Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 2 de 50

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Carrasco

Capítulo 2

 

 

SAÍDO DIRETAMENTE DE UMA PINTURA DE Diego Rivera, ele apareceu com um enorme buquê de copos-de-leite que tomava a maior parte do seu torso. Tamanho por tamanho, Decker não ficava nem um centímetro aquém dos 1,95m de Christopher Donatti.

— Você não precisava ter trazido flores. — Antes que Chris pudesse mostrar surpresa, Decker pegou as flores e jogou-as na bancada de mármore perto da porta. Em seguida, virou-o, empurrando-o até que estivesse imprensado contra a parede. Os movimentos de Decker eram vigorosos e rápidos. Ele apertou o cano de sua Beretta na base do crânio do homem. — Sinto muito, Chris, mas ela realmente não tem plena confiança em você neste momento.

Donatti não disse nada enquanto Decker o apalpava. O homem carregava peças de boa qualidade: as ferramentas de seu ofício. Tinha uma S&W automática no cinto e uma pequena pistola Glock calibre .22 em um compartimento escondido na bota. Com sua própria Beretta, que fazia parte do equipamento militar normal, ainda no pescoço de Donatti, Decker enfiou a mão em seu bolso, jogando sua carteira na bancada. Disse-lhe para tirar os sapatos, o cinto e o relógio.

— Meu relógio?

— Você sabe como é, Chris. Hoje em dia tudo é micromini. Quem sabe o que você está escondendo aí dentro?

— É um Breguet.

— Não sei o que é isso, mas parece caro. Decker aliviou-o do relógio de ouro. Era —

incrivelmente pesado. Não vou roubá-lo. Estou apenas examinando-o. —

— É um relógio esqueleto. Abra a tampa traseira e poderá ver o movimento.

— Humm... Isto não vai explodir em cima de mim, vai?

— É um relógio, não uma arma.

— Nas suas mãos, tudo é uma arma.

Donatti não discordou. Decker disse-lhe para manter as mãos levantadas e o corpo contra a parede. Recuou lentamente alguns centímetros para dar algum espaço a si mesmo. De olho nas mãos dele o tempo todo, Decker começou a remover a munição das armas de Donatti.

— Pode se virar, mas mantenha as mãos para cima.

— Você é quem manda.

Ele girou seu corpo até que os dois ficassem face a face. Sem suas armas, Chris mostrou-se impassível. Seus olhos pareciam opacos; azuis, sem nenhuma luminosidade. Era impossível distinguir se estava irritado ou se divertindo.

Uma coisa era certa. Chris já tivera dias melhores. Sua pele estava manchada e pálida, e a testa estava coberta de espinhas. Ele deixara o cabelo crescer a partir do corte à escovinha que usava 12 anos antes, a última vez que Decker o vira pessoalmente. Agora usava-o todo penteado para trás, ao estilo do conde Drácula, e aparado na altura da parte inferior das orelhas. Chris continuava esguio, mas com braços maiores do que Decker se lembrava. Havia se arrumado para o encontro, usando uma camisa polo azul, calça de gabardine cor de carvão e botas Croc.

— Estou começando a ficar com dor nos braços.

— Abaixe-os devagar.

Ele obedeceu.

— E agora?

— Sente-se. Mova-se devagar. Quando você se move devagar, eu me movo devagar. Se você me apressa, eu atiro primeiro e faço perguntas depois. — Quando Donatti começou a se sentar na cadeira, Decker o deteve. No sofá, por favor. —

Donatti cooperou e deixou-se cair sobre as almofadas. Decker jogou-lhe o relógio. Ele o apanhou com uma mão e colocou-o de volta no pulso.

— Ela está aqui, ao menos?

— Está no quarto.

— Já é um começo. Vai sair de lá?

— Quando eu der o OK, Terry sairá.

— Onde está Gabe?

— Não está aqui — respondeu Decker.

— Provavelmente é melhor assim. Donatti enterrou a cabeça nas mãos. Ressurgiu um —

momento depois. Suponho que sua presença aqui faça sentido. —

— Obrigado por sua aprovação.

— Ouça. Não vou fazer nada.

— Por que o arsenal, então?

— Sempre o carrego. Posso falar com minha mulher agora?

