Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 18 de 50

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Carrasco

Capítulo 18

 

 

O ESTACIONAMENTO SEM MANOBRISTA FICAVA EM FRENTE ao hotel, elevado e pavimentado, um quadrado de asfalto espalhado sobre a montanha como manteiga sobre um bolinho. Terra não aproveitada em Bel Air era valiosa e era só uma questão de tempo antes que algum conglomerado fizesse alguns cálculos e propusesse um novo esquema de desenvolvimento imobiliário.

E parecia que o momento havia chegado.

Decker leu o cartaz afixado no balcão dos manobristas. Ele anunciava o fechamento do hotel para reformas e agradecia a seus clientes leais pela preferência. Decker perguntou a um manobrista de camisa turquesa sobre o fechamento. Era um sujeito alto e jovem chamado Skylar.

— Vão modernizar o hotel. Isso vai levar uns dois anos. Posso ajudá-lo em alguma coisa, senhor?

— Estou esperando uma pessoa. — Em seguida, Decker reconheceu o manobrista: ele estivera de serviço no sábado anterior. — Mas já que estou aqui... — Sacou seu distintivo. — Estou tentando localizar uma mulher que estava hospedada aqui com o filho. Puxou algumas fotos —

que tinha baixado da página de Gabe no Facebook. Não eram das melhores, mas mostravam bem os rostos de Terry e Gabe. Ela passou seis semanas aqui. —

Skylar olhou para o distintivo e depois para as fotos, seu maxilar movendo-se furiosamente enquanto ele mascava um chiclete. Esta é a sra. McLaughlin. —

— Sim, é.

— E você está tentando encontrá-la?

— Sim, estou.

— Ela está desaparecida?

— Ela pode estar desaparecida ou pode ter deixado a cidade por vontade própria. Ainda estamos no estágio de investigação.

— Por que estão investigando essa senhora?

— É a pedido do filho dela.

— Ah. — Skylar devolveu as fotos para Decker. — Ela era encantadora. — Uma pausa. — Quero dizer, encantadora em sua personalidade. Era bonita e muito simpática. Costumava nos dar gorjetas, embora nunca usasse o serviço de manobrista. Umas duas vezes eu a ajudei a carregar coisas do seu carro no estacionamento do outro lado da rua para o seu quarto no hotel. Depois ela me dava uma gorjeta em dobro, embora eu dissesse que não era necessário.

Decker tinha puxado seu bloco de anotações.

— Quando se lembra de tê-la visto pela primeira vez?

— Não sei... talvez há cerca de um mês.

— Como você acha que ela estava?

— Como eu acho? — Não esperou elucidação. — Tinha umas duas contusões que já estavam desaparecendo nas bochechas e embaixo do olho... e os lábios estavam inchados. Muitas vezes, as pessoas vêm aqui para relaxar depois de fazer uma cirurgia plástica. Não sei que aparência tinha antes, mas a cirurgia deve sido um verdadeiro sucesso. Ela era linda.

Decker não se deu ao trabalho de corrigir o equívoco.

— Como ficou sabendo o nome dela?

— Ela se apresentou. Contou para a gente que estava hospedada aqui por algum tempo para descansar e relaxar. Lamento tanto que ela...

Decker assentiu com a cabeça.

— Ela alguma vez pareceu preocupada... inquieta?

— Não que eu pudesse perceber. Era sempre simpática.

— Alguma vez a viu com alguma pessoa além de seu filho?

Um Rolls-Royce Phantom prata chegou ao balcão. Skylar desculpou-se, cumprimentou o motorista e estacionou o carrão num local cobiçado. Voltou alguns minutos depois.

— O que você me perguntou? — Decker repetiu a pergunta e o manobrista dedicou-lhe alguma reflexão. — Não, não me lembro de vê-la com ninguém além do menino. Ele tem uns 15 anos, certo?

— Mais ou menos.

