As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 46 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Epílogo

 

Se há algo que essas mulheres podem nos dizer, é: olhem para o futuro, não para as soluções de curto prazo; olhem para nossos filhos e netos .

—KARA COONEY , When Women Ruled the World

“ELE ERA O AMOR DA minha vida.” Depois de três anos sabendo que cada dia poderia ser seu último, de repente Edith estava livre, viva e apaixonada por Ladislav Grosman. “Eu senti muita esperança. Tanta esperança para o mundo, para a humanidade, para o nosso futuro. Eu pensei: ‘agora o messias virá’. Agora o mundo vai mudar para sempre. Tudo será diferente agora… Não acabou sendo como eu pensava que seria.”

Para começar, ela estava terrivelmente doente, com tuberculose. Mais três anos de sua jovem vida seriam necessários para ela se recuperar em um sanatório na Suíça. Depois que a cirurgia deixou seu joelho enrijecido e indobrável, o médico confidenciou a Ladislav que a doença era tão séria que talvez fosse melhor “deixá-la partir silenciosamente”. Mas Edith nunca fez nada em silêncio.

Quando ela perguntou a Ladislav se o incomodava o fato de sua jovem esposa ficar manca, Ladislav assegurou-lhe: “Se a sua alma fosse manca, isso me incomodaria”. A alma dela cantava. Edith e Ladislav se casaram em 1949. Depois que ela se recuperou da tuberculose, terminou o ensino médio e foi estudar biologia. Ela nunca se tornou médica, mas trabalhou como pesquisadora. Enquanto isso, Ladislav obteve seu doutorado em filosofia e começou a escrever livros, peças de teatro e roteiros cinematográficos. Eles moravam em Praga quando A pequena loja na rua principal , filme escrito por Ladislav, ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1965.

Pouco depois do Oscar, seu bom amigo Rudolf Vrba anunciou que tiraria “longas férias”. “E vocês deveriam sair de férias logo também”, ele avisou. Era um risco para as duas famílias, mas, como Ladislav disse a Edith: “Se os nazistas não conseguiram manter Rudi em Auschwitz, os soviéticos certamente não seriam capazes de mantê-lo na Tchecoslováquia.” Os Grosman seguiram a família Vrba em suas férias permanentes no Ocidente e se estabeleceram em Israel, onde Ladislav continuou a escrever. Pouco antes da morte de Ladislav, o comitê do Prêmio Nobel visitou os Grosman em Haifa, um claro sinal de que pensavam em atribuir-lhe o prêmio literário. Mas ele teve um ataque cardíaco alguns dias depois e morreu sem receber o reconhecimento internacional que tanto merecia.

Seu talento literário mostrado em The Bride me ajudou a entender melhor a dramaticidade provinciana causada pelo primeiro transporte, inspirando e enriquecendo as cenas que constam no início deste livro.

“Os amigos dos meus pais em Praga eram típicos intelectuais judeus da Europa Central”, diz George Grosman, filho de Edith e Ladislav, que herdou o talento artístico do pai e se tornou músico e compositor de jazz. “Linguistas, sociólogos, escritores, médicos. Eles nos visitavam nos fins de semana ou nós íamos às suas casas. O contato era frequente. E, invariavelmente, ao sabor de xícaras infinitas de café turco doce e sob a neblina impenetrável da fumaça dos cigarros baratos — todo mundo fumava na época —, as conversas voltavam-se para a guerra. Geralmente, era meu pai quem falava por nossa família, mas as suas experiências — embora angustiantes — não tinham sido nem de longe tão assustadoras quanto as da minha mãe. Soube depois que, nas primeiras décadas após a guerra, meu pai não gostava que ela falasse sobre Auschwitz. Enquanto estivemos em Praga, na Tchecoslováquia comunista, nunca ouvi minha mãe falar diretamente de suas experiências em Auschwitz. E, embora eu não soubesse muitos detalhes, havia o número tatuado no braço dela, então eu sabia que uma nuvem obscura de horror indescritível pairava sobre nós. Tenho certeza de que isso contribuiu em grande parte para o sentimento de ansiedade existencial que tive durante toda a minha vida. Uma sensação de que as coisas estão um pouco desequilibradas, de que o mundo não é tão objetivo quanto parece, de que existe um perigo no ar, mesmo que não seja declarado. Acho que, indiretamente, somos todos sobreviventes também.”

A DRA. MANCI SCHWALBOVA (nº 2675) retornou à Eslováquia, onde continuou a exercer a medicina após a guerra. Ela não voltou para o seu noivo, no entanto. Durante sua estadia em um dos campos de deportação, seu ex-futuro marido se apaixonou por um homem. Evidentemente, Manci também tivera um caso; o dela, com uma prisioneira política que havia sido Kapo . Edith ri ao pensar que Hitler odiava os homossexuais tanto quanto odiava os judeus, mas “ele transformou Manci e seu noivo em homossexuais judeus!”.

Edith conta outra história pouco conhecida sobre a dra. Schwalbova: em 1943, enquanto ainda estava em Auschwitz, Manci recebeu garantia de viagem segura para a Palestina e a oportunidade de deixar o campo. Ela disse à administração de Auschwitz que sua presença no campo era necessária e que ela ficaria. Se tivesse tomado uma decisão diferente, esta história teria também um final muito diferente.

