As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 30 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Cinco

 

 

Atualmente, o quartel está cheio de mulheres de várias nacionalidades,

há muita comoção, barulho e discussões. Lá estão elas — judias da

Polônia, Grécia, Eslováquia; há polonesas, ciganas morenas e croatas

baixinhas de pele escura. Elas não se entendem. Elas lutam por espaço,

cobertores, tigelas, um copo de água. Gritaria e xingamentos em línguas

estrangeiras são ouvidos constantemente. Não se pode pegar no sono aqui .

— 203 SEWERY NA SZMAGLEWSK A (nº 22090)

EM 1942, O DEPÓSITO DE ORGANIZAÇÃO ficava em Auschwitz I, ou

“campo mãe”, 204 e passara de um barracão para quatro. Estava “tão cheio de roupas de toda a Europa” que a SS tinha que expandir continuamente a área. Como os pacotes de roupas eram enviados para longe do campo, os prisioneiros começaram a se referir a esse destacamento como Canadá, um lugar longe dos conflitos da Europa devastada pela guerra. Um país ainda livre.

Depois que os homens entregavam a bagagem que haviam confiscado nos transportes, as meninas de lenços brancos e vermelhos abriam as malas e separavam os itens. Normalmente, as meninas dos lenços brancos cuidavam dos casacos. As meninas dos lenços vermelhos, de todo o resto.

Linda Reich (nº 1173), responsável pela organização de roupas íntimas, era conhecida por contrabandear até cinco pares de roupas íntimas por vez a Birkenau, para que as meninas que usavam vestidos pudessem manter um pouco de pudor e conforto. Ela distribuía o que podia para as meninas do bloco, mas “você sabe quantas coisas podíamos levar? Três — mesmo havendo milhares e milhares?”. Mas ela “dava a quem aparecesse”. A essa altura, o pão se tornara moeda de troca, e muitas meninas desesperadas trocariam voluntariamente suas refeições diárias por roupas de baixo. Linda era uma das raras garotas que não trocavam pão por outras necessidades. Outras não eram tão generosas — a menos, é claro, que se conhecessem da mesma cidade ou vila. O pão pode ter servido como moeda de troca, mas a amizade era a vida. Você precisava dos dois para sobreviver.

A TAXA DE MORTALIDADE de meninas e mulheres havia aumentado em Birkenau não apenas porque as condições eram perigosamente anti-higiênicas, mas porque toda semana uma ou duas grandes seleções aconteciam. “Esteja pronta amanhã de manhã na fila dos lenços brancos porque uma das meninas está morrendo”, disse a Helena Citron uma velha amiga, colocando um lenço branco em suas mãos. “Pela manhã, ela será posta do lado de fora.” Era o tipo da coisa que no mundo normal causaria tristeza; em Auschwitz, eram boas notícias, pelo menos para Helena.

Após a chamada, Helena prendeu o lenço branco sobre a cabeça e correu para onde as garotas do destacamento de organização estavam alinhadas. Algumas das meninas olharam na sua direção, mas ninguém disse nada. A garota que ela substituiu já era só uma lembrança.

Era uma marcha de três quilômetros de Birkenau a Auschwitz I. E, todas as manhãs, as meninas com lenços brancos e vermelhos atravessavam o portão e marchavam para o “campo mãe”, onde organizavam roupas e outros itens até o anoitecer; depois, marchavam os três quilômetros de volta a Birkenau. Prisioneiros do sexo masculino que trabalhavam no Canadá observavam que “todos os dias novas garotas substituíam as que haviam

desaparecido”. 205

Marchando em direção ao portão pela estrada que saía de Birkenau, Helena juntou-se às outras a tempo. De cabeça erguida, peito para fora, ela se parecia com as garotas a seu redor, exceto por um detalhe — ela usava os famigerados tamancos. Os tamancos eram um sinal claro de que ela não era uma das lenços brancos, e o barulho característico do calçado de madeira contra o solo atraiu a atenção da Kapo .

“Quem é você?”, perguntou Rita, a Kapo .

