As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Dez
Elas vieram — quase ainda crianças — dos braços de suas mães, em um
estado de ingenuidade e ignorância sobre seu destino futuro. 83
— DR. MANCI SCHWALBOVA
JUNTO DO TELEGRAMA DE KONKA, algumas das exceções prometidas chegaram a Prešov na tarde de 25 de março de 1942. Assim que Adolf Amster soube da notícia, pediu ao seu motorista que buscasse o carro e corresse ao escritório do governador para buscar o documento que libertaria sua amada filha. Eles partiriam para Poprad imediatamente. Se tudo corresse conforme o planejado, Magda estaria na segurança de sua casa em algumas horas.
Hoje, a distância entre Prešov e Poprad pode ser percorrida tranquilamente em uma hora, viajando-se por rodovias asfaltadas de quatro faixas. Até mesmo a estrada antiga, estreita e de duas faixas, foi asfaltada, embora ainda se possam ver burros e, às vezes, pessoas puxando carroças ao longo do canteiro central. Em 1942, a estrada ainda tinha apenas uma faixa e partes dela eram de cascalho ou macadame. O inverno mais rigoroso já registrado também causara prejuízos, e havia quilômetros de trechos alagadiços e buracos perigosos.
Adolf Amster não era o único pai que corria contra o destino. Os primos Hartmann também receberam a exceção de sua família e pegaram emprestado o caminhão de um amigo para ir até Poprad e resgatar Magduska e Nusi. Provavelmente havia outros homens da indústria e do comércio, de todos os setores, desde serrarias a bancos e fazendas, que também haviam recebido exceções e estavam indo resgatar suas filhas.
Outras famílias não receberam a documentação necessária por mais algumas semanas, como os Friedman e os Gross. O prefeito de Humenné havia assegurado ao pai de Edith que as exceções estavam a caminho, mas elas não chegaram a tempo. Isso era o governo sendo o mais ineficiente possível.
O sol se punha sobre as montanhas Tatra enquanto o carro de Amster se apressava em direção a Poprad. As mãos impacientes de Adolf Amster traziam o documento oficial com o selo do governo. Não ver o rosto doce da filha na mesa do café nos últimos dias ou ouvir suas conversas espirituosas com a mãe, não sentir seu beijo carinhoso em sua bochecha, tudo isso o deixara aflito. Sua mãe passeava pela casa, inquieta, perto das cortinas da janela, olhando para um mundo enlouquecido. Quando um dia veio a chuva, ela chorou, porque queria lavar os cabelos de Magda com a água da chuva. Tudo o que ela queria era escovar o cabelo da filha em frente ao fogo, até ficar macio.
Um empresário confiante e bem-sucedido, Adolf Amster não tinha dúvidas de que poderia garantir a libertação de Magda. Quando o fizesse, ele a recompensaria, permitindo que fosse à Palestina para se juntar à irmã mais velha, ao irmão e à sua melhor amiga, Sara Shpira.
O céu alternava-se de tons escarlates e laranja acima dos picos gelados da cordilheira que marcava a fronteira norte da Eslováquia. Amster pediu a seu motorista que pisasse fundo. Em minutos, a paisagem ficou mais sombria, transformando-se em um crepúsculo cinza. O carro seguia rápido entre os tufos de grama da estrada. Uma raposa perseguia uma lebre nos campos ao redor.
NO VAGÃO FÉTIDO, as garotas procuravam umas pelas outras no escuro. Através das ripas de madeira, elas podiam ver a luz mudar de cor: de amarelo pálido para rosa suave, depois de lavanda para cinza e, enfim, preto. O trem virou abruptamente. Sua carga era muito mais leve do que o gado que normalmente levava ao matadouro, então os vagões balançavam de um lado a outro. As garotas que ficavam enjoadas devido ao movimento vomitavam em baldes até não restar nada em seus estômagos além de bile. Depois de cinco dias passando fome, não havia restado muito, na verdade. À medida que o trem aumentava sua velocidade, o ar frio da noite assobiava através das rachaduras. Elas tremiam no escuro. Dentes batiam. O choro era tão comum quanto o terror.
