As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Trinta e Cinco
13 de julho de 1944
Cara Lenka — Nossa filha agora tem dois meses. Estamos bem.
Agora estamos aguardando sua visita, que planejamos há muito tempo.
Já temos uma casa em Spa Vlasky, simplesmente não sabemos quando
[vamos nos mudar]. Todo mundo está trabalhando na fazenda. Irma
[mãe de Magduska] está no hospital. Lisa frequentemente a visita lá.
Você recebeu nossos pacotes? Você está com saúde? Nós gostaríamos
de saber. Escreva! Não sabemos o endereço de Ella. Beijos…
de Lilly 257
SERIA O ÚLTIMO CARTÃO-POSTAL que Lenka receberia de sua irmã, datado de 13 de julho de 1944. À medida que o verão avançava, as deportações judaicas na Eslováquia voltaram a acontecer e até famílias portadoras de exceções estavam em perigo agora. A família Hartmann foi alertada por um policial local e fugiu da fazenda. A família de Lenka — sua irmã, Lilly, sua mãe, sobrinha e sobrinho — já havia se mudado para outra cidade. Não houve tempo para avisá-los de que os Hartmann estavam fugindo. Bela e Dula se separaram para formar dois grupos diferentes. O pai de Nusi, Dula, sua mãe e irmã mais nova foram pegos. Eles não sobreviveram. Os outros dois irmãos de Nusi, Bianca e Andrew Hartmann, foram resgatados por uma tia e um tio e levados para a floresta, onde se esconderam. “Esprememo-nos como sardinhas” em um abrigo subterrâneo com outros membros da família pelos próximos três meses e meio.
A esposa de Bela, Irma, estava agora no hospital e, de todos os membros da família, ela parecia ser a única que não estava em perigo — a SS não estava procurando judeus nas alas dos hospitais. Bela e Eugene (pai e irmão de Magduska) fugiram para as montanhas, onde se esconderam. Um padre da aldeia que “sabia onde todos estavam escondidos” pregava à sua congregação todos os domingos que era seu dever “‘alimentar os necessitados’. Ele nunca dizia ‘judeus’, mas todos sabiam o que ele queria dizer, e todos naquela vila ajudavam os judeus”, lembra Eugene.
Em Humenné, o primo de Adela, Lou Gross, que agora tinha seis anos de idade, foi acordado no meio da noite e levado para um campo de feno para se esconder. Ter “nascido em uma família privilegiada” e “agora fugir e ser caçado por algum inimigo invisível” era desconcertante, especialmente para uma criança pequena. Seu pai se juntara aos partisans para combater os nazistas. Enquanto isso, sua mãe cuidava da família, à qual conduziu para a segurança várias vezes, sempre um passo à frente do desastre.
À medida que a frente russa se aproximava da Eslováquia, atravessando a fronteira oriental da Polônia, os partisans eslovacos — judeus e não judeus, comunistas e não comunistas — continuavam lutando uma guerra secreta contra o regime de Tiso. Em 29 de agosto de 1944, eles iniciaram um movimento que ficou conhecido como Revolta Nacional Eslovaca. Em resposta, milhares de eslovacos abandonaram o exército de Tiso e se
juntaram aos 258 partisans .
O CAOS TOMOU CONTA DA ESLOVÁQUIA ORIENTAL. A violência na Frente oriental aumentou quando as tropas alemãs rechaçaram os partisans para as montanhas Tatra e para os Cárpatos, onde Ivan Rauchwerger e seus amigos haviam passado quase dois anos preparando cavernas para servir como bunkers e esconderijos. Jovens eslovacos e até garotas como Zuzana Sermer, ex-colega de classe de Edith, foram essenciais para viabilizar a invasão russa, porque conheciam as passagens entre as montanhas e porque podiam apresentar os soldados russos a simpatizantes eslovacos que estavam prontos para se juntar à ofensiva.
A resposta alemã à Revolta Nacional Eslovaca dirigiu-se imediatamente aos judeus. Aprovou-se uma lei proibindo que judeus morassem perto da fronteira oriental. Foi um esforço de última hora da parte de Tiso para realocar os judeus residentes a oeste de Poprad e “concentrá-los”, em preparação para sua própria Solução Final.
Vivendo sob a relativa proteção do governo eslovaco, Emmanuel Friedman ainda era considerado um trabalhador vital e continuava a consertar para-brisas de bombardeiros. Mas a ordem de realocação valia para todos, e Emmanuel não correria o risco de deixar seus outros filhos caírem nas mãos dos alemães. Quem sabia onde Edith e Lea estavam agora? A Revolta Nacional Eslovaca havia libertado uma área no centro do país. Os últimos judeus que ainda restavam em Humenné agora fugiam para lá. Em 5 de setembro de 1944, os Friedmans embarcaram em um trem com a família de Ladislav Grosman e seguiram para Ružomberok, na região de Liptov.
Ladislav ainda estava trabalhando em uma unidade militar judaica, “uniforme preto, sem armas”, e não estava em Humenné quando sua família foi obrigada a partir. As duas famílias, e várias outras famílias de Humenné, chegaram a Ružomberok como refugiadas e sem ideia do que fazer a seguir. Não havia comitê de boas-vindas. Tampouco a Cruz Vermelha.
De pé sob o toldo da estação de trem, a irmã mais nova de Edith, Ruthie, puxou a manga da mãe. “Estou com sede”, ela reclamou. Os Friedman foram a um café, onde podiam pedir conselhos aos moradores locais. Minutos após a família Friedman se afastar, os alemães bombardearam a estação. Vinte e dois membros da família de Ladislav Grosman morreram sob os escombros. Os Friedman foram salvos pela sede de Ruthie.
