As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Trinta e Quatro
Algumas pessoas terminam sua vidas muito antes de morrerem, e a vida
que resta é apenas uma sombra. Você deu o seu último passo há dois dias…
e agora encontrou a harmonia eterna.
— DRA. MANCI SCHWALBOVA , para Alma Rosé, diretora da orquestra
feminina de Auschwitz, falecida em 5 de abril de 1944
O PAI DE HELENA CITRON APARECEU PARA ELA em um sonho. Ele lhe disse que sua irmã Ruzinka, que estava vivendo como não judia, fora capturada. No dia seguinte, no almoço, Irena e outras meninas de Humenné olhavam pela janela do bloco de organização quando viram a irmã de Helena. Pareceu estranho, pois aquele era um transporte húngaro, mas as meninas devem ter visto os claríssimos cabelos loiros de Aviva e depois sua
mãe, Ruzinka, carregando um bebê recém-nascido nos braços. 254
“Venha! Venha! Helena!”, suas amigas gritaram. “Ruzinka está chegando.”
O sonho era verdade.
Tomada de angústia e tristeza, Helena se escondeu atrás dos montes de roupas. Ela não queria ver sua irmã prestes a morrer. Qual era o objetivo? Um dilema interno foi travado em sua mente e seu coração. Como ela poderia sobreviver a isso também? “Eu sabia de todas as pessoas que já haviam sido exterminadas, toda a minha família, meus três irmãos, meus pais e minha irmã mais velha, com três filhos adoráveis, mas essa era minha última irmã.”
Então ela teve um estalo e se revoltou contra a própria timidez. Do que ela estava se escondendo? Helena não entendia sua própria reação. Ela correu para a janela. Lá estava a cabeça loiríssima de Aviva. Sua irmã mais velha, Ruzinka, segurava a mão da criança e carregava um bebê. Helena era tia novamente, e nem sabia disso. Uma onda de emoções inundou todas as células do seu corpo. Ela não era um animal. Ela era um ser humano! E foi a sua parte humana que correu para a porta do barracão e a esmurrou.
“O que é isso?”, um dos guardas da SS gritou quando abriu a porta. Para ele, ela era apenas a prisioneira nº 1971.
De pé na frente dele, de macacão, ela implorou: “Não atire. Acabei de ver minha irmã e, depois de todos esses anos, quero morrer agora com ela”.
O guarda pareceu chocado, mas o que ele tinha com isso? Acenou a arma para ela ir. Helena correu em direção ao local onde os prisioneiros eram despidos. Do lado de fora da porta estavam o dr. Kremer e o dr. Mengele.
Quando Ruzinka e Aviva desapareceram lá dentro, um dos SS berrou para Helena: “O que você está fazendo aqui?”.
Era óbvio pelo número que ela não fazia parte daquele transporte, e nenhum prisioneiro jamais havia chegado às portas da câmara de gás e sobrevivido.
Helena parou a seis passos dos homens — isso era obrigatório. Sempre fique a seis passos da SS ou eles atiram em você. Ela tinha sido bem treinada. E também não tinha medo de morrer.
“Já estou aqui há muitos anos”, disse ela a Mengele e Kremer. “Eu já passei por muita coisa, e agora minha última irmã…”. Ela engasgou. “Todos nós vamos morrer aqui. Deixe-me morrer junto com ela.” Por que ela desejaria viver se não tinha mais nenhuma família no mundo?
“Você está bem?”, Mengele perguntou.
O que ele queria dizer com isso? Helena não tinha ideia e respondeu: “Não”.
“Portanto, não precisamos nem dela nem de você.” Ele e Kremer riram da piada, tiraram a pistola do coldre e apontaram.
De repente, Franz Wunsch apareceu ao lado dela e gritou para seus superiores: “Ela é minha prisioneira!”. Ele a agarrou pelo braço. “Ela trabalha para mim há anos e precisamos dela. Não restam muitas desses
números, e ela é uma boa trabalhadora.” 255
Ele a jogou no chão e a repreendeu.
— O que você está fazendo aqui, judia? Você não pode entrar aqui! Volte para o trabalho!
Fingindo espancá-la violentamente, ele a arrastou para longe de seus carrascos. Em meio ao espancamento, ele sussurrou: “Diga-me rapidamente o nome da sua irmã antes que seja tarde demais.”
