As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Dezoito
Para levantar um fardo tão pesado, Sísifo,
você precisará de toda a sua coragem.
Não me falta coragem para concluir a tarefa
Mas o fim está longe e o tempo é curto.
— CHARLES BAUDELAIRE , As flores do mal , citado
na 158 Suite Française , de Irène Némirovsky
NO DIA QUATRO DE JULHO — Dia da Independência dos Estados Unidos —, a primeira seleção de judeus foi realizada “na plataforma de
descarregamento, enquanto a SS, de prontidão, cercava o trem”. 159 O número total de judeus eslovacos nesse transporte não é conhecido, mas apenas 108 mulheres e 264 homens foram selecionados para o “trabalho”. Separados por gênero, os novos deportados eram examinados de passagem por um médico da SS e outros administradores do campo, cuja função era decidir quais prisioneiros eram saudáveis e jovens o suficiente para trabalhar. “Aos idosos, crianças, mães com filhos e mulheres grávidas foi
dito que seriam levados para o campo”. 160 Assim, separados de suas famílias, subiram em caminhões e acenaram para os escolhidos para o trabalho. Eles foram então levados “para o abrigo subterrâneo em Birkenau e mortos nas câmaras de gás”. Os que ficaram seguiram o processo usual: tiveram a cabeça raspada, foram despidos e tatuados.
As seleções na plataforma universalmente privilegiavam os homens em detrimento das mulheres. A razão era óbvia. Não era apenas porque as mulheres eram mais propensas a querer ficar com seus filhos, mas porque a SS buscava força física. Mulheres não eram ideais para o trabalho escravo. No entanto, havia outro fator no processo de tomada de decisão: a superlotação no campo feminino.
Apesar de não haver registros formais que revelem o número exato de mulheres no campo — nem o número exato de mortas —, em 12 de maio de 1942, mais de 8 mil mulheres (judias e não judias) haviam sido registradas em Auschwitz, e outras 5 mil estavam prestes a chegar. Mas havia apenas cinco blocos, com beliches para mil prisioneiras em cada prédio. Para lidar com a população adicional, barracões Nissen de metal corrugado foram erguidos entre os blocos de dois andares. Nenhuma instalação sanitária adicional foi instalada no campo, e a higiene, que sempre fora uma dificuldade, agora se tornava um grande problema.
As meninas lutavam não apenas para conseguir os melhores postos de trabalho e comida extra, mas contra um inimigo invisível que podia atacar mais rápido que o chicote da SS: o tifo. Exceto pelas desinfecções mensais, não havia proteção contra os piolhos e as pulgas portadores da doença mortal. O mal se espalhou desenfreadamente pelos blocos femininos e masculinos, matando indiscriminadamente. Vitimou até o médico do campo, o capitão da SS dr. Siegfried Schwela, e pelo menos duas Kapos
que tinham vindo de Ravensbrück, Gertrude Franke e Helene Ott. 161 Registros indicam que aproximadamente 77% dos homens judeus morreram de tifo nesses primeiros meses. Não temos registro de quantas mulheres sucumbiram à doença, só sabemos que o tifo assolava o campo feminino também.
“Assim que os transportes de judeus da Eslováquia começaram a chegar, [o campo das mulheres] ficou abarrotado até o teto em questão de dias”, escreveu o comandante Höss em seu diário. “As condições no campo das mulheres eram atrozes e muito piores do que no campo dos homens.” As
prisioneiras foram “empilhadas até o teto. Tudo estava preto de piolhos”. 162
“As mulheres”, ele escreveu, “deterioraram-se muito mais rapidamente do que os homens. Tudo era muito mais difícil, mais severo e mais deprimente para as mulheres, pois as condições gerais de vida no campo feminino eram incomparavelmente piores. Elas ficavam muito mais confinadas, e as condições sanitárias e de higiene eram notavelmente inferiores. O campo das mulheres, severamente abarrotado desde o início, significava destruição psicológica da massa de prisioneiras, e isso levava, mais cedo ou mais tarde, ao colapso físico”.
“A superlotação desastrosa e suas consequências, que existiam desde o início, impediram que qualquer ordem adequada fosse estabelecida no campo das mulheres.”
É claro que, pela falta de ordem “adequada”, Höss culpou a supervisora-chefe do campo de mulheres, SS Johanna Langefeld, não a si mesmo. Havia um sistema patriarcal na administração do campo e isso era claro, tanto que Langefeld reclamou sobre isso com seus superiores e sua equipe. Höss pode ter admitido que “a aglomeração geral era muito maior do que no campo dos homens”, mas ele se recusou a assumir qualquer responsabilidade pela superlotação e pelas condições desumanas por que as meninas passavam. De fato, ele culpou as próprias prisioneiras: “Quando as mulheres chegam ao fundo do poço, elas se deixam levar completamente”.
Quanta ironia o homem responsável pelas condições terríveis enfrentadas pelas mulheres ainda culpá-las por não terem uma aparência melhor antes de sucumbirem à morte. Responsabilizar as prisioneiras por sua própria miséria fala muito sobre o sistema misógino do campo e seu desprezo geral pelas mulheres. Mas os judeus nem sequer eram considerados humanos; ser uma mulher judia era o mais baixo a que se podia chegar.
A ideologia patriarcal da Alemanha nazista trabalhava particularmente contra as mulheres, pois Höss se deliciava em encontrar falhas nas oficiais da SS e nas Kapos encarregadas do campo feminino, bem como nas prisioneiras. Suas críticas revelam uma possível explicação para os registros inadequados do número mulheres mortas: “Dificilmente se passava um dia sem que houvesse discrepâncias no número de detentas mostrado nos registros de trabalho. As supervisoras corriam de um lado para o outro confusas, como galinhas atrapalhadas, e não tinham ideia do que fazer para resolver”.
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