As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 33 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Oito

 

12 de dezembro de 1942

Cara Lenka. Provavelmente você [acabou de] receber meus cartões,

portanto eu represento todo mundo, e escrevo semanalmente. Todo

mundo está junto comigo nesta carta. Há hóspedes aqui com mais

frequência. Estamos com você em espírito, com todos vocês. [De]

Magduska esperamos ansiosamente que escreva. Mande notícias ao pai

dela o quanto antes. Estamos com saúde e bastante ocupados.

Atenciosamente, M [Mamã]

A SEDE DOS FUNCIONÁRIOS DA STABSGEBÄUdE era um grande prédio de tijolos brancos de três andares nos arredores de Auschwitz I. Atrás do prédio, havia a cozinha e uma fábrica de macarrão. Ambos os edifícios, abandonados e vazios, ainda estão lá hoje em dia. Suas janelas quebradas dão para uma extensão plana que uma vez se chamava Trockenplatz , o local de secagem da lavanderia da SS. Hoje, os alojamentos da SS são usados como uma escola secundária, cheia de adolescentes subindo e descendo as escadas. Naquela época, nossas meninas subiam aquelas mesmas escadas sob circunstâncias muito diferentes.

O porão do prédio tinha uma lavanderia completa, instalações de costura e dormitórios cheios de beliches onde dormiam as meninas que trabalhavam nesses destacamentos, além das responsáveis pela secretaria. Era aqui que Lenka Hertzka recebia os cartões da fazenda Hartmann e lia com carinho sobre seu sobrinho, irmã e mãe. Milan, de 8 anos, escreveu para dizer que receber um cartão dela era o melhor presente de seu aniversário. Ele só queria que Magduska escrevesse também. Aos 8 anos de idade, ele sentia falta da adolescente introvertida de olhos escuros e de sua prima Nusi. Ele provavelmente escutava os membros da família discutindo a ausência das meninas quando se reuniam ao final dos longos dias de trabalho. Um cartão de festas da mãe de Lenka menciona que a família havia enviado 250

coroas para as adolescentes, assim como para Lenka. 218 Quem envia dinheiro para Auschwitz? Eles devem ter imaginado que as meninas poderiam gastá-lo em alguma lanchonete no campo, como qualquer outro funcionário regular do governo.

É claro que a família não tinha ideia do tipo de lugar a que Lenka e suas meninas tinham ido. O equívoco mais comum era achar que todas estavam juntas, como o presidente Tiso havia prometido. Eles imaginavam Lenka trabalhando em estreita colaboração com suas primas e reunindo-se com elas em uma lanchonete durante as refeições. Os cartões de Lenka enviados para casa não podiam revelar a triste verdade, e Magduska e Nusi nunca escreveram. Enquanto isso, familiares e amigos que ouviram que Lenka enviava correspondência de Birkenau começaram a escrever para ela também.

“[Nossa mãe] me deu a notícia de que você está aí com muitos de nossos familiares; portanto, seja gentil e, por favor, escreva-me dizendo se você já encontrou Aliska, Renka, Markus B. e outros parentes”, escreveu o irmão de Lenka, Herman.

O que eles estão fazendo? Estão com saúde? Josef Erdie também

esteve aí, mas provavelmente já foi embora; nós ficamos sabendo disso

ontem pelo primo Robert, que está trabalhando na marcenaria. Ele

escreveu para dizer que está muito bem e que gostaria de saber onde

está a esposa dele… Você deve dizer a Magduska que Mark já está

casado. Muito amor e beijos.

Herman Hertzka 219

Na passagem sobre o primo Robert ter escrito a Herman para contar à família que Josef Erdie “já tinha ido embora”, provavelmente temos linguagem codificada para relatar que ele havia sido morto na câmara de gás. No entanto, se o primo Robert tivesse acabado de chegar ao campo e não conhecesse a situação real, talvez tenha realmente acreditado que Josef Erdie havia sido transferido para outro lugar. O fato de ele estar se perguntando sobre sua esposa pode significar que ele ainda não tinha ideia.