Manci concluiu seus estudos de medicina na Universidade Charles, em Praga, e tornou-se médica licenciada em fevereiro de 1947. Ela trabalhou no Hospital Universitário Infantil de Bratislava e como professora de pediatria. Seu livro de memórias Vyhasnuté oči (Olhos apagados ), de 1948, foi o primeiro relato sobre o primeiro transporte. Pouco depois, ela escreveu um segundo livro de memórias, intitulado Eu vivi a vida dos outros . Nenhum de seus livros foi traduzido. Ela morreu em 30 de dezembro de 2002, em Bratislava, Eslováquia.

Infelizmente, os sobrenomes das outras médicas mencionados nos testemunhos das sobreviventes nunca são especificados, por isso, não tenho como falar mais sobre elas, nem sobre o que elas fizeram para ajudar as meninas naquelas circunstâncias tão brutais.

Linda Reich Breder (nº 1173) testemunhou em pelo menos dois julgamentos contra oficiais da SS. O primeiro deles ocorreu em 1969, em Viena — Franz Wunsch e Otto Graf eram os réus. O julgamento provocou inquietação entre as sobreviventes em Israel, porque Helena Citron, na época casada e vivendo com seu nome hebraico, Tsiporah Tehori, foi para Viena testemunhar a favor de Wunsch.

“Nunca a perdoei por isso”, diz Eta Zimmerspitz Neuman (nº 1756). Edith diz que um dos medos mais profundos de Helena era acabar sendo acusada de ser colaboracionista e, por isso, expulsa de Israel. Quanto ao julgamento em Viena, Linda quase certamente soube da presença de Helena, mas se abstém de mencionar qualquer coisa a respeito em seu

testemunho para a USC. 290

Nem Wunsch nem Graf foram considerados culpados. “Os dois eram sádicos”, diz Linda. “Embora eu tenha dito isso, e outras testemunhas tenham dito isso, não significou nada… Eles foram libertados. Não foram presos. Os milhões que roubaram de Auschwitz, levaram tudo para Viena — então, eles tinham dez advogados e foram inocentados.”

Vinte anos depois, quando Linda viajou à Alemanha para testemunhar contra outro ex-SS, Gottfried Weise, o final foi diferente. Os prisioneiros o chamavam de Guilherme Tell, porque Weise gostava de colocar latas na cabeça e nos ombros de garotinhos para praticar tiro ao alvo. Depois de atirar nas latas, ele sempre atirava no rosto da criança. Linda havia testemunhado um desses assassinatos, e também estava presente quando ele atacou a criança húngara que apanhou a garrafa de água jogada por uma das meninas do Canadá. Weise também foi o SS que puniu as garotas por isso, atirando nelas enquanto aguardavam em posição de sentido.

“Foi muito estranho”, diz a filha de Linda, Dasha Grafil. “Havia câmeras de TV, repórteres de jornais e até estudantes do ensino médio, que vieram ouvir o testemunho de minha mãe.” O réu “parecia um dono de indústria rico — você nunca pensaria se tratar de um cara que matava pessoas”.

Linda temia que o julgamento fosse outro fiasco, como fora o julgamento de Wunsch e Graf. Semelhantemente ao que já havia ocorrido em Viena, a sessão começou com o tribunal pressionando Linda por três ou quatro horas. O juiz e os advogados de defesa fizeram-lhe uma infinidade de perguntas, mas a verdade é que ela sabia mais sobre Auschwitz do que qualquer outra pessoa no tribunal. “Lembro-me de tudo o que aconteceu há 55 anos, embora mal consiga me lembrar do que aconteceu ontem, do que almocei.” Ela possuía um fino senso de humor.

Por causa de sua posição no Canadá, Linda viu pessoalmente os membros da SS roubando mercadorias para enriquecer a si mesmos, levando-as para suas casas. Como a maioria das meninas eslovacas, ela também falava alemão e sabia o que os oficiais da SS estavam dizendo um ao outro. A certa altura, os interrogadores tentaram enganá-la, perguntando se ela vira Weise de manhã ou à noite.

“Não sei dizer se era de manhã ou à noite porque o gás estava sempre funcionando, mas posso dizer se era verão ou inverno pelo cheiro sujo que havia no chão”, disse Linda.

Finalmente, o juiz perguntou se havia mais alguma coisa que ela queria contar ao tribunal.

Esse foi o momento de Linda. Essa minúscula senhora de cabelos brancos, nossa Linda Reich, levantou-se e olhou para a tribuna. “Sim, eu tenho algumas palavras para dizer a todos”, disse ela. “Eu esperei toda a minha vida por isso. Para ficar aqui na frente de vocês e apontar meu dedo.” Ela caminhou até Weise e apontou para ele, para que todos pudessem ver. “E nenhum de vocês pode fazer nada sobre isso!”.

E então ela foi embora. A filha dela se emociona com a lembrança. Os jovens estudantes alemães seguiram minha mãe e começaram a abraçá-la, dizendo: ‘Não se preocupe, isso nunca vai acontecer novamente.’”

