As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 18 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Treze

 

28 de março de 1942

Quartel-general; Dr. Konka, Bratislava

Liptovský svätý Mikuláš

Solicito cancelar temporariamente a ordem endereçada à contadora-

chefe da fábrica de licores em Liptovský svätý Mikuláš, Alzbeta

Sternova. Ela tem permissão para trabalhar em nossa empresa devido

ao fato de não haver força de trabalho ariana para substituí-la. 107

ASSIM COMO OCORRERA COM o telegrama que deveria ter liberado Magdalena Braunova, o telegrama para liberar Alzbeta Sternova chegou tarde demais para salvá-la. Agora em Auschwitz, Magdalena Braunova deveria estar comemorando seu décimo sexto aniversário com a família; em vez disso, observava Alzbeta e mais 768 adolescentes e mulheres jovens

chegarem a Auschwitz no segundo transporte. 108

Como as meninas do primeiro transporte, as do segundo foram primeiro mantidas em um local de detenção, onde também sofreram sistematicamente de fome, de acordo com o regime alimentar planejado pelo governo. Quando o transporte parou em Žilina, foram adicionados ao comboio mais dois vagões de transporte de gado, que levavam cem jovens mulheres da região leste. Dentre elas estavam Manci Schwalbova (nº 2675) e Madge Hellinger (nº 2318).

Manci Schwalbova era uma mulher bondosa e franca. Estava noiva e esperava que, por isso, seria dispensada. Felizmente para Edith e muitos outras, ela não foi. Manci é a jovem que não teve permissão para prestar o último exame e para tornar-se médica licenciada, mas Auschwitz não exigia diploma para que alguém pudesse exercer sua profissão. Ela foi quase imediatamente autorizada a trabalhar e ficou conhecida por todos como dra. Manci Schwalbova.

Madge Hellinger era professora do jardim de infância e também deveria ter sido dispensada. Quando ela se recusou a ceder aos avanços sexuais de um policial local, ele vendeu a sua exceção para outro judeu, embolsou o dinheiro e a enviou para Auschwitz. Uma jovem resoluta, Madge seria mais tarde promovida a supervisora de bloco e, mediante essa posição de poder, faria o possível para tratar todas as garotas de maneira justa.

A irmã de Rena Kornreich, Danka (nº 2779), também estava nesse transporte, assim como muitas primas e irmãs das demais meninas que haviam chegado primeiro. Não era o tipo de reunião de família que alguém gostaria de celebrar. Garotas como Rena esperaram aterrorizadas pelo dia que suas irmãs e primas chegariam. No entanto, quando as recém-chegadas entraram no campo, acharam que as jovens de cabelos raspados e olhares enlouquecidos faziam parte de um manicômio. Ninguém se reconheceu de imediato. “Pensamos: ‘talvez nosso trabalho seja cuidar dessas doentes’”, diz Madge Hellinger.

Depois de passarem pela chamada de recepção, as meninas e mulheres jovens do segundo transporte foram jogadas no Bloco 5, com seu chão de palha manchado de sangue, parte de um procedimento que parece ter sido a “orientação” para o campo feminino. As meninas entraram em pânico e choravam histericamente enquanto tentavam eliminar as pulgas, percevejos e piolhos que picavam sua carne tenra. Como se isso não bastasse, as Kapos de Ravensbrück decidiram se “divertir” às custas das novas prisioneiras, dizendo a elas que a sopa e o chá que seriam servidos a elas as “matariam caso fossem ingeridos”.

Talvez por ser professora e mais velha do que a maioria das jovens à sua volta, Madge Hellinger decidiu provar a comida. “Era horrível, mas eu recomendei a todas que comessem um pouco, especialmente às mais jovens entre nós, que estavam desidratadas e precisavam de líquidos para sobreviver.” Infelizmente, o único líquido além do chá com brometo era uma sopa feita de “vegetais podres”, colhidos em campos ainda soterrados sob a neve, e de carne de cavalos mortos na frente de batalha oriental.

“A sopa era tão ruim que ninguém conseguia comer”, confirma Edith.