— Menino calado. Ela costumava conversar conosco, dizendo coisas como “Ei, Skylar, como vão as audições?” ou “Quando vou ver seu nome nos cartazes?” Apenas coisas que nos mostrassem que ela nos considerava seres humanos. O filho... O manobrista pensou um —

momento. O nome dele era Dave? —

— Gabe.

— Sim, isso mesmo.

Uma Ferrari vermelha clássica entrou rugindo no estacionamento. Skylar estava lá com o tíquete e um sorriso. Depois de estacionar o cavalo bravo, ele voltou correndo para Decker.

— O garoto era calado. Sempre que sua mãe conversava com a gente, ele ficava lá, parecendo constrangido... você sabe, como adolescentes ficam quando estão perto dos pais. Era um menino bonito. Estalou os dedos. Tocava piano. — —

— Como descobriu isso?

— Temos um piano em nosso salão principal. A gerência deixava o menino tocar quando não havia ninguém por perto. Eu o ouvi umas duas vezes. Cara, ele era inacreditável. Um verdadeiro profissa. Skylar assumiu uma expressão de perplexidade. Ela está mesmo desaparecida? — —

— No momento, estamos tentando localizá-la.

— E Gabe?

— Ele está sendo cuidado. Decker mostrou-lhe uma foto de Donatti. Que me diz deste — — homem? Já o viu alguma vez antes?

Skylar estudou o rosto.

— Talvez tenha visto uns dias atrás.

— Isso seria quando? Sábado? Domingo?

— Talvez domingo.

— Você se lembra a que horas?

— Talvez por volta do meio-dia. Temos brunch a essa hora e geralmente há muitos carros aqui. Acho que ele não estava com um carro. Provavelmente ele mesmo o estacionou.

— Você dá tíquetes para os carros estacionados pelos próprios donos?

— Sim, mas não para hóspedes por longas temporadas. Nesse caso, eles são debitados diariamente pelos seus quartos, então qual seria o sentido de dar um tíquete?

— Mas para alguém que usasse o restaurante, digamos. Ele ganharia um tíquete?

— Sim, muito provavelmente.

— Dê uma olhada na foto novamente. Pode me dizer alguma coisa sobre ele?

Skylar olhou fixamente a fotografia.

— Ele era alto... acho que estava carregando flores, talvez.

Era Chris.

— Você o viu sair?

— Acho que não. Ele olhou para um Aston Martin cor de ameixa que passava pelo portão —

da entrada de automóveis. Mas largo às três, então ele pode ter saído mais tarde. Por que não —

fala com um dos atendentes do estacionamento sem manobrista?

— Quem estava de serviço domingo?

— Trent ou Alex. Acho que Alex entra às três. Com licença.

Enquanto esperava que o manobrista estacionasse o Aston Martin, Decker percebeu uma morena acenando para ele. Retribuiu o gesto, mesmo sem ter certeza de ser o destinatário do aceno. Ela usava um terninho preto, blusa vermelha e sapatos de salto baixo. Carregava uma pasta, marchando através do estacionamento com passos rápidos. Quando o manobrista voltou, Decker disse:

— A sra. McLaughling conversava com alguém além de você?

— Conversava com todos os manobristas. Provavelmente com outros funcionários também. Era simpática.

— Tudo bem. E uma última pergunta: quando se lembra de tê-la visto pela última vez?

— Ai, meu Deus... Ele pensou bem, revirando o tíquete de estacionamento que tinha nas —

mãos. Não me lembro de tê-la visto no domingo. Olhou para Decker. Mas não tenho — — — certeza. Sinto muito.

— Você foi de grande ajuda. Decker apertou-lhe a mão. Muito obrigado, Skylar. Espero — — que mantenham seu emprego.

— Estão demitindo todo mundo — disse o manobrista, com uma combinação de amargura e melancolia. — Estão tentando dessindicalizar o pessoal e a única maneira de fazer isso é fechando durante dois anos. Mas não se preocupe comigo. Como disse a sra. McLaughlin, um dia você vai ver meu nome nos cartazes.

