Carrasco
Capítulo 8
SEM DÚVIDA, A PIOR PARTE DO trabalho era levar más notícias a entes queridos. Isso era simplesmente muito ruim. As mãos de Kathy Blanc tremiam quando Decker lhe entregou a primeira foto e ela precisou dar uma apenas uma olhada para sair correndo de sua sala. Wanda Bontemps estava lá para conduzi-la ao banheiro feminino. Decker sentou-se à sua mesa com o rosto nas mãos, perguntando a si mesmo por quanto tempo conseguiria suportar esse tipo de estresse. E se isso não bastasse, havia um menino de 14 anos com pais desaparecidos morando em sua casa.
Às vezes, nem vale a pena levantar da cama de manhã.
Cinco minutos depois, Wanda Bontemps reconduziu Kathy Blanc à sala de Decker e sentou-a diante da mesa dele. A tez de Kathy havia se tornado cor de casca de ovo; seus olhos estavam vermelhos, com lágrimas pretas, graças ao rímel, correndo pelas suas bochechas. O batom vermelho coloria as rugas acima de sua boca. Seu corpo era todo sacudido pelo tremor e ela se abraçava em uma débil tentativa de detê-lo. O cabelo louro bem penteado da mulher emoldurava um rosto longo, aristocrático, agora manchado com maquiagem. Ela usava brincos de pérolas nas orelhas e vestia calça preta de malha e uma blusa vermelha também de malha. Tinha sapatilhas pretas nos pés.
Wanda Bontemps estava no vão da porta, seus olhos escuros parecendo um tanto sombrios.
— Que tal um pouco d’água e uma toalha molhada?
Decker assentiu com a cabeça e em seguida encarou os olhos súplices de Kathy Blanc.
— Lamento muito, sra. Blanc. Há alguém que podemos chamar para você?
— Meu... ma... rido. — Ela abriu a bolsa, mas Decker foi mais rápido. Entregou-lhe um lenço de papel. Obrigada. —
— Tem um número, senhora?
— O código de área é 213-827... Seu rosto desmoronou e Decker entregou-lhe outro lenço. —
Ela conseguiu dizer os quatro dígitos seguintes. Quando Wanda chegou, Decker deu-lhe o número e disse-lhe para fazer a ligação. Deu a água para Kathy juntamente com uma toalha branca úmida.
— Há mais alguém com quem queira que eu entre em contato? Decker lhe perguntou. —
— Não consigo nem pensar.
Decker assentiu com a cabeça.
— Quero que saiba que faremos tudo que for necessário para descobrir o que aconteceu. Temos muita gente trabalhando nisso. Está preparada para responder a algumas perguntas?
— Eu não... As lágrimas recomeçaram, mas ela acenou a cabeça para que Decker fosse em —
frente.
— Adrianna estava tendo problemas com alguém?
Ela sacudiu a cabeça negativamente.
— E quanto a um namorado? Você disse a meu detetive que havia um.
— Garth Hammerling.
— Algum problema com ele?
— Não que eu saiba.
— Não quero parecer indiscreto, sra. Blanc, mas você e Adrianna tinham um tipo de relacionamento no qual ela lhe falaria sobre assuntos pessoais?
Kathy deu batidinhas com a toalha nos olhos manchados. Quando viu que sua maquiagem estava saindo, sussurrou um “ai, meu Deus”.
— Adrianna não se queixava muito. Esfregou o rosto com vigor para tirar toda a —
maquiagem borrada. Mas se houvesse alguma coisa errada, acho que me diria. —
— O que acha de Garth?
— Parecia um bom rapaz — disse ela, continuando a limpar o rosto. — Não acho que Adrianna o levava tão a sério assim.
— Onde ela o conheceu?
— Ele é técnico no St. Timothy. Kathy levantou os olhos. Por que está fazendo — — perguntas sobre Garth? Seus olhos ficaram úmidos de novo. Ela foi... violada? — —
— Não sei...
— Não me sinto bem. — Ela se levantou. — Preciso usar o banheiro.
— A detetive Bontemps vai levá-la.
— Sei onde é. — Ela se levantou e saiu. Bontemps entrou na sala.
— Garth Hammerling era namorado de Adrianna. Decker escreveu o nome em um pedaço —
de papel e entregou-o a ela. Verifique-o... embora eu creia que Marge disse alguma coisa sobre —
ele estar fora da cidade. Entrou em contato com o marido da sra. Blanc?
— Sim, entrei. Não lhe disse o que estava acontecendo, mas ele sabia que dizia respeito a Adrianna porque Kathy tinha ligado para ele várias vezes.
— Onde ele trabalha?
— No escritório de advocacia Rosehoff, Allens, Blanc e Bellows. Mack Blanc é um dos sócios principais. Ele está a caminho do centro de Los Angeles para cá.
— Deveríamos ter mandado um carro para pegá-lo. Ele não deveria estar dirigindo.
— Não tive chance de lhe dizer muita coisa sobre nada. Ele desligou o telefone na minha cara assim que eu disse que sua mulher estava aqui.