O bilhete de Herman menciona um certo Mark, garoto de quem Magduska deve ter gostado e que agora era casado. Em Auschwitz, ela não poderia esperar nem por um beijo, quanto mais um futuro amor. A notícia poderia partir seu coração se Lenka a compartilhasse, mas aparentemente Lenka ainda não tinha visto as meninas. Não há menção a Magduska ou Nusi em nenhuma das primeiras cartas de Lenka. Elas certamente não estavam na Stabsgebäude com ela.

A família Hartmann ficou intrigada. Magduska e Nusi já estavam “trabalhando” em Auschwitz há meses antes da chegada de sua prima mais velha. Será que elas estavam realmente tão ocupadas que não tinham tempo de escrever para a família?

1 de janeiro de 1943

Cara Lenka,

Recebi seus cartões de parabéns, muito obrigada. Tudo vai bem.

Também enchemos as botas de Milan [como uma meia de Natal].

Desta vez, eu também estou representando a todos. Você certamente

recebeu nosso cartão de Rožkovany. As meninas [Magduska e Nusi]

devem seguir o seu bom exemplo. Ampare-as com ele. Também

enviamos dinheiro para Magduska. Cumprimentos e abraços calorosos

a todos.

Mamã 220

Isolada na fazenda da família na pequena vila de Rožkovany, a família Hartmann parecia viver em um ambiente de semi-ingenuidade, temporária. Eles deviam saber que transportes com famílias inteiras estavam partindo de Prešov, mas, escondidos na área rural, estavam protegidos das duras cenas que as pessoas nas cidades testemunhavam. No entanto, eles devem ter ouvido falar sobre os ajuntamentos, principalmente porque muitos de seus próprios familiares haviam deixado Prešov e agora viviam e ajudavam na fazenda. Os Hartmann forneciam alimentos essenciais para o povo e o exército eslovacos, mas ainda não podiam contratar não judeus. Eles precisavam de ajuda da família; em troca, havia comida na mesa. Compartilhando a sua abundância, os irmãos Hartmann enviavam pacotes de queijo de cabra e outros itens não perecíveis para as filhas, bem como para as amigas das meninas, Ellie e Kornelia Mandel, que estavam no primeiro transporte com Magduska e Nusi.

ERA DE CONHECIMENTO GERAL das meninas que só se saía do Bloco 25 morta, carregada em uma maca ou em um carrinho de mão, para depois ser jogada no caminhão em direção às câmaras de gás. As únicas prisioneiras com acesso livre ao Bloco 25 eram a escrevente do campo e as que faziam parte do Leichenkommando . Para garantir a segurança do bloco, aquelas que podiam entrar e sair usavam braçadeiras especiais.

A dra. Manci Schwalbova trabalhava com outras pessoas para trocar as etiquetas de meninas doentes que poderiam se recuperar “por etiquetas de mulheres que já haviam morrido no campo, apenas porque os números tinham que bater”. Ella (nº 1950) nunca detalha sua participação nesse tipo de atividade, mas, como escrevente, ela era uma das poucas mulheres com as quais a dra. Schwalbova poderia ter trabalhado para alterar números. Aos 95 anos, sua constituição é frágil, mas ela ainda tem momentos de lucidez. Quando questionada, ela admite: “Eu salvei algumas”. Irena Fein (nº 1564) foi uma delas.

Irena estava com queimaduras de gelo nos dedos dos pés e foi enviada para o Bloco 25 porque estava mancando. Parada do lado de fora para evitar os doentes contagiosos e moribundos, ela estava tentando descobrir uma maneira de escapar quando Bertha, Margie e o resto do Leichenkommando faziam sua visita diária. Margie reconheceu Irena de Humenné e viu a situação em que ela estava. Ella também reconheceu Irena porque, segundo Irena, Ella havia sido supervisora do seu bloco em Auschwitz I. Ter estado no primeiro transporte criou um vínculo especial entre essas mulheres. Elas não poderiam ter salvado Irena se ela estivesse gravemente doente, mas ela estava saudável. Apenas mancava um pouco. Como era tarefa de Ella anotar as recém-chegadas no livro-razão do Bloco 25, ela também estava em posição de não anotar os números.