Muitas das meninas ortodoxas recusavam-se a comer a sopa, que não era kosher. Margie Becker (nº 1955) “não conseguia engolir”. As meninas tentaram ajudá-la, tapando o seu nariz para que ela não vomitasse ao forçar o caldo morno e fedorento pela garganta, mas não obtiveram sucesso. “Eu sentia tanta inveja por elas conseguirem [tomar a sopa] e eu não.” Ela era sensível demais ao cheiro e, durante aquelas primeiras semanas, por mais faminta que estivesse, acabava por ceder sua sopa para outra pessoa.

Havia outra razão para se evitar a sopa, no entanto. Todas ficavam com o estômago revirado e com diarreia após tomá-la. A única coisa que ajudava a acalmar o estômago era o pão, mas não havia o suficiente para todas. Depois de quase cinco dias passando fome em Poprad, as meninas começavam a esmaecer.

Quando as recém-chegadas olharam para as janelas do Bloco 5, viram garotas loucas acenando para elas e gritando: “Se vocês trouxeram lenços

ou meias, escondam-nos para nós!”. 109

“Elas disseram que encontrariam nossas coisas quando viessem limpar o quartel.” Lenços? Meias? “Nós pensamos que elas eram loucas.” Por que elas precisavam esconder suas próprias roupas? Era um pensamento ridículo — até o dia seguinte, quando as meninas do segundo transporte tiveram todos os seus pertences confiscados e agora também ansiavam por meias para manter os pés quentes e lenços para proteger do frio suas cabeças recém-raspadas.

Só depois de terem sido despidas, depiladas e desinfetadas as meninas do segundo transporte puderam se juntar à população prisional. Foi só então que elas descobriram suas irmãs e primas entre aquelas que há pouco consideravam loucas; só então elas adentraram o que a dra. Manci

Schwalbova chamou de “maldito mundo mutilado” 110 de Auschwitz.

EXISTE UMA DIFERENÇA SIGNIFICATIVA entre o primeiro e o segundo transporte? Edith é taxativa e diz que sim, pois “nós não sabíamos o que aconteceria. As garotas dos outros transportes já nos tinham. Nós podíamos falar com elas. Mas nós não tínhamos coisa alguma. Nós chegamos ao nada. As garotas que vieram depois podiam conversar conosco. Mostramos a elas o que aprendemos para que não precisassem ter tanto medo quanto nós tivemos. Por isso, embora tenha sido assustador para elas também, não foi tão assustador quanto havia sido para nós. Nós não sabíamos de nada. Apenas o horror de uma coisa após a outra. E agora, poucos dias depois, éramos as veteranas”. Porém, ela acrescenta que ‘ajudar’ é uma palavra engraçada, porque não havia muito jeito de ajudar naquela situação. O que poderíamos fazer senão recomendar às novas garotas que tivessem cuidado, abaixassem a cabeça, não fizessem isso ou aquilo? Tampouco havia como aproveitarmos algum tempo livre para nos reunir e dar conselhos. Não tínhamos como ficar de conversa. Isso nunca aconteceu. Nós estávamos sempre trabalhando, trabalhando. Cansadas, cansadas. Não conversávamos sobre música, literatura ou nossos estudos. Falávamos sobre o que achávamos que aconteceria conosco. Como tal coisa pode nos ajudar? O que podemos fazer para roubar um pouco de pão? Será que conseguimos roubar um cobertor? Éramos meninas gentis de boas famílias tentando aprender a roubar de outras meninas gentis de boas famílias. Isso não era humano. Eles nos desumanizaram. Eles nos fizeram

virar contra nosso próprio povo pela sobrevivência”. 111

POR TEREM SIDO CRIADOS b’tzelem Elohim (à imagem de Deus), os judeus tradicionalmente evitam marcar o corpo de modo permanente, porque o corpo não é de propriedade de uma pessoa — pertence a Deus. Em Auschwitz, essa derradeira distinção de pertencer ao Todo-Poderoso e aos pais, que escolheram seus nomes, foi roubada dos prisioneiros sem cerimônia.

