Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 10 de 50

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Carrasco

Capítulo 10

 

 

QUANDO OS CALOUROS ARMARAM AS CADEIRAS, Hannah levou Gabe até a regente do coral. A sra. Kent era uma mulher enérgica, corpulenta e com o cabelo preto em um corte de cuia e óculos pendurados em uma corrente.

— Este é o Gabe — disse Hannah. — Ele toca piano.

Colocando seus óculos no nariz, a sra. Kent examinou o menino de cima a baixo.

— Em que ano você está?

— No primeiro, mas estou só visitando.

— Visitando? A sra. Kent deixou os óculos caírem sobre o peito. Por quanto tempo? — —

— Não sabemos disse Hannah. Talvez um ou dois dias. Pensei que se ele pudesse tocar — —

“My Heart Will Go On” em seu lugar, assim a senhora poderia se concentrar nos vocais. Embora provavelmente vá ser necessário muito mais que isso para nos manter afinados.

— Esse é um comentário muito cético, vindo da presidente do coral. Ela olhou para Gabe. —

— Você conhece a música?

— Posso enganar direitinho. Ela é em mi, certo?

— Sim, é em mi. Você sabe ler música?

— Com a partitura é ainda melhor disse Gabe. —

— Ela está no piano disse-lhe a sra. Kent. Decker, ajude os garotos a se prepararem. — —

Gabe encontrou um pequeno piano em um canto, mas virado de frente para o palco. Era um Gulbransen, e embora não fosse exatamente o Steinway alemão, a marca era aproveitável. Ele empurrou os óculos para cima no nariz, depois tocou as teclas de marfim do dó intermediário até duas oitavas acima usando os dedos da mão direita. Com os dedos da mão esquerda, foi do dó intermediário até duas oitavas abaixo. Depois tocou teclas ao acaso. O som era mais ou menos o que se esperava de um piano pequeno. Sua afinação era boa, embora nem todas as notas fossem perfeitas. Isso o incomodaria. Tudo que não fosse musicalmente perfeito o incomodava, mas tinha aprendido a conviver com isso. Raramente comparecia a shows de rock ao vivo, a menos que fossem de trash metal, em que o som era distorcido e deformado de qualquer maneira, de modo que ninguém se preocupava com o tom. Os cantores pop eram os piores. Apesar das ferramentas de edição de som, havia muito poucos cantores que atingiam as notas o tempo todo.

Lançou um olhar para a partitura. Ela requeria alcance de voz. Sem dúvida, o coral a massacraria, como Hannah previra. Ele gostava de Hannah. Ela era amistosa, mas discreta. Puxava conversa, mas evitava tudo que fosse pessoal. Tinha autoconfiança sem ser arrogante.

Havia 23 adolescentes no coral, alinhados na plataforma em degraus. Assim que a professora começou a falar com eles, Gabe se distraiu. Cerca de cinco minutos depois, deu-se conta de que ela estava falando com ele.

— Como disse?

A sra. Kent soltou um suspiro dramático.

— Perguntei se você achava que podia tocar a música.

— Com certeza.

— Com certeza?

— Sim, com certeza. — Gabe sorriu. — Não é Rachmaninoff.

A sra. Kent olhou bem para ele.

— Você deve ser parente da Hannah. Vocês têm o mesmo senso de humor.

Gabe sorriu, mas não disse nada.

— Podemos começar assim que você estiver pronto.

— Estou pronto.

— Então comece.

Gabe sufocou um riso. Quando começou a introdução, viu os olhos da professora do coral se arregalarem. Era tolice dela estar chocada. Por que diria que podia tocar se não pudesse? Era uma habilidade motora — impossível de simular.

Como Hannah previra, o coral foi medonho; a desafinação predominou especialmente na seção das sopranos. Foi aflitivamente penoso para seu ouvido. Na metade da peça, ele parou de tocar. A professora interrompeu o coral e lhe perguntou qual era o problema.

— Não quero ser insolente, mas está um pouco alto demais para as vozes de vocês. Gostariam que eu descesse para mi-bemol? Ou talvez baixar uma nota inteira para ré? Não gosto de transformar canções em tom agudo em canções meio tom abaixo, mas esta é apenas minha opinião.