“E ainda não sabíamos para onde estávamos indo.” A voz de Edith ainda exprime incômodo e indignação, 75 anos depois.
JÁ ESTAVA ESCURO quando Adolf Amster chegou ao quartel de Poprad e encontrou o prédio esvaziado. Os guardas deixados para trás, provavelmente garotos da região, viram o caos ocorrido durante a partida das meninas e disseram que elas haviam sido levadas para Žilina. Amster correu de volta para o carro e eles seguiram rumo ao oeste, para a última grande estação de transferência entre as fronteiras eslovaca, tcheca e polonesa.
A via férrea oriental contornava um vasto planalto antes de se dividir em diferentes direções. Não havia cancelas no planalto nem avisos de onde a ferrovia atravessava a estrada. O brilho verde de olhos flutuava na noite escura, quando veados erguiam suas cabeças ao pastar. As luzes do carro abriam buracos na escuridão, deixando para trás os campos agrícolas e começando uma longa subida lenta através de florestas de pinheiros, rastros na neve e gelo negro. A estrada para Žilina acompanhava e atravessava os trilhos, de forma que, às vezes, o trem estava do lado do motorista, às vezes, do passageiro; às vezes, acima, às vezes, abaixo do carro. Se, na noite escura, ele estivesse perto o suficiente, Adolf Amster poderia ter visto a luz do vagão traseiro abraçando as margens rochosas do rio Váh.
A névoa se elevava do desfiladeiro abaixo. Movendo-se devagar através do sopé das montanhas e das florestas virgens, o trem desacelerava em curvas acentuadas e subia e descia lentamente pela montanha, até que, logo após a cidade de Vrútky, os trilhos e a estrada subiram juntos as passagens traiçoeiras das montanhas Malá Fatra. Então, o trem ganhou terreno ao mergulhar para dentro da montanha, e a luz do vagão traseiro foi engolida pelo túnel. O tempo conspirava contra Adolf Amster e os outros motoristas, que agora trafegavam pelas curvas fechadas. O túnel abreviava a viagem em pelo menos meia hora e deixou o trem a vinte minutos do principal entroncamento ferroviário de Žilina — bem à frente dos pais desesperados.
Um trem de passageiros normal faria a viagem em bem menos tempo do que os carros, mas a velocidade do trem de gado era notavelmente mais lenta, o que dava uma chance aos pais. No entanto, o trem não precisava parar para pegar passageiros. Então, simplesmente diminuiu a velocidade quando passou pelas estações de Štrba, de Liptovský svätý Mikuláš e de Vrútky, movendo-se pesadamente pelas passagens de nível até chegar a Žilina. E então parou.
SENDO UMA GRANDE ESTAÇÃO DE BALDEAÇÃO, ocorria em Žilina — e ainda ocorre — o cruzamento de linhas que seguiam para o leste (na direção de Poprad), para o oeste (na direção da República Tcheca e da Alemanha), para o sul (Bratislava e Budapeste) e para o norte (Polônia). Aqui, trens de carga e de passageiros podiam ter seus vagões conectados ou separados. Também podiam ser direcionados das linhas locais para as linhas principais e vice-versa, indo ou voltando.
Quando a Solução Final estivesse no auge, Žilina ficaria muito mais movimentada — seria o centro de trânsito de todas as deportações eslovacas (e, mais tarde, húngaras). Era por aqui que todos os transportes passariam antes de o desvio ser acionado para que os trens fossem direcionados para o norte.
A troca de linha não é um processo rápido, especialmente para trens de carga longos e pesados. O trem executa uma dança de desvio entre os trilhos, movendo-se lentamente para trás em uma linha e, em seguida, aguardando o acionamento do desvio antes de avançar para a nova linha, que segue em uma direção diferente. Dependendo do número de trilhos pelos quais o trem deve se movimentar antes de alcançar a linha pretendida, ele repete essa dança em zigue-zague.