Decker mantinha-se junto da bancada de mármore do bar do hotel, a Beretta ainda nas mãos.

— Há algumas regras básicas. Número um: permaneça o tempo todo sentado. Não se aproxime dela de jeito nenhum, em hipótese alguma. E nada de movimentos súbitos. Isso me deixa nervoso.

— De acordo.

— Cuidado com o que diz e com seus modos, e tenho certeza de que tudo correrá às mil maravilhas.

— Sim... Certamente. A voz dele era um sussurro. —

— Você parece um pouco pálido. Quer um pouco d’água? — Abriu o bar. — Alguma coisa mais forte?

— Tanto faz.

— Macallan, Chivas, Glenfiddich.

— Glenfiddich puro. Um momento depois, Decker lhe entregou um copo de cristal —

lapidado com uma adequada dose de uísque. Donatti tomou um golinho delicado e em seguida entornou um dedo da bebida. Obrigado. Isto ajuda. —

— Não há de quê. Decker observava o homem. Suas cores estão voltando. — —

— Não bebi nada o dia todo.

— Ainda não é nem meio-dia.

— Já é quase happy hour no horário de Nova York. Não queria que ela pensasse que sou fraco, mas sou. Tomou mais um gole. Ela sabe que sou fraco. Que merda! — —

— Cuidado com a língua.

— Se minha língua fosse meu único problema, eu estaria bem. Entregou o copo vazio a —

Decker.

— Mais um? Quando Donatti sacudiu a cabeça, Decker fechou o armário. O que — — aconteceu?

— O que aconteceu é que sou um idiota.

— Isso é amenizar as coisas.

— Sempre tive problemas de compreensão na leitura.

— Você está deixando escapar o elemento decisivo aqui, Chris. Um sujeito não usa a própria mulher como saco de pancada, mesmo que ela tenha feito um aborto.

— Não a esmurrei, eu a estapeei.

— Isso também não é aceitável.

— Sei disso — disse Donatti, esfregando a testa. — Só estou corrigindo você porque eu sabia que estava batendo com a mão aberta. Se a tivesse esmurrado, ela estaria morta.

— Então estava consciente de que estava lhe dando uma surra?

— Isso nunca aconteceu antes, não vai acontecer de novo

— E ela deveria acreditar em você porque...

— Posso contar nos dedos de uma só mão as vezes em que me descontrolei. Ouça, sei que ela está assustada, mas não é preciso. Eu estava só... Quando ele começou a se levantar do sofá, —

Decker lhe sacudiu a arma no rosto. Ele voltou a se sentar. Posso ver minha mulher, por —

favor?

— Pelo menos desta vez você disse por favor. — Decker encarou-o. — Quero lhe fazer umas duas perguntas teóricas. E se ela não quiser falar com você?

— Ela não teria concordado em se encontrar comigo se não quisesse falar comigo.

— Talvez simplesmente não tenha querido lhe dizer por telefone. Isso teria dado tempo para você planejar alguma coisa perigosa e provavelmente estúpida.

— Foi isso que ela disse? Donatti levantou os olhos. —

— Que tal se eu fizer as perguntas?

— Não estou planejando coisa alguma. Fui um idiota. Isso não vai acontecer de novo. Apenas me deixe ver a minha mulher, tudo bem?

— E se ela não quiser vê-lo mais? E se ela pedir o divórcio?

— Não sei. — Donatti apertou as mãos uma contra a outra. — Não pensei sobre isso.

— Isso o irritaria muito, certo?

— Provavelmente.

— O que você faria?

— Nada com você por perto. Finalmente apareceu uma centelha de vida em seus olhos. ——

Decker, ela não vai me pedir o divórcio, pelo menos não agora, porque, antes de mais nada, tenho dinheiro suficiente para envolvê-la numa batalha legal muito dispendiosa e prolongada por Gabe. Seria mais fácil para ela simplesmente adiar isso até que ele faça 18 anos, e Terry é uma pessoa, acima de tudo, prática. Tenho mais três anos e meio antes de precisar enfrentar essa questão. Eu gostaria de ver Terry agora.

Ele estava arquejando.

