Carrasco
Capítulo 49
QUANDO O TRAUMA O ATINGIU, GABE fez o que sempre fazia.
Ajustou-se.
Seu pai nunca lhe ligou de volta. Ele guardou os papéis em seu armário, imaginando que mais cedo ou mais tarde teria notícias do velho. Tratou de levar adiante seus negócios. Dentro de uma semana, Rina encontrou um professor particular permanente para ele, de modo que poderia estudar em casa. Terminou o primeiro ano em um mês. A única coisa que não podia fazer com o professor particular eram seus cursos de idiomas, mas até isso deu certo. Rina falava ídiche, assim ele podia praticar seu alemão com ela. O tenente falava espanhol, o que Gabe aprendeu num segundo. E embora não ocorresse o mesmo com o italiano, as duas línguas eram suficientemente semelhantes para manter seu ouvido treinado.
Sempre que tinha um tempo de folga, ele ia a concertos e óperas. Algumas vezes, Hannah foi com ele. Outras vezes, ele foi sozinho. Gostava de ópera — a principal razão pela qual desejara aprender alemão e italiano. Queria descobrir como mesclar as palavras com a música, e a única maneira de fazê-lo era falar a língua do libreto.
Ele passava a maior parte de seu tempo ao piano. Sua música sempre havia sido sua tábua de salvação, mas havia a todo momento algo de desesperado e apressado na maneira como tocava. Depois de viver com os Decker e ter aulas com Nicholas Mark, Gabe descobriu a verdadeira alegria em aprender. Cada encontro com Mark o deixava um passo mais perto de ser um verdadeiro pianista. Passou a poder avançar mais devagar, ouvir com um pouco mais de atenção, demorar-se no teclado um pouco mais, porque, pela primeira vez, estava vivendo com a previsibilidade. Tudo estava ocorrendo na hora certa e sem drama. Não que houvesse algo de errado com o drama, mas lidava-se melhor com ele nas artes que na vida real. Ele sempre tivera liberdade, mas agora tinha liberdade sem medo. A autonomia o tornou generoso. Ia muitas vezes com Hannah ao ensaio do coral para acompanhar os cantores — apenas para ser gentil. Quando a formatura estava se aproximando, a sra. Kent lhe pedira para tocar algo especial para a noite. Após muita adulação dela e de Hannah, ele cedeu.
Afinal, por que não?
A princípio, decidiu fazer algo tecnicamente desafiador, como Rachmaninoff — algo que deixaria a plateia boquiaberta. Trinta minutos antes de a cerimônia começar, porém, mudou de ideia.
Aquilo não era um concerto de piano: era uma celebração. As pessoas estavam felizes. Alguns pais realmente amavam seus filhos e orgulhavam-se de suas realizações.
No último momento, Gabe encontrou um computador e uma impressora em funcionamento na sinagoga onde a cerimônia de formatura aconteceria e baixou as 18 páginas da Rapsódia Húngara nº 1 em dó sustenido menor de Liszt. Era uma peça familiar para ele e para a maioria das pessoas porque era usada nos desenhos animados antigos sempre que havia uma perseguição. Ele sabia que poderia lê-la à primeira vista sem problemas. Na hora de tocar, alinhou as cinco primeiras folhas de papel no suporte do piano e pediu à sra. Kent para lhe fornecer a seguinte à medida que ele fosse jogando cada folha usada no chão. Com os papéis voando à sua volta, especialmente no final, com o tempo chegando à velocidade de um raio, isso teve um efeito cômico não intencional que ele incorporou com grande estilo. Todos estavam rindo. Ele tornara uma plateia feliz ainda mais feliz. E aprendera outra lição importante. Tocar em público não era só uma questão de habilidade, tinha a ver com entretenimento também.
Gabe nunca deixou de pensar nos pais. Era errado compará-los com os Decker, mas ele o fazia mesmo assim. Costumava racionalizar que o comportamento louco deles provinha de sua grande profundidade. Isso era uma tremenda bobagem. Os Decker eram pessoas estáveis e tão complexas — se não mais quanto sua mãe e seu pai. —
Rina e o tenente o haviam recebido com bondade e o tornado parte de suas vidas. Isso ficou ainda mais claro para ele quando eles insistiram em que ele os acompanhasse a Nova York para a formatura de Sammy na faculdade de medicina. Também o incluíram no casamento de Sammy. Levaram-no para Israel quando fizeram a mudança de Hannah para o seminário: pagaram sua passagem, deram-lhe seu próprio quarto de hotel e seu próprio guia pessoal. Ele e o guia foram para toda parte na Terra Santa bem como a Petra e às pirâmides do Egito. Ele explorou civilizações antigas, descobrindo que o clichê ainda era verdadeiro: há todo um grande mundo por lá.
