As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 29 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Quatro

 

Os laços entre essas mulheres eram inquebrantáveis. Elas foram

extraordinárias. Elas se salvaram umas às outras .

— ORNA TUCKMAN , filha de Marta F. Gregor (nº 1796)

EMOCIONAL E FISICAMENTE, servir no Leichenkommando seria uma tarefa difícil. As amigas de Bertha perguntavam a ela: “Por que você se disporia a fazer algo assim?”.

“Estou com medo do inverno”, explicou Bertha.

Era um medo justificável. No Leichenkommando , ela pelo menos não

era mais obrigada a sair para trabalhar do amanhecer ao anoitecer. Ela recebia uma porção dupla de comida e era poupada de ficar horas a fio em pé todas as manhãs e noites para a chamada. Por estar instalada no Bloco 27, que ficava próximo do hospital, ela tornou-se próxima da dra. Manci Schwalbova e das outras médicas judias. Todas ficavam de olho nas meninas que trabalhavam no Leichenkommando , porque era um trabalho de alto risco. Felizmente, um dos médicos da SS apaixonou-se por uma das médicas judias, e ela o convenceu a fornecer luvas para as meninas que lidavam com os cadáveres. Ela também o convenceu de que as meninas precisavam lavar as mãos com água e sabão, de modo que receberam permissão para usar o banheiro com água limpa para se lavarem. Depois de lidar com cadáveres contaminados o dia inteiro, isso era essencial para se manter a saúde.

Mas essas medidas de higiene não são a maior lembrança de Bertha. Depois de carregar mortos o dia todo, sentindo o resíduo oleoso da fumaça e das cinzas que caíam das chaminés do crematório e a poeira levantada pelos caminhões que transportavam os mortos para os crematórios, o que Bertha se recorda mesmo é de lavar o rosto com água limpa. “Você não tem ideia do que significa lavar o rosto.”

De alguma forma, Margie Becker (nº 1955) conseguiu apropriar-se de uma vasilha e enchê-la com água. Quando ela trouxe a vasilha para “casa”, escondeu-a, pensando que a usaria todos os dias para lavar as mãos e o rosto — tal a importância que ela dava para a sensação de limpeza. “Mas eu não tive coragem. As pessoas estavam morrendo de sede. [Eu] simplesmente não podia desperdiçar aquela água para lavar o rosto.” Ela deu a água para as menos afortunadas do bloco.

A rotina no Leichenkommando era muito diferente da dos demais destacamentos do campo. De manhã, antes da chamada, as Stubenmädchen — ou camareiras — empilhavam as garotas mortas no lado de fora de seus blocos, para que fosse contadas. Depois que todas as mulheres seguiam para os seus respectivos trabalhos, Bertha e as outras no Leichenkommando começavam a recolher os corpos e a levá-los para o Leichenhalle , um galpão atrás do Bloco 25 onde os cadáveres eram mantidos até os homens chegarem com caminhões para transportá-los aos crematórios.

O protocolo de registro das mortes de mulheres começou em agosto, pouco depois de as meninas terem sido transferidas para Birkenau. Um escrivão acompanhava o Leichenkommando em suas rondas diárias, anotando os números de registro das garotas mortas, para que pudessem ser removidos do registro do campo. Na chamada seguinte, a SS sabia exatamente quantas prisioneiras ainda viviam e trabalhavam no campo.

A retirada dos corpos daquelas que haviam se atirado aos fios durante a noite só podia ser feita depois que os destacamentos fossem organizados e saíssem do campo para trabalhar. Então, a eletricidade era desligada no interruptor principal. Tão logo fosse seguro, Bertha e as outras tinham que desdobrar os dedos, duros devido ao rigor mortis , fortemente agarrados, e libertar os corpos carbonizados dos fios. Muitos deles, pertencentes a amigas e companheiras de bloco.

Os corpos dessas vítimas de suicídio não eram maleáveis — pareciam marionetes grotescamente endurecidas. Não era possível acomodá-los direito nos carrinhos de mão. Braços e pernas enrijeciam-se em ângulos singulares. Embora o Talmud afirme que tirar a própria vida é contrário à tradição judaica, suicídios eram frequentes. “Perdi muitas amigas nos fios”, diz Linda Reich (nº 1173). Era difícil de testemunhar, mas, na verdade, ninguém culpava as meninas que escolhiam essa saída. Era uma das poucas maneiras que você tinha de retomar o controle de sua própria vida: decidindo sua própria morte.

QUANDO AS CÂMARAS DE GÁS enchiam e não podiam mais receber corpos, as doentes eram levadas para o Bloco 25, fortemente vigiado pela SS. Geralmente, era ocupado por meninas e mulheres doentes que não conseguiram lugar no hospital ou que haviam tentado se esconder em vez de ir trabalhar. O Bloco 25 — o bloco doente — era na verdade um bloco da morte.