Ella “tinha um cadáver [extra]”, diz Irena, “então elas trouxeram o cadáver e me livraram”.

Manipulando os cartões de arquivo, Ella substituiu o número de Irena pelo da menina morta. Agora elas tinham que livrar Irena. Quando elas estavam prestes a remover um corpo, Irena agarrou a maca e partiu com elas.

“Ninguém disse nada, é claro”, diz Bertha. E a SS não notou a garota extra removendo o corpo na maca.

Irena ajudou as outras a depositar o corpo na caçamba do caminhão, mas agora enfrentava outra situação difícil. Ela precisava de tempo para se recuperar sem ser vista pela SS ou relatada. Ella a enviou para o seu próprio bloco, onde sua irmã, Edie (nº 1949), era a secretária. Responsável por contar as meninas do bloco e relatar quantas saíram para trabalhar e quantas ficaram para trás, Edie explica: “Eu tinha que fornecer o relatório, mas era só isso”. Nada era tão simples em Auschwitz, mas pelo menos Edie poderia ajudar as meninas, se ela quisesse. Irena tinha um lugar seguro para se esconder até que conseguisse andar novamente. Havia ainda mais um problema. Seus dedos mindinhos estavam pretos de gangrena.

A amputação transmetatarsiana 221 não é uma cirurgia complicada, mas como Irena soube o que fazer? Ela foi instruída por uma das médicas? É improvável, porque ela não usou instrumentos cirúrgicos. Em vez disso, sob a cobertura da noite, ela esgueirou-se para fora depois do toque de recolher e vasculhou a área em busca de cacos de vidro. Quando encontrou um pedaço grande o suficiente para manusear, ela mordeu um pedaço de pano para evitar gritar de dor e começou a remover o tecido podre e necrosado dos dedos gangrenados de seus pés. Ela então enfaixou as feridas com jornal para que pudessem cicatrizar.

Algumas semanas depois, quando Irena saiu para trabalhar com seus tamancos, ela ainda estava com os pés embrulhados em jornal. O SS Anton Taube era um assassino notório e brutal que se deliciava em obrigar as prisioneiras a fazer ginástica na lama e depois matá-las pisoteando seus crânios. Ele a parou quase imediatamente.

“Número 1564, o que você está escondendo?”.

“Eu estava com coceira e me arranhei, então improvisei um curativo de papel”, Irena mentiu.

“Se não estiver curada até a próxima seleção, você vai para a chaminé!”, ele disse.

Alguns minutos depois, a SS Dreschler viu Irena com o curativo e usou sua chibata para empurrá-la para fora da chamada e levá-la à câmara de gás.

Irena mostrou o seu número, esperando que os dígitos baixos a ajudassem. “SS Taube me disse que irei na próxima vez, se não me curar. Mas agora, não!”.

A horrível boca de Dreschler se curvou e soltou um rosnado, mas ela deixou Irena na fila.

Uma coisa era certa: Irena precisava que uma das meninas dos destacamentos de organização contrabandeasse sapatos para proteger seus pés não apenas dos elementos externos, mas também dos olhares indiscretos da SS. De alguma forma, ela conseguiu um par de botas. Até a menor gentileza pode mudar a vida de alguém, ou mudar até mais de uma vida. Será que isso também era, como Margie Becker acreditava, bashert , destino? Se sim, a sobrevivência de Irena ajudaria Edith a sobreviver também.

