As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Nota da Autora
“AGORA É TARDE DEMAIS”, diz Ruzena Gräber Knieža em alemão. Ouço um estralo na ligação telefônica. Meu marido, que está traduzindo para mim, encolhe os ombros. Na época, Ruzena era a única mulher ainda viva que fizera parte do primeiro comboio para Auschwitz e que eu havia encontrado. Era a prisioneira nº 1649. Alguns meses antes, ela estava disposta a ser entrevistada para um documentário que eu queria produzir sobre as primeiras garotas de Auschwitz; no entanto, minha própria saúde me impediu de voar para a Suíça para entrevistá-la. Agora, é ela quem está doente.
Tento explicar que meu principal interesse é falar com ela sobre a Eslováquia e como ela e as outras garotas foram recolhidas e traídas pelo seu próprio governo. Ela suspira e diz: “Não quero pensar em Auschwitz antes de morrer.”
Aos 92 anos de idade, podemos culpá-la?
Envio a ela um cartão de agradecimento e localizo seu testemunho no Instituto de História Visual e Educação USC Shoah. Está em alemão. Podemos traduzi-lo, mas o Instituto Shoah não fez as perguntas que eu queria fazer. Perguntas que surgiram em 1992 — há mais de vinte e cinco anos — desde que conheci e trabalhei com Rena Kornreich Gelissen, uma sobrevivente do primeiro transporte. Desde que escrevi Irmãs em Auschwitz
,* familiares de mulheres que estiveram no primeiro transporte têm entrado em contato comigo com mais histórias sobre suas primas, tias, mães e avós, e, com essas informações, mais questões foram levantadas. Eu filmei e gravei entrevistas com essas pessoas, mas, sem uma sobrevivente disposta a falar comigo — e sem uma família que me deixasse falar com ela —, essas perguntas nunca seriam respondidas. Eu entendo o desejo de proteger essas senhoras idosas; se você passou três anos no campo de concentração de Auschwitz e sobreviveu até os noventa anos, por que deveria pensar nesse inferno? Não quero machucar ninguém, especialmente essas mulheres incríveis, com perguntas dolorosas que ressuscitam fantasmas do passado.
Um ano após minha conversa com Ruzena, enviei um e-mail para famílias de segunda geração (2G) e perguntei se, no 75o aniversário do primeiro transporte, alguém gostaria de refazer a jornada entre a Eslováquia e Auschwitz que suas mães haviam feito. Muitas pessoas responderam com interesse, mas, no final, havia apenas um pequeno e íntimo grupo de três famílias: os filhos de Erna e Fela Dranger, de Israel (Avi e Akiva), a família de Ida Eigerman Newman, dos Estados Unidos (Tammy e Sharon, e os filhos de Tammy, Daniella e Jonathan) e a filha de Marta F. Gregor (Orna), da Austrália. Então, poucas semanas antes de nos encontrarmos, fiquei sabendo que Edith Friedman Grosman, de 92 anos (nº 1970), seria a convidada de honra da cerimônia dos 75 anos. Alguns dias depois, Edith e eu estávamos conversando pelo FaceTime. Imediatamente nos demos bem, e ela me disse que ficaria feliz em se encontrar comigo e a minha equipe de filmagem na Eslováquia. Duas semanas depois, estava em um quarto de hotel de estilo arquitetônico soviético, com paredes brancas gastas e decoração horrível, fazendo-lhe as perguntas que não soube fazer a Rena Kornreich (nº 1716) vinte e cinco anos antes.
Assim como Rena, Edith é vibrante, perspicaz e esperta. Uma mulher pequena que ilumina o ambiente. Nosso tempo juntas na Eslováquia foi um turbilhão que nos levou ao quartel onde ela e as outras meninas foram mantidas, assim como à estação de trem de onde foram deportadas. Na cerimônia dos 75 anos, conhecemos o presidente e o primeiro-ministro da Eslováquia, o embaixador de Israel no país e filhos de outros sobreviventes. Em uma poderosa homenagem repleta de lágrimas e abraços, o grupo de segunda geração com o qual eu estava viajando criou vínculos com famílias eslovacas de segunda geração. No final da semana, meu marido me disse: “Isso não é apenas um documentário. Você tem que escrever um livro.”
Escrever sobre Auschwitz não é fácil. Não é o tipo de projeto que se assume com tranquilidade, mas, com Edith ao meu lado, eu estava disposta a tentar. Este livro não seria um livro de memórias, no entanto. Seria sobre todas elas, ou sobre quantas eu pudesse encontrar e encaixar nessa história complexa. No Canadá, conheci outra sobrevivente, Ella Rutman (nº 1950), e voei para Toronto para reunir as duas sobreviventes. Edith e Ella se lembraram uma da outra, mas mesmo em idade avançada elas ainda pareciam desconfiadas. Enquanto conversavam em eslovaco, Edith lançou um olhar de dor para mim. Aquele não era o vínculo caloroso que eu imaginava — percebi que Edith não gostava de Ella quando estavam em Auschwitz. O encontro transcorria de modo estranho e distante, até que as duas senhoras começaram a olhar atentamente os números nos antebraços esquerdos. “Não consigo mais ver meu número, está tão desbotado...”, disse.
