Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 25 de 50

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Carrasco

Capítulo 25

 

 

O FERRO-VELHO TULLY’S FAZIA PARTE DA PAISAGEM nas colinas do oeste havia quase quarenta anos. Estava atualmente sob os cuidados de Caleb “Audi” Sayd, um sujeito de 28 anos cujos ascendentes poderiam ter sido egípcios, mas agora ele era um autêntico californiano. Tinha cerca de 1,82m, oitenta quilos, cabelo preto e olhos escuros. Seu uniforme preferido era jeans de cintura baixa, uma camiseta branca e coturno. Ele parou com os braços cruzados sobre o peito, as mãos enfiadas sob as axilas. Sacudiu a cabeça quando Decker lhe mostrou a foto de Terry McLaughlin.

— Nunca a vi antes — disse.

— Tem certeza? — perguntou Eliza Slaughter.

Audi bateu na fotografia.

— Este rosto... Eu me lembraria dela se tivesse visto.

Estavam parados no meio de um oceano de carros depenados, retorcidos e achatados. A maioria deles não rodava havia muitos meses. O pedaço de metal em que estavam interessados era uma estrutura prata retorcida e comprimida que sugeria uma Mercedes E550 numa vida anterior. Ele tinha pulado sobre Eliza como uma rã sob efeito de anfetamina.

Decker examinou o pedaço de metal.

— O que pode me dizer sobre ele? Dada a ausência de ferrugem, parece novo.

— Ele é novo disse Audi. Isso chamou minha atenção. Em geral, não se sucateia um bom — —

carro.

— Então você estava desconfiado? perguntou Eliza. —

— Claro que eu estava desconfiado. Ele não foi trazido por um de meus principais contatos.

— Você sabe quem o trouxe?

— Nunca tinha visto o cara antes. Mas ele tinha a papeleta cor-de-rosa e eu a verifiquei com o Departamento de Trânsito antes de fazer uma oferta para ele. Estava tudo legal.

— Você tem um nome? perguntou Decker. —

— A papelada está no meu escritório. Audi apontou para um trailer. O último nome era — — Jones.

— Primeiro nome?

— Não me lembro. Não sei se cheguei a ficar sabendo qual era.

— Como ele era fisicamente? — perguntou Eliza.

— Pele morena. Cabelo liso escuro, olhos castanhos. Mais baixo e mais magro que eu.

— Hispânico?

— Podia ser. Tinha um ligeiro sotaque, mas não consegui distinguir de onde.

— Do Oriente Médio?

— Não, senhora, isso eu seria capaz de saber.

— Quando ele o trouxe?

— Hum, sábado ou domingo passado. Tenho a data.

— Sábado ou domingo? perguntou Decker. —

— Sim, foi durante o fim de semana.

Isso certamente deixou Decker frustrado. Agora ele estava pensando se era o carro certo.

— Como ele estava vestido?

— Como um mecânico macacão, camiseta. Mas as unhas eram limpas. As mãos eram —

macias como ele se nunca tivesse feito trabalho manual na vida. Estranho, mas, estamos sempre ouvindo histórias.

— Então qual era a história dele?

— Alguma coisa sobre o carro ser um amontoado de lembranças ruins com a ex-mulher ou namorada. Pareceu mentira, mas, como eu disse, foi tudo checado como sua propriedade.

— Então você não questionou? — perguntou Eliza.

— Neste negócio, a gente lida com muitos esquisitões. Quem mais negocia partes de carro e sucata de metal? Ele começou a contar nos dedos. Se o carro não tiver sido turbinado, não — — tiver sido usado num crime, não tiver pertencido a alguém associado com crime e a propriedade for legítima, a gente não questiona. Não quero nenhum problema, detetive.

— Quanto pagou a ele? perguntou Decker. —

— Fiz uma oferta baixa e ele aceitou. Não estava se importando com o dinheiro, o que queria era o carro desmanchado e sucateado, o mais depressa possível. Voltou para ter certeza de que isso tinha sido feito e me pediu para escondê-lo no meio do lote. Eu disse que isso custaria a ele um pequeno extra e ele concordou. Depois que conseguiu o que queria, foi embora.

— O que você fez com as partes?