Helena mostrou a ela o número em seu braço.

— 1971.

— Você não pertence a este destacamento! Vou denunciá-la.

Os nervos de Helena se eletrizaram. Cada estampido de seus tamancos enviava um choque através de seus ossos e causava uma encarada da Kapo . Ao chegarem ao galpão de organização em Auschwitz I, as meninas foram contadas novamente e Rita ordenou que Helena a seguisse ao escritório do superintendente do destacamento, que estava sentado em sua mesa. Rita informou ao homem que a prisioneira 1971 havia entrado furtivamente no destacamento.

O SS-Unterscharführer Franz Wunsch explodiu. Ele culpou a Kapo por não ter enviado Helena de volta a Birkenau imediatamente e a acusou de não fazer seu trabalho.

Se alguém ouvisse os dois discutindo, “acharia que eu estava levando uma vida de prazeres”, diz Helena.

“Eu a descobri no caminho!”, Rita justificou.

“Como você a descobriu?”

“Ela está usando tamancos.” E apontou para os pés de Helena, cujo estômago embrulhou.

“Amanhã! Quero-a amanhã nos charcos!”.

Os charcos, onde Edith e Lea estavam sofrendo, rapidamente se tornaram a tarefa usada como punição, porque trabalhar na sujeira e no lodo onde corpos e as cinzas do crematório eram jogados deixava as meninas mortalmente doentes.

Helena foi enviada de volta às mesas de organização com a sentença de morte de Wunsch sobre a cabeça. As outras tiveram pena dela e gentilmente lhe mostraram o que fazer, sussurrando palavras de encorajamento e esperança para que ela não se perdesse em lágrimas. Em pé, frente a uma pilha de roupas, Helena sentiu o desespero preenchê-la, mas tentou se concentrar nas costuras e nas dobras dos casacos à sua frente. Como era possível que algo tão corriqueiro como um lenço poderia lhe custar a vida?

Tudo o que ela queria era trabalhar sob um teto, abrigada do vento, da chuva e da neve. Tudo o que ela queria era um trabalho em que só precisasse dobrar roupas, e não fazer tijolos, cavar argila, empurrar vagões no meio da lama ou atravessar as áreas alagadiças, condenada a uma morte lenta, mas certa. Ao seu redor, as meninas pegavam os pedaços de comida encontrados nos bolsos. Ela deveria se atrever a roubar alguma coisa? Ela já ia morrer mesmo. Ser condenada à morte duas vezes valia uma migalha extra de comida?

A manhã passou devagar. Helena encarou um buraco em uma das roupas que ela dobrara. Cabeça baixa. De propósito. Ela não ousava olhar para as garotas ao seu redor. Ao meio-dia chegaram as panelas de sopa e as meninas alinharam-se com suas tigelas vermelhas. E, aqui, a história se

divide em duas versões diferentes. 206 A primeira diz que era aniversário de Wunsch e Rita queria que alguém cantasse para ele. No entanto, Wunsch aniversariava no dia 21 de março, e, pelo testemunho da própria Helena e de outras testemunhas oculares, sabemos que ela se juntou às garotas de lenços brancos no outono de 1942. Então, o que realmente aconteceu?

Aqui propomos uma teoria possível: entreter a SS era uma das maneiras de as Kapos conseguirem favores. Assim, enquanto as meninas tomavam sua sopa, é possível que Rita tenha dito que estava procurando artistas para entreter Wunsch — ela precisava voltar às boas com ele, depois da surra verbal que recebera naquela manhã. Então, ela teria anunciado que precisava de garotas que pudessem cantar e dançar, e ordenou que elas comessem rapidamente para que pudessem ensaiar antes de surpreendê-lo em seu escritório. As amigas de Helena sabiam que ela tinha uma voz bonita e queriam ajudá-la a ficar no destacamento. Elas podem ter dito que Helena sabia cantar.

Rita olhou severamente para a nº 1971.

“Você sabe cantar?”

Os olhos de Helena permaneceram baixos.

“Não.”