Uma das partes mais difíceis do trabalho no Leichenkommando era encontrar os cadáveres de suas amigas e familiares — ou pior, encontrá-las morrendo no Bloco 25. Operárias de uma indústria da qual a morte era um subproduto, Bertha e as outras faziam o possível para respeitar suas amigas mortas. “Éramos muito cuidadosas com seus corpos. Pedia perdão à pessoa morta antes de jogá-la no caminhão que a levaria ao crematório”, conta Bertha. No começo, ela tentou se lembrar das datas em que os amigos morreram, pois, “caso eu sobrevivesse, seria capaz de dizer [às famílias] que data havia sido, para que pudessem honrar o aniversário da morte”.

Nem tudo o que as meninas do Leichenkommando fizeram foi admirável. Margie confessa que às vezes contrabandeava roupas de garotas mortas e trocava seus suéteres, meias e sapatos por pão ou margarina extras. Um dia, enquanto limpava as mortas no Bloco 25, Margie ouviu a voz de Klary Atles dentre as moribundas.

“Eu não tenho cobertor”, disse Klary quando Margie passou. Ela mal reconhecera a filha do rabino que tentara animar as meninas com sua fervorosa fé naqueles primeiros dias no campo. Olhando para Margie com doce compaixão, Klary sussurrou: “Que pena por não tê-la conhecido na nossa cidade”.

Embora a comunidade de Humenné fosse próxima, Klary e Margie eram de classes sociais diferentes e não tiveram muitas oportunidades de se conhecerem. Além da diferença de idade, os pais de Klary a tinham enviado para uma escola particular em Budapeste. Margie nem tinha terminado o ensino médio. “Éramos de mundos diferentes, você sabe, então eu não tive nada a ver com ela.” Elas agora eram iguais no vazio em que se encontravam. A morte não escolhe classe ou status.

Incapaz de salvar Klary, Margie só podia lhe dar o pouco que tinha; não um cobertor para mitigar os calafrios, mas a garantia de que ela também desejava que tivessem passado mais tempo juntas em liberdade e fossem amigas. Ela lhe deu um derradeiro conforto de conexão humana.

APÓS O TURNO DA MANHÃ, tendo acabado de recolher os mortos da noite anterior, as meninas do Leichenkommando almoçavam e ganhavam uma porção extra de pão com a sopa. Às duas horas da tarde, os homens chegavam em um caminhão na parte de trás do Bloco 25 para esvaziar o Leichenhalle . Enquanto os motoristas esperavam, as meninas pegavam os cadáveres que haviam recolhido e os acomodavam na caçamba do caminhão. Elas trabalhavam rapidamente. O Leichenhalle não era o tipo de lugar em que alguém quisesse ficar, mas sempre que encontravam uma de suas amigas entre as mortas, todas as meninas paravam para orar. “Pedíamos perdão e rezávamos o Kadish em ídiche antes que seus corpos fossem levados aos crematórios.”

O último turno ocorria no final do dia, quando as colunas de prisioneiros retornavam de seus destacamentos de trabalho. Os que haviam morrido, assassinados ou acidentalmente, eram deixados do lado de fora do portão para que seus números fossem registrados. Os corpos eram então transferidos diretamente para o crematório ou armazenados no Leichenhalle . As seleções ocorriam agora “o tempo todo”. “Ao entrarmos e ao sairmos, havia seleções para nós. Você não precisava ser alto. Você não precisava ser

legal. Quem eles queriam, eles levavam”. 202 Os homens da SS frequentemente selecionavam grupos inteiros de meninas saudáveis simplesmente porque tinham o poder de matar quem quisessem.

TRABALHAR NO Leichenkommando pode ter dado às meninas comida extra e permitido que elas escapassem das seleções, mas não as protegeu do tifo. O Bloco 25 estava repleto de doenças infecciosas e, embora elas tivessem acesso a água para se lavarem, os piolhos que transmitiam a doença se moviam também sob a cobertura do sono. Um dia, Margie passou por uma janela de vidro e viu seu reflexo. “Parecia que eu tinha duzentos anos. Eu parecia estar no ápice da velhice. Eu simplesmente não podia acreditar que era eu.”

Quando ela sucumbiu à febre e à náusea do tifo, as meninas do seu bloco a esconderam. “Eu lhes dei meu pão, é claro, porque não conseguia comer.” Felizmente, o trabalho que ela fazia a protegia e ela pôde se recuperar. Mais tarde, Margie retribuiu, ajudando aquelas que a haviam ajudado.

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