A sra. Kent olhou fixamente para ele.

— É capaz de fazer isso? — Sem esperar, acrescentou: — Eu sei. Não é Rachmaninoff. Tudo bem, dê-nos uma nota de saída.

Gabe deu-lhes um ré e eles executaram o número de novo. Ainda foi terrível, mas pelo menos as sopranos não se esforçaram tanto. Quando a sra. Kent pediu cinco minutos de intervalo, Hannah foi até o piano.

— Temos mais uma hora, aproximadamente. Sinto muito que isso nos atrase tanto.

— Não vou a lugar nenhum. Se seu pai tivesse alguma coisa para me dizer, ligaria para mim, não é?

— Sim, ligaria. Sinto muito.

Gabe deu de ombros.

— Sua execução é realmente maravilhosa.

— Com algum treino, qualquer idiota poderia tocar isto.

— Não, não acredito nisso.

— É verdade. Pelo tempo que toquei, eu deveria ser melhor.

— Como poderia ser melhor?

Ela fizera a pergunta com toda sinceridade. Gabe teve de sorrir.

— Obrigado, vou procurá-la da próxima vez que precisar de um reforço de ego.

— Nós somos horríveis, né?

— Tudo bem.

A sra. Kent aproximou-se.

— Quanto tempo vai passar conosco, sr. ...?

— Whitman — disse Gabe.

— Um ou dois dias respondeu Hannah no lugar dele. —

— Já pensou em se transferir para esta escola? Temos uma orquestra e sempre temos lugar para um solista.

— Vou me lembrar disso disse Gabe. —

— Você já executou peças solo algum dia?

Ele não iria tocar para ela de jeito nenhum. Queria anonimato, não atenção. — Não faço isso há algum tempo. Estou um pouco enferrujado.

— Eu gostaria muito de ouvi-lo quando estiver disposto.

— Certamente. Outra hora.

Quando a professora se afastou, Hannah sussurrou:

— Sinto muito. Ela é incansável.

— Está apenas sendo uma professora. Ele fez uma pausa. Hannah, se eu tiver de voltar — — aqui com você, acha que posso praticar quando ninguém estiver usando a sala? Sabe, é realmente uma bobagem eu estar na sua escola tentando aprender alguma coisa. Meu tempo seria mais bem gasto praticando. Quero dizer, não é que eu tenha de tocar, mas tocar me acalma.

— Tenho certeza de que não há problema, mas vou ter de pedir permissão à sra. Kent. — Hannah levantou as sobrancelhas. — Fique avisado de que se fizer isso, vai fazer um pacto com o demônio. Em troca, ela fará você vir tocar com a orquestra enquanto estiver aqui.

— Então virei. Contanto que não tenha de fazer solos.

— Entendi. Mas talvez você queira reconsiderar com relação à orquestra. Somos realmente ruins! Piores que o coral.

— Tudo bem, Hannah. Já tive de passar por coisas muito mais cabeludas que algumas notas erradas.

— Se fossem apenas algumas, eu não diria nada. Ela sacudiu o dedo no rosto dele. E pare — — de ser tão gato. Está distraindo toda a seção das sopranos. E caso não tenha notado, elas já têm dificuldade suficiente para permanecer no tom.

 

Depois que os Blanc saíram de seu escritório, Decker sentiu como se tivesse tirado um casaco de inverno em um aposento superaquecido: ficou dez quilos mais leve e pôde finalmente respirar fundo. Kathy Blanc lhe contara que o apartamento da filha parecia em ordem, mas admitiu que não o examinara com muita atenção.

Decker começou a programar seu tempo. Conseguiria dar uma rápida passada em casa para jantar e depois iria à casa de Adrianna... ou talvez devesse ir ao St. Timothy e ver o que Marge e Oliver estavam fazendo. Estava com a mente em outro lugar quando seu celular tocou e não prestou atenção no número de identificação que aparecia na tela. Isso não teve importância, porque era um número restrito, mas a voz lhe disse quem estava falando em uma única palavra.

