Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 5 de 50

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Carrasco

Capítulo 5

 

 

ÀS DUAS DA MANHÃ, A CASA estava escura e silenciosa, como deveria. Decker fechou a porta da frente com a maior delicadeza possível, esperando que o garoto surgisse do quarto de seus filhos. Como isso não aconteceu, foi para seu quarto na ponta dos pés, despiu-se e enfiou-se sob as cobertas. Rina rolou e envolveu as costas dele com um braço.

— Está tudo bem?

— Nada a relatar.

Rina ficou quieta, mas depois suspirou.

— Você está aborrecido. Sinto muito.

— Sim, um pouco aborrecido. Eu deveria ter convencido Terry a não ir ao encontro.

— Você estaria apenas adiando o inevitável. Rina sentou-se. Pelo que me contou durante — — o jantar, ela não estava planejando deixá-lo definitivamente.

— Tem razão, mas, ainda assim, o fato é que ela desapareceu.

Decker virou-se e olhou para a mulher.

— Rina, o que vou dizer ao garoto?

— Que você está fazendo tudo o que pode e o manterá informado. O maior problema é o que fazermos com ele. Certamente pode ficar aqui por alguns dias, mas caso isso se prolongue por mais tempo, temos que tomar uma decisão.

— Bem, ele tem um avô que mora em Los Angeles, mas não gosta do homem. Terry não gostava dele. Ele disse que sua tia é legal, mas avoada.

— Que idade ela tem?

— Por volta de 21... Muito imatura para 21, foi o que Gabe me disse.

— Ai, é nova demais para lidar com um adolescente e provavelmente atrapalhada demais para fazer isso. Ela trabalha? Faz faculdade?

— Não sei nada sobre ela, a não ser que fez um aborto recentemente. Decker suspirou. — —

Vou tratar disso de manhã. Vamos dormir um pouco.

— Boa ideia. — Ambos se enfiaram debaixo das cobertas.

Peter pegou no sono em dez minutos, mas Rina passou um longo tempo acordada, assombrada por imagens de um menino perdido, sozinho.

Às seis da manhã, Rina estava de pé, mas não foi a primeira a sair da cama. Gabe estava sentado no sofá da sala, quase no escuro, a cabeça para trás, os olhos fechados atrás dos óculos sem aro, sua bagagem a seus pés. Vestia uma camiseta preta, jeans e tênis gigantescos que pareciam ser de número 44.

— Bom dia disse Rina baixinho. —

O garoto levantou a cabeça depressa.

— Ah. Ele esfregou os olhos. Olá. — —

— Vai a algum lugar? Quando ele sacudiu os ombros, Rina perguntou: Quer tomar café — — da manhã?

— Não estou com muita fome... mas obrigado.

— Que tal um chocolate quente ou café?

— Se você for fazer café de qualquer maneira, isso seria bom.

— Venha, faça-me companhia na cozinha.

Com relutância, o menino levantou-se e a seguiu. Apertou os olhos quando Rina acendeu a luz do teto, de modo que ela a desligou imediatamente e se contentou com a iluminação sob o armário.

— Desculpe. Gabe sentou-se à mesa da cozinha. Pareço um morcego de manhã. — —

— De qualquer maneira, está cedo demais para muita luz disse-lhe Rina. Tem certeza de — — que não está com fome? Talvez seja uma boa ideia comer e guardar suas forças. — Ele certamente não dava a impressão de ter muitas reservas para utilizar.

— Sim, tudo bem — disse ele com um sorriso nauseado.

— Quer torradas?

— Está bem. Uma pausa. Obrigado por me hospedar por esta noite. — —

— Ficou bem acomodado?

— Sim, obrigado.

— Lamento muito, Gabe. Se precisar de alguma coisa, por favor me diga.

— Então seu marido não... Quero dizer, minha mãe continua desaparecida?

— Até onde sei, sim. — Ela pôs duas fatias de pão na torradeira. — O tenente Decker vai se levantar daqui a pouco. Você pode lhe perguntar tudo que quiser.

O menino apenas assentiu com a cabeça. Se havia uma personificação da palavra “infeliz”, Rina estava olhando para ela. A torrada pulou e ela pôs o prato diante dele, com geleia, manteiga e uma xícara de café quente.

— Creme ou açúcar?

— Os dois.

— Aqui estão.

— Obrigado. O menino mordiscou o pão seco. Você sabe para onde vou? — —

— O tenente Decker me disse que você tem uma tia e um avô em Los Angeles.

Ele assentiu com a cabeça.

— Então ele vai ligar para eles ou...

— Não sei qual é o procedimento. Deixe-me dar uma espiada para ver se ele está de pé. — Quando Rina entrou no quarto, Decker havia acabado de sair do chuveiro. O café está pronto. —

— Sairei em um segundo.

— Ótimo. O pobre garoto está se perguntando onde vai ficar até que as coisas sejam resolvidas.

— Se forem resolvidas. Ele já se levantou?

— Está de pé, bagagem arrumada, e parecendo completamente desanimado. Você o julga?