Do lado de dentro dos vagões, as meninas espiavam entre as ripas de madeira e viam o trem bater e balançar lateralmente enquanto passava através dos trilhos de troca em formato de diamante — rumo ao destino desconhecido.
SEM AS FERROVIAS ALEMÃS e polonesas, 84 o Holocausto jamais poderia ter sido tão mortífero. Foram necessários apenas 2 mil trens para que se liquidassem dois terços dos judeus da Europa. Em 1944, apenas 147 trens transportariam 450 mil judeus húngaros. A estação ferroviária da cidade de Oświęcim e do campo de extermínio de Auschwitz se tornaria uma das mais movimentadas, com 619 trens trabalhando nas rotas de deportação pela Europa. Nenhum burocrata do sistema ferroviário alemão se recusou a autorizar um único transporte. De fato, a SS era obrigada a pagar à Deutsche Reichsbahn (a Ferrovia Alemã) por cada judeu deportado, e se cobravam também taxas extras pela limpeza dos vagões depois de esvaziados. O custo para adultos e crianças acima de dez anos era de quatro Pfennig (centavos) por quilômetro; crianças menores de quatro anos não pagavam. Entre a fronteira da Eslováquia, em Čadca, e Oświęcim, na Polônia, a viagem era de aproximadamente 106 quilômetros. Ou seja, o custo do transporte, por pessoa, era de cerca de 4,24 dólares após a passagem pela fronteira.
Em poucas semanas, quando mais trens da Eslováquia e da França começassem a preencher os trilhos, os judeus passariam a ser considerados a última prioridade em termos de transporte. Eles vinham depois dos trens de transporte de tropas, dos trens de suprimentos, dos trens hospitalares e dos trens contratados por clientes pagantes. Até trens vazios teriam prioridade sobre o “frete” judaico. É provavelmente por isso que o trem que levava Edith e as outras não tinha saído de Poprad antes das 20:20. A noite era o melhor período para transportar mercadorias, e a escuridão fornecia um manto adicional de sigilo.
As garotas já estavam sofrendo traumas significativos por terem sido tiradas de seus lares, tratadas como criminosas e deixadas sem comida. Os dias no quartel em Poprad haviam sido o primeiro passo de um processo psicológico de “aculturação”. Mas serem trancadas em vagões de gado e tratadas como carga envolvia mais do que identidade cultural. Envolvia o lugar a que elas tinham direito na humanidade. Ninguém sabia mais no que acreditar. Todas as suas expectativas estavam sendo esmagadas sob as rodas do transporte.
CORRENDO ATÉ A PLATAFORMA DA ESTAÇÃO em Žilina, Adolf Amster gritou para Deus. O transporte já havia ido embora da estação. Consumido pela raiva e pela angústia, ele permaneceu na plataforma vazia, incapaz de ser o pai que deveria ser — um homem que protegesse sua filha e que poderia resgatá-la. O que ele faria sem sua pequena Magda?
QUARENTA MINUTOS APÓS TER PARTIDO de Žilina, o trem parou outra vez. Acordada abruptamente por ríspidas vozes alemãs do lado de fora, Linda Reich espiou pelas frestas do vagão e viu as luzes da passagem da fronteira. Ela pesava pouco mais de 45 quilos, então sugeriu que as garotas mais altas a erguessem até a janela de ventilação para que ela pudesse espiar melhor. Do lado de fora, ela viu a Guarda Hlinka entregar a papelada para a SS. Ela leu as placas em polonês para as meninas abaixo, e todas tentavam entender para qual direção o trem seguia. Rena Kornreich fazia o mesmo pelas meninas em seu vagão.
“Talvez viajemos da Polônia para a Alemanha para trabalharmos lá”, Linda sugeriu.
O que ela não sabia era que os eslovacos haviam acabado de entregar todo o transporte para os alemães. O portão da fronteira se abriu e o trem avançou. Quando a cancela atrás delas foi baixada, o seu destino foi selado.
