As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 25 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte

 

1o de agosto de 1942: Na chamada da manhã, o nível de ocupação de

Auschwitz-Birkenau é de 21.421 homens presos, incluindo 153 prisioneiros

de guerra russos. A ocupação do campo das mulheres não é conhecida;

como não há documentos relevantes, não se pode estabelecer o número .

— DANUTA CZECH , Crônica de Auschwitz , 1939-1945

QUANDO O SOL NASCEU sobre a cabeça raspada das mulheres em 8 de agosto, já estava quente. Moscas zumbiam entre os corpos imundos das prisioneiras amontoadas umas contra as outras na chamada da manhã. Não parecia haver nada incomum. Sonâmbulas em seu uniforme russo, as garotas partiram para o trabalho como de costume, mas, do outro lado do portão de guarda, uma seção inteira de meninas foi desviada. Apreensivas, as meninas que permaneceram se viraram para ver amigas e familiares marcharem por uma longa estrada de terra. Elas não tinham ideia de se as veriam novamente.

Aquelas que agora saíam da rotina costumeira subitamente ficaram em alerta. Passando por campos de batatas e trilhos de trem, elas caminharam por quase trinta minutos antes que as sombras das cercas aparecessem à distância e seu destino se tornasse claro. Acima, corvos crocitavam e batiam suas asas.

HOJE, QUEM CAMINHA entre Auschwitz e Birkenau atravessa um viaduto que passa sobre trilhos ferroviários ziguezagueantes ainda em uso. São parte da estação de Oświęcim, não muito longe do que é hoje o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau. Ônibus e táxis transportam multidões de visitantes entre os dois campos, para que eles não precisem fazer a caminhada de quarenta minutos. Atravessar Birkenau leva quase o mesmo tempo. Para muitos prisioneiros, essa era uma jornada que tinha de ser feita duas vezes por dia, na ida e na volta do serviço, depois de dez a doze horas de trabalho pesado. Eles não tinham garrafas de água nem barrinhas de cereais. Eles comiam nada além de uma fatia de pão, chá estragado e, principalmente, sopa de vegetais e carne de cavalo podres.

Do viaduto da rodovia, é difícil imaginar o vazio do lugar em 1942. Hoje, os campos de batatas e outras culturas, que provavelmente existiam na época também, ainda cercam o complexo, mas também há conjuntos habitacionais. O ruído do trânsito da estrada zumbe pelo sinistro portão da morte, que paira como uma sombra histórica na paisagem plana e monocromática. Em 1942, quando as meninas marchavam pelos campos em direção a Birkenau, essa estrutura de tijolos, tão comumente identificada com Auschwitz-Birkenau, ainda não existia. Quando elas entraram pelo portão cercado de arame pela primeira vez, só vento varria a estepe. Não havia os dizeres Arbeit macht frei , apenas algumas torres de vigia de madeira construídas recentemente. Esse vasto espaço continha quase quinze blocos de tijolos divididos em fileiras de três e quilômetros de cercas de arame farpado. Alguns prédios de escritórios de um andar haviam sido construídos para servir aos funcionários da SS, mas, no geral, quase só havia construções retangulares baixas feitas de alvenaria e de madeira, usadas como residências e, algumas, como escritórios.

Nos dois anos seguintes, Birkenau iria se expandir para se tornar o maior campo de extermínio de todos os tempos. O tamanho de Birkenau,

equivalente ao de 319 campos de futebol, 172 soa incomensurável ainda hoje. Visto de cima, Birkenau parece mais um tabuleiro gigante de Banco Imobiliário, com casas de plástico marrom organizadas em fileiras retilíneas, do que um campo de concentração. Andar de uma ponta a outra é cansativo, mas Edith e as outras meninas tinham que atravessar a seção onde ficavam várias vezes ao dia — para ir ao banheiro, para procurar comida e, mais tarde, para ir à ala hospitalar que logo seria criada.