De perto, Eliza Slaughter parecia ter cerca de 1,52m, quarenta quilos e ossos tão delicados quanto os de uma ave canora.

— Caramba! exclamou ela. Qual é a sua altura? Cerca de 1,96? — —

— Meço 1,93.

— Eu pareço um dos seus bastões de esqui. Desculpe o atraso. Tinha a cabeça esticada para —

cima. — O trânsito estava um horror.

— Não tem problema.

O rosto dela era igualmente delicado. Tinha cabelo curto, macio, argolas nas orelhas e bochechas cor-de-rosa. Usava muito pouca maquiagem e as unhas das mãos estavam cortadas quase até o sabugo. Apresentou-se a Skylar, que pediu licença e foi ao encontro de um Maserati.

— O sujeito foi muito útil. Decker resumiu a conversa enquanto os dois atravessavam a —

ponte, andando por uma trilha que atravessava o equivalente a uma selva de folhagens plantadas em vasos e no chão, em plena floração de primavera. O perfume variava do pungente ao doce, as folhas verdejantes gotejando água de uma névoa recente.

— Como Terry parecia ser amistosa, deveríamos falar com os funcionários, mesmo com os que estavam de folga no domingo. Talvez consigamos uma lista com alguém no saguão disse —

Decker.

— Não sei se vão ser cooperativos. Violação dos direitos de seus hóspedes, esse tipo de coisa.

— Se a administração quisesse fazer jogo duro, sim — disse Decker. — Por outro lado, o lugar está fechando; por isso, talvez nos deem alguma liberdade para agir. Vamos pedir uma lista de todos os empregados, o que não conseguiremos. Depois vamos pedir apenas uma lista das pessoas de serviço no domingo, o que provavelmente conseguiremos. Vamos passar pelo escritório depois de examinar a suíte de Terry. Precisamos realmente falar com Alex ou Trent, os funcionários do estacionamento sem manobrista. Agora que Terry é oficialmente uma pessoa desaparecida, quero ver se (a) alguém se lembra de tê-la visto saindo em seu carro; (b) caso alguém se lembre de tê-la visto saindo, se estava sozinha; (c) se não estava sozinha, com quem estava; (d) se alguém se lembra de Chris Donatti chegando, indo embora e voltando; (e) caso se lembrem disso, qual foi o intervalo de tempo.

— É muita coisa para lembrar.

— Talvez o atendente não prestasse muita atenção a Chris, mas estou apostando que se lembraria de Terry. Ela ficou escondida aqui por algum tempo, e como estou dizendo, parecia ser uma pessoa amigável.

Eles pararam à porta da suíte de Terry. Como ela pagara até o fim do mês, o cartão de acesso que fora dado a Gabe ainda funcionava. Na noite da partida ou desaparecimento de Terry, Decker instruíra o hotel a não permitir que ninguém entrasse para limpar a suíte. Foi um compromisso fechado entre um funcionário reticente e ele. Em troca, concordou em não estender um cordão na porta para isolar a cena do crime.

Os cômodos estavam exatamente como Marge e ele os tinham deixado. Cheiravam um pouco a mofo no calor. Decker abriu a porta que dava para o pátio e saiu. Examinou a área plantada que cercava a área atijolada azaleias, marias-sem-vergonha, gardênias e camélias. Estava à procura —

de qualquer coisa que indicasse uma briga ou uma luta: galhos quebrados, arbustos esmagados, pegadas na terra. O espaço estava impecavelmente bem-cuidado e em plena floração. Ele entrou de volta na suíte.

Eliza estava no banheiro.

— O armário de remédios está vazio.

— Recolhemos os conteúdos.

— O que encontrou?

— Advil, Tylenol, Benadryl e dois remédios controlados, Zolpidem, comprado recentemente, e Vicodin. O frasco tinha data de dois meses atrás e estava pela metade. Não creio que ela o tivesse tomado recentemente. Quer que eu deixe essas coisas na West L.A.?