— Mais um uísque? perguntou Decker. —

— Não. — Donatti sacudiu a cabeça. — Estou bem. — Aspirou profundamente e soltou o ar. — Estou pronto quando você estiver.

Decker lançou-lhe um olhar severo.

— Estarei observando cada movimento seu.

— Certo. Não vou me mexer. Meu traseiro está colado no assento. Podemos seguir adiante com isto?

Não fazia sentido adiar o inevitável. Decker chamou o nome dela. Ele tinha colocado a cadeira de Terry de lado, de modo a ter um trajeto livre do cano de sua arma ao cérebro de Donatti. Não que realmente esperasse um tiroteio, mas foi escoteiro e procurava estar sempre alerta. Terry tinha enroscado as pernas sob o vestido longo, mas sua postura estava ereta e majestosa. Mais uma vez, seu vestido era sem mangas, seus braços longos e bronzeados estavam adornados com vários braceletes. Seus olhos estavam no rosto de Donatti, embora ele é que tivesse dificuldade em enfrentar seu olhar.

— Você está bonita disse ele. —

— Obrigada.

— Como se sente?

— Bem.

— Como vai o Gabe?

— Está ótimo.

Donatti expirou com força e levantou os olhos para o teto. Em seguida, concentrou-se no rosto dela.

— O que posso fazer por você?

— Pergunta interessante respondeu ela. Ainda estou tentando descobrir isso. — —

— Farei qualquer coisa — disse ele, coçando a bochecha.

— Posso citar essa sua declaração? — Antes que ele pudesse responder, ela disse: — Não estou pronta para voltar com você.

— Bem. Algum dia estará pronta? — perguntou Donatti, cruzando as mãos em seu colo.

— Possivelmente... provavelmente, mas não agora.

— Tudo bem. Chris lançou um olhar para Decker. Poderíamos ter um pouco de — — privacidade, por favor?

— De jeito nenhum. Decker levantou as flores. Ele lhe trouxe isto. — —

— Pedirei um vaso mais tarde disse Terry, dando uma olhadela nos copos-de-leite. E para —

Chris: São lindas. Obrigada. —

— Então... quando você acha... Isto é, quanto tempo mais quer ficar aqui? disse Donatti, —

impaciente.

— Na Califórnia ou aqui no hotel?

— Eu estava pensando longe de mim, mas sim, quanto tempo mais você vai ficar aqui, também.

— Não sei.

— Um mês? Dois meses?

— Mais do que isso. Ela lambeu os lábios. —

— Isso está ficando um tanto caro. Quer dizer, não que eu esteja lhe dando o dinheiro de má vontade...

— É caro — disse Terry. — Quero alugar uma casa. Tecnicamente, você a estaria alugando. Vi uma de que gostei. Estou só esperando que você faça o cheque.

Decker estava assombrado com a confiança com que ela falava, desafiando-o a lhe negar qualquer coisa.

— Onde? — perguntou Donatti.

— Beverly Hills. Onde mais?

Quando ela fez menção de se levantar, Decker lhe perguntou:

— O que posso pegar para você?

— Estou com um pouco de sede.

— Volte a se sentar. O que gostaria de beber?

— Uma água Pellegrino, sem gelo.

— Sem problema. E você, Chris?

— O mesmo.

— Dê-lhe um uísque disse Terry. —

— Estou bem, Terry.

— Eu disse que você não estava? retrucou ela. Dê um uísque para ele. — —

Donatti levantou as mãos.

— Nenhum problema disse Decker , contanto que ambos fiquem onde estão. — —

— Não estou indo para lugar nenhum — respondeu Donatti com impertinência. Assim que o uísque lhe chegou aos lábios, pareceu se acalmar. — Então... Fale-me sobre essa casa que estou alugando.

— Fica em uma área chamada os Flats, que é uma excelente localização por aqui. São 12 mil por mês, mais ou menos o mínimo que se pode conseguir naquela vizinhança. Precisa de alguns reparos, mas certamente já é habitável. A principal razão por que escolhi Beverly Hills foi o distrito escolar, que é bom.

— Nenhum problema disse Donatti. Tudo que você quiser. — —

A julgar por essa conversa, pareceria que Terry estava no controle do relacionamento. Talvez estivesse, na maior parte do tempo. Obviamente isso não era o mesmo que o tempo todo.