— Ele rebocou para cá a carcaça. Não sei o que foi feito com as tripas do carro.

— E você nunca tinha feito negócio com ele antes? perguntou Eliza. —

— Eu diria a você se tivesse feito.

— Você poderia procurar o sr. Jones para mim? perguntou Decker. Um primeiro nome — — seria útil.

— É claro. Os três andaram até o trailer e cruzaram a porta. Lá dentro estava quente, com —

vários ventiladores zumbindo ao mesmo tempo. A mobília incluía uma escrivaninha que sustentava vária pilhas bem arrumadas de papéis, uma cadeira giratória, quatro cadeiras de armar e um fichário. Audi sentou-se e tomou água num copo descartável. Pegou uma das pilhas de papéis e encontrou o que procurava imediatamente. Entregou a fatura amarela a Decker. — Aqui está.

— Obrigado. — A primeira coisa que Decker notou foi que a data correspondia ao sábado anterior, a véspera do dia em que Terry desaparecera. Portanto, talvez estivesse enganado. O nome do cliente era Atik Jones. Primeiro nome incomum. —

— Qual é?

— Atik disse Decker. —

— Não soa familiar. Provavelmente ele não disse para mim.

— Então, como você o escreveu na fatura?

— Eu o tirei da papeleta cor-de-rosa. Vou pegá-la para você. — Audi girou sua cadeira e começou a vasculhar pastas. Um momento depois, estava perplexo. — Não consigo encontrá-la. Devo ter arquivado alguma coisa errado. Preciso da fatura novamente.

Decker a devolveu para ele. Audi anotou alguns números e mais uma vez vasculhou as pastas.

— Fiz alguma trapalhada. Cara, isso é irritante. Vou começar no início do J. Isso pode demorar alguns minutos. Tenho muitos deles.

— Nós esperamos disse Eliza. —

Passados vários minutos, Audi disse:

— Pronto, pronto, aqui está. Eu pus o nome errado na fatura. Eu podia jurar que ele me disse Jones.

Ele deu a papeleta cor-de-rosa para Decker. O nome não era Jones, mas Jains. Atik Jains. Decker refletiu um momento.

— Esse cara poderia ser índio?

— Tipo um índio navajo?

— Quero dizer indiano, da Índia. Jain ou Jains é um nome indiano.

Audi assentiu com a cabeça.

— Sim, sim, era isso que ele era. Era da Índia.

Decker examinou a papeleta cor-de-rosa.

Você pode me fazer uma cópia da papeleta e da fatura com sua máquina de fax?

— Claro.

Enquanto Audi copiava os papéis, Decker falou com Eliza:

— Jains teve o carro durante seis semanas. E depois o sucateou no sábado.

— Sábado?

— É o que diz a fatura.

— Se ele teve o carro durante seis semanas e o sucateou antes que Terry desaparecesse, será que estamos mesmo com o carro certo?

— Não sei. Mas sei que Teresa McLaughlin se mudou para cá seis semanas atrás — disse Decker. Temos o número de identificação do veículo na papeleta cor-de-rosa. Isso deve ajudar —

a reconstituir sua história.

— Mais alguma coisa? perguntou Audi, depois de entregar as cópias a Eliza. —

— Sim, na verdade. Decker sacou uma foto de Chris Donatti. —

— Já viu este sujeito antes?

O olhar de Audi deslocou-se para a fotografia, depois de volta para o rosto de Decker.

— Um cara alto, mais ou menos do seu tamanho?

— Sim — disse Decker, sentindo seus batimentos cardíacos se acelerarem.

— Sim, ele esteve aqui... parecendo mais velho que na foto.

— Ele está mais velho que na foto. Quando esteve aqui?

— Um ou dois dias atrás. Estava fuçando por aqui quando cheguei ao trabalho.

— O que ele queria?

— Não sei. Mas não comprou nada, não me vendeu nada. Só andou por aí, examinando as coisas. Ao sair, me deu cinquenta dólares por deixá-lo vasculhar as coisas. Abriu um sorriso. —

— Simplesmente retirou o dinheiro de um grande maço, como se tivesse feito isso mil vezes antes. Eu esperava que fosse me pedir para manter sua visita entre nós dois, mas não falou nada parecido. Só me deu o dinheiro e disse obrigado.