— Dê-me o número. Vou ver se consigo falar com ele. Vá ao banheiro e verifique se a sra. Blanc está bem. Isto é, bem ela não está, mas verifique se não está precisando de cuidados médicos. Se estiver precisando, chame uma ambulância. Peça que a levem para qualquer lugar, menos o St. Timothy.
* * *
— A mãe fez uma identificação com as fotos disse Decker a Marge pelo telefone. Isso — — significa que o carro é parte de uma cena oficial de crime. Os técnicos em criminalística já estão lá?
— Devem chegar a qualquer momento. Você vem para cá?
— Estou esperando para falar com o pai de Adrianna. Irei depois. Você falou com mais alguém do St. Timothy sobre a moça?
— Oliver está tentando entender a cronologia dos fatos. Parece que ela terminou seu turno. Isso significaria que deixou o prédio por volta das oito da manhã. Não se sabe mais nada depois disso. Encontramos uma enfermeira chamada Mandy Kowalski que conhecia Adrianna Blanc havia oito anos. Ela vai ter um intervalo dentro de meia hora e concordou em falar conosco. Estamos tentando encontrar um bom local para conversar. Parece que a cantina está vencendo a eleição.
— Com quem mais você falou no hospital?
— Um pouquinho aqui, um pouquinho ali. As pessoas estão em seu turno de trabalho e relutam em conversar.
— O hospital não está cooperando com você?
— Foi tudo bem com a administração. Vamos ver o que acontece quando descobrirem que se trata de assassinato. Oliver está pegando uma lista dos guardas de segurança que estavam de serviço. Há sempre uma dupla de guardas percorrendo os estacionamentos.
— E quanto a câmeras de vídeo?
— Estamos trabalhando para conseguir as fitas de todas as entradas e saídas. Não sei se há câmeras nos estacionamentos, mas vou verificar.
— O hospital teve algum problema com crime no passado?
— Não sei. Ainda temos muito a investigar. Assim que obtivermos informações, entraremos em contato com você.
— Tudo bem. Obrigada.
— Frequentamos a escola de enfermagem juntas.
Olhos no tampo da mesa, Mandy Kowalski fitava um café ruim. Oliver sabia que estava ruim, pois estava tomando a mesma coisa.
Uma coisinha linda, pensou ele, usando roupa cirúrgica azul, com um rosto de fada, cabelo ruivo vivo e olhos castanho-claros. Uns 12 anos antes ele a teria convidado para sair, apesar da diferença de idade de quarenta anos. Porém, uma vida inteira de escolhas ruins o haviam feito compreender finalmente que por vezes era melhor manter as coisas no nível profissional. Ele estava saindo atualmente com uma professora do ensino médio chamada Carmen que era boa demais para ele. Com a graça de Deus, ela era capaz de desviar das neuroses e das tolices dele com um olhar astuto e uma risada.
— Vocês têm certeza de que ela desapareceu? Mandy continuava de olhos baixos. Às — — vezes as pessoas simplesmente saem sem dizer para ninguém.
Marge e Oliver se entreolharam.
— Mandy disse Marge , recebemos um informe recente, e infelizmente a notícia não é — —
boa. Parece que Adrianna foi assassinada.
— Meu Deus! Mandy arquejou e derrubou a xícara de café com suas mãos trêmulas. Tapou —
a boca. — Não! Ah, meu Deus! — Levantou a cabeça e lágrimas haviam brotado de seus olhos. — Não é possível!
— Obtivemos uma identificação positiva da mãe dela — disse-lhe Marge.
— Ai, coitada daquela mulher. Coitada da Adrianna. Enterrou o rosto nas mãos. — —
Desculpem-me. Não posso...
— Tudo bem disse-lhe Marge. Não se apresse. — —
— Vou pegar um copo d’água para você disse Oliver, levantando-se. —
Marge tentou distraí-la.
— Vi que está usando roupa cirúrgica. Você é enfermeira cirúrgica?
— Torácica. — Ela enxugou os olhos com um guardanapo. — Qualquer coisa relacionada ao peito.
— Era isso que Adrianna fazia?
À menção do nome da amiga, Mandy caiu no choro novamente.
— Ela está na UTI neonatal. Ela é... Ela era enfermeira pediátrica. Era excelente em seu trabalho. Costumávamos chamá-la de encantadora de bebês, mas, mesmo quando trabalhava com crianças mais velhas, elas a adoravam.
— Entendo. Marge puxou seu bloco de notas. E você conhece Adrianna há seis anos? — —
— Cerca de seis anos. Oliver voltou com água e uma nova caixa de lenços de papel. Mandy —
agradeceu-lhe por ambos os itens. Acabei de dizer para sua colega que conhecia Adrianna há —
cerca de seis anos. Estudamos na escola de enfermagem juntas.
— Onde isso? — perguntou Oliver. — Na Universidade do Estado da Califórnia?
— Não — respondeu Mandy. — Cursamos a Howard Professional School. Originalmente, Adrianna ia tentar obter somente o grau de enfermeira licenciada, mas eu lhe disse que ela era inteligente o bastante para ir até o topo da carreira e obter um grau de enfermeira registrada. Era muito mais difícil, não vou mentir, mas eu a convenci de que valia a pena.