O TREM AVANÇAVA em meio à noite sem fim, levando consigo o que restava do moral das garotas. Não havia rota direta para o destino ao qual se dirigiam. Ainda hoje, um trem de passageiros regular pode levar até seis horas para fazer a viagem entre Poprad e Oświęcim. Enquanto as meninas dormiam, o trem passava por paisagens diferentes. As montanhas tornaram-se planícies varridas pelo vento e devastadas pela guerra e pela pobreza. Era um vento estrangeiro que agora resfriava ainda mais os corpos das meninas, que já tremiam. Aninhadas junto a suas amigas, irmãs e primas, buscando calor e conforto, elas olhavam para a tinta preta do vagão. O trem diminuía a velocidade quando passava por pequenas cidades das quais nunca tinham ouvido falar — Zwardoń, Żywiec, Bielsko-Biała, Czechowice-Dziedzice —, movendo-se ainda mais devagar ao passar por florestas de bétulas brancas, pinheiros e com neve na altura da coxa. Quando o amanhecer chegou, sua luz tênue mal podia tocar o rosto pálido das meninas.
À semelhança dos africanos presos nas entranhas dos navios negreiros que se dirigiam para as Américas, nossas meninas faziam parte de um novo comércio de escravos. Todos os principais países da Europa proibiram a posse de seres humanos e erradicaram o comércio transatlântico de escravos no início do século XIX. Agora, mais de cem anos depois, a Alemanha estava violando suas próprias leis antiescravidão e os direitos humanos dessas meninas. É claro que, assim como os africanos, os judeus também eram considerados menos que humanos — preocupações humanitárias podiam ser ignoradas. No final da guerra, apenas em Auschwitz, esse comércio diabólico de escravos geraria cerca de 60 milhões de Reichsmark
85 (o equivalente a 125 milhões de dólares hoje) para a economia alemã. No entanto, como não possuíam valor intrínseco, ninguém se preocuparia em comprar e vender prisioneiros judeus.
POR VOLTA DAS ONZE DA MANHÃ, o trem parou em outra cidade da qual apenas algumas das meninas já tinham ouvido falar, a polonesa Oświęcim. Localizada às margens do sinuoso rio Soła, sob um pitoresco castelo medieval, Oświęcim era uma cidade bonita, que havia permitido que sua Grande Sinagoga e a Catedral do Santuário da Santíssima Virgem Maria fossem construídas lado a lado, com vista para o rio. Cercada por edifícios brancos, a praça da cidade não tinha esculturas ou uma fonte no centro, mas contava com uma segunda catedral e pelo menos mais uma sinagoga — locais de adoração certamente não estavam em falta. Os habitantes não judeus e judeus da cidade trabalhavam juntos na comunidade e atos de resistência eram comuns. Alguns moradores já estavam detidos no campo de prisioneiros, enquanto outros haviam sido forçados pela força alemã ocupante a trabalhar no local.
A poucos quilômetros da cidade, grandes lotes de terra eram usados para a agricultura e a pecuária. Esta não era uma comunidade pobre. Havia indústrias e um quartel para o exército polonês. Após a invasão alemã, prisioneiros políticos e de guerra precisavam ser encarcerados, e os alemães decidiram que o antigo quartel do exército de Oświęcim, a alguns quilômetros da cidade, seria o campo de detenção perfeito. Em 1942, para abrir espaço para a expansão do campo de prisoneiros, os moradores das vilas vizinhas foram forçados a se mudar. Suas casas estavam prestes a ser demolidas.
O TREM PAROU no que parecia ser o meio do nada. Não havia o famoso Portão da Morte. O símbolo infame ainda não fora projetado, muito menos erigido. Birkenau não passava de estábulos e pântanos.
Quando as portas dos vagões se abriram, um panorama composto de céu cinzento e terra plana e bege descortinou-se. Uma faixa de neve se estendia pelo horizonte. Listras de um cinza-escuro. Cinza-claro. Marrom-acinzentado. Cinza-chumbo. Vistas tão abstratas quanto as da arte de Mark Rothko. Edith e as garotas vislumbraram uma versão real de suas pinturas e foram engolidas pela paisagem. Um nada além da imaginação.
