Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 7 de 50

Páginas do PDF

Carrasco

Capítulo 7

 

A PORTA DE TRÁS DO CARRO DA polícia estava aberta, com uma policial parada diante do espaço, tomando conta da pessoa sob sua guarda, bem como do veículo. Apertando os olhos, Decker podia ver uma figura encolhida no banco de trás, os braços enrolados em volta do corpo como se fossem tiras de uma camisa de força. A policial curvou-se e falou com o homem encolhido. Ao sair, Tinsley revelou ser de altura mediana, um sujeito troncudo, com braços longos e musculosos, olhos escuros, queixo forte e um rosto com uma barba curta. A policial o levou a Decker, que passou os olhos pela etiqueta de identificação dela.

— Obrigado, policial Breckenridge, eu me encarrego dele agora.

Estendeu a mão para o mestre de obras, cuja tez estava cinzenta sob a barba escura. O homem tinha olhos castanhos, um nariz romano e lábios grossos. Seu cabelo era formado de topetes. Parecia estar na casa dos trinta.

— Tenente Peter Decker.

— Chuck Tinsley — sua voz era grave, mas tinha um leve tremor. — Isto é... Estou um pouco perturbado.

— Este é meu trabalho, e estou muito perturbado disse Decker. —

Tinsley soltou um riso nervoso.

— Se você vir uma poça de vômito, provavelmente é meu.

— Como está o seu estômago agora? perguntou Decker. —

Ele mostrou uma lata de refrigerante.

— Alguém teve a bondade de me dar isto. Acho que foi a policial. Estou um pouco confuso.

Decker puxou seu bloco de anotações.

— Por que não me conta o que aconteceu?

— Não tenho muito para contar. Cheguei cedo para fazer uma limpeza antes que o empreiteiro chegasse. Mordeu o lábio. Vi o corpo. — —

— Podemos focar isso por um minuto?

— Pois não?

— Quando você chegou ao local?

— Faltavam uns quinze minutos.

— Uns quinze minutos para o quê?

— Ah, quinze para as duas... Eram 13h45.

— E quando você deveria se encontrar com o empreiteiro?

— Por volta das três e meia, quatro horas.

Decker consultou seu relógio. Eram quase três.

— Você chegou cedo?

— Sim, para limpar. Sabe como são essas equipes de operários — disse Tinsley. — Eles jogam lixo por toda parte. Tento forçá-los a fazer uma limpeza no fim do dia, mas se tiver sido um dia pesado, deixo passar. É mais fácil eu mesmo fazer a limpeza quando eles não estão aqui. Era o que eu estava fazendo. Com a inspeção chegando, o lugar precisa estar limpo.

— Então você chegou às 13h45 e... o que começou a fazer imediatamente?

— Serviços de limpeza. Recolher pregos, tábuas soltas, juntar ferramentas deixadas para trás, jogar lixo fora... Muito lixo.

— Você tem um saco de lixo com você?

— Sim, é claro.

— Onde está o saco agora?

Os olhos de Tinsley se estreitaram, confusos.

— Não sei. Provavelmente o deixei cair quando vi o corpo.

— Quando viu o corpo, quanto tempo fazia que estava no local?

— Talvez cinco minutos. Vi muitas moscas e imaginei que havia um monte de merda de cachorro que eu precisaria limpar. Não que eu veja muita merda de cachorro dentro da casa, mas pensei: o que mais poderia estar atraindo tanta mosca?

— Então o que fez?

— Acho que encontrei um saco plástico ou uma coisa assim para recolher o cocô. Depois disso, as coisas ficaram confusas. Acho que posso ter gritado. Depois vomitei. Depois liguei para o 911 do meu celular.

— Ligou para o empreiteiro também?

— Sim, liguei para ele, também. Ele me disse que iria se atrasar e esperava chegar antes do inspetor, mas então contei sobre o corpo, que eu tinha chamado a polícia e que ele deveria cancelar a inspeção.

— Então o que você fez depois de ligar para o empreiteiro?

