Carrasco
Capítulo 16
NA ESPERANÇA DE ENCONTRAR UMA HORA tranquila para ler o diário de Adrianna do começo ao fim, Decker já estava na sua mesa às 7h15 e começou a examinar papéis cor-de-rosa com recados telefônicos escritos. A maioria deles podia esperar, mas alguns exigiam providências. Havia um telefonema do médico criminalista relacionado a Adrianna Blanc, duas chamadas de Kathy Blanc querendo saber quando o corpo seria liberado, duas chamadas de Melissa McLaughlin, meia-irmã de Terry, e uma da delegacia de West L.A. relacionada a Terry McLaughlin.
Ele ligou primeiro para o Departamento de Polícia de Los Angeles, para a detetive Eliza Slaughter, do setor de Pessoas Desaparecidas, que estava lidando com o caso. Àquela hora, teve sorte ao encontrá-la no trabalho.
— Nada de corpo, nada de carro, nada — disse ela. — Onde posso encontrar o marido dela? Gostaria de conversar com ele, e o número dele que tenho não funciona.
— Você tem alguns minutos? — perguntou Decker. — Preciso colocar você a par da situação e dar uma ideia de com que e com quem você está lidando.
Com perguntas e respostas, os poucos minutos se estenderam para vinte.
— Ai, ai, ai — disse Eliza. — É uma história e tanto. Esse sujeito é realmente um pistoleiro?
— Foi o que me disseram.
— Então por que não foi preso?
— Ele é excelente no que faz.
— E você fala com ele habitualmente?
— Não habitualmente, mas entramos em contato algumas vezes ao longo dos anos. Como eu disse a você, ele deveria ter vindo apanhar o filho ontem à noite. Não sei onde está, mas em algum momento ele vai entrar em contato comigo ou com o filho ou com ambos.
— Isso é um pouco demais para eu absorver de manhã tão cedo. Você disse que ele possui bordéis?
— Ele é dono de alguns legais em Elko, Nevada. Antigamente tinha outros espalhados pelos estados onde isso era ilegal. Talvez tenha vendido esses para comprar os legais. Não tenho acompanhado suas aventuras comerciais.
— Como obteve uma licença para dirigir bordéis legítimos se é um delinquente?
— Está tudo no nome da mulher dele: uma das razões por que se casaram.
— Eu deveria ligar para o Departamento de Polícia de Elko?
— Sabe, andei pensando sobre isso. Se Donatti acha que vai ser encurralado, deve ter desaparecido. Minha impressão é a de que o melhor é esperar pelo que ele vai fazer, mas você é quem sabe.
— E se ele tiver matado a mulher? Por que iria ficar em algum lugar para que você o espere sair?
— Ele poderia ter matado a mulher, mas o fato de ter retornado a minha ligação indica que talvez não o tenha feito. Você teve a oportunidade de conversar com o pessoal do hotel ontem?
— Falei com o funcionário da recepção e com a concierge... espere, vou ver meu arquivo. — Isso levou alguns minutos. — Harvey Dulapp e Sara Littlejohn. Os dois conheciam Terry muito bem, pois ela passou algum tempo lá.
Decker pegou um bloco de anotações.
— Qual foi a última vez que eles a viram?
— Nenhum dos dois se lembra de ter visto Terry no domingo. Ela pagou pelo mês todo. Se você quiser voltar ao quarto e dar uma olhada a qualquer momento, não há problema.
— Você falou com alguém no estacionamento? Talvez alguém se lembre de tê-la visto sair...
— Não tive a chance de falar com manobristas de serviço. Há também uma área em que os próprios donos dos carros os estacionam, onde fica um funcionário. Provavelmente era ali que ela deixava o seu. Eu gostaria de voltar hoje e ver se alguém se lembra de tê-la visto sair depois que o menino falou com ela. Quer se encontrar comigo no hotel?
— Tenho um grande romance policial para elucidar na minha mesa. Posso conseguir um tempo à tarde.
— Pode ser. Estou tentando montar uma linha do tempo para Donatti no domingo. A que horas você saiu do hotel?
— Por volta das duas e meia. Chris e eu fomos juntos para o estacionamento. Eu o vi indo embora. Estava dirigindo um Lexus 2009 preto ou um GS 10 ou um ES 10. Eu, idiota, não anotei a placa.
— E ele não voltou?
— Se voltou, Terry não me ligou para contar. Mas talvez depois de se encontrar com ele e ter conseguido o que queria, ela tenha se sentido segura o bastante para se encontrar com ele a sós.