“Cante”, as meninas ao seu redor sussurraram encorajadoramente.

“Você vai cantar!”, Rita exigiu.

E foi isso.

“Helena era muito bonita e tinha uma voz muito, muito agradável. Todos os Citron tinham”, lembra Edith. Levando-se em conta a adorável voz de Edith, isso é um grande elogio.

Helena aprendera uma música romântica com alguns judeus alemães e essa foi a música que ela decidiu cantar. Ela ficou de lado enquanto algumas garotas faziam o número de dança, e então houve silêncio. Helena pigarreou e começou a cantar suavemente a canção de amor que havia aprendido com as prisioneiras alemãs. O que era o amor neste lugar de morte? O que era a vida? Apesar de tudo, ela cantou com o coração. A derradeira nota pairou no ar. Segurando o turbilhão de lágrimas, ela tentou não tremer na frente do homem que ordenara sua morte no pântano.

“Wieder singen , cante novamente”, disse Wunsch, que então fez algo inédito. Ele disse: “Bitte? Por favor”.

Erguendo os olhos do chão, ela viu as insígnias no uniforme do homem e os seus botões de metal, tão polidos que refletiam o rosto dela. Ela não conseguiu responder.

“Por favor, cante a música novamente.”

Ela cantou.

Ao final do dia de trabalho, Helena dobrou o último casaco da pilha e suspirou. Era isso. A vida dela acabara. Uma sombra pairava sobre ela quando o SS-Unterscharführer passou. Um bilhete caiu-lhe entre os dedos.

Dizia Liebe . “Amor”.

Em seguida, ele ordenou a Rita que se certificasse de que a número 1971 estivesse no destacamento de organização no dia seguinte.

A ordem golpeou a cabeça de Helena como um chicote. A Kapo não podia fazer nada contra ela. Helena agora era uma das meninas de lenços brancos, quisesse ainda sê-lo ou não.

COMO A MAIORIA DOS SS, Wunsch era volátil e violento. Helena o temia e o odiava. Mas rejeitar um oficial da SS poderia resultar em algo muito pior do que aceitar seus galanteios: ele poderia mandar matá-la. Aterrorizada, Helena livrara-se do trabalho mortal nos charcos com outra sentença de morte sobre sua adorável cabeça. E agora começava o verdadeiro dilema.

“Eu preferia estar morta a me envolver com um homem da SS”, diz Helena. “Por muito tempo, houve apenas ódio. Eu nem conseguia olhar para ele.”

Um ano mais novo que Helena, o impetuoso Wunsch, com seu rosto de bebê e seus olhos emotivos, teria feito com que qualquer garota alemã se interessasse por ele. Depois de ser baleado na frente russa, foi transferido para Auschwitz e era facilmente reconhecido pelas meninas porque “tinha

uma perna mais curta que a outra” 207 e mancava.

Nas semanas seguintes, apenas uma ou duas palavras foram trocadas entre eles. Ele às vezes “me via com os olhos inchados porque haviam me batido muito ou me dito alguma coisa pior do que levar uma facada e perguntava: ‘O que aconteceu com você?’”.

Temerosa de que, se dissesse a ele quem a tinha espancado ou insultado, ele a culparia e a enviaria à câmara de gás, Helena nunca respondeu. Ele certamente não iria repreender uma SS ou uma Kapo por fazerem o que se esperava que ele próprio fizesse — ou por aquilo que ele de fato fazia com outros prisioneiros.

É de se imaginar o preço que as meninas teriam de pagar se rejeitassem os avanços sexuais dos homens — e mulheres — da SS. Provavelmente foram raras as que, de alguma forma, mantiveram sua graça, apesar da falta de cabelos e da magreza extrema. Porém, os resquícios de sua beleza podem ter trazido atenção indesejada e intenções inadequadas.