— Não, você pode guardar isso na sua sala de evidências — disse Eliza. — E quanto a pílulas anticoncepcionais?

— Não encontrei pílulas disse Decker, levantando as sobrancelhas. —

— Há quanto tempo ela está com o marido?

— Não sei exatamente quando se casaram, mas se conhecem há cerca de 16 anos.

— Ela devia estar tomando alguma coisa para evitar futuros bebês, você não acha?

— Na verdade, foi isso que fez Donatti explodir. Ele pensou que ela havia abortado um bebê dele. Só que ela estava pagando pelo aborto da meia-irmã.

— Então eles vinham tentando ou...

— Quem sabe? Ele obviamente não queria que ela fizesse um aborto. — Decker pensou um momento. Terry ia alugar uma casa em Beverly Hills. Ela conseguiu que Donatti concordasse —

em pagar por seu arranjo para a coexistência dos dois, embora ele provavelmente não fosse morar lá.

— E o marido controlador e pistoleiro dela concordou com isso?

— Chris estava cheio de remorso. Decker alisou o bigode. Terry fez questão de lhe dizer — — que ele teria a chave e que poderia ir lá sempre que quisesse. Sugeriu que eles ainda compartilhariam um quarto quando estivesse na cidade.

— Então, se o relacionamento deles continuava, ela estava provavelmente tomando pílula.

— Ou quis que Chris e eu acreditássemos que continuava.

— Acha que ela estava ludibriando você?

— Não, não me ludibriando. Talvez estivesse tentando convencer pessoas como eu de que aconteceu alguma coisa com ela. Talvez estivesse planejando isto, sabia que nunca mais veria Chris Donatti de novo e jogou fora suas pílulas.

— E você acha que ela simplesmente se levantaria e iria embora sem o filho?

— Sim, esse é o problema, e é um problema e tanto. Certamente é possível que Donatti tenha voltado para dar um sumiço nela.

— Dar um sumiço? Você quer dizer matar?

— Talvez. Não sei. Ele pareceu aceitar bem que ela alugasse a casa quando eu estava por perto, mas podia ser encenação. — Ele correu os olhos pelo quarto. — Se Terry saiu do hotel com Chris, não me deixou nenhum sinal de que saiu aflita.

— Você acha que ele poderia matá-la aqui e não deixar escapar nenhum tipo de evidência?

— Em geral, alguma coisa é deixada para trás, mas ele é... bom no que faz. Marge e eu examinamos os carpetes, as paredes, os rodapés, os arremates. Examinamos minuciosamente os banheiros e pias e o ralo da banheira. Não encontramos nenhum sinal de sangue. Também não encontramos qualquer evidência de que alguém os havia limpado. Nenhum cheiro de desinfetante, nenhuma toalha faltando, nenhuma caixa de lenços de papel usada.

— O carro dela desapareceu disse Eliza. Se ela tivesse desaparecido para sempre, tipo — — morta, por exemplo, provavelmente teria deixado suas pílulas para trás.

— Sim, ela poderia ter fugido com outro homem. Como Donatti praticamente a seguia, não vejo como poderia ter desenvolvido um relacionamento com outra pessoa.

— Mas mesmo o mais diligente seguidor não está lá o tempo todo. O que diz o filho dela sobre isso?

— Ele parece genuinamente perplexo com o desaparecimento dela. Talvez ela não tenha lhe contado seus planos.

— Ou não havia planos disse Eliza. Donatti voltou e assassinou-a. — —

— Ou alguma outra pessoa a matou. Até encontrarmos o corpo dela, não temos a menor ideia de com quem estamos lidando. Decker deu uma olhada final no quarto. Não acho que — — vamos tirar muito mais coisa daqui. Vamos ver o que o pessoal tem a dizer sobre a amistosa dra. McLaughlin e seu filho calado, Gabe.