Weise foi considerado culpado, mas fugiu para a Suíça depois de ser libertado sob fiança. Ele foi preso doze semanas depois e cumpriu sua sentença até 1997, quando foi solto por motivos de saúde. Ele morreu em 2002.

LOGO APÓS CHEGAR a Israel, na década de 1950, Ria Hans Elias (nº 1980) foi denunciada por uma sobrevivente que dizia ter sido espancada por ela. Ria foi presa e teve que se defender das acusações de que abusara das prisioneiras. Edith diz que isso foi realmente injusto, porque se havia alguém que ajudava os outros, esse alguém era Ria. “Ria era uma das pessoas boas.” A acusação era séria, no entanto. A pessoa que havia prestado queixa não apenas a acusara de bater em uma prisioneira, mas afirmou, conforme Ria explica, que “era impossível que eu fosse judia, pois somente os alemães têm esse número aqui”. Ela aponta para o número tatuado em seu braço. De fato, havia algumas outras sobreviventes do primeiro transporte em Israel, incluindo Helena. Porém, em 1944, quando a maioria das sobreviventes eslovacas chegou ao campo, a SS havia começado a adicionar letras antes dos números dos presos — e a mulher achou que o número de quatro dígitos de Ria, iniciado pelo dígito 1, significava que ela fora uma Kapo .

Os números dos sobreviventes de Auschwitz representam um tipo estranho de irmandade ou fraternidade. Números mais baixos promovem mais status entre os sobreviventes, conquistam o respeito dos outros, mas também podem atrair suspeitas. A questão que permanece é: o que você fez para sobreviver?

Depois de contratar um advogado e se defender das acusações, Ria foi absolvida, mas não antes de passar um tempo na prisão em Israel — uma verdadeira ironia, considerando que ela também havia sido presa em Auschwitz.

Quarenta e sete anos depois, quando concedeu seu testemunho à Fundação USC Shoah, ela expressou uma profunda confusão em torno das circunstâncias. “Há uma ou duas semanas”, diz ela, “teria certeza de que eu não… Eu juraria que não bati nela. Hoje, não sei mais, [porque] quando começo a pensar em como era [em Auschwitz], eu estava… Por dentro, eu estava morta.”

Edith é firme em sua defesa de Ria Hans. “Se ela bateu em alguém, foi para protegê-la. As meninas novas não sabiam como se comportar ou onde estavam os perigos. Ria sabia. Aposto que Ria salvou a vida dessa mulher e ela nem sabe disso.”

PEGGY FRIEDMAN KULIK (nº 1019) continuou amiga de Linda Breder, nascida Reich, até a velhice. A filha de Linda, Dasha, lembra-se de ouvir as amigas de sua mãe — as de Auschwitz e do “Canadá” — rindo enquanto se lembravam de como haviam passado furtivamente pela SS com itens contrabandeados, sem serem pegas. Algumas pessoas pensam que as sobreviventes nunca deveriam rir. Entretanto, depois de tantos anos de tristeza e horror, elas merecem essas risadas. Todas as sobreviventes que conheço e conheci têm um grande senso de humor.

As fotos de Peggy quando jovem revelam uma garota que gostava de fazer caretas, apesar das muitas dificuldades por que passara durante e após a guerra. Como a maioria dessas jovens, Peggy teve dificuldades para engravidar e para manter uma gravidez até o final. Quase todas as sobreviventes sofreram abortos espontâneos ou tiveram que submeter-se a “interrupções” médicas — o termo usado para abortos na época — para salvar sua própria vida. Peggy esperava gêmeos, mas sofreu um aborto espontâneo. Dois meninos. “Fui chutada nas costas por um homem da SS e ele danificou meu útero.” Ela finalmente teve um filho, que nasceu quatro semanas prematuramente.

Para meninas que cresceram em famílias numerosas, ter apenas um ou dois filhos foi difícil. Para os filhos, há uma tristeza diferente.

“Fomos uma geração que cresceu sem avós e avôs”, diz Sara Cohen, filha de Danka Kornreich Brandel (nº 2779) e sobrinha de Rena. “Também tínhamos poucos tios, tias e primos. Só quando passei a frequentar a casa da família do meu marido, e aquelas reuniões com dúzias de tias e tios e inúmeros primos em primeiro grau, pude saber o que outras famílias experimentavam. Quando tive meus próprios filhos e testemunhei o amor incondicional e a sabedoria que eles receberam de seus avós, finalmente entendi o que havia perdido na minha própria infância.”

Bertha Berkowitz Lautman (nº 1048) emigrou para Cleveland, Ohio, onde teve um filho, Jeffrey Lautman, com quem viajou várias vezes para Auschwitz. Durante sua vida, Bertha fez de tudo para educar os jovens sobre o Holocausto. “É muito importante levar os filhos aos campos junto com os sobreviventes, para que eles lhes ensinem que o Holocausto não é uma farsa. Eles devem estudar e aprender o máximo que puderem. Devem ser ativos nas organizações. Depois que eu me for, tudo será esquecido. Quem irá se lembrar?”, ela pergunta.

Você irá, leitor. Você irá.