— Realmente precisamos falar com ele, tenente.
— Primeiro precisamos encontrá-lo. Ele é um peixe muito, muito grande, detetive. Se tentarmos enrolar a linha depressa demais, vai arrebentá-la e escapar. Você tem de cansá-lo.
— Tudo bem, tenente, você não só manda, como conhece a história. Vou acreditar em você. Quando gostaria de se encontrar comigo no hotel?
— Que tal às duas da tarde?
— Parece possível. Encontro você no estacionamento. Vou manter um alerta de “procura-se” para o carro de Terry. Você sabe, se esse sujeito é o babaca que você diz, talvez ela tenha decidido cair fora.
— É possível, mas não consigo ver Terry abandonando o filho. Decker fez uma pausa. — —
Ela decididamente não o deixaria com Chris. Posso imaginá-la deixando Gabe comigo.
— Talvez seja por isso que o menino está com você agora. Até às duas horas.
Ela desligou e Decker esfregou as têmporas. A seguir, estava a ligação para Melissa McLaughlin. Ela atendeu após dois toques.
— É o tenente Decker, Melissa. Como vai você?
— Nada sobre minha irmã?
— Se eu tivesse alguma informação, ligaria para você imediatamente. Ela continua desaparecida.
— Ele matou a Terry! Tenho certeza! O filho da mãe finalmente fez isso!
O filho da mãe que sustentou a cunhada durante os últimos quatro anos desde que ela passou a morar sozinha. Decker podia ouvir Melissa andando de um lado para outro no fundo.
— Você teve notícia de Chris?
— O que quer dizer?
— Ele ligou para você?
— Por que iria me ligar?
Vá devagar.
— Melissa, há uma possibilidade muito clara de que ele tenha matado sua irmã. Há também uma possibilidade de que não tenha feito isso e esteja à procura dela. Ele poderia ligar para você para pedir informação.
— Que tipo de informação?
— Informação do tipo “tem notícia de Terry?”.
— Por que eu teria notícia dela se ele matou minha irmã?
Decker suspirou baixinho.
— Talvez ele não tenha matado. Talvez ela tenha desaparecido por conta própria.
— Ela nunca teria deixado Gabe. Estava constantemente com medo do que Chris poderia fazer com ele.
— Ele maltratou Gabe?
— Não que ela tenha me contado, mas Chris é capaz de qualquer coisa.
Aborde o assunto de um ângulo diferente.
— Melissa, se Terry fosse fugir, e não estou dizendo que ela fez isso, mas se ela fosse fugir, você tem alguma ideia de para onde poderia ir? — perguntou Decker. — Ela tinha algum lugar favorito onde gostava de passar férias?
— Férias! Haha! O cara não deixava Terry sair da sua vista. Ela não tinha nenhuma liberdade. Sua única tentativa de liberdade foi mudar-se para cá depois que ele bateu nela. E agora ela desapareceu.
— Então, você não sabe de nenhum lugar ou país para onde ela poderia ter fugido.
— Você não está me entendendo. Ela não deixaria Gabe... Você pode me dar licença? Tenho uma ligação na outra linha.
— Claro. Decker revirou os olhos. Paciência. Ela não passava de uma garota. —
Ela voltou um minuto depois.
— Oi. Tenho que ir. Apenas encontre o filho da mãe, tudo bem?
— Sim. Se por acaso o filho da mãe entrar em contato com você, pode me avisar?
— Se ele chegar sequer perto da minha porta, vou ligar para 911.
— Provavelmente uma boa ideia. Se Terry por acaso entrar em contato com você, avise também.
— Se ela entrar em contato comigo, vai ser durante uma sessão espírita. Porque, para mim, ela não tem outra maneira de falar comigo a não ser do túmulo. A moça desligou. —
Kathy Blanc vinha a seguir na longa lista de obrigações de Decker.
— Quando vamos poder dar um enterro digno para a minha filha? — perguntou a mãe aflita.
— Deixei um recado para o patologista — disse Decker. — Vou ligar para você assim que a liberação for emitida.
— E quando vai ser isso?
— Não demora muito. Provavelmente até o fim da semana, no máximo.
— Isso é muito tempo.
— Vou tentar acelerar as coisas. Obrigado pela paciência.
— Tenho alguma escolha? — Quando Decker não respondeu, ela disse: — Como o caso da minha filha está progredindo?
— Estamos investigando os amigos e conhecidos dela.
— E se não tiver sido um desses amigos ou conhecidos?