— Vou receber uma chave? perguntou Donatti. —

— Claro que vai receber uma chave. Você está alugando a casa.

— E quanto tempo você pretende viver aqui... na casa que estou alugando?

— Em geral, os contratos são por um ano.

— Isso é um longo tempo.

— Chris, não estou pedindo uma separação legal, só uma separação física — disse Terry, inclinando-se. Depois do que aconteceu, é o mínimo que você pode fazer. —

— Não estou discutindo com você, Terry, estou apenas tentando ter uma ideia de por quanto tempo. Se você quer um ano, alugue por um ano. Trata-se de você, não de mim.

Ela ficou em silêncio. Depois disse:

— Você vai saber onde estou, vai ter uma chave da casa. Venha quando quiser. Não vou para lugar algum. É justo?

— Mais do que justo. Donatti tentou empurrar os lábios para cima. De todo modo, não — — é ruim, para mim, ter um endereço na Costa Oeste. Provavelmente é uma boa ideia.

— Então eu fiz um favor para você.

— Eu não diria isso. Doze mil por mês. De que tamanho é isso?

Terry lhe deu um sorriso — um misto de humor e coquetismo.

— Tem quatro quartos, Chris. Acho que podemos chegar a um acordo.

O sorriso de Donatti transformou-se em genuíno.

— Tudo bem. Ele tomou um gole de sua bebida, depois riu. Tudo bem. Se é isso que — — você quer... Muito bem. Talvez você vá realmente sentir minha falta quando eu for embora.

— Pode sonhar.

— Muito engraçado.

— Está com fome? — Os olhos de Terry percorreram o corpo dele de cima a baixo. — Você emagreceu.

— Andei um pouco ansioso.

— Como você saberia o que é sentir ansiedade?

Donatti olhou para Decker, seus olhos impenetráveis.

— A menina é espirituosa.

— Está com fome, Chris? Terry lhe perguntou. —

— Eu poderia comer.

— Eles têm um restaurante de padrão internacional. — Ela lançou um olhar para o relógio de diamantes em meio a seus braceletes de ouro. — Está aberto. Eu não me incomodaria de comer alguma coisa.

— Ótimo. Ele começou a se levantar, mas então olhou para Decker. —

— Posso me levantar sem que você atire em mim?

— Desça até o restaurante e peça alguma coisa para vocês dois, Chris. Pegue uma mesa perto da porta para mim. Nós o alcançaremos daqui a pouco.

A expressão de Donatti ficou azeda.

— Estaremos num lugar público, Decker. Nada vai acontecer. Que tal um pouco de privacidade?

— Estarei sentado à outra mesa disse Decker. Sussurrem se não quiserem que eu ouça. — — Vá na frente. Iremos encontrá-lo lá.

Donatti revirou os olhos.

— Posso pegar minhas armas de volta?

— Ao final respondeu Decker. —

— Você pode ficar com a munição, dê-me apenas as armas.

— Ao final.

— O que acha que vou fazer? Nocauteá-lo?

— Eu não estava nem pensando nisso, mas agora que mencionou, você é imprevisível.

Ele se virou para Terry.

— Você se importa que eu esteja armado?

— Depende dele disse Terry. —

— Elas são inúteis sem munição. — Quando Decker não respondeu, Chris disse: — Vamos lá! Seria uma demonstração de boa-fé. Só estou pedindo o que é meu.

— Eu entendo, Chris. — Decker abriu a porta. — Mas você não pode sempre ter o que quer.

Os dois homens se encararam. Depois Donatti deu de ombros.

— Como queira — disse, e saiu porta afora pisando duro, sem olhar para trás.

— É um cara frio. Olhou para Terry. Você lidou com ele muito bem. — —

— Assim espero. No mínimo, isso me dará algum tempo para pensar.

Decker notou que ela estava trêmula.

— Você está bem, Terry?

— Sim, estou bem. Só um pouco... — Gotas de suor pingavam de sua testa. Ela enxugou o rosto com um lenço. — Você sabe o que dizem, tenente. — Riso nervoso. — Nunca os deixe ver que você sua de nervoso.