— Realmente não me lembro... A polícia chegou alguns minutos depois. Alguém me disse para esperar no carro e que alguém falaria comigo dali a pouco. Eu disse que estava um pouco enjoado e alguém me arranjou uma lata de refrigerante. E foi isso.

— Você tocou no corpo? perguntou Decker. Procurou sentir o pulso, talvez? — —

Tinsley ficou verde.

— É possível. Não lembro muito bem.

— Olhou bem para o rosto?

— Só dei uma olhada nele... nela. Não parecia nem humano.

— Você a reconheceu como alguém que conhece ou que já viu em torno da área?

— Para falar a verdade, não olhei por tanto tempo.

— Poderia dar uma olhada no corpo mais uma vez, só para ver se pode identificá-la?

— Acho que sim...

Decker levou-o até o cadáver. Alguém da perícia criminal dera autorização para que a desprendessem. Deitaram-na em uma maca com um lençol sobre a cabeça. A Divisão de Investigação Científica estava tirando as impressões de suas mãos. Decker removeu delicadamente o lençol para expor o rosto. Ainda estava vermelho e inchado, mas um pouco menos deformado.

O mestre de obras olhou para o rosto por alguns segundos e, em seguida, desviou os olhos. Parecia estar controlando seu estômago.

— Não a conheço.

— Obrigado por tentar. Decker guiou-o para fora da cena, e os dois caminharam até o —

carro da polícia. Tinsley deu um sorriso nauseado.

— Pelo menos não vomitei dessa vez. Quando posso ir embora?

— Estamos quase terminando — disse-lhe Decker. — Gostaria que você escrevesse exatamente o que me contou, inclusive que não reconhece o cadáver.

— Ah, certamente. Sem problema.

Decker lhe entregou um bloco de papel amarelo pautado.

— Pode se sentar no carro da polícia enquanto escreve. Vou levar a lata de refrigerante, se já tiver terminado. Quer outra?

— Sim, se não se importar. Tinsley entregou a lata a Decker. —

— Tudo bem. Pode também me dar o nome e o número do celular do empreiteiro?

— O nome dele é Keith Wald. Tenho que checar meu celular para ver o número de telefone, porque estou abalado demais para lembrá-lo, embora já o tenha digitado mil vezes.

— Vou procurar o número no celular. Na verdade, você se importaria se eu examinasse o seu celular? Gostaria de registrar as horas exatas em que suas ligações foram feitas.

— Claro. — Tinsley entregou-lhe o telefone. — Você pode até checar para quais números liguei. É o que quer fazer, certo?

— Se não se importa.

— Suponho que seja natural suspeitar de todo mundo. A maior parte das minhas ligações é de trabalho, mas provavelmente há algumas para meus amigos. Eu lhe direi que número pertence a quem. Faço qualquer coisa, desde que tire minha cabeça daquilo.

Tinsley apontou para a casa, supostamente para o corpo dentro dela. Um instante depois, Decker avistou um homem de cabelo escuro e bigode atravessando o terreno, escoltado pela policial Mary Breckenridge. O rosto do sujeito era cheio de cicatrizes, sulcos e covas, com um forte queixo dividido e uma cabeleira de cachos espessos e escuros. Os olhos eram encimados por uma testa saliente e ele andava com as pernas arqueadas. Devia ter cerca de 1,72m e parecia ter quarenta e tantos anos.

— Aquele é o empreiteiro, tenente. Tinsley gritou e acenou os braços. —

— Ei, Keith! Aqui.

— Que merda aconteceu? — Wald acelerou o passo numa corridinha. — O que está acontecendo?

— Policial Breckenridge, por que não acompanha o sr. Tinsley até o carro da polícia para que ele possa escrever sua declaração? — pediu Decker.

— Sim, senhor. Breckenridge empurrou Tinsley delicadamente para frente. —

— Por aqui, senhor.

— Espere, espere, espere disse Wald em voz alta. Preciso falar com ele. — —

— Poderá falar com ele depois de conversar comigo. Decker apresentou-se. —

Wald estendeu a mão.