Bertha manteve-se próxima de muitas das garotas que conhecera em Auschwitz e morava a poucos quarteirões de distância de uma de suas melhores amigas, Elena Grunwald Zuckermenn (nº 1735). Elena foi a segunda mulher com quem conversei sobre o primeiro transporte. Ela confirmou o relato de Rena Kornreich Gelissen sobre o transporte de Poprad que aparecera em nosso livro, Irmãs em Auschwitz . Até então, eu não fazia ideia de que havia outras sobreviventes, pois as melhores amigas de Rena, Erna e Dina, já haviam falecido.

No entanto, Elena preferia permanecer anônima, e perdi contato com ela ao longo dos anos. Quando eu estava no processo de finalizar este livro, recebi um e-mail da filha de Elena e fotos de sua mãe com Bertha. Elas estão segurando livros escolares, como alunas do ensino médio que eram.

“Meu irmão e eu acreditávamos que nossa mãe sempre havia sido muito dura conosco, pois criticava nossas escolhas, nossas decisões”, diz a filha de Elena. “Às vezes, eu me referia a ela como ‘Dama de Ferro’. Finalmente, percebi que essa era a sua maneira de nos proteger e de nos guiar para uma vida melhor, com mais oportunidades. Não há dúvida do impacto causado pelos eventos traumáticos, que deram a ela a sua natureza prática e a sua visão de mundo temerária, e que a levavam a realçar a importância da família. Aos dezessete anos, ela foi a primeira a ser tirada de casa, sobreviveu aos horrores e privações dos campos e, após a libertação, descobriu que era a única sobrevivente de sua extensa família. Minha mãe estava sempre preocupada e aflita, mas conseguiu canalizar essa ansiedade para atividades produtivas, regulando a vida familiar e mantendo uma grande rede de amigos, todos sobreviventes e refugiados. Sempre senti que éramos diferentes, talvez até especiais, por causa das experiências traumáticas de meus pais e da perda de suas famílias. Eu li sobre traumas compartilhados ao longo de gerações, mas acredito que força e determinação para sobreviver também podem ser compartilhadas por gerações.”

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) não havia sido definido nem reconhecido nas décadas de 1940 e 1950, mas as sobreviventes, mesmo assim, foram vítimas dele. Joan Rosner Weintraub (nº 1188) nos oferece um relato pungente de como isso afetou o resto da sua vida. “Eu tenho medo de sombras. Se estou dirigindo um carro e um policial está atrás de mim, começo a tremer. Eu tenho medo de que ele esteja atrás de mim. Eu vejo um uniforme e morro de medo.”

“Parecemos normais, mas não somos”, diz Edith. Como poderiam ser? “Perdi a chance de ter uma educação, que foi o maior roubo que sofri na minha vida. Eu perdi minha saúde. Voltei com meu corpo alquebrado. Elsa voltou saudável, mas tinha medo de tudo. O medo a matou no final.”

O medo reside em Edith também. Ela apenas o esconde melhor. Normalmente. Basta um pequeno incidente para suscitar o pânico. A família de Edith refere-se a isso como “a história do cogumelo”, que ilustra o tipo de trauma contínuo sofrido pelos sobreviventes.

Alguns dias antes de Edith, Ladislav e seu filho saírem para visitar a família de Edith em Israel — para onde os Friedman emigraram na década de 1950 —, a TV noticiou que uma família havia saído para colher cogumelos em Israel e, involuntariamente, ingerira cogumelos venenosos. A família inteira morreu. Os nomes das vítimas não foram revelados. Após vários dias de viagem desde Praga, a família Grosman embarcou na balsa para a Terra Santa, mas, “quando chegamos ao cais”, lembra George, “não havia ninguém para nos receber. Minha mãe entrou em pânico. Ela perdeu o controle”.

Edith estava convencida de que a família que morrera no envenenamento por cogumelos era a família dela. Soluçando e histérica, ninguém conseguia acalmá-la. Ela tinha certeza de que sua família inteira havia morrido. “Então, todo o clã Friedman apareceu!”, George diz. Um pneu havia furado na estrada. Houve muita alegria e risos, mas o momento fora um lembrete do trauma que Edith e todas as mulheres sofreram, por mais que tentassem escondê-lo de seus filhos e entes queridos.

ESTOU EM TYLICZ, POLÔNIA, com os filhos de Erna e Fela Dranger (nº 1718 e nº 6030). Eles vieram de Israel para explorar a região e estão procurando reminiscências de sua família ou de quaisquer outros judeus em uma vila que agora é dominada por estações de esqui. Música pop norte-americana dos anos 1980 explode de alto-falantes de metal instalados nas colunas dos teleféricos que pontuam as pistas de esqui.

“Somos descendentes de sobreviventes muito especiais. Poucos seriam capazes de sobreviver naquele lugar por tanto tempo.” Avi é um homem alto e gentil, com olhos suaves e profundos. “Eu sei que, quando nasci, ela [Fela, sua mãe] teve um colapso nervoso.” Seus olhos se enchem de lágrimas. O primo mais velho estende a mão e lhe dá um tapinha na perna. Embora sejam primos de primeiro grau, são tão próximos quanto irmãos, porque Avi foi criado, durante os dois primeiros anos de sua vida, por sua tia Erna, enquanto sua mãe recuperava a sanidade. “Quando eu tinha quatorze anos, ela teve um segundo colapso.” Sua voz para por um instante. “Ela costumava sair correndo de casa para o saguão e gritar que as pessoas estavam vindo para bater nela e matá-la.”