PARA AQUELAS QUE ERAM CAPAZES de mantê-lo, o senso de moral ajudava a fortalecer o espírito diante do horror. Garotas como Bertha se apegavam à convicção espiritual de que ter uma boa posição lhes fornecia a graça de ajudar outras meninas sempre que possível. Às vezes, isso significava dar às meninas porções extras de pão, para que pudessem trocá-las por pomada para suas feridas. Às vezes, significava dar pão extra aos homens que dirigiam os caminhões para os crematórios porque estavam com fome. Às vezes, significava oferecer conforto e apoio. Às vezes, significava entregar algo de si.

Com tantas mulheres desesperadas e em necessidade, ajudar todas era impossível. Você tinha um núcleo de amigas em que se concentrava, mas, às vezes, alguma desconhecida entrava na sua esfera sem ser chamada. Então, sua mão se tornava a mão de Deus. Quantas funcionárias fizeram algo que ajudou alguém inesperado? É de se esperar que todas tenham feito, mas, com milhares agora precisando de ajuda, as pequenas boas ações de algumas eram engolidas pela indiferença de muitas.

SEM SUA IRMÃ, Edith caiu em um mar de desespero. Questionamentos sobre a morte de sua irmã a assombravam e a arrastavam para os domínios de uma vida sem sentido. Por que ela ainda estava viva, mas a irmã não? “Minha irmã foi capaz de me salvar, mas eu não fui capaz de salvá-la. Então, eu a perdi. Eu não posso descrever isso. É demais para lembrar. Eu era a mais nova. Eu era a mais fraca. E ainda estou aqui.” Não fazia sentido, mas nada em Auschwitz fazia sentido.

Era difícil acordar de manhã, difícil ficar em pé obedientemente na chamada, difícil comer, difícil viver. Era tão fácil morrer em Auschwitz. A morte estava sempre ao alcance — nos fios elétricos, nos guardas, nos cachorros, nos chicotes, nos piolhos, nas câmaras de gás. Tudo o que ela precisava fazer era sair da linha para levar um tiro. Mas Edith não tinha o desejo de morrer. “Eu digo a você, amei minha irmã, amei-a muito, estava com ela e fiquei a seu lado o máximo que pude. Mas eu sentia culpa por estar viva? Não. Estava feliz por ainda estar viva. Essa é a verdade. Às vezes você diz: que espírito restava nos sobreviventes? Eu não acredito que Deus tenha algo a ver com o Holocausto. Não acredito que Deus exista como pessoa. Mas acredito nos sobreviventes.”

Algum mecanismo interno acendeu-se e a mantinha ativa, mas ela precisava de algo mais do que força de vontade. Ela precisava de companhia. Elsa Rosenthal tornou-se a “irmã Lagerstrasse ” de Edith, um termo que as prisioneiras usavam para descrever relacionamentos que eram tão próximos e íntimos quanto os proporcionados por laços de sangue — porque ninguém sobreviveu a Auschwitz por conta própria.

Margie Becker conta a história de suas primas: uma foi selecionada pela SS e a outra, deixada para viver. As irmãs Benovicova haviam sido autorizadas a morrer juntas, mas agora o “sadismo era tão grande” que a SS muitas vezes separava os membros de uma mesma família, levando um para o gás e permitindo a outro que vivesse. Ambas as primas de Margie eram saudáveis, mas, por capricho da SS, a mais nova foi escolhida para morrer “por nenhuma razão óbvia, apenas crueldade”. Do outro lado da cerca, enquanto sua irmã mais nova ainda esperava para subir nos caminhões e ser transportada para as câmaras de gás, a irmã mais velha correu até Margie.

“Vamos ser irmãs”, ela implorou.

Perder uma irmã era como perder um membro ou um órgão vital. Irmãs ofereciam umas às outras não apenas apoio físico, mas um profundo vínculo espiritual, uma conexão de alma. Oriundas da mesma raiz, as irmãs eram flores do mesmo caule. Você não poderia sobreviver ao vórtice do mal que era Auschwitz sem alguém para lhe fornecer uma âncora espiritual.