— Quê?

Parecia mais irritado que ansioso, mas isso era típico de Donatti. O coração de Decker acelerou-se.

— Seu celular está com defeito, Chris? Estive ligando para você nas últimas 24 horas.

— Sabe como é, Decker. Às vezes a gente simplesmente não quer ser perturbado.

— Onde andou?

— Onde andei? — Uma risada pelo telefone. — Que diferença isso faz?

— Estou só me perguntando o que manteve você tão preocupado que não quis se dar ao trabalho de checar seus telefonemas.

Outra risada.

— Você parece irritado.

— Onde você esteve?

— Agora parece que está me interrogando. Não estou gostando do seu tom. Para falar a verdade, não gosto de você. Tem dois segundos para me dizer o que quer antes que eu desligue.

— Você não quer retornar minhas ligações, muito bem, mas eu pensaria que você atenderia às ligações do seu filho. Ele ficou tão perturbado que ligou para mim. — Houve a pausa esperada. Podia ter sido real ou simulada. — Estamos com um grande problema, Chris. Terry está desaparecida.

Desta vez a pausa foi muito maior.

— Continue.

A raiva desaparecera, mas a voz dele continuava sem entonação.

— É isso repetiu Decker. Terry está desaparecida. — —

— O que você quer dizer com desaparecida?

— Não conseguimos encontrá-la...

— Sei o que a merda da palavra “desaparecida” significa. O que quer dizer com ela está desaparecida?

Donatti fora da falta de entonação à agitação em cinco segundos. Estava claramente agitado, mas isso podia ser fingimento também. Não era possível aferir a veracidade de suas emoções pelo telefone.

— Você precisa vir à delegacia, Donatti. Precisamos conversar.

— Não enquanto você não me contar que porra está acontecendo.

— Seu filho ligou para mim ontem por volta das nove da noite. Estava consternado. Quando ele voltou para o hotel às sete horas, Terry tinha saído. Ela não estava atendendo o celular, por isso ele ligou para você. Quando não conseguiu entrar em contato com nenhum de seus pais, ele ligou para mim. Por isso eu o hospedei por esta noite, porque ele não quis dormir na casa da tia. Assim, sou responsável pelo seu filho até você chegar aqui. Onde você está?

— Estou em Nevada. Minha recepcionista me disse que você ligou.

— Você precisa vir para Los Angeles. Precisamos conversar.

— Que merda aconteceu?

— Não sei, e é por isso que precisamos conversar...

— Então fale, porra!

— Não por telefone — disse Decker calmamente. — Pessoalmente. Você tem de vir para cá de qualquer maneira. Seu filho está aqui, lembra-se?

— Certo, certo, me dê um tempo. — Ele estava murmurando consigo mesmo. — Quando ela... Quero dizer, quanto tempo faz que ela está desaparecida?

— Tempo suficiente para que possa haver um problema...

— O carro dela desapareceu?

— Chris, não posso contar por telefone. Em quanto tempo pode chegar a Los Angeles?

— Merda! Que horas são?

— Por volta de seis.

— Porra! — O som de alguma coisa se quebrando na linha. — Porra, porra, porra! Quando isso aconteceu? Ontem?

— Sim, Chris. Vou dar todas as informações a você quando estiver em Los Angeles. Quando pode chegar aqui?

— Estou a duas horas de Las Vegas. Vim dirigindo, por isso não estou com meu avião. Até eu chegar ao McCarran e ao LAX, eu não poderia estar aí antes das onze horas. Dirigindo, eu levaria de cinco a seis horas... merda! Vou ver se consigo alugar alguma coisa no aeroporto local. Eu ligo de volta para você. Donatti desligou. —

Decker pousou seu celular e tamborilou na mesa, à espera de mais informação, mas sua mente estava num pensamento específico.

Vim dirigindo, por isso não estou com meu avião.

Vim dirigindo.

Muitas terras vazias e rodovias desertas entre a Califórnia e Nevada. As vastas trilhas despovoadas que cortavam o deserto de Mojave, com seus infinitos quilômetros de vazio, sempre haviam proporcionado abundantes terrenos de desova.