Os Decker não tentavam substituir seus pais, nenhum dos dois. Eles eram facilitadores, e porque eram bondosos, tentavam não ser irritantes. Não, Rina não era sua mãe e o tenente não era seu pai. Para dizer a verdade, porém, nessa altura de sua vida, ele sabia que era muito melhor ter Rina e o tenente que sua mãe e seu pai.
Em meados de novembro, Nova York estava alagada por uma chuva gélida enquanto Chicago experimentava sua primeira nevasca. Los Angeles, por outro lado, tinha céu claro e sol. O ar ficara mais fresco, mas estava longe de estar frio e ainda restava cor em algumas árvores. Mas o que surpreendia Gabe era que a cidade ainda estava verde. No Leste, a friagem do outono transformava-se na geada do inverno. Mas Rina tinha um jardim. Era estranho.
Mas não tão estranho quanto o telefonema de seu pai. A voz de Chris estava monocórdia.
— Você está com papéis que me pertencem.
Nenhuma introdução. Gabe estivera esperando a ligação, mas a voz de seu pai sempre o fazia gaguejar.
— Estou ele respondeu. Para onde devo enviá-los? — —
— Não confio no correio. Irei a Los Angeles e os pegarei. Além disso, eu gostaria de ver você. Como estão seus horários?
— A não ser nas segundas-feiras e nas quintas-feiras de dez ao meio-dia, estou completamente livre.
Donatti fez uma pausa.
— Você abandonou a escola?
— Rina arranjou um professor particular para mim. Estou estudando em casa, o que é excelente. Devo terminar o ensino médio em junho.
— Não vi nenhuma conta por aulas particulares em seu cartão de crédito.
— São algumas horas por semana, Chris. Pago em dinheiro.
— O que está acontecendo entre as dez e o meio-dia nas segundas-feiras e nas quintas-feiras?
— Tenho minhas aulas de piano com Nick na USC.
Uma pausa.
— Nick é Nicholas Mark?
Donatti pareceu um pouco irritado.
Gabe sorriu.
— Você está convidado para comparecer e vê-lo me matando de tanto trabalhar.
— Você deveria estar acostumado com isso.
— Ele é mamão com açúcar comparado a você.
— Não precisa ser desagradável. Estarei aí amanhã às duas.
O dia seguinte era quinta-feira.
— Não posso estar em casa às duas vindo de ônibus. Você poderia me encontrar na universidade.
— Irei encontrar você na universidade. Ligo quando chegar lá. Donatti desligou. —
Segundo o telefone de Gabe, a conversa durara um minuto e 28 segundos. Nada de excepcional acontecera, mas uma frase ressoou em seu cérebro.
Além disso, eu gostaria de vê-lo.
Não preciso vê-lo, mas gostaria de vê-lo.
Isso não deveria ter feito uma diferença, mas fez. Deixou-o sentindo-se bem.
O telefone tocou exatamente às duas.
— Estou num café ao ar livre dentro do campus Gabe disse a seu pai. Está bem para — — você?
— Está ótimo.
Gabe indicou ao pai como chegar. Cinco minutos mais tarde viu Chris Donatti andando em direção a ele — alto, bronzeado, em forma e bonitão. O homem virava cabeças por onde quer que andasse, e aquele dia não foi exceção. Cada vez que ele passava por uma mulher, ela olhava para trás. Chris usava uma camisa branca, calça de veludo marrom e uma jaqueta de tweed. Parecia o professor das fantasias de toda aluna. Havia muitas coisas a desprezar em Chris, mas instintivamente Gabe tinha orgulho de ser filho dele.
Era o seu pai — para bem ou para mal.
Quando chegou à mesa, Chris estendeu a mão. Gabe deu-lhe o envelope de manilha e Chris sentou-se e abriu-o.
— Está com fome? — perguntou Gabe.
— Peça uma xícara de café para mim.
— Importa-se se eu pedir alguma coisa para comer? Sem dizer nada, Donatti puxou uma —
nota de cem dólares. Eu não estava pedindo dinheiro disse Gabe. — —
— Pegue-o.
— Realmente não preciso.
— Não seja idiota. Se alguém oferece dinheiro a você, pegue-o. Agora cale a boca e deixe-me ler.
Acabou-se o sentimentalismo. Gabe pegou o dinheiro, esperou na fila e comprou um hambúrguer, batatas fritas, uma Coca Diet e um café. Voltou a se sentar e começou a comer. Um minuto mais tarde, Chris estava com os olhos fixos nele. Não estava comendo de maneira particularmente ruidosa, mas seu pai estava num daqueles estados de ânimo em que tudo o incomodava.