— Puxa, que bacana isso da sua parte — disse-lhe Marge.
— Fiz isso, em parte, por razões egoístas disse Mandy. Encontramo-nos no primeiro dia — — de orientação e nos demos bem imediatamente. Imaginei que seria mais fácil se eu tivesse companhia. Eu a ajudei a enfrentar algumas dificuldades, mas ela fez os testes e se saiu bem.
— Você parece ser uma boa amiga disse-lhe Oliver. —
— Nessa época, éramos muito boas amigas.
— Mas não eram mais tanto? perguntou Marge. —
— Sabe como é... — Os olhos de Mandy correram de um lado para outro. — As coisas mudam.
— Como assim?
— Nós nos afastamos disse Mandy. Fora do trabalho, deixamos de sair juntas. — —
— O que aconteceu?
— Nada, de fato... Apenas questões de estilo de vida. Adrianna tem... Mandy passou a —
língua nos lábios. — Ela tem muito mais energia que eu. Gosta de uma diversão.
— É chegada a uma farra? — sugeriu Marge.
— Isso é fazê-la parecer vulgar disse Mandy. Ela gostava de se divertir. Quero dizer, eu — — também gosto, mas acho que preciso de mais sono que ela.
— A diversão dela incluía drogas? perguntou Marge. —
Mandy hesitou.
— Acho que era uma usuária recreativa.
— Isso alguma vez interferiu em seu trabalho?
— Nunca! — Mandy foi categórica. — Ela operava milagres com aqueles bebês.
— O que sabe sobre o namorado dela? — Marge checou suas anotações. — Garth Hammerling. O que sabe sobre ele?
— Ele trabalha aqui no St. Timothy. É técnico de radiologia.
— Você o conhece bem? perguntou Oliver. —
— Somo conhecidos circunstanciais respondeu Mandy. —
Mas seus olhos estavam em outro lugar.
— Você saberia onde ele mora? perguntou Marge. —
— Por que eu saberia onde ele mora? — retrucou Mandy, desviando os olhos.
— Talvez tenha ido a uma festa lá...
— Não me lembro disso. — Marge olhou para suas mãos. — Eu poderia conseguir o endereço dele para vocês, mas provavelmente podem fazer isso com a mesma facilidade.
— Isso não é um problema disse Oliver. Só perguntamos se você saberia disso de — — imediato, porque precisamos falar com ele. Quando Mandy não respondeu, ele disse: Você — — sabe, precisamos fazer todo tipo de perguntas pessoais.
— Por isso, se eu lhe pedir informação pessoal, você não deveria se ofender disse Marge. —
— Porque pedimos informação pessoal a todo mundo disse Oliver. Por exemplo, eu — — poderia perguntar se você estava tendo alguma coisa com Garth.
— Não! — Marge enxugou seus olhos. — Por que vocês pensariam isso?
— Apenas uma pergunta — disse Marge.
— Porque se você estivesse tendo alguma coisa com ele, acabaríamos descobrindo disse —
Oliver.
— Portanto, esta é a hora de admitir disse Marge. Esconder coisas será ruim para você. — —
— Eu não tenho nada... Seus olhos ficaram úmidos novamente. Ele deu em cima de mim, — — certo?
— Está vendo, era simples disse Marge. O que pode nos contar sobre isso? — —
— Não aconteceu nada. Eu não estava interessada. — Ela sacudiu a cabeça. — Foi em uma das festas da Adrianna. Ela dava festas praticamente fim de semana sim, fim de semana não. Ele me encurralou na cozinha e tentou me dar um amasso. Meu Deus, foi constrangedor. Ele estava bêbado. Ela também. — Enxugou os olhos. — É difícil, para mim, falar mal dela, especialmente agora que está... e nós éramos tão boas amigas. Não é que Garth seja um mau sujeito. É apenas um mulherengo. Todo mundo sabe que ele é assim.
— Adrianna sabia?
— Talvez, lá no fundo, soubesse. Mandy ficou de pé. Tenho de voltar para o meu turno. — — Se quiserem falar comigo de novo, por favor, que não seja aqui. Moro em Canoga Park. Meu nome está no catálogo.
— Obrigada, Mandy disse Marge , você foi muito útil. — —
— Tudo bem. Só espero que encontrem o filho da mãe que a machucou. Adrianna pode ter tido seus problemas, mas quem não tem?
— É verdade — disse Marge enquanto observava a enfermeira se afastar. Em seguida, perguntou: O que você acha? —
— Uma garota emotiva para quem tinha se afastado da vítima. Oliver sacudiu os ombros. —
— E Garth?
— A secretária eletrônica do telefone fixo dele diz Marge checou suas anotações que — — Garth, Aaron e Greg foram fazer canoagem de rio e não vão atender o telefone durante uma semana. Se ele tiver partido uns dois dias atrás, deu um álibi para si mesmo.
— Algumas pessoas têm um perfeito senso de oportunidade.
— Sabe o que penso, Oliver? — disse Marge. — Senso de oportunidade perfeito é sempre suspeito.