— Quanto tempo ele ficou aqui?

— Cerca de uma hora.

— E não disse nada a você sobre o objetivo da visita? perguntou Eliza. —

— Nada. Outro esquisitão, mas estou acostumado com eles.

— Se ele vier de novo, você pode me dar uma ligada? Decker deu-lhe seu cartão e Eliza fez —

o mesmo. — E diferentemente do sr. Donatti, estou pedindo a você para manter esta visita entre nós. Não conte para ele que falou com a detetive Slaughter ou comigo.

— Donatti?

Decker assentiu com a cabeça.

— O cara é italiano? — Audi fez uma careta. — Ele certamente não parecia italiano. É tipo um criminoso da máfia ou algo parecido?

— Neste momento, é só um suspeito disse Eliza. —

— Suspeito de quê? perguntou Audi. Os cartões dizem que vocês são de homicídios. — —

— É por isso que você não vai dizer nada a ele disse Decker. Ele poderia ter uma reação — — esquisita.

— Esquisita como?

Decker aponta o dedo imitando uma arma e puxa um gatilho imaginário.

— Então ele é perigoso?

— Especialmente quando irritado. E neste momento, sabendo o que sei, eu diria que ele está bastante alterado.

 

— Mandy não está trabalhando hoje.

Oliver e Marge falavam com Hilly McKennick, a enfermeira-chefe no oitavo andar, que abrigava a unidade de tratamento torácico/cardíaco. Hilly estava na casa dos quarenta, uma mulher com jeito de garoto, com olhos bem separados, nariz fino, lábios de arco de cupido e cabelo platinado num corte joãozinho. Mandy Kowalski estava trabalhando na UTI há seis meses, e Hilly só tinha elogios a lhe fazer.

— Qual foi o último turno dela? perguntou Marge. —

— Acho que ela fez um turno duplo no domingo/segunda-feira para poder ficar de folga ontem e hoje.

— Por que ela quis mudar o horário?

— Não sei. Apenas pediu a folga e pude atendê-la. Mandy nunca pede nenhum favor. Em geral, trabalha muito duro, cobrindo o que outros deixaram por fazer quando preciso. Como pediu esse único favor, achei que podia ajudá-la.

— Você gosta dela? questionou Oliver. —

— Não somos propriamente amigas, mas ela é dedicada. Hilly fez uma pausa. Demais, — — eu acho. A maior parte de nós que trabalhamos intensamente merece um descanso. Meu refúgio é a jardinagem. Estou sempre no viveiro de camélias local. Elas são minha paixão. Janice adora esquiar. Darla canta no bar local onde mora. Mandy só pensa no trabalho. Nenhum hobby, nem um namorado que eu tenha conhecido algum dia. Como pediu alguns dias de folga, eu estava torcendo para que ela tivesse, talvez, alguma coisa planejada. Mas não perguntei.

— E quanto a amigas? perguntou Marge. —

— Bem, sei que ela e Adrianna foram colegas na escola de enfermagem. Eu as vi almoçando juntas, então talvez fossem próximas. Sei que quando ela soube do que tinha acontecido com Adrianna, ficou arrasada. Perguntei se queria uma folga, mas ela recusou.

Hilly pareceu pensativa e Oliver perguntou por quê.

— Fiquei preocupada — disse a enfermeira-chefe. — Pareceu-me um pouco estranho vê-la trabalhando quando estava transtornada. Mas ela trabalhou bem, como de costume, e saiu.

Marge mostrou a Hilly uma fotografia em preto e branco.

— Você diria que esta mulher é Mandy Kowalski?

— Está borrada disse Hilly, fitando a foto. —

— Foi tirada de uma fita de uma câmera de segurança.

— Talvez. Hilly estudou-a atentamente. Levantou a cabeça. Por quê? — —

— Isso foi extraído de uma câmera da área de ambulâncias— disse-lhe Oliver. — Se esta for Mandy, estamos apenas nos perguntado o que estava fazendo lá.

— Não faço ideia — disse Hilly.

— Então não pertencia àquela área.