Os Friedman passaram os meses seguintes se escondendo nas montanhas com outras famílias judias. Embora mal tivesse entrado na adolescência, o irmão de Edith, Herman, juntou-se à luta dos partisans . “À noite, as crianças [Hilda, Ruthie e Ishtak] desciam às aldeias para pedir comida aos moradores, que sabiam que as crianças eram judias e queriam ajudá-las.”
DEPOIS QUE A ALEMANHA INVADIU A HUNGRIA, Giora Shpira e seu irmão juntaram-se novamente à sua família em Prešov. A família Shpira era pobre e vivia sob circunstâncias desesperadoras. Distante de sua filha Magda, o velho Adolf Amster abrigou a família Shpira. Em troca, Giora e seu irmão faziam todo o possível para ajudar os Amster, pois todos haviam sido forçados a se mudar para a região oeste da Eslováquia. Eles conseguiram evitar as últimas deportações naquele outono, mas, no inverno de 1945, ambas as famílias — como as famílias Hartmann e Gross — foram forçadas a se esconder em um bunker na floresta.
A revolta durou pouco e a resposta da SS e da Guarda Hlinka foi brutal. “Eles invadiam as aldeias acompanhados por fascistas locais, procurando mulheres que morassem sozinhas. A menos que a esposa pudesse provar que seu marido estava lutando no exército de Tiso ou que era um trabalhador contratado pela Alemanha, ela era interrogada, torturada e frequentemente morta”, lembra Ivan Rauchwerger. Depois, ele acrescenta, causticamente: “Os Waffen-SS eram um pouco menos cruéis. Geralmente, eles só matavam judeus, normalmente famílias inteiras e, é claro, os partisans . Testemunhei pessoalmente, em junho de 1945, a exumação de corpos, cerca de vinte, todos decompostos, muito perto de um campo de pouso militar nos arredores da minha cidade natal, Spišská Nová Ves. Havia cerca de vinte mulheres — todas das vilas próximas, muito angustiadas e chorando. Acredito que seus maridos — as vítimas — eram partisans ou apoiadores da revolta”.
“O exército normal, a Wehrmacht , seguia estritamente as regras. Eles atiravam nos partisans . No caso dos judeus, eles os prendiam e pediam aos fascistas eslovacos que assumissem o controle. Portanto, os judeus capturados entre outubro de 1944 e início de fevereiro de 1945 ainda podiam ser deportados para os campos alemães.”
Foi o que aconteceu com a mãe, a irmã e o resto da família de Ivan. Escondido nas montanhas e lutando com os partisans , ele não sabia que todos haviam sido pegos e deportados. Sua mãe, Eugenie, morreria em
Ravensbrück; sua irmã de dezesseis anos, Erika, sobreviveria. 259
Em uma última tentativa desesperada de livrar a Eslováquia de judeus, a Guarda Hlinka e as forças de segurança alemãs prenderiam todos os judeus que pudessem encontrar em setembro. Nos próximos dois meses, cerca de
12.600 judeus seriam deportados, “principalmente para Auschwitz”. 260 Como punição pela revolta, quase nenhum judeu eslovaco foi registrado no campo. Assim como os judeus húngaros, mais de 2 mil pessoas de cada vez eram executadas nas câmaras de gás.
OBSERVAR OS MILHARES de húngaros e pessoas de outras nacionalidades passando constantemente por elas como uma maré a caminho da câmara de gás causou mudanças em todas as meninas que trabalhavam no Canadá. Sua fé, até mesmo das mais devotas, desvanecia-se. Aquelas garotas, que sobreviveram no campo por dois anos, não oravam mais com tanta regularidade quanto no início. Quando chegou o Rosh Hashaná de 1944, ninguém mais do primeiro transporte jejuou no Yom Kipur. Mas as novatas, como Julia Birnbaum, aderiram ao jejum, e ela não estava sozinha. Ao pôr do sol no Yom Kipur, Julia dobrou o pedaço de pão no bolso do avental. Ela teria dois pedaços de pão no pôr do sol do dia
seguinte e abraçaria seu jejum pelo Senhor, seus pais e seu povo. 261
Com seu rosto adorável e suave, de ossos malares altos e arqueados, Julia ainda era uma mulher bonita quando prestou seu testemunho sobre o Shoá. Fechando os olhos, ela descreve uma cena que está claramente sendo exibida como um filme em sua mente. Sentadas em seus beliches naquela noite, as garotas que haviam decidido jejuar se prepararam com orações, balançando de um lado para o outro na tradição do “davening”. No meio das orações, o SS Franz Wunsch irrompeu no bloco. Ele ficou “furioso. Estava histérico”.
“Suas idiotas”, ele gritou com elas. “Vocês ainda acreditam? Vocês acreditam depois do que viram no fogo?”. Ele pegou o chicote e começou a bater nas garotas à “esquerda e direita”. Ele pegou os lenços da cabeça delas e os rasgou em pedaços. “Ele estava espumando. Não estava normal.” As meninas se jogaram no chão para evitar a surra e finalmente ele foi embora.
Helena sempre sustentou que o amor entre eles havia mudado Wunsch e amolecido seu coração em relação ao povo dela. Será que essa transformação havia sido idealizada por ela ou ele recebera ordem de punir quem fosse pego rezando naquela noite sagrada? Poucos meses depois de salvar a irmã de Helena, ele estava espancando garotas judias porque estavam orando e logo perpetraria outra atrocidade, que voltaria para assombrá-lo após a guerra. Seja qual fosse o contexto naquele Yom Kipur, Wunsch era um SS com um trabalho a fazer, e ser gentil com os judeus não fazia parte do cargo.
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