— Certo. Pode me dizer o que está acontecendo? Chuck me disse alguma coisa sobre um corpo pendurando nos caibros.

— Que mais ele lhe disse?

— Que era uma mulher. Meu Deus, isso é horrível. Wald consultou seu relógio. O — — inspetor municipal deve chegar dentro de uma hora.

— Você vai ter de cancelar isso disse Decker. Ninguém pode entrar na construção até — — terminarmos.

— Os proprietários do imóvel vão ter um ataque. Já estamos com uns dois meses de atraso. Não por minha culpa. Os donos não param de mudar de ideia.

— Posso saber os nomes deles? Quando Wald hesitou, Decker disse. Eles vão ficar — — sabendo. É melhor que a notícia venha de uma fonte oficial.

— Sim, isso é verdade. Grossman... Nathan e Lydia. Ele é médico, por isso trato principalmente com ela.

— Tem um número de telefone?

— Sim... Espere. — Wald checou seu BlackBerry, seu bigode contraindo-se enquanto ele movia o lábio superior. Aqui está. —

Decker copiou o número em seu bloco de anotações.

— O que você pode me dizer sobre eles?

— Ele tem uns sessenta anos, ela é mais jovem... Talvez quarenta anos. Eles têm dois meninos adolescentes, 15 e 13 anos. Acho que ele também tem um filho de outro casamento. Meu Deus, isso é horrível!

A mulher morta parecia já ter passado da adolescência, por isso os meninos não se apresentavam como principais suspeitos. Ainda assim, precisavam ser examinados.

— Que idade tem o filho do primeiro casamento?

— Não faço ideia. — Wald ficou pálido. — Por que está perguntando isso?

— Perguntas de rotina. Quero entrar em contato com todas as pessoas ligadas ao local — disse Decker. Sabe o nome dele? —

— Não.

— Eu perguntarei aos proprietários. Você poderia vir dar uma olhada no corpo? Ver se ele lhe parece familiar?

— Eu?

— Ainda não temos a identificação dela. Talvez seja alguém da vizinhança.

— Não passo muito tempo prestando atenção nas mulheres. Quando estou aqui, trabalho.

— Se puder apenas dar uma olhada nela, eu ficaria agradecido.

— Ai, meu Deus. Wald deu um suspirou. Está bem. — —

— Obrigado. Decker levou-o até a cena do crime e, pela segunda vez em dez minutos, —

removeu o lençol para mostrar o rosto. A vítima ainda estava intumescida e roxa, mas seus traços eram reconhecíveis como os de uma mulher jovem. Agora ele podia discernir claramente a marca de um roxo deixada pela ligadura, que fizera um corte em seu pescoço na altura do pomo de Adão.

Agora, podia dizer com convicção que o corpo não era de Terry McLaughlin.

Uma coisa a menos com que lidar... ou a mais com que lidar. Terry continuava desaparecida.

Wald ficou nauseado e bateu a mão na boca.

— Nunca a vi antes. Virou as costas e afastou-se. —

Decker cobriu o rosto da mulher e alcançou Wald.

— Obrigado por ajudar.

— Aquilo foi realmente necessário? Vou ter pesadelos.

— Você ligou para o inspetor?

— Ah, é, vou fazer isso agora mesmo. — Digitou alguns números em seu BlackBerry. Cinco minutos mais tarde, disse:

— Não consigo falar com ele. Merda!

— Não se preocupe com isso disse Decker. Cuidaremos dele. Vou precisar de uma lista — — de todas as pessoas que trabalharam aqui. Isso não deve ser muito difícil, já que vocês ainda estão fazendo a estrutura.

— Trabalho com os mesmos caras há três anos. Não foi um deles.

— Vou precisar dessa lista de qualquer maneira. Decker procurou outro bloco de anotações —

e deu-o a Wald. — Inclua na lista todas as pessoas associadas a este projeto, a começar pelos proprietários.

— Há algum lugar onde eu possa me sentar?

Decker chamou a policial Breckenrigde.

