Carrasco
Capítulo 23
MARGE TINHA IDADE SUFICIENTE PARA SE lembrar de uma época em que uma tatuagem significava alguma coisa, em que desenhos na pele andavam de mãos dadas com comportamento criminoso e a afiliação a uma gangue agressiva. Naquele tempo, as únicas outras tatuagens aceitáveis, como “mamãe” dentro de um coração, estavam associadas a homens que serviam nas forças armadas dos E.U.A. O resto da população masculina era desprovido delas. Hoje em dia, tatuagem era completamente aceita e usada como joias permanentes. A tatuagem se tornara quase, ela ousava dizer, uma ornamentação convencional. O efeito da técnica que vinha realmente a calhar era identificação, porque não existem duas imagens exatamente iguais.
Aaron Otis era adornado por espirais que subiam e desciam pelo seu braço esquerdo, enquanto o braço direito fora tatuado com uma série de braçadeiras que incluíam — mas sem se limitar a eles — um círculo de arame farpado, um bracelete de caracteres japoneses, uma pulseira de serpente e uma coleção de balas num cinto de munição. A única parte de seu corpo que mostrava Aaron ao natural era seu rosto abatido — bronzeado, de traços marcados e louro —, como se ele passasse a vida no campo. Ele usava uma camiseta preta e calça cargo bege. Usava mocassins Vans nos pés sem meias.
Greg Reyburn era um pouco mais criterioso em sua escolha de pinturas corporais, mas sua pele ainda continha tinta suficiente para se escrever uma noveleta. De altura e constituição medianas, o jovem exibia uma cabeleira de cachos pretos, pômulos altos e um queixo pontudo. Seus olhos, como os do seu companheiro de viagem, estavam caídos e orlados de vermelho. Usava jeans, uma camisa polo preta e sandálias.
Marge os pusera em duas salas de interrogatório separadas. Enquanto Scott operasse sua mágica com Greg Reyburn, ela falaria com Aaron Otis. Levou-lhe um refrigerante e sentou-se ao lado dele, debruçando-se, tentando parece maternal.
— Você parece cansado.
— Exausto. Otis pegou o refrigerante e lhe agradeceu. Estes dias têm sido um inferno. — — — Bebeu sofregamente. Entre os consertos do carro e as férias, não me sobrou um tostão. — —
Ele fez aspas no ar ao dizer a palavra “férias”. Foi tudo um desastre. Além disso, agora você —
está me olhando com olhos de vodu!
— Por que diz isso? — perguntou Marge, pegando um bloco de anotações.
— Porque Adrianna ligou para mim e não para Garth. Se tivesse sabido que ela ia morrer, eu teria... bem, não sei o que eu teria feito. É simplesmente apavorante. Falar com ela e depois... você sabe... é apavorante.
Marge assentiu com a cabeça.
— Quero dizer, tipo, o que aconteceu? Ela estava bem quando falei com ela... Quero dizer, estava completamente enfurecida, mas... assim, é tão estranho.
— Como você ganha a vida, Aaron?
— Eu?
— Sim. Como você ganha dinheiro?
— Sou um EG.
— Empreiteiro geral? Você constrói casas?
— Em geral, trabalho como mestre de obras de estrutura para empresas maiores.
— Certo. Teria sido coincidência que Adrianna tivesse sido encontrada num canteiro de —
obras? Não que Otis teria podido fazer aquilo, se estava a quilômetros dali. Como conheceu —
Garth?
— Estudamos juntos. Eu o conheço desde a sétima série.
— O que pode me contar sobre ele?
— É um bom sujeito... Um pouco vaidoso, mas, afinal, por que não?
— Vocês são muito ligados?
— Somos bons amigos. Bons o suficiente para que eu fique chocado se... Ele se deteve. —
— Ele entrou em contato com você desde que foi embora?
— Não. — Um tempo. — Estou nervoso com isso. Para onde ele iria se não foi para casa?
— É o que gostaríamos de saber. Checamos a lista de passageiros da companhia. Ele saiu do avião no aeroporto de Burbank, mas não sabemos para aonde ele foi depois disso. Ele é seu amigo. Para onde acha que iria se quisesse se esconder?
— Não sei. — Ele flexionou um bíceps. Seus braceletes tatuados se expandiram e depois se contraíram. A família dele está aqui. Tentaram falar com eles? —
— Foi a primeira coisa. A mãe achava que ele ainda estava com você.
— Isso pega mal para ele... desaparecer de repente.
— Seria também possível que algo de ruim tivesse acontecido com ele. Eu gostaria de encontrá-lo para me certificar de que está bem.
— Você acha que ele está... morto? — perguntou Otis, arregalando os olhos.
— Não sei, Aaron. Sabemos que Adrianna foi assassinada. Pensar que Garth teve o mesmo destino me deixaria muito triste.