A seção feminina, que Himmler havia insistido para Höss concluir em tempo hábil, ficava à esquerda da entrada principal. A seção à direita da estrada principal era um quartel de madeira verde que abrigaria o excedente

do campo dos homens, agora conhecido como Auschwitz I. 173

DE VOLTA A AUSCHWITZ I, as meninas deixadas para trás estavam preocupadas com as que haviam desaparecido. Para onde haviam sido levadas? Elas retornariam algum dia? Uma “campanha de sussurros” iniciada pelas poucas Kapos compassivas garantia que as prisioneiras desaparecidas haviam sido transferidas para um novo campo. Na manhã seguinte, quando outro grande grupo de trabalho seguiu naquela mesma direção, as que permaneceram não se alarmaram tanto, embora se mantivessem cautelosas. Foram necessários quatro dias para que todo o campo feminino fosse transferido de Auschwitz I para Birkenau. Linda lembra que as meninas que estavam doentes demais para caminhar até o novo local foram transportadas na caçamba de caminhões. “Elas foram as primeiras meninas [formalmente] executadas nas câmaras de gás, em agosto de 1942.” As mortes não foram registradas.

Durante a transferência, surgiu um problema com o sistema de numeração. As mulheres que chegavam nos transportes eslovacos agora

eram processadas e registradas imediatamente em Birkenau. 174 No entanto, ainda havia mulheres dos transportes de julho sendo numeradas e registradas em Auschwitz I, e os números das prisioneiras foram duplicados por engano. Alguns dias se passaram até que os números fossem organizados de novo em uma sequência consecutiva, corrigindo-se os números replicados — como isso foi feito, não está claro. Talvez o número antigo tenha sido riscado e o novo, tatuado logo abaixo, mas não há registro desse tipo de acontecimento. É mais provável que as portadoras de números duplicados tenham sido simplesmente removidas do sistema prisional — o que significa que foram mortas.

BIRKENAU ERA UM VERDADEIRO nada. “Era vazio”, diz Linda. “Não havia estradas — mas muita poeira. Você não via uma folha verde, nada.” Os prisioneiros de guerra russos que ficaram detidos lá haviam comido a grama. Pouco depois de chegarem, as meninas começaram a fazer isso também.

O solo em Birkenau era de argila e, sob o sol quente, endurecia como cimento. Quando chovia, a argila amolecia e prendia os pés das prisioneiras, torcendo seus músculos, apodrecendo sua carne e ainda mais. Em seus tamancos de madeira, as meninas holandesas procuravam comida perto da cozinha, mas a lama era traiçoeira. Margie Becker diz: “Elas se afogaram na lama. Ninguém moveu um dedo para ajudar. Elas apenas se afogaram na lama. Elas eram delicadas demais, bonitas demais” para sobreviver a Auschwitz-Birkenau.

O Bloco 13 abrigou muitas das meninas de Humenné, incluindo Edith, sua irmã Lea, Helena Citron (nº 1971) e Irena Fein (nº 1564). A alguns blocos de distância, Bertha Berkowitz (nº 1048) terminaria no Bloco 27 com sua melhor amiga, Peshy Steiner. Ela provavelmente ainda não conhecia Margie Becker (nº 1955), de Humenné, ou Elena Zuckermenn (nº 1735), de Poprad, mas elas estavam prestes a se tornar boas amigas e parceiras de trabalho.

Dentro de suas novas “casas”, Edith encontrou chão de terra e “tábuas com um pouco de palha sobre elas. No verão, tirávamos um pouco de nossas roupas e as usávamos como travesseiros”. Quem diria que elas sentiriam falta dos colchões de palha finos e desconfortáveis de Auschwitz? Ou dos cobertores surrados? Agora, Edith e as outras não tinham nada além de trapos, que provavelmente sobraram dos soldados russos que morreram construindo essas tumbas de tijolos.