— Poderia levar o sr. Wald até um carro da polícia para que ele possa anotar algumas informações para mim? Ouviu Marge chamar seu nome, deu meia-volta e caminhou até ela e a —

cena do crime.

— O que está acontecendo?

— Lee Wang ligou. Uma enfermeira que trabalha no hospital St. Timothy, a cerca de seis quarteirões daqui, parece estar desaparecida.

— Ai, meu Deus. Qual é o nome dela?

— Adrianna Blanc. Segundo os dados de sua carteira de motorista, tem 28 anos, olhos azuis, cabelo castanho, 1,70m de altura e 57 quilos.

— Casada?

— Solteira.

— Quem notificou seu desaparecimento?

— A mãe dela. Ela foi ao apartamento da filha para deixar algumas coisas esta manhã e a moça não estava lá. Sua cama não tinha sido desfeita.

— Talvez tenha dormido em algum outro lugar.

— A mãe dela fez alguns telefonemas. O namorado da filha está viajando com seus dois melhores amigos, de férias. As outras amigas íntimas dela não conseguem contatá-la. Ao que parece, Adrianna terminou o turno no hospital esta manhã, mas ninguém teve notícia dela desde então. Seu carro ainda está no estacionamento do St. Timothy.

— Isso não é nada bom. Decker esfregou a testa. Onde está a mãe? — —

— O nome dela é Kathy Blanc e ela está na delegacia disse-lhe Marge. —

— E Lee está com ela?

— Lee fez o telefonema. Wanda Bontemps está com ela agora.

— Diga a Wanda para manter Kathy na delegacia. Vou para lá e conversarei com ela.

— Isso já foi feito disse Marge. Usei um computador em um dos nossos carros para — —

baixar a foto dela no Departamento de Trânsito e ver se há alguma semelhança. Entregou um —

pedaço de papel a Decker.

— Meio vago, mas é uma possibilidade. Poderíamos trazer a mãe aqui para uma identificação em pessoa ou poderíamos levar alguns dos instantâneos de George até ela.

Decker observou a foto. Uma jovem de cabelo comprido sorria de frente para a câmera. — Temos algumas fotografias post-mortem impressas?

— Sim, estas são da câmera de George, impressas a partir de seu laptop.

Decker examinou-as uma a uma rapidamente e comparou-as com a foto. Se apertasse bem os olhos, podia ver que as mulheres eram uma única pessoa. — Bastante parecidas. Estou mandando você e Oliver ao St. Timothy. Vou levar as fotos post-mortem para a mãe. É mais gentil do que lhe pedir uma identificação em pessoa. Terminou de investigar a área?

— Estou só começando... Tinha examinado uns dois quarteirões quando Lee telefonou.

— Chame Drew Messing e Willy Brubeck e peça-lhes para investigar a área por Oliver e você. Eles podem mandar uma turma de policiais percorrer a vizinhança. A primeira coisa que quero que você e Oliver façam é ir ao estacionamento do St. Timothy com uma equipe de criminalística para examinar o carro da moça. Veja se isso nos leva a algum lugar. Que tipo de carro é?

— Um Honda Accord 2002 vinho. Ela lhe deu o número da placa. —

— Enquanto a SID está trabalhando no carro, vá ao hospital e veja se pode rastrear os últimos movimentos de Adrianna Blanc antes de desaparecer.

— Farei isso.

— O empreiteiro está anotando nomes e números de todas as pessoas ligadas ao projeto. Os proprietários da casa têm, juntos, dois meninos adolescentes. Se for Adrianna Blanc, ela provavelmente estaria fora da faixa etária dos meninos, mas ainda precisamos saber onde eles estavam ontem à noite. Há também um filho mais velho do primeiro casamento do pai.

— Quantos anos ele tem?

— Não sei nada sobre ele. Ligue para Wynona Pratt. Diga-lhe para checar a lista, nome por nome.

— Parece um bom plano. Marge encolheu os ombros. Pelo menos o corpo — — provavelmente não é de Terry McLaughlin.

Decker expirou com força.

— Isso significa apenas que tenho de dar más notícias para outra pessoa.