Auschwitz foi o único campo a tatuar seus prisioneiros. Esse sistema singular e permanente de numeração equivalia a um registro, e foi uma das razões para os historiadores modernos terem começado a se referir ao primeiro transporte oficial de judeus como o “primeiro transporte em massa de judeus registrados ”. As tatuagens não foram feitas no dia em que as meninas chegaram, mas os relatos sobre quando de fato isso ocorreu variam. Algumas garotas dizem que foi no dia seguinte ao processamento, outras dizem que foi depois que o segundo transporte chegou. Rose (nº 1371) se lembra de que um amigo eslovaco do seu pai a tatuou, o que significaria que elas foram tatuadas semanas depois. Só sabemos que, depois que elas costuravam seu número no uniforme, esse número se tornava seu nome, e seria o mesmo a ser tatuado nelas. Se o número do uniforme de uma pessoa não fosse o mesmo do da tatuagem no braço, ela era executada a tiros.

Após adentrarem uma sala cheia de mesas, as meninas eram empurradas para cadeiras e, então, tinham o braço esquerdo esticado e imobilizado por homens fortes. A SS gritava: “Depressa!”. Não havia tempo para vaidade. Borrados e tortos, não eram números bonitos ou executados com floreios artísticos. O número 1 se parecia com o 7. Números errados eram riscados e refeitos logo abaixo. As tatuagens eram feitas imediatamente abaixo da dobra do cotovelo, no antebraço. A dor da agulha do tatuador perfurando a pele delicada repetidamente arrancava lágrimas até das mais corajosas. Cada picada com tinta queimava, enquanto a palavra de Deus era profanada.

Embora ser tatuado fosse uma experiência verdadeiramente desumanizante, havia um significado mais amplo do que qualquer prisioneiro podia conceber — a tatuagem significava prisão perpétua. A vida pode ser passageira, mas ainda era vida.

Se você puder chamar trabalho escravo de uma vida.

CERTA MANHÃ, POUCO depois da chegada do segundo transporte, uma jovem pulou na frente das equipes de trabalho e gritou: “Não trabalhem para os nazistas. Nós seremos mortas de qualquer maneira. Deixem que eles atirem em nós!”.

Um tiro perpassou as fileiras de mulheres. A menina caiu no chão.

Transportada para a enfermaria improvisada do hospital, onde a dra. Manci Schwalbova já estava trabalhando, a menina foi acomodada em uma mesa. “A bala atravessou os pulmões e o abdômen”, escreve Manci. O médico da SS negou à menina qualquer cuidado paliativo. Manci foi forçada a vê-la sangrar até a morte. Ela nunca soube seu nome.

As primeiras tentativas de resistir assumiram várias formas, mas nunca foram eficazes. Uma menina do segundo transporte chamada Lia decidiu entrar em greve de fome para protestar contra as condições e a falta de

comida. 112 Em circunstâncias normais, esse ato talvez fosse notado, mas em Auschwitz era simples conveniência. As meninas já eram submetidas a uma dieta de fome. Além disso, os judeus deveriam morrer de qualquer maneira; para seus captores, não importava a forma como aquelas meninas pereceriam. Esses atos raramente são encontrados nos registros históricos, mas permaneceram na consciência de testemunhas que presenciaram o “protesto pessoal de meninas que, entregues à desesperança, não se

importavam mais com esta vida e deixaram de acreditar em uma nova”. 113 Havia muito pouco em que se pudesse acreditar.

A morte de Lia, assim como a de Jolana Grünwald e a de Marta Korn, não está formalmente registrada na Crônica de Auschwitz , que relaciona, dia a dia, as mortes, assassinatos, execuções por gás e outros acontecimentos em Auschwitz, desde a sua abertura até o dia em que o campo foi fechado. De fato, nenhuma morte de prisioneiras mulheres foi anotada pela SS nos registros históricos anteriores a 12 de maio de 1942, quando uma prisioneira foi encontrada pendurada na cerca elétrica — um suicídio. Um mês depois, em 17 de junho, outra mulher foi encontrada nos fios elétricos da cerca. Se fossem homens, seus números e nomes teriam sido registrados. Por serem mulheres, elas permaneceram anônimas.

Não sabemos quase nada sobre a morte de mulheres antes de agosto de 1942, exceto o que é relatado por testemunhas e sobreviventes. E, enquanto as mortes de homens eram calculadas todos os dias e contabilizadas no final do mês, as mortes de mulheres não eram anotadas nem registradas — pelo menos, não na documentação ainda existente após a guerra. De março a agosto de 1942, sabemos exatamente qual era a população de homens presos e quantos deles morriam por mês. Sobre as mulheres, há apenas o número de pessoas registradas no campo e a garantia dos sobreviventes de que, independentemente de as mortes terem sido registradas ou não, meninas definitivamente estavam morrendo.

