas com Magduska e Nusi. Por que todas, menos as duas, encontraram tempo para escrever?
Os Hartmann são um exemplo de inocência, uma demonstração daquilo em que muitas outras famílias também devem ter acreditado: suas filhas estavam morando em algum tipo de dormitório, viam-se regularmente, faziam refeições juntas e podiam receber pacotes com comida, dinheiro, vestimentas, roupa de cama e, claro, notícias de casa. Eles não tinham ideia de que quase tudo o que enviaram para Auschwitz foi confiscado pela SS.
NO ESPAÇO CONFINADO de um vagão de transporte de gado a caminho de Lublin, Rudolf Vrba, que acabaria se tornando famoso por conseguir fugir de Auschwitz, ouvia seus companheiros conversando sobre os cartões-postais que haviam recebido das meninas em Auschwitz. Zachar, comerciante de vegetais em uma pequena banca, estava sentado ao lado de sua filha adolescente, que se ocupava de lixar as unhas. Interrompendo o serviço de manicure, ela disse: “Minha prima foi no primeiro transporte e me escreveu outro dia, dizendo que estava tudo bem. Disse que a comida era boa e que elas não estavam trabalhando muito”. Uma sombra cruzou seu rosto cheio de sardas. “Só uma coisa eu não consegui entender. Ela disse que a mãe dela também enviava lembranças. Mas a mãe dela morreu há três
anos”. 156
Uma mulher que amamentava seu bebê olhou para eles. “Havia algo engraçado na carta que recebi da minha irmã também”, disse ela. “Ela me disse que o velho Jakob Rakow estava em forma. Mas Jakob morreu em um acidente de carro há tempos.”
“Uma aura de dúvida desceu sobre a conversa”, escreve Vrba.
Os passageiros começaram a abrir suas malas para buscar cartões enviados por garotas que trabalhavam em algum campo da Polônia. Com certeza, haveria outros comentários estranhos, “referências a pessoas que já estavam mortas ou a eventos que não poderiam ter acontecido”. Por que suas filhas, irmãs ou primas escreveriam esses absurdos? Houvesse ocorrido com uma única família, um post scriptum esquisito não seria nada mais do que isso, uma esquisitice, mas agora que outras famílias mostravam cartões com comentários semelhantes, um sentimento de mau agouro surgiu. Enquanto os cartões-postais eram lidos em voz alta, as pessoas começaram a reconsiderar as mensagens codificadas. Então, com a mesma rapidez, garantiram a si mesmas que não havia nada com que se preocupar.
As famílias avisadas estavam condenadas a se tornarem vítimas das advertências dissimuladas que as meninas não podiam fazer claramente. Era mais fácil acreditar nas garantias do presidente Tiso e pensar que estavam sendo apenas realocadas do que acreditar que iam todas morrer, como Jakob Rakow em seu acidente de carro. Tiso estava cumprindo sua promessa, no final das contas, de deportar os judeus eslovacos como famílias inteiras — em vez de separá-los de suas filhas, como havia feito em março.
Logo que os transportes familiares começaram, o jovem Ivan Rauchwerger dirigiu a Poprad novamente para ajudar as famílias recém-encarceradas nos quartéis militares. “Era de cortar o coração. Vi sofrimento e desespero naquela grande massa de seres desumanizados. A maquiagem das mulheres escorria, havia apenas duas torneiras com água e muitos banheiros estavam quebrados. Os homens, nervosos, não estavam barbeados, as crianças choravam; não havia beliches suficientes para todos. Fui cercado por mulheres me implorando: ‘Por favor, vá ao meu escritório, deixei meu diploma universitário em cima da mesa, sou médica e eles
podem precisar de mim’.” 157
“Outra disse: ‘Eu preciso dos meus óculos. Sou quase cega e os deixei na mesa de cabeceira, por favor, traga-os’.
“‘Sou diabética e deixei minha insulina em casa. Não posso ficar sem ela’.
“‘Deixei absorventes no banheiro. Por favor, preciso deles agora’.
“Corri de volta, mas suas casas estavam trancadas. Tudo o que podíamos fazer era trazer comida, papel higiênico e absorventes.”
A Guarda Hlinka havia tomado posse das casas e de tudo que estava dentro. “Observamos como os guardas entraram alegremente nas casas e apartamentos de nossos amigos e saíram com os braços cheios de roupas de cama, toalhas de mesa, vestimentas e outros itens. Mais tarde, eles saíram com quadros, obras de arte e tapetes, e no final da tarde vieram com carroças para os móveis. Um mês depois, eles receberam títulos de propriedade dessas residências.”
Quando um cartão-postal de Auschwitz chegou à cidade de Ivan, parecia relatar fatos idênticos aos outros: “Os alemães nos tratam com justiça. Sim, trabalhamos, mas não muito. Temos comida suficiente e dormimos em locais higiênicos. Nossa família está quase completa, só falta o tio Malach Hamowet. Esperamos que ele se junte a nós em breve”. Em hebraico, Malach ha-Mawet é o Anjo da Morte. Susie Hegy estava certa.
Em 28 de maio de 1942, Ivan viu um de seus amigos da escola, Budi Stein, marchar pela cidade acompanhado do pai, ambos carregando os pertences mundanos que lhes foram permitidos. O pai de Budi era um arquiteto judeu alemão que fugira da Alemanha em 1934, quando o Terceiro Reich e o Partido Nazista ascendiam ao poder. Os Stein construíram uma bela casa em Spišská Nová Ves, perto da casa da família de Ivan. Agora, os guardas vestidos de preto da Hlinka apontavam armas para Budi e seu pai. A comunidade se reuniu para assistir às pessoas andando pelas ruas de cascalho, carregando malas para as suas novas “casas”. O presidente Tiso havia prometido.
“Nunca me esquecerei da maneira como Budi olhou para mim: ‘Como é que eu estou sendo deportado e você está livre?’. O rosto dele ainda me assombra”, diz Ivan Rauchwerger, de 93 anos. Budi tinha 17 anos, a mesma idade de Ivan naquela época. Ninguém da família Stein sobreviveu. O transporte em que estavam partiu da Eslováquia para Lublin, na Polônia. A parada seguinte foi Auschwitz.
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