Uma parede divisória de tijolos passava pelo centro do bloco. Três

camadas de prateleiras de madeira, chamadas de koja ,* foram montadas em cada seção — que eram do tamanho de um estábulo para cavalos —, revestindo as paredes de tijolos de ambos os lados das coxias de chão de terra. Os blocos tinham a mesma configuração dos estábulos que outrora serviram à cavalaria polonesa e nos quais os prisioneiros de guerra russos haviam sido mantidos. Originalmente, cada estábulo deveria acomodar dezoito cavalos. Na entrada havia dois ambientes maiores: um para os arreios e outro para a escovação dos cavalos e limpeza geral dos equipamentos. Esse ambiente agora acomodaria seres humanos. Os quartos da frente abrigavam as supervisoras de blocos e quartos, encarregadas de distribuir comida de manhã e à noite e da divisão de pequenas tarefas, como a limpeza dos blocos. Elas também eram responsáveis por manter registros precisos das meninas vivas — e mortas — do bloco. Inicialmente, cada bloco abrigava cerca de quinhentas meninas, mas seria apenas uma questão de tempo até que a superlotação alterasse o planejamento de seis meninas por koja para dez, e os blocos passassem a abrigar mil mulheres ou até mais. Dormir perto de um dos fogões de ferro fundido era essencial nos blocos frios e úmidos, onde a temperatura nos meses de inverno regularmente chegava aos trinta graus negativos.

Por pior que fosse Auschwitz I, havia lá uma sensação de comunidade, e o campo até se parecia com uma cidade pequena. Birkenau parecia — e era — um terreno baldio. A única coisa que crescia nas proximidades era a floresta de bétulas, no final da Lagerstrasse , da qual o campo recebeu seu nome. Também havia outras coisas em Auschwitz I das quais elas sentiriam falta. Havia água pingando nos porões e algumas pias e privadas dentro dos blocos. Agora, as meninas tinham que atravessar o campo para chegar ao suposto banheiro: um longo pedaço de pau, com cinquenta e oito buracos abertos, posicionado sobre uma fossa. “Você pode imaginar milhares de meninas indo ao banheiro e [tendo] apenas cinco minutos, se tanto [para se aliviar]? Todo mundo precisava ir!”.

As pias consistiam em uma calha de metal com noventa torneiras, mas a água era contaminada, e quem a bebia sofria de disenteria. Mais tarde, dez barracões com pias e privadas seriam erguidos, mas nos primeiros meses eles ainda estavam em construção. A superlotação de Auschwitz fora resolvida temporariamente — a falta de higiene, não. As meninas não tinham permissão para ir ao banheiro durante a noite, portanto, em situações de emergência, elas tinham que usar suas tigelas vermelhas e tentar limpá-las na manhã seguinte antes de receberem o chá. Para chegar ao banheiro antes da chamada, você tinha que acordar antes do amanhecer, antes de milhares de outras pessoas. “As instalações eram simplesmente horríveis, não havia papel higiênico, nada. Às vezes, arrancávamos da camisa um

pedaço de pano. Era apenas irreal”. 175

As recém-chegadas, que sofriam dos conhecidos problemas estomacais causados pela sopa rançosa, usavam vestidos agora, e, sem vasos sanitários à mão e sem roupas íntimas, elas não “tinham como impedir a diarreia de

escorrer por suas pernas”. 176 Sujar-se era motivo para ser morto, mas não havia como esconder esses acidentes. Quando um transporte chegava e centenas de novas meninas eram levadas para o campo, isso significava mais algumas centenas de meninas correndo para os banheiros ao mesmo tempo. Na pressa, algumas meninas às vezes caíam nos buracos das latrinas e se afogavam no esgoto abaixo. Dentre todas as maneiras possíveis de morrer em Auschwitz, cair na latrina era a morte que Bertha mais temia.

Para muitas das meninas, Birkenau foi o golpe final. Por pior que Auschwitz tenha sido, uma fina camada de esperança, sustentada pela fé religiosa, ainda permanecera em seus sentimentos durante a experiência. Agora, a esperança desaparecera. Em Auschwitz I, meninas cometiam suicídio se arremessando das janelas do segundo andar. Como essa opção não estava mais disponível, havia apenas uma saída. Edith diz: “Muitas cometeram suicídio atirando-se contra [as cercas de] alta tensão. De manhã, era como uma árvore de Natal. Pessoas, você sabe, carbonizadas, pretas”

penduradas nos fios. 177

Auschwitz I foi o purgatório para o inferno de Birkenau.

“Beliche” em polonês. (N.E.)

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