As lembranças vão se esvaindo também. Mas a verdade está lá, se você souber onde encontrá-la. Olhando para fotos antigas de Edith um dia, notei o rosto de Ruzena Gräber Knieža.
“Você conheceu Ruzena?”, perguntei. “Claro!”, Edith respondeu, como se eu tivesse feito a pergunta mais óbvia do mundo. “Éramos da mesma sala
na escola, e fomos bons amigos de Ruzena e de seu esposo, Emil Knieža, 1 depois da guerra. Ele era um escritor, como o meu marido. Costumávamos visitá-los na Suíça.”
Eu havia completado um círculo.
MUITAS DESSAS MULHERES SE CONHECIAM antes mesmo de Auschwitz: das cidades ou vilas das quais eram naturais, ou das escolas e sinagogas que frequentavam; contudo, nos testemunhos do Arquivo USC Shoah, é raro que alguém mencione o nome de solteira de uma garota. Às vezes, um sobrevivente menciona uma garota pelo apelido ou fornece a descrição física de uma amiga, portanto, pode ser difícil confirmar se os sobreviventes estão falando sobre alguém do primeiro transporte. O testemunho de Margie Becker (nº 1955) é uma das raridades em que os nomes completos das garotas com quem ela e Edith cresceram são quase sempre mencionados — e, por causa da fotografia da turma escolar, Edith conseguiu identificar a maioria dessas garotas. Nunca me ocorreu perguntar a Edith se ela conhecia Ruzena antes de eu vê-las juntas na foto da turma, porque o nome de Ruzena na lista de deportados a situa como originária de uma cidade diferente. Eu não sabia que ela havia morado em Humenné quando jovem. Se ao menos eu tivesse começado essa jornada quando elas ainda estavam todas vivas.
Enquanto eu trabalhava nas correções finais deste livro, um e-mail chegou:
Minha avó estava no primeiro comboio. Eu lembro das histórias que
ela contava para nós. Ela escreveu um relato sobre a deportação, mas
acabou jogando tudo fora, dizendo que ninguém acreditaria nela. A
primeira página de seu testemunho escrito sobreviveu e eu a tenho aqui
comigo. Seu nome era Kornelia (Nicha) Gelbova, da cidade eslovaca
de “Humenné”. Ela nasceu em 1918.
Segundos depois, abri um arquivo do Excel que criei com o nome de todas as meninas, contendo cidade natal e idade, e o nome de Kornelia Gelbova aparece na minha frente. Ela é o número 232 da lista original arquivada no Yad Vashem, em Jerusalém. Ainda mais extraordinário é que sua irmã é mencionada no testemunho de Ruzena Gräber Knieža. Elas estavam juntas em Ravensbrück. As duas estão na mesma página da lista em que também estão outras três meninas que você está prestes a conhecer muito bem: Edith e Lea Friedman e sua amiga Adela Gross. Nessa mesma página estão duas garotas que alguns de vocês já conhecem: Rena Kornreich e Erna Dranger.
Uma das minhas maiores preocupações ao escrever este livro foi a precisão. Preocupo-me constantemente em acertar as datas e a cronologia, e garantir que as narrativas tenham sido registradas com exatidão. Edith me garante que eu “não vou acertar tudo sempre. Ninguém pode fazer tudo certo. Isto é grande demais. Então, você não tem uma data, mas e daí? Aconteceu. É o suficiente”.
Eu só posso esperar que seja mesmo.
Esta história tem múltiplas narrativas. O cerne da narrativa vem de minhas entrevistas com testemunhas, sobreviventes e familiares, e dos depoimentos contidos no Arquivo USC Shoah. Memórias, literatura sobre o Holocausto e documentos históricos foram usados para contextualizar melhor essas histórias pessoais, bem como a atmosfera e a política da época. Meu objetivo é criar uma imagem o mais completa possível das meninas e jovens mulheres do primeiro transporte “oficial” de judeus para Auschwitz. Um dos dispositivos que usei para fazer isso foi a licença dramática. Quando você encontrar um diálogo entre aspas, pode ter certeza de que são citações diretas de entrevistas com sobreviventes ou testemunhas relatando conversas que tiveram ou ouviram. Em outros casos, para ilustrá-las melhor ou completar algumas cenas, usei travessões para indicar diálogos que criei; eu só fiz isso nos casos em que conversas ou discussões foram mencionadas em um testemunho, mas não foram detalhadas.
Sou profundamente grata a Edith Grosman e à sua família, bem como às famílias Gross, Gelissen e Brandel, que me aceitaram em seu núcleo e me trataram como um membro honorário. “Você é como uma prima nossa”, disse-me Edith em sua festa de aniversário de 94 anos. Ao seu redor estavam o filho, nora, netas, um bisneto e outro bisneto a caminho. É uma grande honra e privilégio fazer parte da história dessas mulheres, como sua defensora e cronista. Elas eram adolescentes quando foram enviadas para Auschwitz. Apenas algumas voltaram para casa. Terem conseguido sobreviver é um tributo às mulheres e meninas de todo o mundo. Esta é a sua história.
Também publicado no Brasil pela editora Universo dos Livros. (N.E.)
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