As pupilas dos olhos das meninas se contraíram. Dor e luz. Luz e dor.
“Não havia nada”, diz Edith. “Nada!”
Existe uma pedra semipreciosa polonesa criada por uma pressão tão extrema que endurece os cristais de calcário comuns naquele país até que se tornem invisíveis aos olhos humanos. Sob essa forte compressão, as pedras de quartzo formam minúsculas paisagens abstratas — faixas cinzas e esbranquiçadas — que, uma vez polidas em cabochões, tornam-se parecidas com minúsculas obras de arte expressionistas. Os espiritualistas dizem que essas pedras curam as pessoas assombradas pelo passado, mas Edith e as outras meninas tinha que sobreviver primeiro. Elas estavam prestes a se verem comprimidas e endurecidas pelo trabalho forçado, cujo intuito era pulverizá-las em pedra.
A SS ordenou que prisioneiros do sexo masculino retirassem as meninas dos vagões. Homens gritavam. Cães latiam. Chicotes estalavam.
“Raus! Raus!”.
Homens de olhos vazios, vestindo uniformes listrados como pijamas, averiguaram o interior dos vagões. Eram prisioneiros poloneses presos por crimes tão insignificantes quanto distribuir panfletos ou tão sérios quanto sabotagem. Nenhum deles tinha visto uma mulher desde seu encarceramento — há quase dois anos para alguns. Agora, centenas de meninas olhavam para eles, todas bem-vestidas e com os cabelos menos penteados, mas, ainda assim, apresentáveis. As meninas se entreolhavam dentro dos vagões. Balançando as malas, sem saber o que fazer a seguir, elas permaneciam nas portas, imóveis.
A reação inicial dos internos em choque foi estender as mãos para ajudá-las, mas a SS batia nos homens que se mexiam muito devagar ou que agiam com muita gentileza. O trem era muito alto em relação ao solo, e havia uma vala sob os trilhos. Vestidas com saias ou vestidos justos, as meninas não sabiam se desciam devagar ou se pulavam. Elas permaneciam na borda dos vagões. Os gritos da SS aumentaram. Enfim, uma garota e depois uma segunda jogaram suas malas e relutantemente saltaram do trem. Como cordeiros, as demais as seguiram. Esforçando-se para não cair, elas pulavam e então ajeitavam seus vestidos e saias. As garotas mais velhas examinavam suas meias para verificar se não estavam rasgadas. Logo, o campo estava cheio de garotas falando em eslovaco com os homens, que sussurravam avisos urgentes em polonês. As poucas meninas polonesas tiveram a vantagem imediata da linguagem.
Ordens em alemão caíram sobre todas elas sem distinção.
EM MEIO A ESSE CAOS, o dr. Izak Kaufmann saltou do trem e exigiu
respostas do oficial da SS responsável. 86 Onde eles estavam? Por que não havia cobertores no trem para as meninas? Ou comida? Ou água? Perguntas que se espera que qualquer médico faça.
Quando o homem da SS riu em sua cara, ele ficou mais irritado.
Linda Reich observava o médico perturbado ir e vir, tentando impedir que a SS batesse nas meninas e gritando para os guardas que as condições eram horríveis. Ele queria saber quem era o responsável e como o presidente Tiso poderia ter aprovado tal farsa.
A SS primeiro o provocou, depois chicoteou-o nas costas, pernas e rosto. Ele tentou se defender. Não havia como. Alquebrado por um golpe, o
médico caiu no chão, onde a SS o espancou até a morte. 87 O dr. Kaufmann nunca foi registrado no campo. Seu nome não aparece nos registros históricos de Auschwitz, mas ele parece ter sido a primeira vítima do primeiro transporte judeu. Ou teria sido o segundo?