A morte de Marta Korn é notável, não apenas porque ela foi a primeira mulher registrada como morta em Auschwitz, mas porque ela também foi a única jovem daqueles primeiros meses cuja morte foi registrada. Teria sido ela a garota que Helena Citron afirma ter ficado histérica e que foi removida pela SS naquela primeira noite? Ou ela morreu de alguma outra maneira? Talvez nunca saibamos.

Os pesquisadores acreditam que os registros de mortes de mulheres tenham sido perdidos durante a destruição de documentos em janeiro de 1945, quando a frente russa se aproximava do campo. No entanto, como o campo das mulheres em Auschwitz estava sob a jurisdição de Ravensbrück, o número de mortes deveria ter sido registrado em seus escritórios administrativos. O fato é que registros completos sobre as mulheres em Auschwitz (lá presentes desde o início de 1942) também nunca foram encontrados em Ravensbrück. Tudo que temos são os nomes de Jolana Grünwald e de Marta Korn listados no Sterbebücher — o banco de dados

dos “Livros da Morte”. 114 Elas estavam no primeiro transporte e suas mortes, ocorridas nas primeiras semanas após a chegada, são as únicas daquele período que foram registradas; não sabemos, porém, a causa de nenhuma delas. Nos vastos arquivos do genocídio, Jolana Grünwald, 25, e Marta Korn, 21, podem ser meras estatísticas, mas também foram as primeiras vítimas femininas de Auschwitz.

A DESTRUIÇÃO DOS documentos do campo feminino é uma evidência

adicional, porque não resta dúvida de que mulheres morreram. 115 No final de fevereiro de 1942, antes da chegada de qualquer prisioneira, 11.472 homens foram listados como ocupantes do campo; naquele mês, 1.515 morreram. Em março, 2.740 homens foram adicionados à população carcerária, além de 1.767 mulheres. Entretanto, embora um total de 4.507 prisioneiros tenha sido adicionado, o nível de ocupação no campo

masculino caiu para 10.629; 2.977 prisioneiros morreram em março. 116 Antes da chegada das 999 meninas, o número de mortes de homens em Auschwitz variava entre 1.500 e quase 1.800 por mês. Naquele março, esse número quase dobrou. Esse aumento pode ser atribuído a mortes ocorridas entre as nossas meninas?

Em abril, a população total do campo chegou a 14.642 prisioneiros — 5.640 dos quais eram mulheres —, mas o número de mortes voltou à sua

taxa média. 117 Em meio ao caos pela chegada das mulheres ao campo, será que as mortes entre elas foram adicionadas às dos homens e depois, a partir de abril, removidas dos cálculos mensais de mortes em abril e daí em diante?

“Faltam dados sobre as prisioneiras”, escreve Danuta Czech, historiadora e especialista em Auschwitz. Porém, de maneira brilhante, ela nos fornece uma pista ao examinar os registros de homens que foram mantidos.

Em 17 de abril de 1942, o sexto transporte eslovaco incluiu 973 judeus, a maioria homens jovens. Czech faz uma série de anotações no rodapé: “Em 15 de agosto de 1942, apenas 88 desses deportados ainda estão vivos; ou

seja, em dezessete semanas, 885 pessoas morrem.” 118 Dois dias depois, o sétimo transporte eslovaco chegou, carregando 464 homens jovens e 536 mulheres jovens. Czech anota: “Em 15 de agosto de 1942, restam apenas dez desses homens ainda vivos.”

Repetidas vezes, Czech reitera que não há registro de mortes de mulheres judias no início de 1942. Porém, se a sua taxa de sobrevivência fosse semelhante à dos homens judeus, elas estavam morrendo em massa. É importante lembrar que todas as mortes nesse momento eram causadas por doenças, inanição ou assassinato puro e simples — ainda não havia execuções em massa de prisioneiros por gás. Os cálculos de Czech sobre as mortes de homens judeus durante a primavera e o verão de 1942 são a única coisa de que podemos nos valer para revelar a história, envolta em incerteza, das primeiras mulheres que chegaram ao campo.

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