“Minha mãe era mais forte”, diz Akiva, filho de Erna. “Nunca a vi se deixar abater ou chorar. Nunca.” Ela nunca contou a ninguém da família sobre sua experiência. Os filhos são, de fato, sobreviventes indiretos.

“Estávamos todas doentes”, confirma Edith. “Nós escapamos de lá, mas o dano que foi causado a nós, mentalmente, é muito maior do que as doenças que tivemos fisicamente. Nós nunca, nunca, nunca vamos nos livrar dos danos que eles causaram em nossos coração, mudando a forma como olhamos para o mundo e para as pessoas. Este foi o maior dano que a guerra trouxe para nós.”

A sobrevivência traz consigo uma complexa gama de emoções, justificativas psicológicas e suposições. “Nunca me senti culpada”, diz Rena Kornreich. “Por que eu deveria? Eu não fiz nada de errado. Eles fizeram! Eles são os culpados”. Contrariamente, Edith diz: “A culpa dos sobreviventes nunca desaparece.” Claro, Edith perdeu sua irmã, Lea. Rena, não.

“Não se passa um dia sem que eu pense em Lea. Tudo o que faço é por Lea. Sempre foi assim. Você não pode vê-la. Ninguém sabe que ela está aqui, mas ela está. Na minha mente, no meu coração, ela está sempre aqui.” Edith bate em seu peito frágil e balança a cabeça. Na luz que entra pela janela, juro que posso ver o espírito de Lea atrás de sua irmã.

A culpa pode ser o enigma do sobrevivente. Como bióloga, Edith soma lógica e ciência à questão da sobrevivência, perguntando: “E se eu sobrevivi por causa de alguma partícula no meu DNA que era diferente do da minha irmã? E se aquelas de nós que sobreviveram possuem um gene para a sobrevivência que as outras não?”.

Muitas sobreviventes parecem ter feito um acordo interno consigo mesmas. Rena se lembrava de tudo o que acontecia com ela para que pudesse contar à mãe algum dia. Quando ela soube que sua mãe havia sido assassinada no Holocausto, agarrou-se às lembranças para contar a alguém, algum dia, o que havia acontecido. Esse alguém acabou se tornando eu.

“Como eu poderia me lembrar de todos os pequenos incidentes?”, pergunta Joan Rosner Weintraub. “É humanamente impossível. Quantas surras? Fazíamos algo de que eles não gostavam e levávamos 25 chibatadas. Você pode sobreviver a 25 chibatadas? Eu vivo hoje apenas para minha filha e para os meus netos.” Para muitas dessas mulheres, são os filhos que dão sentido às suas vidas.

Os olhos de Avi se enchem de lágrimas novamente quando ele presta homenagem à mãe: “Temos muito orgulho de nossas mães, que são sobreviventes de uma situação muito difícil, e de todas as jovens que sobreviveram e das que não sobreviveram, que fizeram o melhor que podiam para manter a cabeça erguida. A prova do sucesso delas é terem tido tantos descendentes, tantos netos, bisnetos e trinetos”.

Ella Friedman Rutman (nº 1950) e sua irmã Edie Valo (nº 1949) retornaram à Eslováquia para encontrar cinco tios que haviam sobrevivido, os únicos na família. Elas moraram na Eslováquia por um tempo e depois se mudaram para o Canadá — o país —, onde Ella se tornou a babá dos filhos de Edie. “Eu nunca quis ter filhos”, diz Ella. “Quando eu estava no campo, sempre pensava que seria morta. No final, pensei que talvez fosse livre, mas que nunca teria filhos porque não quero que meus filhos passem pelo que passei.” Ela estava na casa dos trinta quando teve uma surpresa — uma filha. “A melhor surpresa da minha vida. Sem Rosette, não seria uma vida.”

A prima de Ella e Edie — outra Magda (nº 1087) — era a mãe de Donna Steinhorn. “Eu sabia que meus pais eram diferentes dos outros desde tenra idade”, diz Donna. “Isso sempre me fez querer protegê-los. Para que pudessem curar as feridas profundas que eles tentaram esconder de mim. Fiz tudo ao meu alcance para fazê-los felizes.” Do mesmo modo, as mães queriam fazer tudo ao seu alcance para tornar seus filhos felizes, nunca contando a eles o que acontecera no Holocausto. Embora alguns sobreviventes se sintam assim, uma criança que eu conheci ficou sabendo de tudo desde muito cedo. A história lhe era contada com tanta frequência que ela sofreu um trauma indireto. O genocídio não desaparece simplesmente. Assim como pode continuar a assombrar os sobreviventes, ele molda a vida daqueles que convivem com esses sobreviventes e os amam.

