As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 36 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Trinta e um

 

16 DE SETEMBRO DE 1943

COMO SEMPRE, O CARTÃO DE LILLY É ALEGRE e cheio de fofocas que hoje não fazem muito sentido. Nomes de pessoas que se casaram, problemas de saúde, fuxicos. São indícios que revelam que a comunidade judaica no leste da Eslováquia ainda se mantinha, apesar do destino sombrio de muitos amigos e familiares. A fazenda Hartmann igualmente se mantinha, mas “estamos completamente sem ajuda”, escreve a mãe de Lenka. O serviço postal também não vinha sendo muito confiável. Duas cartas de Lenka, datadas de “15 de julho e 15 de agosto”, chegaram quase ao mesmo tempo. A censura agora era muito mais comum. Trechos recortados no meio ou nas laterais dos cartões-postais tornavam as mensagens obscuras. Mas uma frase ingênua — “Seu retorno é a nossa esperança” — passava com bastante frequência.

MAIS DE UMA GAROTA deve sua vida à dra. Manci Schwalbova. Mas outros médicos e enfermeiros judeus ajudaram as meninas também. A prisioneira polonesa Sara Bleich (nº 1966) havia conseguido um trabalho relativamente fácil nos lenços vermelhos, embora “separar trapos e roupas dos prisioneiros… fosse uma tarefa desagradável, pois as roupas vinham cheias de sangue e sujeira”. Como Ida antes dela, Sara contraiu tifo. O tratamento em 1943 era diferente do de 1942, no entanto. Sara foi autorizada a permanecer na enfermaria do hospital e já estava lá há cerca de três semanas quando “o diabo em pessoa” — um novo médico que havia chegado a Auschwitz no final de maio — atravessou a enfermaria, selecionando mulheres para o gás.

Uma das médicas pegou Sara pelo casaco, escondeu-a em um barril e jogou um cobertor por cima. “E, assim, ela salvou minha vida.” Sara foi

uma das primeiras garotas a escapar das garras do dr. Josef Mengele. 237 Sem essas médicas audaciosas e corajosas, que as escondiam dos assassinos em série que rondavam as enfermarias do hospital, pouquíssimas meninas ou mulheres teriam sobrevivido.

“Mengele era tão bonito que você não acreditaria que ele fazia coisas tão ruins”, diz Eta Zimmerspitz (nº 1956). “Havia um garoto jovem, ele o forçou a fazer sexo, e ficava assistindo. ” Um Frankenstein moderno que se deliciava em torturar e conduzir experimentos com homens, mulheres e gêmeos inocentes, Mengele era alguém que todos tentavam evitar. Mas algumas funcionárias, incluindo Ella (nº 1950) e sua irmã Edie (nº 1949), tinham que lidar com ele direta e regularmente.

As habilidades de secretariado de Ella e sua caligrafia legível chamaram a atenção imediata de Mengele, que a “promoveu” a escrevente da sauna, como era chamada a área onde os recém-chegados eram processados — revistados, desinfetados e (de 1943 em diante) tatuados. Seu trabalho era registrar os novos nomes e números das prisioneiras. Como escrevente do dr. Mengele, Ella seria lembrada constantemente da fragilidade da vida de todas as mulheres em Auschwitz; suas listas ordenadas e bem documentadas registravam o número de mulheres selecionadas para morrer ou para serem usadas em experimentos. Mais tarde, ela foi promovida, tornando-se uma das tatuadoras. Ella sempre fazia números “muito pequenos e bonitos” e tentava tatuar apenas a parte interna do braço das mulheres.

Ella não discute como lidou com o estresse de trabalhar com Mengele. Até sua irmã, Edie, que raramente fica sem palavras, gagueja ao lembrar-se dele. “Todo mundo tremia quando Mengele entrava [no escritório]. Eu não consigo nem descrever. Se você olhasse para ele, poderia ver a raiva. Você podia ver aquela escuridão… Um vazio sombrio. Terrível.”

Ria Hans (nº 1980) era uma das funcionárias que trabalhavam no hospital quando Mengele chegou ao campo. Ele a xingava e a importunava verbalmente, enquanto a forçava a aplicar nos Musselmen esqueléticos as injeções de fenol que os matariam. Edith diz que Ria foi pega tentando salvar a vida de uma mulher. “Seu castigo foi ser colocada por seis meses em uma cela no Bloco 11, na qual só conseguia ficar em pé.”

Anos mais tarde, quando os sobreviventes tiveram que solicitar indenizações formalmente ao governo alemão, um deles, que preferiu permanecer anônimo, escreveu sobre como o dr. Horst Schumann e o dr. Josef Mengele “realizaram testes injetando vírus em mim para ver como meu corpo era afetado, fato que eles observavam tirando meu sangue e me vendo sofrer. Não peguei a malária que eles injetaram, mas contraí febre tifoide e outras doenças das quais não sei os nomes. Esse período de seis meses é um borrão para mim porque eu estava doente a maior parte do tempo”.