— Hum, talvez eu deva ir comer em outra mesa disse Gabe. Passou para a mesa vizinha à —
do pai e pôs-se a comer tranquilamente enquanto lia Evelyn Waugh um dos escritores —
favoritos de Rina. Fazia um dia bonito e ele se sentia mais feliz do que se sentira em anos. Sabia que estava calmo, pois suas espinhas finalmente tinham desaparecido. Como era bom estar mastigando um hambúrguer e lendo um ótimo livro. A única coisa que faltava era talvez um pouco de Mozart peças para cordas somente, e por favor, definitivamente, nenhum piano. Ele —
ficara tão absorto em sua leitura que não ouviu o pai pigarreando até que Chris ficou claramente aborrecido. Gabe levantou os olhos e voltou para a primeira mesa.
— Tudo bem?
— Peça outra xícara de café para mim. Grande.
— Claro.
Quando Gabe trouxe a segunda xícara, Chris estava endireitando os papéis e colocando-os de volta no envelope.
— Tudo parece em ordem. Vou levar os papéis para meu advogado. Ver como avançamos a partir daí. Chris olhou para Gabe. Você sabe onde sua mãe está? — —
— Se eu tivesse de adivinhar, diria que em algum lugar na Índia a julgar pelo dono do carro. A carta dela também dizia que ela estava muito longe. Pus uma cópia da carta no envelope.
— Eu vi. E sim, ela está na Índia. Em Uttar Pradesh, para ser específico. — Chris tirou várias fotografias do bolso e espalhou-as sobre a mesa.
Gabe examinou as fotos.
— Quando você a encontrou?
— Meses atrás.
— E não me contou?
— Você sabia que ela estava viva. Que diferença teria feito?
Era verdade. Ele olhou para as fotografias.
— Puxa, ela está quase parindo.
— Já pariu. Ele pegou uma última foto. Conheça sua nova irmã. — —
O bebê era roliço e gordinho, com uma vasta cabeleira preta.
— Onde conseguiu isso?
— Não é da sua conta.
Sem querer, Gabe sorriu. Bebês eram fofos. Mesmo assim, ele não conseguia deixar de sentir ciúme de sua mãe. Importa-se que eu fique com ela? —
— Pode ficar. Para mim, ela não passa de uma pequena bastarda. Você não está surpreso com nada disso. Ela mandou outra carta para você?
— Se tivesse mandado, eu teria ligado para você. — Ele olhou para os olhos azuis inexpressivos do pai. — Ela só entrou em contato comigo uma vez. Desde então, não tive notícia nenhuma dela. Gabe ajeitou os óculos. Decker imaginou que provavelmente ela estava — — grávida e que por isso teria partido tão repentinamente.
— Ela contou isso a Decker quando os dois se encontraram, naquela época?
— Não. Ele apenas imaginou isso depois.
— E você acredita nele?
— Decker perdeu muito tempo procurando a minha mãe. Não teria feito isso se soubesse que ela tinha querido desaparecer.
Donatti pensou sobre isso e concluiu que era verdade.
— Como vai Decker?
— Eles são boas pessoas e bons para mim. Estou bem, se é isso que você está perguntando.
— Então Decker imaginou isso. Donatti tamborilou na mesa. Sua mãe conseguiu — — esconder suas origens bastardas de mim, mas não poderia fingir com um bebê indiano.
Gabe não mordeu a isca.
— A mamãe sabe que você sabe sobre ela?
— Ainda não.
— Então o que você vai fazer?
Donatti deu de ombros.
— Gabriel, pensei em tudo, desde não fazer nada até matar a vadia.
— E?
— No fim, não dou mais a mínima. Donatti tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu —
um. Isto não é verdade. Eu me importo. Mas não me importo o suficiente para arruinar a —
minha vida, mesmo que pudesse fazer alguma coisa impunemente. Eu gostaria de matar sua mãe, mas não a quero morta.
— Não que você tenha me perguntado, mas acho que não fazer nada é uma decisão muito sensata.
— Além disso, tenho a melhor de todas as vinganças. Ela está na Índia. Donatti sorriu, mas —
não foi um sorriso bonito. — Mas você está aqui.
— E daí? Ela não liga nem um pouco para mim. — E falando mais para si mesmo que para o pai: Se ligasse, teria me levado com ela. —
— Ah, não, não, não. Donatti sacudiu o dedo. Ela não se atreveu a levar você com ela. — — Talvez eu a largasse de mão... Não faltam mulheres no mundo, mas, bastardo ou não, você ainda é o meu único filho. Se ela tivesse levado você embora, teria selado sua sentença de morte.