“Você não vai conseguir. Ela veio com dois filhos pequenos.”
“Com as crianças é diferente. Crianças não podem morar aqui.”
A dura realidade, dita com tanta naturalidade, cortou seu coração. “Ruzinka Grauberova”, ela sussurrou.
— Volte para o trabalho! — ele ordenou.
Depois, ele fez o que apenas um oficial da SS poderia fazer: esgueirou-se por trás de Mengele e Kremer e desapareceu na área em que os prisioneiros se despiam antes de entrarem na câmara de gás.
Ele já havia testemunhado aquele momento? Já tinha visto as centenas de mulheres nuas dobrando cuidadosamente as suas roupas e apressando seus filhos:
— Tire os sapatos. Dê o casaco pra mamãe. Ajude o seu irmão enquanto eu me troco.
“Ruzinka Grauberova”, ele gritou para as mulheres. “Ruzinka Grauberova, apresente-se.”
Seu rosto oval e os olhos escuros e amendoados eram iguais aos da irmã. Ele teria reconhecido a semelhança em qualquer lugar. Ela já estava nua e ajudando Aviva a se despir. A menina delicada olhou em sua direção. Ele fez um sinal para Ruzinka atravessar o labirinto de mulheres e crianças e vir até ele.
Claro que ela hesitou. O que o inimigo queria com ela e seus filhos? Ela abraçou a filha e o filho com força quando o belo homem da SS a chamou nos “chuveiros”. Acariciou os cachos loiros da filha. O bebê chorou. Carregando o bebê entre os seios inchados e segurando a mão de Aviva, Ruzinka embrenhou-se no meio da multidão de mulheres e crianças que agora se dirigiam para o banho. Ele falou com autoridade impassível quando informou a ela que sua irmã estava do lado de fora. Ruzinka inquietou-se. Parecia confusa. Barulho e caos os cercavam. Ela estava exausta.
Em alguns instantes, a sala se esvaziaria e o Sonderkommando chegaria. Se ele não saísse com Ruzinka imediatamente, seria tarde demais para salvá-la. Como ele poderia encarar Helena sem a irmã?
— Você tem que vir agora se quer ver sua irmã.
— Não posso vê-la mais tarde?
— Não.
— Mamãe, vá. Eu fico com o bebê — Aviva ofereceu.
Aninhando a criança de dois dias nos braços da filha de sete anos, Ruzinka garantiu a si mesma que Aviva ficaria bem se ela saísse por alguns instantes. Ela pediu a uma das mulheres próximas para ficar de olho em seus filhos. Recebeu um aceno afirmativo. Ruzinka beijou as lágrimas da filha.
— Seja uma boa garota.
Wunsch cobriu Ruzinka com sua capa preta e a levou para longe dos filhos. Aviva levou o irmãozinho para os chuveiros. A porta se fechou às suas costas.
DEPOIS DE RETIRAR RUZINKA da câmara de gás, Wunsch passou por Mengele e Kremer dizendo: “Vou precisar desta”, e a entregou na sauna para ser processada. Foi uma concessão inédita, que até Helena admite ter “passado dos limites”. Mas Wunsch teria feito qualquer coisa por ela — e fez.
Quando Wunsch chegou ao bloco de ordenação, todos os olhos estavam colados em Helena. O que havia começado como atração física apaixonada agora se tornara algo muito mais poderoso — a vida e a morte dependiam da maldição de seu amor. Helena saiu da mesa de organização e caminhou lentamente pela sala. Os ruídos do campo — o mexer dos tecidos, o passo dos pés, o fungar dos narizes — desapareceram quando eles se esgueiraram para trás de um monte de roupas ainda não classificadas. Ele afastou uma mecha do cabelo de Helena, deixou que os lábios roçassem a curva suave da orelha dela e sussurrou que sua irmã estava sendo processada.
Suas lágrimas saíram quentes e doídas, uma mistura de alívio e tristeza. A irmã dela estava viva. A sobrinha e o sobrinho, morrendo. Helena se apoiou nele e estremeceu em seus braços. A ligação entre eles não se dera no céu, mas no inferno. Seus destinos e o destino de sua irmã foram selados com um beijo.