— Nossa. Ele coçou seu braço cheio de espirais coloridas. Isso é realmente estranho. Eu — — estava achando, tipo... você sabe...
— Não, não sei. Diga-me.
— Que você achou que Garth era tipo um suspeito. Embora eu não saiba como ele teria feito qualquer coisa. Pela hora em que saiu de Reno, não teria tido tempo suficiente.
Marge não discutiu. Garth tivera tempo suficiente, mas teria sido apertado.
— Fale-me sobre a reação de Garth quando você lhe contou sobre o telefonema de Adrianna — disse Marge.
— Ele ficou perturbado.
— O que ele disse?
— Não me lembro de suas palavras exatas... algo como... ele odeia quando ela fica assim. Ele teria que ir para casa para conversar com ela, porque um telefonema não iria resolver isso.
— Quando ela fica assim? Ela terminou com ele antes?
— Sim, eles brigavam o tempo todo.
— Por que razões?
— Coisas. Coisas de casal.
— Pode me dar um exemplo?
— Ele se queixava de que Adrianna era dominadora... tentando controlar demais a vida dele. Ela não tinha nada que fazer isso, porque ela mesma não era nenhum anjo. Otis olhou para o —
seu colo. — Eu realmente não deveria falar pelo Garth.
— E quanto ao lado dela?
— Não sei sobre o lado dela. Sou amigo do Garth.
— No entanto, ela ligou para você para dizer que estava terminando com ele. O que isso significa?
— Que ela tinha meu número de telefone e não queria falar com o Garth.
Marge inclinou-se, chegando mais perto dele.
— É mais que isso. Acho que Adrianna e você estavam muito ligados.
— De maneira nenhuma. — Olhos desviados.
— Talvez você queira pensar sobre essa afirmação, Aaron.
Marge recuou para lhe dar um pouco de espaço para respirar.
— Você sabia que Adrianna mantinha um diário?
Um rubor passou pelo rosto do homem. Embora Adrianna falasse sobre encontros amorosos com outros homens, não usava nomes. Marge não fazia ideia se um dos encontros secretos tinha sido com Aaron, mas se ele fosse como a maioria dos homens, iria se considerar importante o suficiente para ser citado.
— Aaron?
— Não foi nada sério.
— Foi mais do que só uma noite de sexo mentiu Marge. —
— Foi uma noite de sexo que aconteceu talvez três ou quatro vezes. Não significou nada para nenhum de nós dois. Ela tinha ficado furiosa com ele e o traiu porque Garth estava fazendo a mesma coisa com ela.
— Então por que não terminaram, simplesmente?
— Obviamente ela tinha terminado com ele. Ou pelo menos ia terminar com ele.
— Por que ela levou tanto tempo?
— Não sei. Fazia um bom tempo que eles estavam tendo problemas.
— Bem, por que você acha que Garth continuava com ela?
— Porque ela era boa de cama. Pelo menos é o que eu acho.
— Sabe disso por experiência própria?
— Ora, me poupe.
— Ela está morta, Aaron. Preciso saber tudo. Por que você está dizendo que ela era boa de cama?
O rapaz pareceu esmorecer.
— Ela fazia coisas que muitas garotas não fariam. Nada era proibido com ela. Além disso, ela dava dinheiro para o Garth.
— Parece que era a namorada perfeita. Por que ele a enganaria?
Um sorriso torto.
— Porque os homens não prestam.
Uma síntese adequada, se não totalmente justa, do sexo oposto. Mas Adrianna dava suas escorregadas também.
— Se ela era tão boa de cama, Aaron, por que só três ou quatro vezes?
— Foi ideia dela parar.
— Você ficou irritado com isso?
— Não. Foi maneiro.
— Então por que ela ficava furiosa quando Garth a passava para trás se ela fazia a mesma coisa com ele?
— Não sei. Estou cansado, sargento, não consigo pensar muito claramente agora.
— Ela falou o motivo pelo qual não quis continuar com você?
— Ela dizia que já tinha extravasado, se entende o que quero dizer.
— Não sei bem se entendi. Explique isso para mim.
— Olha aqui, sargento, eu não fui o primeiro cara com quem ela trepou por vingança nem fui o último.
— Como você sabe sobre as trepadas por vingança dela?
— Porque ela me contava sempre que ficava com um cara sem que o Garth soubesse.
— Parece que vocês eram bons amigos, se ela contava a você sobre sua vida amorosa. Por que acha que ela confiava em você?
— Não sei. Talvez achasse que eu iria contar para o Garth e ele ficaria com ciúme.
— E você contava?
— Pelo amor de Deus, não. Se eu começasse a dizer coisas, estaria frito.
— Você acha que Garth ficaria furioso com você, embora ele também enganasse Adrianna?
— Acho que, no fundo, ele gostava dela. Do contrário, por que iria interromper as férias apenas para acalmá-la?