Margie entendia isso. No momento em que sua prima distante implorou para ser sua irmã Lagerstrasse , ela concordou. Elsa fez o mesmo por Edith. Qual era o propósito de viver sem Lea? Elsa precisava que Edith sobrevivesse. Ela fez com que Edith continuasse indo trabalhar com as demais lenços brancos. Ela dormia ao lado dela e impedia que as correntes frias de desespero a levassem para longe. Ela enxugava as lágrimas que escorriam pelas bochechas de Edith. Ela fazia Edith comer. Encorajava-a a levantar-se e ficar em posição de sentido na chamada. Ela lembrava a Edith que, se ela desistisse, as duas morreriam.

— Não posso sobreviver sem você — Elsa disse a ela.

A compaixão e a asseveração constante funcionaram. De algum lugar lá no fundo, Edith encontrou coragem para viver. Então, ela achou outra razão.

AS MENINAS DO DESTACAMENTO DE ORGANIZAÇÃO usavam uma espécie de avental ou jaleco agora. Todas as manhãs, elas vestiam seus aventais, que, como seus uniformes, tinham os seus respectivos números e as estrelas amarelas. Enquanto separava os artefatos de um transporte de judeus belgas, Edith sentiu algo na bainha de um casaco de caxemira preto. A princípio, ela ignorou. Então, pensou: E se for algo valioso que eu possa contrabandear? Ela rasgou a costura e sacudiu uma caixa fina que estava no forro do casaco. Não havia ninguém da SS por perto, então ela rapidamente abriu a tampa e espiou o interior. “Diamantes enormes, já cortados”, brilharam no escuro das dobras do casaco. O coração dela disparou. Eles “valiam milhões, com certeza”. Se ela fosse pega apenas olhando para eles, seria mandada para o gás, mas se conseguisse levá-los clandestinamente para a resistência, talvez pudesse vingar a morte de Lea. O objeto encaixava-se perfeitamente no bolso de seu avental e não causava a menor protuberância.

Era um sábado, o último dia da semana de trabalho. No final do dia, Helena reapareceu de trás dos montes de roupas, onde passava a maior parte dos dias com o SS Wunsch. “Ela não precisava mais trabalhar”, diz Edith, embora ainda precisasse entrar em formação e ser contada antes de retornar a Birkenau. Antes de serem contadas, o SS ordenou que pendurassem seus aventais nos ganchos, pois ficariam por lá durante o fim de semana. O novo protocolo surpreendeu as prisioneiras, que tinham depositado nos bolsos itens roubados que planejavam trocar no campo por pão ou outras necessidades.

— A partir de agora, todos os aventais permanecerão aqui! — um dos homens da SS anunciou.

Era uma medida preventiva para evitar roubos e também o contágio.

Edith tentou manter as mãos firmes quando pendurou o avental, mas não conseguiu recuperar a caixa. A resistência teria que esperar até segunda-feira. Ela deixou os diamantes para trás.

No dia seguinte, ao meio-dia, quando os homens chegaram carregando os caldeirões para o almoço, um deles sussurrou para Edith: “Os SS checaram seu jaleco e encontraram seus diamantes. Eles vão lhe fazer perguntas com certeza”.

Edith tremia como uma folha ao vento. O que ela ia fazer? Ser pega roubando qualquer coisa, até mesmo uma batata, era punível com 25 chibatadas. Ser pega com diamantes? Como ela podia ter sido tão estúpida? Não obstante a sua ingenuidade juvenil, porém, Edith havia herdado a esperteza da mãe; ela era astuciosamente inteligente e possuía uma mente analítica. O homem a avisara por um motivo. Ela precisava agora de uma história em que a SS acreditasse.