A mãe de Orna Tuckman, Marta F. Gregor (nº 1796), nunca falou sobre sua experiência. Então, em 2016, Orna iniciou uma jornada de autodescoberta que a levou para a Eslováquia e Auschwitz comigo. Nas cidades de onde as meninas haviam sido retiradas, visitamos as antigas sinagogas e prefeituras, procurando reminiscências das famílias antes de refazer a rota de trem de Poprad para Auschwitz, no trigésimo quinto aniversário do primeiro transporte. Estávamos no andar de cima do vasto espaço vazio que é hoje o Bloco 10, onde as meninas foram mantidas quando chegaram — e onde, posteriormente, foram realizadas experiências médicas de esterilização em mulheres —, quando Orna olhou em volta e confidenciou: “Acho que minha mãe foi esterilizada aqui. Eu sou adotada”. Orna só soube que havia sido adotada depois que sua mãe faleceu. Todas as mulheres que tinham sobrevivido com Marta mantiveram seu segredo.

Dentre todos, ter e criar filhos pode ter sido o maior ato de sobrevivência das meninas — e o seu melhor processo de cura. Estudantes de psicologia da Universidade Brown certa vez perguntaram a Rena o que ela fez depois da guerra para se recuperar mentalmente. “Eu tive filhos”, disse ela. Após um primeiro aborto espontâneo, o nascimento de sua filha, Sylvia, foi um milagre. Rena segurou a filha e, cheia de alegria, olhou para o marido e disse: “Eu amo você, John”. Então, ela olhou para o médico e as enfermeiras: “Eu amo você, doutor. Eu amo você, enfermeira. Eu amo o mundo inteiro, mesmo com os alemães nele”.

Nascimento. Criação. Esse era o poder delas. O seu legado de sobrevivência.

Não admira que Marta F. Gregor tenha adotado Orna.

SE A EXPERIÊNCIA DE MARTA F. morreu com ela, tornando-se uma das muitas histórias que nunca poderão ser totalmente descobertas, pela escrita e pela arte outras mulheres também encontraram significado para sua vida. Depois de emigrar para a França, Dina Dranger Vajda (nº 1528) casou-se com um famoso francês que lutara ao lado da resistência, Emil Vajda. Eles criaram em Provence o filho que tiveram. Dina mantinha à mão muitos cadernos para tomar notas — e escrevia copiosamente, principalmente em polonês ou em francês rudimentar. Em meio às suas reflexões, pintava aquarelas abstratas, perturbadoras, macabras.

O filho de Dina, Daniel Vajda, é extremamente próximo de seus primos em Israel, mas sente-se pouco conectado à experiência de sua mãe:

Você sabe que toda a minha família foi deportada, e houve

pouquíssimos sobreviventes. Após a deportação dela, eu me vi

totalmente isolado. Eu também era um imigrante na Terra. Mesmo no

Yad Vashem não encontrei muita coisa. Tentei redescobrir nomes em

diversas anotações que fiz. É realmente pouca coisa. Seria necessário

que essas anotações formassem um todo único. No entanto, não tive

coragem de fazer a pesquisa na minha juventude e, aos 68 anos de

idade, não tenho energia para fazê-la agora. 291

Matilda Hrabovecká, nascida Friedman (nº 1890), escreveu o livro Ruka s vytetovaným íslom (Braço com um número tatuado ) e foi tema do documentário e peça teatral La Derniere femme du Premiere Train (A última mulher do primeiro transporte ) — que, é claro, não foi ela. Matilda faleceu em 2015. Até agora, sabe-se de pelo menos seis mulheres que estavam no primeiro transporte e estão vivas até hoje. Pode haver outras.

Magda Hellinger, nascida Blau (Madge, nº 2318), que estava no segundo transporte, emigrou para a Austrália, onde publicou suas memórias. E, é claro, Rena Kornreich e eu escrevemos Irmãs em Auschwitz juntas — e, agora, Edith trabalhamos juntas no projeto deste livro e no de um documentário. Este livro, Edith me disse quando iniciamos o projeto, “deve ser sobre todas nós, não apenas sobre uma pessoa”. E assim ele é.

As sobreviventes eslovacas do primeiro e de outros transportes carregam um fardo pesado, difícil de entender agora. Ariela Neuman, filha de Eta Zimmerspitz (nº 1756), explica que, “em Israel, todos acusavam as eslovacas por elas terem sobrevivido”. Então, elas tendiam a ficar caladas e a não falar sobre sua experiência. “Quando elas falavam”, continua Ariela, “nós dizíamos: ‘Ah, não, Auschwitz de novo não’. Sentimo-nos culpados agora por não termos desejado ouvi-las falar sobre isso. E quase todas se foram, não podemos mais pedir para elas contarem.”

É por isso que o Instituto de História Visual e Educação USC Shoah é um banco de dados tão importante. As histórias estão lá, mesmo que não perfeitamente capturadas. Sobreviventes mais idosas tendem a não seguir uma linearidade temporal em seus relatos, e os entrevistadores frequentemente não fazem perguntas vitais sobre detalhes importantes, como: Qual era o seu nome de solteira? Qual era o seu número? Qual era o número dela? Em Auschwitz, seu número era como um calendário, pois indicava o dia em que você chegou, em qual transporte estava, quantas pessoas vieram com você e quantas foram para o gás. Sem um número, não podemos incluir sobreviventes ou não sobreviventes dentro do registro histórico que Danuta Czech compilou meticulosamente para nós na Crônica de Auschwitz .