— Não sei, Aaron. Francamente, estou me perguntando o que poderia ter acontecido se ele não a tivesse acalmado.
— Não sei. A coisa toda é estranha.
— Talvez o relacionamento tivesse menos a ver com sexo e mais a ver com o fato de que Adrianna dava dinheiro a Garth. Como soube que Adrianna estava financiando as excursões dele a Las Vegas?
— Eu perguntei ao Garth sobre isso... comentei que ele sempre tinha dinheiro para Las Vegas. Ele disse que ela dava dinheiro para ele gastar.
— E o que você disse sobre isso?
— Algo como “excelente negócio”, ou alguma merda assim.
— Ela trabalhava como enfermeira. Como conseguia dinheiro para dar a ele?
— Provavelmente com a mãe. Os pais dela têm dinheiro.
— Ela contou a você que conseguia dinheiro com a mãe?
— Talvez. O que interessa é que os dois sempre tinham grana suficiente para pagar alguns drinques e fazer uma farra. Ela gostava de uma farra. Os olhos do rapaz umedeceram-se. É — —
horrível pensar nela morrendo enforcada. Quem faria isso?
Marge suspirou em seu íntimo. Era uma pergunta retórica. Ainda assim, ela poderia ter lhe dado meia dúzia de respostas, e todas teriam sido apavorantes.
— Interessante... Otis ser um empreiteiro Decker pensou um momento. Isso é — — relevante?
— Marge puxou uma cadeira e sentou-se, jogando a cabeça para trás até ficar olhando para o teto. Vou verificar e ver se ele tinha alguma coisa a ver com o projeto dos Grossman, onde —
Adrianna foi encontrada.
— Empreiteiros são culpados até que se prove o contrário, na minha opinião — disse Oliver.
— Por falar nisso, vocês falaram com Keith Wald e Chuck Tinsley?
— Entrei em contato com Wald — disse Marge. — Marcamos alguma coisa. Tinsley não retornou minha ligação. Ela se virou para Oliver. O que Reyburn faz? — —
— É carpinteiro nos estúdios da Warner Bros, em Burbank.
— Como ele conheceu Garth? perguntou Decker. —
— Os três são amigos desde a sétima série.
— Vocês acham que se um deles estivesse encrencado, os outros poderiam ajudá-lo a se safar?
— Uma bobagem tipo Três Mosqueteiros? — perguntou Oliver. — Talvez, embora você tenha de refletir sobre lealdade quando seu amigo está fodendo sua namorada.
— Eu me pergunto se Greg Reyburn fazia parte da lista de trepadas de Adrianna. disse —
Marge.
— Não sei por que não lhe perguntei.
— Ele ainda está aqui? perguntou Decker. —
— Não, saiu uma hora atrás. Posso perguntar a ele, mas sabemos que Adrianna transava com várias pessoas e que Garth transava com várias pessoas. Um a mais não vai mudar o balanço geral.
— Eu estava pensando se os amigos dele se sentiam culpados por dormir com Adrianna, talvez se sentissem dispostos a ajudá-lo com o corpo.
— Como o teriam ajudado se estavam a quilômetros de distância? — perguntou Oliver.
— Talvez Aaron tenha dito a Garth para se livrar do corpo na casa dos Grossman.
— Se Aaron estava associado ao projeto, saberia que isso lhe causaria problemas no futuro.
— Não pretendo fazer um comentário rude sobre o sr. Otis disse Marge , mas ele não é — — exatamente brilhante. Pode ser que Garth tenha lhe ligado em pânico e Aaron tenha lhe dado o primeiro lugar em que pôde pensar para o descarte do corpo.
— Verifique com Wald se Otis está associado ao trabalho. Quando é que vocês dois vão ao St. Timothy? Precisam repassar os movimentos de Adrianna.
— É o próximo item da lista respondeu Oliver. Imediatamente depois de um intervalo — — para o café.
— Acho que vou dispensar disse Marge. Use a máquina à vontade, Scott. — —
— A última vez que tentei, queimei a mão — disse Oliver.
— A prática leva à perfeição. — Marge levantou-se. — Mas vou mostrar mais uma vez a você. Quem diria que uma maquininha podia causar tanta dependência?
— Não é um vício, é uma preferência.
— Assim funciona a negação, até que vira um hábito disse Marge. Talvez devêssemos — — fundar um centro de reabilitação para o vício em café. Qual de nós não teve uma dor de cabeça causada por cafeína? Se as pessoas se dispõem a morrer em cinco dólares por alguma coisa que custa cerca de quarenta centavos, podemos lhes vender a ideia de que elas têm um vício que precisa ser freado. Tudo isso é parte da moderna filosofia de jogar a culpa nos outros. Fique com todo o mérito, mas não assuma a responsabilidade.