A manhã de segunda-feira chegou. Marchando para o trabalho, Edith sentia a perna esquerda se arrastar com uma forte sensação de pavor. Do lado de fora do bloco de organização, as mulheres foram forçadas a se alinhar e esperar pelo interrogatório. Até Helena. O oficial que as interrogaria não seria o SS Wunsch, mas seu superior, SS Ambros. Os números das meninas foram chamados um de cada vez, e elas tinham que entrar no escritório da SS para serem questionadas a portas fechadas. Uma por vez, elas saíam. Algumas, para trabalhar. Outras seguiam na direção oposta. Edith não era a única garota que havia deixado algo no bolso. Ela usou de todo o seu autocontrole para não permitir que seus joelhos batessem um no outro. Ao final da manhã, ela era a única garota do lado de fora. Sua oportunidade de se juntar a Lea havia chegado.

— 1970!

Adentrando o escritório da SS, Edith entrou em posição de sentido e permaneceu em silêncio diante do homem da SS de rosto severo.

“Uma caixa foi encontrada no seu avental. Por que você não a entregou?”.

“Não confiava nos outros guardas para entregá-la.”

“E por qual motivo?”.

“Porque era um tanto grande e achei que pudesse ser importante.” Ela fez uma pausa de efeito dramático. “E, se eu a desse ao senhor, pensei que talvez pudesse me dar um pouco de salsicha ou algo assim. Então, guardei-a para o senhor.”

“Se você estiver mentindo, eu a mandarei para a câmara de gás.”

Ela fez um leve sinal positivo com a cabeça.

“Você olhou dentro da caixa?”

“Para dizer a verdade”, mentiu Edith, “guardei para o senhor olhar”.

“Eu vou descobrir se você estiver mentindo.”

Ela assentiu novamente.

A mirada do homem a penetrou. Então, ele a mediu de cima a baixo. Sua aparência delicada funcionou a seu favor. Como alguém tão pequeno poderia ser uma ameaça, mesmo que fosse uma judia suja?

“Olho para ela e posso dizer que está dizendo a verdade”, ele concluiu. “A pequena não é culpada.”

“Todos ficaram muito surpresos por eu não ter ido direto para a câmara de gás, mas nunca esquecerei o modo como o SS Ambros olhou para mim. Pura ganância. Ele não queria os diamantes para a Alemanha, mas para si. Na semana seguinte, ele tirou uma licença e foi para casa, onde abriu uma fábrica.”

E ela nunca ganhou seu pedaço de salsicha.

AS ATRIBUIÇÕES DE TRABALHO das meninas com lenços vermelhos e brancos no Canadá haviam se tornado tão populares que todas as garotas procuravam lenços para serem admitidas no destacamento. Até Linda, que trabalhava na organização desde o início, era empurrada de vez em quando, apesar de seus “bons cotovelos”. Edith era tão pequena que foi facilmente destituída de seu lugar — e estava deprimida demais para tentar recuperá-lo. Ela não tinha mais energia para lutar, então voltou ao trabalho congelante ao ar livre, limpando estradas com as próprias mãos. O inverno era perigoso. As geladuras eram constantes e a ordem de que “não havia tempo ruim para os judeus”, cumprida.

Poucas meninas do primeiro transporte ainda trabalhavam ao ar livre. Além de Edith e Elsa, essas poucas infelizes incluíam Rena Kornreich, sua irmã Danka, a amiga de ambas Dina Dranger e Joan Rosner. “Não tínhamos meias, casacos ou qualquer coisa”, diz Joan (nº 1188). “Se encontrássemos algum pano, o enrolávamos em volta do corpo para nos aquecer. Havia mil meninas no mesmo bloco e estávamos roubando os cobertores umas das outras. [É] humanamente impossível explicar o quão ruim foi. Minhas pernas estavam congeladas, meus dedos estavam congelados. Não tinha nada para cobrir a cabeça. Trabalhávamos na chuva e dormíamos com a roupa molhada.”