— É uma desgraça. — Ele vestiu a calça e calçou os sapatos.

Rina fez uma pausa.

— Talvez devamos hospedá-lo por mais um ou dois dias... Só até que ele se encontre.

— E depois fazer o quê? perguntou Decker. Lamento pelo menino, mas ele não é — — problema nosso, Rina.

— Eu não disse que era.

— Conheço você. Tem o coração mole. Já me envolvi demais com a Terry, e veja aonde isso me levou... para onde a levou... Só Deus sabe para onde a levou. Onde está o garoto?

— Na cozinha.

Decker abotoou a camisa.

— Vou conversar com ele e você acorda a sua filha. — Ele riu, enquanto dava o nó na gravata. — Fiquei com a tarefa mais fácil.

 

O menino tinha os olhos fixos no tampo da mesa.

— Ei, Gabe disse Decker. —

— Oi respondeu ele, levantando os olhos. —

— Ainda não encontramos a sua mãe disse Decker, com a mão no ombro do garoto. —

— E quanto ao Chris? — perguntou o menino, com o lábio trêmulo.

— Estamos trabalhando para encontrar os dois. Ainda temos muita coisa para fazer e muitas opções. Assim, a única coisa que posso lhe dizer é: espere com paciência e nós o manteremos informado.

— É claro — respondeu Gabe, piscando várias vezes.

— Precisamos falar sobre algumas coisas agora mesmo, porém. Sei que seu pai é filho único e órfão. E temos conhecimento dos parentes de sua mãe. Antes de explorarmos isso, você tem alguém em Nova York com quem queira que eu entre em contato?

— Tipo parentes?

— Parentes, amigos, companheiros...

— Tenho amigos, mas não quero ficar na casa de nenhum deles. Pelo menos, não agora.

— Certo, então nos restam os parentes de sua mãe.

— Mal conheço o meu avô. Minha mãe e ele não se dão bem.

— Então, nos resta sua tia muito jovem.

— Acho que eu poderia ficar com ela. Ele baixou os olhos. Quais são minhas opções, se — — eu não for ficar com a minha tia?

— Em longo prazo, você ficaria sob a custódia do Estado e isso significa acolhimento familiar. Você não quer isso. Decker serviu-se de café. Diga-me por que não quer morar com sua tia. — —

— Ela não tem nenhum dinheiro para me sustentar. Está vivendo com o que minha mãe lhe dá. Passa o tempo todo na farra. Fuma maconha e a casa dela é um chiqueiro. Sei que ela me deixaria ficar lá. E, na verdade, gosto dela, mas ela não é muito responsável.

Ele deixou a cabeça cair sobre a mão.

— Isso é realmente ruim em uma vida que já não estava boa!

— Sinto muito, Gabe disse Decker, sentando-se. —

— Isso é... — Ele tirou os óculos e limpou-os com um guardanapo. — Vou ficar bem. Obrigado por me hospedar. — Tamborilou na mesa da cozinha. — Sabe, tenho meu próprio dinheiro. Tenho economias, fundo fiduciário, essas coisas. Você acha que um juiz me deixaria viver sozinho?

— Não com 14 anos.

Ele olhou para Decker. Sua voz estava melancólica.

— Será que eu poderia ficar aqui só por mais uns dois dias, até que as coisas se esclareçam? Sou realmente sossegado. Não como muito e prometo que não vou atrapalhar você. Eu posso pagar...

— Pare, pare. O menino estava lhe partindo o coração. Claro que pode passar alguns — — dias aqui. Já conversei com a sra. Decker. Ela concorda comigo. Na verdade, foi ideia dela.

Gabe fechou e abriu os olhos.

— Muito obrigado. Fico realmente grato. Peço desculpas por eu ser uma chateação.

— Você não é uma chateação e não precisa se desculpar. Está em uma enrascada neste momento. Lamento por você. Vamos enfrentar isso um passo de cada vez.

Nesse instante, Rina entrou com Hannah. Gabe levantou-se.

— Com licença.

Assim que ele saiu da cozinha, Decker levantou as sobrancelhas.

— Ele pediu para ficar aqui mais alguns dias.

Rina olhou para Hannah. A menina deu de ombros.

— Por mim tudo bem, contanto que ele não seja um psicopata ou coisa parecida.

Decker expirou com força e sussurrou:

— Ele não parece ser um psicopata, mas o pai dele é, e na verdade não sei nada sobre o garoto.

— Ele não quer morar com os parentes? perguntou Rina. —

— Aparentemente não — disse Decker.

— De quantos dias estamos falando? — perguntou Hannah.

— Espero logo encontrar a mãe ou o pai.

— Deixe o Gabe ficar, então. Hannah sorriu. Mesmo que seja um psicopata, não há — — muita coisa aqui para roubar.

— Alguns dias não farão muita diferença disse Decker. Se a coisa se prolongar além — — disso, vamos reavaliar.

— Ele deveria estar na escola disse Rina. —

— Não na nossa escola respondeu Hannah. —

— Por que não? — perguntou Decker. — Ela está cheia de desajustados, de qualquer maneira.