— Estamos explorando tudo, inclusive a possibilidade de que o crime tenha sido cometido por alguém que ela não conhecia. Estou enviando uma equipe para investigar o condomínio dela. Adrianna tinha se queixado alguma vez de que havia alguém a incomodando... talvez a seguindo?
— Alguém que morava no condomínio dela?
— Alguém que morava no condomínio dela, alguém do trabalho, qualquer coisa assim.
Houve um momento de silêncio.
— Não me lembro de ouvi-la mencionar um seguidor algum dia, mas ela era uma pessoa muito amistosa. É possível que alguém tenha confundido sua sociabilidade com alguma coisa mais profunda.
— É claro — disse Decker. — Por acaso você conhece algum dos lugares que ela mais gostava de frequentar?
— Ela gostava muito de cinema.
— E restaurantes? Mais provavelmente restaurantes com bares, porém Decker não fez a —
especificação.
— Crystal, a amiga dela, trabalhava no Garage, no centro. Ela ia lá às vezes. Além disso, sei que ela gostava de ir à marina.
— E quanto a restaurantes mais próximos do trabalho? Sei que a amiga dela, Sela Graydon, às vezes vai ao Ice.
— Realmente não sei, tenente. Éramos mãe e filha, não companheiras de copo.
— Está bem, sra. Blanc. Eu apenas precisava perguntar. Há mais alguma coisa com que eu possa ajudá-la neste momento?
— Apenas descubra... quando podemos apanhá-la.
— Farei isso. Ligue para mim se precisar de alguma outra coisa.
— Preciso de muitas coisas, tenente, mas duvido que possa me ajudar com qualquer uma delas.
Marge deu uma batida no batente e entrou pela porta aberta. Estava vestida para o verão, embora a primavera tivesse acabado de começar calça de linho bege, blusa branca e tênis —
brancos.
Colocou uma xícara de café quente na mesa dele.
— Para você.
Decker pegou a caneca e deu um gole sem levantar os olhos.
— Bom. Correu os dedos pelo cabelo, alisou o bigode e depois sorriu para sua sargento —
preferida.
— Obrigado pela bebida.
— Não há de quê. Você parece exausto e são apenas dez da manhã.
— Pondo em dia meus telefonemas. Ele apontou para uma cadeira e Marge sentou-se. — —
Adrianna morreu asfixiada, mas não havia nada em seu corpo além das marcas do cabo: nenhuma contusão, nenhum arranhão, nada sob suas unhas. Minha opinião? Ela foi drogada ou estrangulada antes de ser enforcada ou ambas as coisas. O cabo em volta de seu pescoço —
poderia ter apagado marcas manuais.
— E quanto ao conteúdo do estômago?
— Na hora em que morreu, ela não tinha muita comida não digerida. Testamos o sangue para álcool e deu negativo. Não parecia haver tampouco cocaína ou maconha em seu organismo. Para as drogas mais exóticas, teremos de esperar até os exames de laboratório fiquem prontos.
— Alguma evidência de agressão sexual?
— Não foi encontrado nenhum sêmen, mas hoje em dia nossos psicopatas estão ficando muito hábeis em não deixar evidências para trás. Ele poderia ter usado camisinha.
— Alguma indicação de atividade sexual?
— Nada forçado.
— Mandei Lee Wang examinar casos antigos em aberto para ver se temos algum enforcamento não elucidado. Não há nada que se destaque.
— É uma estranha maneira de morrer, a menos que seja suicídio ou um enforcamento erótico, e isso é mais coisa de homem que de mulher. E em geral com corda, não com cabo. Você encontrou um banquinho ou uma caixa em que ela teria podido ficar de pé?
— Nada — disse Marge. — Mas havia pilhas de tábuas perto dos pés dela. Vou contar para você o que descobri. A companhia telefônica retornou a ligação. Eles afirmam que não havia ninguém na área ontem.
— Que droga. Em que ponto estamos na localização de Aaron Otis?
— Engraçado você perguntar.
Decker empertigou-se na cadeira.
— Você o encontrou?
— Finalmente ele decidiu limpar a caixa de mensagens. Acabo de falar com ele pelo telefone.
— Então o que aconteceu?
— Aaron realmente falou com Adrianna pelo telefone e, segundo ele, foi isto que ela lhe disse. — Marge pegou suas anotações. — Ele disse que Adrianna pediu a ele, Aaron, que desse um recado para Garth. O recado era, e estou citando, que ele podia se foder. Depois Adrianna disse que estava cansada de lhe dar dinheiro que ele gastava em férias sem ela. Disse também que Garth não deveria se dar ao trabalho de ligar de volta para ela nem agora nem nunca. Ela iria simplesmente desligar na cara dele. Quando Aaron se ofereceu para passar o telefone para Garth, ela desligou. A conversa, segundo ele, durou cerca de dois minutos. Segundo os registros, foram dois minutos e 52 segundos.