OS RELACIONAMENTOS PÓSTUMOS trazem consigo um peso que é difícil de se imaginar para a maioria das pessoas. A filha de Andrew Hartmann, Susan Hartmann Schwartz, teria sido sobrinha de Nusi Hartmann. “Muitas vezes, o Holocausto é descrito dentro do contexto genérico de ‘6 milhões’ de vítimas”, escreve Susan. “Às vezes, eu penso: a minha tia estava no primeiro transporte. Nusi não era apenas uma desses 6 milhões, ou dos 1,5 milhão de crianças, ou mesmo das 999 daquele primeiro transporte. Ela era minha tia. Ela era irmã do meu pai. Ela era uma filha amada. Ela era uma pessoa — um ser humano. Nusi deve ter tido sonhos, como todas nós temos aos dezesseis anos. Seus pais não sabiam o que aquele primeiro transporte significava. Ela sabia? Aos dezesseis anos, quão assustada ela estava? Ela foi informada de algo pelos alemães? Em caso afirmativo, o que lhe disseram? Ela se relacionou com alguém daquele transporte além de sua prima Magduska? Alguém a ajudou a sentir menos medo? Eu não posso deixar de pensar nos ‘e se?’. E se ela fosse apenas um pouco mais velha? Ela poderia ter sobrevivido? Como teria sido nosso relacionamento se ela tivesse sobrevivido? Sinto falta de quem acho que Nusi teria sido.” Eu também.

Muitos sobreviventes acabaram recebendo uma restituição financeira do governo alemão. No entanto, eles tinham que se cadastrar para obter essa ajuda. Isso exigia seu número de identidade, documentação médica e uma descrição das suas experiências. Depois que uma sobrevivente faleceu, seus filhos descobriram um relatório médico que havia sido submetido à Alemanha para o recebimento da restituição. O laudo confirmava que um psiquiatra havia tratado dela, por causa de pensamentos suicidas e depressão. O marido mantivera o tratamento em segredo e seus filhos não sabiam dele.

Os sobreviventes que retornaram à Eslováquia e se estabeleceram no país após a guerra enfrentaram outra dificuldade: eles não podiam pedir as indenizações para os alemães como os sobreviventes no oeste. No caso de Edith, quando sua família escapou da Tchecoslováquia comunista, o prazo para a solicitação havia expirado. Como sobrevivente deficiente, ela tinha um caso sólido e foi ao tribunal buscar seus direitos. O tribunal alemão concordou que ela merecia a reparação, mas disse que não poderia mudar a lei. “É uma lei ruim” — a fala de sua mãe voltava para assombrá-la.

Quando a filha de Ida Newman Eigermann (nº 1930) preencheu os formulários para sua mãe, o oficial alemão disse: “Ninguém com um número tão baixo sobreviveu a Auschwitz!”. Mas elas sobreviveram. E, embora algumas tenham recebido a indenização, outras optaram por renunciar a ela (e à papelada e o aborrecimento envolvidos) ou — como Edith e Linda — não puderam solicitá-la porque estavam morando na Europa comunista. A compensação não era extravagante: equivalia a cerca de 0,32 dólares por hora de trabalho.

Peggy Kulik, nascida Friedman (nº 1019), diz: “Eles não nos compensaram pelo que levaram. Eles nos tiraram tudo. Eles não podem me pagar pelo que meu pai tinha, pelo que eu tinha. Não há dinheiro que compense as vidas que eles tiraram. Eu fiquei em um campo de concentração por 38 meses. Eles me pagaram pelo meu trabalho? Não. Eu nunca recebi um centavo”. E ela sofreu um aborto de gêmeos.

Muitas sobreviventes jamais retornaram a Auschwitz ou à Polônia. “Nossas mães nunca quiseram voltar para a Polônia”, diz Akiva Koren (filho de Erna Dranger). Outras, como Helena Citron e Bertha Berkowitz, organizavam viagens para lá com grupos de jovens. Não há nada como conhecer e falar com uma sobrevivente. Andar pelo campo com uma delas é ainda mais impactante. Esta foi a casa delas por quase três anos. Elas conhecem bem o lugar. Mas, para algumas, retornar seria demais. Há uma foto de Rena, tirada em 1990, em que ela está sob os dizeres Arbeit macht frei . Ela parece tão desesperada e perdida quanto deve ter se sentido no dia em que chegou a Auschwitz. Ela queria ir a Birkenau e entrar em uma câmara de gás para dizer o Kadish para seus pais, mas, à sombra do portão da morte, ela desabou. “Leve-me para casa”, ela implorou ao marido. Eles pegaram o próximo avião de volta para os Estados Unidos. Ela nunca voltou. Eu cuidei desse desejo para ela, em 2017.

Uma das perguntas que surgem repetidas vezes é: por que algumas mulheres sobreviveram e outras, não? Estar no lugar certo na hora certa, e não estar no lugar errado na hora errada, teve sua importância. Mas não há outra resposta senão “sorte”. E há problemas com essa resposta. “Como posso dizer que tive sorte e outra garota, não? Deus cuidou de mim e não dela? Não! Eu não era melhor do que elas, então por que eu deveria sobreviver?”, Rena Kornreich pergunta. Algumas dizem que era bashert — algo que deveria ser. Destino.