“SABEMOS QUE uma das mulheres morreu durante a viagem”, diz o principal historiador do primeiro transporte, o professor Pavol Mešťan. Estamos em seu escritório no Museu da Cultura Judaica de Bratislava, depois de passarmos o fim de semana participando de eventos em homenagem às jovens do primeiro transporte. Desde 2001, o Dr. Mešťan dedica grande parte de seu tempo a preservar a sua história. Foi graças aos seus esforços que o governo eslovaco pendurou placas na estação ferroviária de Poprad, em reconhecimento às jovens do primeiro transporte, e no antigo quartel (agora uma escola) onde elas foram mantidas. Na mesa à nossa frente, há documentos raros que ele encontrou ao longo dos anos: o protocolo de alimentação, a conta da SS direcionada ao governo eslovaco pela deportação de seus judeus... Documentos que ele encontrou em velhas caixas depositadas nos Arquivos Nacionais Eslovacos. Com a ajuda de seu assistente e meu intérprete, Dr. Stanislava Šikulová, pergunto se sabemos o nome da garota que morreu.
Ele balança a cabeça negativamente.
Havia rumores de que uma garota tinha pulado do trem quando ele passou pela Hungria (o que teria sido possível, porque as fronteiras eram bem diferentes na época). Contudo, ela seguramente não o fez depois de Poprad, já no caminho para Auschwitz. Edith está certa disso, assim como eu. As mesmas garotas que deixaram Poprad em 25 de março chegaram a Auschwitz em 26 de março — há duas listas que confirmam isso: uma lista eslovaca e uma lista alemã.
Nos arquivos do Yad Vashem, 88 há um documento eslovaco que menciona uma morte no transporte, mas nenhum nome é dado. Há um comentário no final de uma lista de apenas 99 meninas, naturais de várias cidades diferentes. Três meninas são da Polônia (uma da Cracóvia!) e duas de Budapeste, embora na lista original elas tenham sido registradas como eslovacas. Todas as meninas relacionadas nesse documento obscuro estavam no primeiro transporte — seus nomes constam na lista original de 24 de março de 1942. Essa lista mais curta parece datada de 25 de março de 1942, mas acontece que ela foi compilada muito mais tarde por “um historiador amador, que ajudou a organizar os primeiros eventos comemorativos em Poprad”, em 2003. Jozef Šebesta “trabalhou para a Sociedade Tcheca na Eslováquia e passou muito tempo arquivando e
conversando com os sobreviventes” 89 para obter informações sobre o transporte, explicam o Dr. Šikulová e o Dr. Mešťan. Então, essa é uma lista de sobreviventes que Šebesta localizou após a guerra ou Šebesta estava tentando criar uma relação das meninas deportadas antes que a lista original fosse descoberta nos arquivos alemães? Eles me asseguram que “não há razão para duvidar de que uma mulher tenha morrido durante o transporte, pois isso foi mencionado muitas vezes pelas sobreviventes, e Šebesta também deve ter [ouvido] isso de alguém”.
Embora muitos dos registros de óbito das mulheres pareçam ter desaparecido, há um nome nos Sterbebücher — os “Livros da Morte” de Auschwitz — que se destaca. Jolana Sara Grünwald nasceu em 14 de junho de 1917 e há um atestado de óbito com seu nome datado de 27 de março de 1942, um dia após as meninas chegarem ao campo. Ela tinha 25 anos.
No final da lista de seis páginas que Jozef Šebesta compilou, ele escreve:
Mil mulheres foram deportadas de Poprad. Mas apenas 999
chegaram a Auschwitz. Uma morreu no caminho. No campo, as
mulheres receberam os números de 1000 a 1998. Inscrito sob o
número 1000, o único médico deportado, dr. Izak Kaufmann, nascido
em 4 de fevereiro de 1892 em Beloveza...
Assinado, Jozef Šebesta 90
Há outra disparidade: 997 meninas deixaram a estação de Poprad. Em uma segunda lista, compilada pelos alemães em 28 de março de 1942 e que relaciona os nomes em ordem alfabética, constam as mesmas 997 meninas. Será que eles teriam incluído na lista das garotas que chegaram a Auschwitz o nome de uma que estivesse morta?
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