NA SAUNA, Ruzinka, confusa e ansiosa, procurou pela irmã, mas via apenas guardas da SS e algumas outras mulheres na fila esperando para
serem processadas, desinfetadas e registradas. 256 Entre as mulheres que registravam e tatuavam novas prisioneiras provavelmente estava Ella Friedman (nº 1950).
Ruzinka se afligiu. Onde estava Helena? Ela havia sido enganada? O homem da SS garantiu que ela veria Helena depois que fosse registrada no campo. Leite escorria de seus seios pesados.
— Quando meus filhos chegarão? — ela perguntou às mulheres ao seu redor.
Nenhuma respondeu.
Ruzinka entrou em pânico e começou a andar desesperada pelas instalações. Ela tinha que amamentar. Onde estava Aviva? Onde estava o bebê? Nua, caminhando para lá e para cá como um animal enjaulado, ela exigia respostas a perguntas que, se feitas por qualquer outro judeu, teriam lhe rendido uma bala entre os olhos. Mas Ruzinka estava sob a proteção pessoal de Wunsch agora. Ninguém podia machucá-la.
Não está claro em que ponto Ruzinka foi trazida para o Canadá; normalmente, uma nova prisioneira teria que passar por quarentena. Quando ela foi entregue ao bloco onde Helena e as outras meninas dormiam à noite, todas devem ter se dado conta do poder de que Helena desfrutava, tendo trazido sua irmã de volta das portas da morte.
Vestida com roupas novas da prisão e sangrando no local da nova tatuagem, Ruzinka estava exasperada de preocupação e exaustão. Os minutos que ela achou que passaria longe dos filhos se transformaram em horas e depois em dias. Ela havia dito que voltaria logo. Como ela poderia ter mentido? Ela deve ter se sentido como o bambu originário, que deixa cair suas flores quando ainda não floresceram completamente. O DNA dos filhos não respondia mais ao dela. A conexão entre eles silenciara. No entanto, sem conhecer ainda a verdade de Auschwitz, ela podia confiar em seu instinto?
— Onde está Aviva? Cadê o meu bebê?
Sua irmã não suportava a ideia de lhe contar a verdade. “Foi muito difícil, porque no começo ela não sabia que seus filhos haviam sido assassinados e demorou um pouco até ela ser transferida para mim. Eu continuei dizendo a ela que seus filhos estavam vivos”, admite Helena.
Ruzinka não parava de falar sobre como Aviva havia crescido. “E espere até conhecer seu sobrinho! Ele é tão gordinho e está sempre com fome! Ele deve estar chorando agora. Olhe o meu leite. Com a simples menção do bebê, pontos úmidos se formavam em seu uniforme. Aviva deve estar aterrorizada. Ela não come há dias.” Será que Helena achava que ela já tinha comido alguma coisa? Quem estava cuidando do bebê? As outras mulheres do bloco encaravam Helena, esperando que ela dissesse algo. Qualquer coisa.
Alguém gritou: “Você tem que contar para ela!”.
Ruzinka olhou para os rostos no escuro. As feições pálidas. Os olhos brilhando nas sombras.
Nenhuma delas suportaria contar a verdade.
O que Wunsch fez foi “uma ótima coisa”, diz Helena.
A realidade de Ruzinka era muito diferente da de sua irmãzinha. Seus soluços de dor despedaçaram todas as meninas presentes no bloco. A maioria das mulheres no Canadá nunca havia se casado ou tido filhos, mas elas sentiram o horror da perda dessa mãe. O horror da escolha de Helena. Irena sofria por sua irmã, mas pelo menos sua irmã não estava sofrendo por seus filhos.
Ruzinka passou as duas semanas seguintes doente, delirando. Ela não falava. Mal comia. Chorava sem parar. Seus seios doíam, o leite secara. Helena fez o que pôde. Trazia para a irmã um pouco da comida que achava nos bolsos dos judeus que haviam ido para o gás. Ela embalava a cabeça da irmã e tentava fazê-la comer. Ela orou por sua irmã. Ela orou por si mesma.
Foi egoísmo da parte de Helena salvar sua irmã? Ela teria conseguido viver consigo se não tivesse tentado? É um dilema que nenhum ser humano deveria ter de enfrentar. Com os olhos vidrados de choque, Ruzinka olhava para as vigas expostas do teto e via o rosto da filha na escuridão. Respirava suas cinzas no ar. O fantasma de Aviva estava em todo lugar.
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