É um mistério o que aconteceu com a bela ruiva Adela Gross. Naquele outono, quando Adela apresentou-se aos deuses autoproclamados da SS durante uma das seleções em massa, o polegar de um dos homens votou contra ela. Aquilo não era uma democracia — um polegar contra você e sua vida tinha acabado. Mas por que ele escolheu Adela para o gás? Ela era jovem, ainda havia músculo em seu lindo corpo. Ela era saudável. “De acordo com o humor em que estavam, eles selecionavam grupos inteiros de

meninas saudáveis”. 208 Pode ter sido assim tão aleatório? Alguns SS se deleitavam em selecionar garotas bonitas e saudáveis para o gás. Ou é possível que ela tenha rejeitado os avanços de um SS e pagado o preço de não se deixar humilhar?

Rena Kornreich (nº 1716) nunca se esqueceu da visão que teve de Adela naquele dia, afastando-se orgulhosamente das meninas escolhidas para viver e indo para os caminhões já cheios de meninas condenadas à morte. Ela confortou algumas delas e ajudou as garotas fracas de medo e incapazes de se manterem em pé. Sua dignidade está alojada no coração e na memória de Rena para sempre.

Não sabemos qual era o número de Adela. Não sabemos em que dia ela morreu. “Foi logo no começo” de Birkenau, diz Edith, que não viu Adela ser selecionada. Havia milhares de meninas no campo e não havia como presenciar tudo. A sobrevivência era uma luta que consumia tudo. Um dia você percebia que não via uma amiga há algum tempo, e aí se dava conta. Ela estava lá e então ela se foi. “Como”, era impossível saber. “Onde”, todo mundo sabia. Levaria setenta anos para Lou Gross descobrir o que havia acontecido com sua prima Adela.

EMBORA A ESSA ALTURA muitas das garotas do primeiro transporte já tivessem tido a sorte de conseguir “trabalhos decentes”, Edith e Lea não estavam entre elas. Ambas continuavam a executar tarefas ao relento, como a limpeza de estradas e áreas alagadas. Seus pés estavam sempre gelados e sua pele, descascando. Então, a parte de baixo dos tamancos de Edith se desgastaram. “O que havia de sola tinha sumido, e eu andava sobre as pedras sem poder dizer nem um ‘ai!’ na frente da SS.” Desesperada, ela pediu a Helena que contrabandeasse um novo par de sapatos do destacamento de organização.

“Não sei como fazer isso”, disse Helena. “Tenho muito medo.”

Edith sugeriu a Helena que pedisse a um dos homens que pegasse para ela.

“Se eu fizer isso, depois da guerra ele me pedirá para casar com ele por causa dos seus sapatos!”.

“Essa era a Helena, se você quer saber”, diz Edith, balançando a cabeça em um leve sinal de desgosto. “Ela era tão focada em si mesma”. Ela recorreu então a Margie Becker.

Margie não apenas surrupiou sapatos para Edith e Lea como também lhes trouxe meias. No mundo real, sapatos podem parecer um conforto trivial, mas em Auschwitz eles podiam salvar sua vida. O trabalho no campo imediatamente se tornou mais suportável e seguro. Os pés de Edith e Lea agora estavam protegidos de detritos e cortes, e, com a ameaça do inverno tão próxima, estariam protegidos da neve e do frio congelante, que certamente causariam danos a quem ainda estivesse calçando seus tamancos barulhentos.

Mais e mais meninas eram selecionadas pela SS quando voltavam do trabalho à noite. Parados na entrada de Birkenau, os oficiais as observaram marchar e faziam escolhas baseadas nos menores defeitos. A crescente aleatoriedade das seleções era aterrorizante. Se a SS-Lagerführer Maria Mandel flagrasse alguma garota olhando para ela, a menina estava morta. Nenhuma das veteranas olhava para cima. Nenhuma recém-chegada sobreviveria se olhasse.

Mesmo se conseguisse atravessar o portão, você ainda não estava segura. Em uma determinada noite, uma garota do primeiro transporte estava simplesmente caminhando para o seu bloco quando um homem da SS gritou: “Você!”.

“Ela era saudável, mas eles não se importavam”, lembra Edith. “Eles pegavam as garotas que estivessem passando, só para cumprir a sua cota.” Havia uma cota? Sim. De fato, havia.

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