— É um semi-internato ortodoxo, Abba, e não acho que ele seja judeu.

— Metade das crianças da escola também não é.

— Isso não é verdade disse Hannah. Ouçam, posso levá-lo para a escola. Ele é realmente — — um gato e tenho certeza de que todas as meninas vão ficar loucamente apaixonadas. Só não me responsabilizem se os rabinos tiverem um ataque.

— Ficar sentado aqui só vai fazê-lo se sentir pior disse Rina. E virando-se para Hannah: ——

Vá e diga-lhe que você vai levá-lo para sua escola.

— Você quer que eu diga isso?

— Sim, quero — ordenou Rina.

— Tenho ensaio do coral esta noite. Vou chegar tarde em casa.

— Leve-o com você disse Decker. Acho que estou me lembrando que ele toca piano. — — Talvez possa acompanhar vocês.

— Certo! Hannah bufou e foi buscar Gabe no quarto dos irmãos. —

— Espero que isso não nos cause problemas no futuro disse Decker, depois que ela saiu. —

— Poderia — disse Rina. — Mas até Deus nos julga por nossas ações presentes, e não pelo que Ele sabe que faremos no futuro. Como podemos nós, mortais, fazer menos?

— É um belo discurso, mas nós, mortais, temos de usar o passado para avaliar o futuro, porque não somos Deus. — Ele sacudiu a cabeça. — Que tipo de adolescente não quer morar com sua jovem e irresponsável tia que vive na farra e usa drogas?

— Um garoto maduro demais para sua idade.

 

Ele ficou sentado em uma das camas, a mochila a seus pés, olhando para o nada enquanto outras pessoas conversavam sobre o seu destino. Uma posição em que estivera várias vezes antes. O quarto estava cheio de troféus de competições esportivas, brochuras, revistas em quadrinho, CDs e DVDs, a maior parte dos anos 1990. Havia pôsteres de Michael Jordan e Michael Jackson, um de Kobe Bryant quando tinha uns 17 anos. Os CDs incluíam Green Day, Soundgarden e Pearl Jam.

Um quarto absolutamente normal em uma casa absolutamente normal com uma família absolutamente normal.

O que ele não daria para viver uma vida absolutamente normal!

Estava cansado de ter um psicopata como pai, um maluco totalmente imprevisível com um temperamento violento. Estava enjoado de ter uma mãe psicologicamente derrotada. Tinha medo do pai, amava a mãe, mas estava mortalmente enjoado de ambos. E, embora fosse sinceramente apaixonado por sua música e pelo piano, detestava crescer como um menino-prodígio. Isso o levava a fazer cada vez mais e mais e mais. A única coisa que queria era ser a merda de um cara normal. Seria um desejo assim tão difícil de atender?

Ouviu uma batida à porta e enxugou os olhos. Olhou-se no espelho e viu que, ao redor deles, estava vermelho. Puta merda! A menina provavelmente achava que ele era um verdadeiro covarde.

Mãe, onde você está? Chris, que merda você fez com a minha mãe?

— Ei disse, respondendo à batida à porta. —

— Ei disse ela, sorrindo. Sabe, se você quiser se esconder aqui por alguns dias, é mais do — —

que bem-vindo.

— Sim, seu pai já me disse isso. Muito obrigado. De verdade. Ele mordeu o lábio inferior. —

— Tenho certeza de que até lá as coisas terão se esclarecido. Diga aos seus pais que não vou dar nenhum problema.

— Dou problemas suficientes por nós dois. — Ela sorriu. — Detesto ter de dizer isto a você, mas a mamãe quer que você vá para a escola comigo.

— Escola?

— Não culpe o mensageiro.

— Certo. Ele riu. Que mais havia para fazer? Certo. Por que não? — —

— É uma escola religiosa.

— Que religião?

— Judaica.

— Sou católico.

— Tudo bem. Você não terá de fazer nada contra as suas crenças.

— Não tenho nenhuma crença, exceto na maldade inata dos seres humanos. Ele olhou para —

ela. Menos os seus pais. —

— Se você achar isso demais para encarar, talvez eu possa fazer minha mãe mudar de ideia.

— Não, tudo bem. — Uma pausa. — Eu me viro. Vou precisar de um caderno ou de alguma coisa?

— Vou pegar um extra para você. Você disse que está no primeiro ano, não é?

— Eu estava.

— Álgebra dois ou pré-cálculo?

— Pré-cálculo.

— Vou cuidar disso. Ouvi dizer também que você toca piano.

Uma centelha de animação apareceu nos olhos dele.

— Você tem um piano?

— Minha escola tem. Você é bom?

Pela primeira vez, Hannah viu um sorriso genuíno.

— Sei tocar — disse ele.

— Então talvez você possa ficar depois das aulas e acompanhar nosso coral. Somos péssimos. Um estímulo não nos faria mal.

— Provavelmente posso ajudar vocês com isso.

— Vamos. Ela o chamou com um aceno. Vou guiá-lo. Talvez você não saiba, Gabe, mas — — está olhando para a chefona.