NO DECORRER DE 1943, outras meninas do primeiro transporte que ainda trabalhavam ao ar livre também encontraram postos melhores. Um destacamento de lavanderia agora incluía Ruzena Gräber Knieža, Rena e Danka Kornreich e Dina Dranger, que haviam sido transferidas para o porão abaixo dos aposentos da equipe que trabalhava com a SS, onde viviam Lenka Hertzka e as outras funcionárias da secretaria. Separadas do resto da população do campo, as meninas nas salas de lavanderia e costura foram afastadas das perigosas epidemias que atormentavam a população carcerária em geral. Um horizonte de esperança apareceu em suas vidas sombrias. Entrar na lavanderia ou nos destacamentos de costura era o tipo de promoção que deveria ter encorajado qualidades como graça e bondade. Por isso, Ruzena Gräber ficou chocada quando, em um domingo à tarde, a mãe de uma das meninas entrou furtivamente no porão onde elas estavam descansando.

A pobre mulher caiu de joelhos e pegou as mãos da filha de 22 anos. “Estou trabalhando ao relento, cavando túmulos!”, ela lamentou.

Seu estado era lastimável. Trapos gastos pendiam de seu corpo. Ela estava coberta da sujeira pútrida de Birkenau. Revoltada, a filha, Theresa, encolheu-se e afastou-se da mulher esquelética, que ainda não era uma Musselman , mas certamente caminhava para o estado irreversível.

Ela gritou com a mãe.

— Quem sou eu para ajudá-la? Saia daqui antes que alguém a pegue e nós duas sejamos mortas!

E pôs a mãe para fora do bloco.

“Não sei se ela tinha a coragem ou algum modo de ajudá-la”, diz Ruzena, “mas vi como ela a tratou. Essa é uma imagem terrível em minha mente. Em circunstâncias normais, ela provavelmente seria uma pessoa perfeitamente agradável, para se ver o quão baixo os seres humanos podem chegar ou serem forçados a ir.”

AJUDAR OS OUTROS PODE TRAZER CONSEQUÊNCIAS. Rose (nº 1371) estava trabalhando na fazenda em Harmęże há mais de um ano e meio. Criando faisões e coelhos, cuidando das ninhadas e mantendo os terrenos limpos para as aves, ela se orgulhava de seu trabalho e se esforçava muito. Sua Kapo até a deixou no comando certa vez, em uma ocasião em que teve que se ausentar. Um dia, Rose visitou o hospital em Birkenau. Lá, uma das enfermeiras pediu a ela que levasse uma carta importante para Harmęże e a entregasse a outra prisioneira. Rose enfiou a carta no sapato, sem perceber que estava sendo observada por uma das espiãs da SS — uma mulher ucraniana que imediatamente a entregou. Quando Rose passou pelo portão, ouviu a temida SS gritar seu número.

— 1371, pare!

Rose congelou.

— Tire o sapato!

O bilhete era de uma integrante da resistência para outra. Rose foi imediatamente presa e jogada no Bloco Smierci , o Bloco 11, onde presas políticas, combatentes da resistência e fugitivas — como as irmãs Zimmerspitz — eram interrogadas, torturadas e geralmente executadas. Ela passaria meses em detenção e não seria libertada até outubro de 1944.

IRENA FEIN (Nº 1564) agora trabalhava com outras seis garotas, indo de

uma casa a outra prestar serviços para as esposas dos SS. 238 Às vezes, as meninas lavavam a roupa; às vezes, eram chamadas para limpar uma casa que havia sido recentemente desocupada pelas famílias da SS. Essas eram as melhores casas para se trabalhar porque, enquanto as guardas da SS estavam do lado de fora, Irena e as outras roubavam a comida que restara nas despensas. Quando você está morrendo de fome, tudo gira em torno da comida, e quase todas as prisioneiras condicionam a qualidade de um destacamento de trabalho à quantidade de comida que elas organizavam ou recebiam como recompensa.

Irena lembra-se de entrar em uma casa onde uma das esposas “estava cozinhando repolho crespo com batatas”. Quando as outras garotas saíram para lavar a roupa e limpar os quartos, a dona da casa perguntou a Irena: “Você poderia me ajudar a pendurar algumas cortinas?”.

“Ja, gnädige Frau . Sim, senhora.”

Irena subiu em uma escada e a mulher lhe passava as cortinas, que ela fixava nos suportes logo acima.

“Como é a vida no campo? Você é feliz lá?”, a mulher perguntou.

Irena hesitou. Como essa mulher podia realmente acreditar que ela era feliz em Auschwitz?

“Por favor, não pergunte.”

“Por que não? Tenho curiosidade de saber como é. Não temos permissão para visitar.”