Ele esmagou seu cigarro e acendeu outro.
— Conheço muito bem a sua mãe. Ela arranjou uma bastardinha, mas o verdadeiro bebê dela está bem aqui comigo. Ela está num incrível sofrimento psíquico e isso me deixa muito feliz. — Levantou-se. Vamos sair daqui. —
— Você vai me levar para casa?
— Você quer dizer para a casa dos Decker?
— Minha casa é a casa dos Decker. Gabe abriu um sorriso. Mas você sempre será meu — — único pai.
— Sim, até você descobrir quem fodeu sua mãe naquele verão.
Gabe ignorou-o e levantou-se.
— Sabe, posso pegar o ônibus, se for inconveniente para você me levar até o Valley.
— Não, tudo bem. Além disso, quero ouvir tudo sobre seu progresso com seu novo companheiro, Nick.
— Ele é meu professor, Chris, não meu companheiro. Ele me tortura toda vez que o vejo. Mas acho que esse é o preço para melhorar.
— É melhor você melhorar, depois de gastar todo o meu dinheiro com aulas. — Donatti puxou o guardanapo do pescoço do filho, de maneira não muito gentil. — Por aqui.
Uma limusine estava esperando. Isso não foi uma surpresa para Gabe. Seu pai costumava precisar de espaço para suas pernas compridas. A surpresa foi a figurinha delicada de uma garota sentada no banco de trás. Ela parecia ter 14 anos, embora ele soubesse que tinha pelo menos 18. Chris não se envolvia mais com meninas menores de idade. Ela era bonitinha à maneira de um elfo narizinho arrebitado, sardas nas bochechas, cabelo castanho-avermelhado cacheado. —
Havia inteligência em seus olhos castanhos.
— Talia disse Chris, apontando para a menina. Para ela, disse: Este é meu filho. — —
— Gabe Whitman Gabe ofereceu-lhe a mão. —
— É um prazer finalmente conhecê-lo. — Ela lhe apertou a mão. — Ele fala sobre você o tempo todo.
— Não, não falo.
Donatti pareceu aborrecido e em seguida passou a ignorá-la durante toda a viagem até a casa de Decker, ouvindo atentamente enquanto Gabe falava sobre suas aulas, suas músicas, suas composições, o que estava estudando, o que estava aprendendo com Nicholas Mark e finalmente sobre os concursos que se aproximavam. Donatti fumou e tomou café, os olhos fixados no rosto de Gabe o tempo todo, seu olhar nunca se desviando. Antes que Gabe pudesse sequer tomar fôlego, a limusine estava em frente à casa de Decker.
O tempo nunca passara tão depressa.
— Ligue se precisar de alguma coisa.
— Certo. Virou-se para Talia. Foi um prazer conhecê-la. Tome conta dele por mim. — —
— Blablablá. Donatti estendeu-lhe seu copo de café vazio, cheio de pontas de cigarro. — —
Você sabe como odeio merda na minha cara. Jogue isto fora para mim.
— Claro, Chris. Ele saiu e o carro arrancou antes que chegasse à porta da frente. —
Chris dando-lhe lixo. Como era metafórico.
Olhou para o lixo em suas mãos.
Eca.
Destrancou a porta e rumou para seu alojamento não realmente seu quarto, mas depois de — sete meses, ele era mais que um hóspede. Uma vez dentro de seu espaço, sentou-se na cama e ligou seu computador.
A batida irritou-o. Donatti odiava fazer declarações de rendimentos e odiava ser interrompido.
— Que é?
— Posso entrar?
A voz de Talia.
— Já que você fodeu minha concentração, entre logo.
— Sinto muito — disse ela, abrindo a porta.
— Não, não sente. O que você quer?
Um sorrisinho se desenhou nos lábios da jovem.
— Eu lhe trouxe café. Ela o colocou sobre a escrivaninha de pau-rosa. O escritório de Chris —
era apainelado com nogueira e tinha uma lareira. Era cheio de arte de boa qualidade e cheirava a couro e tabaco. Ele tinha prateleiras com os melhores uísques e copos de cristal lapidado. O lugar parecia um aposento pertencente a um castelo inglês, não o escritório de um proprietário de prostíbulos. Num canto estava uma enorme árvore de Natal que ela havia decorado. Embaixo, viam-se pilhas de presentes enviados para ele por clientes felizes. Talia nunca havia enfeitado —
uma árvore de Natal antes de conhecer Chris. Era uma tarefa que sempre lhe agradava.