Para manter o tifo sob controle, os uniformes das meninas eram coletados aos domingos para serem desinfetados de piolhos. O protocolo incluía tirar os uniformes e entregá-los na lavanderia para serem fervidos. Sem roupa para vestir enquanto os uniformes eram lavados, as meninas se aconchegavam sob os cobertores finos do bloco, tentando se aquecer. No inverno, a secagem dos uniformes era um processo lento e eles geralmente voltavam congelados. Em um daqueles domingos de janeiro, Edith acordou com uma dor insuportável. Seu joelho estava tão inchado quanto um balão. “Eu não conseguia pisar no chão com aquela perna.”

Como era domingo, elas tinham tempo de fazer alguma coisa antes que algum dos SS as vissem. Elsa correu para o bloco do hospital para buscar a dra. Manci Schwalbova.

Manci deu uma olhada na perna inchada de Edith e balançou a cabeça. “Edith, não sei o que lhe dizer, mas é tuberculose.” A tuberculose era uma sentença de morte mesmo nas melhores circunstâncias. “Você está muito, muito, muito doente. Não sei se isso pode ser tratado aqui, com essas condições. Mas, ouça, ontem houve uma seleção. Agora, está tudo quieto no hospital. Vou levá-la para uma cama e operá-la. Então, veremos por quanto tempo eu poderia ficar com você.”

No silêncio da tarde de domingo, Manci fez punções no local para aliviar a pressão no joelho. Sem anestesia disponível, Elsa e uma enfermeira tiveram que prender Edith para evitar que ela se contorcesse de dor. O pus pútrido foi drenado do joelho de Edith. Com a infecção perfurada, Manci aplicou um emplastro na ferida para mantê-la aberta e drenada. Edith dormiu um sono pesado e comeu um pouco da comida extra contrabandeada.

Ela estava de cama há apenas três dias quando Manci a acordou no meio da noite e disse: “Você precisa sair rápido, rápido, rápido, porque amanhã eles virão e levarão as pessoas.”

“Como poderei não mancar com essa dor? Durante o dia, vejo estrelas.”

“Você tem que fazer de tudo para andar corretamente. Não manque!”, Manci avisou. “Você precisa fazer isso.”

Elsa veio ao resgate. Ela ajudou Edith a passar pelos portões e pelos guardas da SS, cujos olhos de águia estavam sempre procurando os doentes e vulneráveis. De alguma forma, Edith trabalhou sem atrair nenhuma atenção. Talvez a ordem da SS Mandel tenha protegido aquela “pequena” de número tão baixo, mas é mais provável que Edith fosse tão diminuta que nem aparecia no radar de suas superiores. Ela trabalhou por três dias até que a dra. Schwalbova pudesse lhe abrigar novamente.

Era uma gangorra de sobrevivência. Três ou quatro dias de descanso, depois a volta para o bloco antes de uma seleção no hospital. Era aqui que os funcionários da secretaria desempenhavam um papel essencial na sobrevivência dos presos hospitalizados. As notícias das seleções chegavam aos escritórios da SS, onde trabalhavam as funcionárias que faziam parte da rede interna de resistência. Quando os avisos chegavam, Manci e os outros médicos judeus “rapidamente escondiam as pacientes mais ameaçadas da ala ou as ‘disfarçaram’ de trabalhadoras da enfermaria”. Mais de uma vez, Edith foi escondida como enfermeira.

A dra. Manci Schwalbova estava com as mãos cheias. Não apenas havia tifo e tuberculose como um surto de meningite agora assolava as prisioneiras mais jovens. Como médica, ela estava na difícil situação de tentar esconder aquelas que podia salvar e deixar aquelas que não podia mais ajudar nas garras do dr. Kremer ou do menos conhecido dr. Clauberg, especializado em experimentos de infertilidade.

Parte do protocolo da Solução Final incluía a esterilização de judeus e, a partir de dezembro de 1942, o dr. Clauberg começou a experimentar várias maneiras rápidas e baratas de esterilizar mulheres jovens. Ele não estava interessado na saúde ou recuperação de suas vítimas, e apenas algumas sobreviveriam.

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