“Eu não posso falar sobre isso.”

“Por que não?”

“Porque a senhora dirá ao seu marido e eu serei morta. Sinto muito”.

“Por quê? É tão ruim assim?”

Irena não respondeu. Ela terminou de prender a última dobra da cortina e desceu da escada. Esse era o tipo de conversa que poderia levar uma garota à câmara de gás, e a mulher alemã era ingênua demais para saber disso. A conversa entre elas foi uma revelação amarga. “Nem as esposas sabiam o que estava acontecendo lá”. Fora da casa, a poucos metros de distância, mulheres e crianças estavam sendo mortas com gás e incineradas. No entanto, essa mulher estava criando seus filhos e vivendo em um mundo onde o assassinato em massa não existia ou era justificado de tal maneira que não se considerava crime. Como alguém podia viver sob as nuvens de fumaça dos incineradores e não fazer ideia das atrocidades cometidas por seus maridos, os colegas dele e, em suma, pelo regime como um todo? Elas não sabiam porque eram inocentes ou porque não queriam acreditar na verdade diante de seus olhos?

A mulher não precisava agradecer, mas o fez. Irena não achou que o gesto fosse sincero, mas assentiu com um “bitte ” educado.

LENKA ESTAVA DE MUDANÇA e ela avisou sua família sobre o novo endereço. Como indicado nos cartões, ela agora residia em Nova Berlim. Essa pode ter sido uma área que os prisioneiros chamavam também de

Novos Blocos, 239 que passaram a abrigar as meninas da lavanderia em 1944. Lenka pode ter notado que suas mensagens estavam sendo censuradas e, de alguma forma, enviou um telegrama em 15 de outubro de 1943 para sua tia e tio:

Muito obrigada por suas palavras amorosas, que me causaram uma

grande alegria. Estou ansiosa pelo pacote que vocês mencionaram.

Podem simplesmente jogá-lo no trem. Enviem algo que não estrague

ou apodreça. Seria ótimo receber queijos, linguiças, salame, chucrute

ou sardinha enlatada. Vocês podem enviar sardinha de Portugal pelo

correio da UZ? Caso escrevam para minha tia, peçam ao papai que

escreva, porque não soube de nada dele. Lamento dizer que não

trabalhamos no mesmo local, mas sei que ela também escreverá para

vocês. Ouvi dizer que Nusi não visitou 240 Herz tete .

Lenka ainda estava tentando avisar-lhes da morte de Nusi, desta vez ao se referir a si mesma usando a palavra Herz, que também significa coração em eslovaco. A mensagem dela era clara.

Quase imediatamente, Lenka recebeu uma carta datilografada de Ernest Glattstein, que claramente estava buscando informações sobre sua própria família e vizinhos:

Ficaria muito grato se você puder me informar se minha irmã, Ilone

Grunwald, meu cunhado, Marcel Drody, meu tio Zeig Lefkovits e seu

filho Robert, com o dr. Kraus Bela — que morava na casa da frente —

estavam com Regina, Dundy, e se todos os mencionados acima

chegaram juntos com Nusi. 241

Suas perguntas sobre se os familiares estão com Nusi são a única maneira de ele descobrir o destino de seus entes queridos. Algumas linhas depois, ele menciona várias meninas do primeiro transporte: “Por favor, diga olá a todas as que conheço. Wachs Seri, Wahrmann Margit, Ella Friedman [nº 1950], Edie Friedman [nº 1949]”.

ERA DEZEMBRO quando um cartão-postal de Ellie e Kornelia Mandel — as irmãs que haviam viajado com Nusi e Magduska — chegou à fazenda dos Hartmann em Rožkovany. É uma das poucas cartas das quais não há cópia, mas o irmão de Magduska, Eugene, lembra-se de cada palavra:

Caro Sr. Hartmann,

Obrigado pelo pequeno pacote que recebi de vocês. Estamos bem.

Recebi correspondência da sua filha, Magduska, e sobrinha, Nusi, que

estão em * gan ‘edn.Elas estão bem. Elas pedem a vocês que visitem o

tio Kaddish com frequência. 242

Magduska estava morta. Bela ficou arrasada, Eugene, seu irmão mais novo, completamente desnorteado. Eles não disseram nada à mãe de Magduska. Todos se atormentavam de culpa. Eles haviam repreendido as meninas por não escreverem. O que Lenka deveria pensar deles? Ela sabia sobre Magduska? O cartão não mencionava mais nada, nem poderia. Há quanto tempo as meninas estavam mortas? Como elas morreram? Ninguém sabia. Sua vida e sua morte são um ponto de interrogação permanente que paira sobre a família até os dias de hoje, sem nenhuma resposta que possa surgir do ossuário que é Auschwitz.

.Significa “céu” em hebraico. (N.T.)

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