Donatti olhou-a de alto a baixo. Ela segurava um pacote.
— Coloque embaixo da árvore disse ele. —
— É do Gabe.
— Ah, merda! Tenho de comprar alguma coisa para ele. Que dia é hoje?
— É 19.
— Tudo bem. Temos tempo. Saia e compre uma motocicleta para ele.
Talia olhou-o espantada.
— Que foi? perguntou Donatti. —
— Chris, ele não dirige. Tem só 15 anos.
— Ele já fez 15? Merda, esqueci o aniversário dele.
— Não se preocupe. Eu mandei um cartão e uma camisa para ele.
Donatti encarou-a.
— Você mandou uma camisa para o Gabe de presente de aniversário?
— Você estava fora da cidade. E o que há de errado com uma camisa? Ele me mandou um cartão de agradecimento, então acho que gostou.
Estava amuada. Donatti sempre se esquecia de que ela não era muito mais velha que Gabe.
— Obrigado por mandar uma camisa para o meu filho. Vamos pensar um pouco mais alto desta vez. Compre uma Ferrari para ele.
— Uma Ferrari? perguntou Talia, espantada. —
— Sim, uma Ferrari. Quer que eu soletre para você?
— Sei o que é uma Ferrari. Pare de ser tão sarcástico. Ela fez uma pausa. Posso dizer — — uma coisa?
— Não. Quando Talia não falou, Donatti exalou, enojado. O quê? — —
— Estamos indo passar o Ano Novo em Paris. Por que você não o convida para ir conosco? Aposto que ele gostaria ainda mais que de uma Ferrari.
— Não quero que ele vá.
Talia pareceu perplexa.
— Por que não?
— Porque não quero que ele vá, está bem?
— Certo respondeu Talia, dando de ombros. —
— Veja. Talia, vai tudo bem com o Gabe e vai tudo bem comigo. Não é uma boa ideia nos misturarmos.
— Como você quiser. — Ela fez uma pausa. — Que devo fazer com o presente?
— Pode me dar.
Ela lhe entregou a caixa embrulhada.
— Onde encontro um revendedor da Ferrari? Estamos em Elko, não em Las Vegas.
— Você tem razão. Ouça, iremos a Penske-Wynn amanhã e compraremos uma juntos. Mande preparar o jato. Sairemos às onze da manhã se em algum momento eu conseguir um pouco de paz e silêncio para fazer minha declaração de rendimentos. Fez um pequeno aceno para ela. Até — — logo.
— Não precisa agradecer o café.
— Obrigado e até logo. — Quando ela finalmente fechou a porta, Donatti riu. Ele não amava Talia, mas às vezes a inocência dela o fazia rir. Olhou para o presente do filho. Gabe era um bom menino — puxara isso da mãe. Ele pensava em Terry com mais frequência do que devia. Ela havia fugido, mas aquilo estava longe de ter terminado. Eles ainda estavam legalmente casados e acabariam tendo de se encarar de uma maneira ou de outra.
Algum dia, ele pensou. Algum dia.
Desatou a fita que envolvia a caixa e levantou a tampa. Dentro estava uma pilha de papéis presos por um grampo e um bilhetinho na letra caprichada de Gabe.
Feliz Natal, papai.
Os papéis eram de algum tipo de laboratório médico... algum tipo de exame médico.
Que porra é essa?
Ao folhear as páginas, Donatti detectou as palavras.
DNA obtido a partir de um cigarro.
DNA obtido a partir de um copo de café.
Probabilidade de paternidade positiva superior a 99,9%.
Donatti jogou a cabeça para trás e riu alto.
O bastardinho.
Ou talvez não.
Ele pegou seu telefone e caiu no correio de voz de Gabe.
Deixe uma mensagem e retornarei sua ligação assim que puder.
— Obrigado pelos papéis. Se algum dia eu precisar de um rim, vou saber para quem ligar.
Donatti desligou o telefone e voltou para seu trabalho.
Uma hora depois, pegou o telefone e ligou para Gabe uma segunda vez.
Depois de receber a mesma mensagem, esperou pelo bipe e disse:
— Estou indo passar o Ano Novo em Paris. Alguém por lá está tocando a Tocata e Fuga em Ré Menor para órgão de Bach. Estou pensando em comprar ingressos. Talia não tem ouvido nenhum e sei que você tem uma fixação doentia em órgão de tubos.
Uma pausa.
— Vamos partir no dia 27, portanto ligue-me de volta imediatamente. Se seu passaporte estiver válido, você não tiver nada melhor para fazer e desejar ouvir a peça, acho que pode ir conosco.