— Se ela queria romper com Garth, por que não ligar para Garth?
— Não sei, Pete. Aaron achou que talvez ela o estivesse usando com um mensageiro de más notícias.
— Ele deu o recado para Garth?
— Deu, e é aqui que a coisa fica interessante.
— Diga.
— Os rapazes iriam passar uma semana fazendo canoagem, mas decidiram abreviar isso para cinco dias e passar alguns dias em Reno para repousar e relaxar um pouco.
— Portanto, isso bate com o que Crystal contou para você ontem à noite.
— Sim. Aaron recebeu o telefonema de Adrianna algumas horas antes da partida deles para a excursão de canoagem por volta das oito da manhã. —
— Isso também corresponde aos registros.
— A princípio, Aaron não contou a Garth de imediato porque imaginou... Ela folheou suas anotações. — E novamente eu cito: “Por que estragar a diversão do cara?” Mas depois pensou bem e decidiu que era melhor contar antes da excursão para o caso de ele querer ligar para Adrianna. Depois que eles avançassem muito entre as montanhas, seus celulares não funcionariam.
— E?
— A reação de Garth foi inesperada. “O cara surtou!”, foi o que Aaron me contou. Quis voltar para Los Angeles imediatamente, mas os outros rapazes não quiseram. Eles tinham passado algum tempo planejando as férias e tentaram convencer Garth a ir junto, mas ele disse que iria voltar para casa de qualquer forma. A reação de Garth chocou Aaron. Eles eram amigos havia muito tempo e ele realmente não pensava que Garth gostasse tanto de Adrianna.
— Certo. Então, o que ele fez?
— Segundo Aaron, Garth arrumou a bagagem na mesma hora e partiu num táxi rumo ao aeroporto.
— Então Aaron acha que Garth voltou para Los Angeles?
— Esse era o plano de Garth.
— Aaron sabe que horas eram quando Garth partiu?
— Ele acha que foi por volta das nove da manhã. Aaron e Greg puseram as coisas no carro e partiram para as montanhas cerca de uma hora mais tarde. Depois de algumas horas, seus celulares ficaram fora de área, por isso ele não estava atendendo o telefone.
— Então isso foi por volta de... meio-dia, talvez uma da tarde?
— Algo assim disse Marge. Quando eles finalmente chegaram ao ponto onde deveriam — —
acampar, ambos se deram conta de que o rio estava realmente cheio. Além disso, fazia muito frio. Eles mudaram de ideia quanto à canoagem. Acamparam durante a noite e decidiram voltar para Reno. Assim que seu telefone entrou na área de alcance, Aaron checou suas mensagens. Greg fez o mesmo. Os dois ficaram sabendo sobre Adrianna mais ou menos ao mesmo tempo, porque todo mundo estava ligando para eles. Ficaram assustados. Aaron ficou especialmente apavorado porque recebeu uma ligação nossa... da polícia. Ambos tentaram ligar para Garth, mas ele não estava atendendo o celular nem o telefone fixo. Aaron diz que está totalmente chocado com o assassinato.
— Onde Aaron e Greg estão agora?
— Estão dirigindo de Reno para cá. Já informei os dois de que precisam comparecer à delegacia. Trata-se de um caso policial grave. Até agora, eles têm sido cooperativos.
— E eles sabem onde Garth está?
— Não têm a menor ideia. Fiz algumas ligações para as companhias aéreas, Oliver está ligando para os parentes e amigos de Garth, e Brubeck e Messing estão mantendo o apartamento dele sob vigilância. — O BlackBerry de Marge vibrou. Ela olhou para o telefone. — Hum... Isto é bom.
— O quê?
— Apenas uma mensagem de texto. Ontem houve um voo da Mountaineer Express de Reno para Burbank que partiu às 10h10 da manhã, chegando a Bob Hope às 11h55. Era a funcionária da companhia aérea. Ela concordou em checar a lista de passageiros para ver se Garth estava no voo. — Marge guardou o celular no bolso. Ligarei de volta daqui a pouquinho. —
— Se Garth estava nesse voo, não teve muito tempo para agir disse Decker. —
— São necessários apenas de seis a nove minutos de estrangulamento antes que a pessoa morra — disse Marge. — Pelos meus cálculos, ele teve muito tempo.