“Elas eram baixinhas!”, diz Lydia Marek, filha de Martha Mangel (nº 1741) e sobrinha das irmãs e primas Zimmerspitz. É ao mesmo tempo engraçado e chocante — pode ter sido por algo assim tão simples? “Minha mãe tinha 1,46 metro e todas as primas dela tinham menos de um metro e meio também”, explica Lydia. Não só seus corpos precisavam de menos comida como as meninas mais baixas também não perdiam peso tão rapidamente quanto as mais altas. Além disso, durante as seleções, as mais baixas não ficavam na linha de visão dos guardas, portanto, estariam menos propensas a chamar a atenção dos SS que selecionavam prisioneiras para o gás. Quanto mais baixa a menina, menos ameaçadora ela teria parecido também.

Obviamente, a baixa estatura não pode ter sido o único motivo de sobrevivência — havia doenças, violência, acidentes, geladuras e muitos outros perigos a superar. No entanto, o tamanho pode realmente ter sido um fator importante. Todos os filhos com os quais falei concordam — suas mães eram pessoas muito baixas. Rena costumava brincar que ela era a mais alta da família; ela tinha 1,58 metro.

Orna oferece uma perspectiva diferente. “Os laços entre essas mulheres eram inquebrantáveis. Todas elas se salvaram. Era a irmandade mais forte na hora mais sombria.” Fay Shapiro e Jeffrey Lautman concordam. “Eu chamava Bertha Berkowitz e minha mãe [Magda Friedman] de ‘irmãs de alma’”, escreve Fay em um e-mail. “Elas fizeram um pacto de que, se sobrevivessem, estariam lá uma para a outra em todas as ocasiões felizes — e estavam. Quando éramos crianças, íamos para Cleveland nos ônibus da Greyhound ou eles vinham de carro até Baltimore. [No momento em que nossas mães se encontravam], já se entrelaçavam pelos braços outra vez, ficando quase conectadas pelos cotovelos!”.

Do outro lado do mundo, na Austrália, a experiência de Orna foi bastante semelhante. “Mamãe teve sorte de manter contato com algumas mulheres com as quais vivera em Auschwitz. Sete delas moravam perto, em Melbourne. Elas se encontravam regularmente e, embora eu não estivesse a par do conteúdo exato de suas conversas (faladas em idiomas que eu não entendia), lembro que elas frequentemente acabavam falando sobre seu tempo em Auschwitz. Embora muitas vezes houvesse lágrimas, o que mais me impressiona até hoje é a frequência com que elas riam e riam sobre como haviam passado por cima da SS e sobrevivido. Mesmo criança, ficava fascinada por vê-las rindo, apesar do inferno por que passaram.”

Pode ser que rir sobre os campos seja algo exclusivo das mulheres que trabalharam no Canadá — Rena nunca falou sobre compartilhar histórias engraçadas com suas amigas. Edith tampouco. O Canadá era muito diferente — e, como as meninas que trabalhavam lá tinham talento para enganar os guardas da SS e, sob os seus narizes, roubar itens para dar às demais prisioneiras, seus atos de rebelião tornaram-se lembranças queridas. Quantas pessoas podem se gabar de ter surrupiado um roupão inserindo-o no próprio sapato, como Margie Becker fez?

O QUE RESTOU DO CANADÁ foi completamente incendiado há muito tempo. Apenas fileiras de alicerces de cimento permanecem no local onde ficava o depósito de ordenação e onde tantas sobreviventes trabalharam e lutaram para resistir. Onde as ruínas do Crematório 5 deveriam estar, agora existe terra aplanada. Nas proximidades fica a sauna, onde Ida Eigerman entrou furtivamente para tomar um banho.

Mirando a imensidão plana do Canadá, Tammy e Sharon — filhas de Ida — se perguntam em qual laje de cimento sua mãe dormia e onde ela trabalhava. Na sauna, lembram-se do banho que ela arriscou a vida para tomar. Olham para um memorial de fotografias na parede, e então um grupo de jovens estudantes suecos se aproxima de nós e o local de repente está cheio de vozes e rostos adolescentes.

“A mãe delas foi uma sobrevivente do primeiro transporte para Auschwitz”, digo aos professores. “Havia 297 adolescentes, assim como seus alunos.”

Imediatamente, os adolescentes cercam as irmãs. Entre os suecos loiros há refugiados africanos, que recebem abraços e choram enquanto as irmãs relatam a experiência de sua mãe, que escapou da opressão, tornou-se refugiada depois da guerra e emigrou para outro país.

Poucas horas depois, encontramos Orna Tuckman e a neta de Ida, Daniela, no Bloco 25, onde, em 1942, Bertha, Elena e Margie descartavam cadáveres. Onde Ella salvou Irena. Onde Edith chorou por Lea. Tradicionalmente, o Kadish — a oração judaica pelos mortos — exige dez homens. Nós somos um minyan de mulheres. Tomando as mãos uma das outras, começamos a oração. É uma oração para Lea Friedman, Magda Amster, Adela Gross, Magduska e Nusi Hartmann — para todas as jovens do primeiro transporte e de todos os transportes que pereceram aqui em Auschwitz.

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