— Não, de maneira alguma. Então, talvez não seja ela. Mas mesmo que seja, que importância isso teria?

— Estamos apenas tentando situar todas as pessoas na segunda-feira da morte de Adrianna — disse Marge. Esta foto foi tirada na segunda-feira. Estamos tentando reduzir o intervalo de —

tempo do fim do turno de Adrianna até o momento em que o corpo foi descoberto.

— Neste momento, temos um buraco entre as oito da manhã e as duas da tarde. — A enfermeira-chefe pareceu inquieta. Oliver perguntou-lhe no que pensava. — Esta não é a hora de esconder informação.

— No dia da morte de Adrianna — disse Hilly, mordendo a unha do polegar —, as duas estavam tomando café juntas... na cafeteria. Portanto, não era um segredo ou algo assim.

Marge lançou um olhar para Oliver.

— Você se lembra da hora?

— Era de manhã. Lembro-me de sentir cheiro de bacon.

— Você disse alguma coisa para elas?

Hilly baixou os olhos.

— É tão estranho lembrar disso logo neste momento. Não disse nada para elas, mas fiquei aborrecida. Mandy não deveria estar num intervalo. Na verdade, era a hora do meu intervalo. Lembro-me de ter ficado com o quadro de funcionários reduzido porque não consegui encontrá-la. Imaginei que ela tinha apenas ido ao banheiro, já que costumava ser tão responsável. Por isso desci para comprar uma rosquinha. Estava morrendo de fome. Quando a vi conversando com Adrianna, fiquei irritada. Apontei para o meu relógio e Mandy se levantou imediatamente. Depois pediu desculpa e eu lhe disse para esquecer aquilo. Eu sabia que ela estava fazendo um turno duplo e atribuí aquilo ao cansaço, que talvez ela tivesse precisado se reabastecer de cafeína.

Marge escrevia em seu bloco de anotações.

— Há alguma maneira de você chegar a uma hora aproximada?

— Preciso pensar... Registrei meu retorno às 9h15. Então, foi por volta dessa hora. Isso ajuda?

— Acabamos de ganhar mais uma hora! disse Marge, triunfante. —

— Alguma ideia do assunto da conversa? — perguntou Oliver a Hilly.

— Não. Mas me lembro de que Mandy pareceu ter ficado sem graça quando me viu, provavelmente porque eu a havia repreendido silenciosamente. Hilly fez mais uma pausa. — —

Sabem, agora que estou pensando sobre isso, não sei sobre o que elas falavam, mas a conversa era intensa. Assim que entrei e vi as duas juntas, Mandy nem sequer notou. E quando me viu, ficou com vergonha. Claramente, sabia que não era hora do intervalo dela.

— Intensa de que maneira? perguntou Marge. —

— Mandy estava inclinada sobre a mesa e Adrianna gesticulava com as mãos. Mas só tive oportunidade de observá-las por uns dois segundos.

— E era Adrianna quem falava?

Hilly assentiu com a cabeça.

— Ela parecia perturbada. Talvez tenha sido por isso que não a reprimi muito severamente. Mandy, como de costume, estava tentando ajudar.

— Você teria o endereço da casa de Mandy? — perguntou Oliver. — Se Adrianna estava perturbada, talvez Mandy possa nos contar o que a estava perturbando.

— Vocês já não falaram com Mandy?

— Sim, falamos disse Marge. Mas Mandy não mencionou que tinha tomado café com — —

Adrianna. Agora queremos saber por quê.

— Isso foi feito às claras disse Hilly. Não estavam escondidas ou algo assim. — —

— O que nos deixa ainda mais curiosos de saber por que ela não mencionou isso para nós — disse Oliver.

— Suponho que mesmo que eu não desse o endereço dela a vocês, poderiam obtê-lo de outra fonte — disse Hilly. — Por isso, posso facilitar as coisas para vocês.

— Seria gentil da sua parte — disse Oliver.

— Você foi muito franca disse Marge. Ficamos agradecidos. — —

— Este é meu estilo habitual... ser franca. Tem vantagens e desvantagens. Muitas vezes me arrependo do que disse. Mas o outro lado da moeda é que nunca fico com uma úlcera por estresse.