Carrasco
Capítulo 17
METADE DAS AULAS ERA SOBRE ASSUNTOS judaicos, então Gabe tinha muitos períodos livres no fim —
das contas, um ótimo negócio.
Às 7h35, acontecia a prece matinal.
Ele estava dispensado disso.
Havia uma coisa chamada Gemara: Hannah disse que isso era uma interpretação das escrituras.
Ele estava dispensado disso.
Aula de Inglês era aula de Inglês mesmo. A única diferença era que a turma era mais bagunceira do que ele estava acostumado. Se seus amigos respondessem para seus professores da maneira que essas crianças judias faziam, teriam não apenas sido expulsos, mas levado uma surra em regra dos pais. O St. Luke era para ser uma escola preparatória católica, mas era sobretudo um local de permanência até que os meninos partissem para entrar nos negócios dos pais, e as meninas ficassem grávidas, se casassem e se divorciassem — ah, perdão, anulassem seus casamentos. Havia alguns garotos inteligentes que conseguiam chegar às universidades da Ivy League, mas a maioria ia para as estaduais, desde que seus cérebros não estivessem completamente cheios de álcool ou drogas quando se formavam no colégio.
Até agora, estava tudo bem na nova escola. Ninguém tentava se meter com ele, que ficava no seu canto.
Depois da aula de Inglês, havia História Judaica. Como essa aula era dada em inglês, disseram-lhe para entrar e experimentar. Era sobre o Holocausto: ele realmente encontrou uma situação que era muito pior que a sua. Estavam falando sobre o Gueto de Varsóvia, sobre o qual nunca ouvira falar.
História Americana era História Americana.
Depois de assistir à aula de Matemática, ficou claro que a escola valorizava mais os cérebros que os músculos. Ele podia competir naquele nível, mas para que se dar ao trabalho? Não é que os garotos fossem uns babacas, acontecia apenas que sua vida instável se tornara ainda mais temporária, por isso não fazia nenhum sentido tentar se integrar. As meninas cobriam toda a escala de feias a lindas. Não havia muitas louras. Cerca da metade das morenas tinha pele clara, a outra metade tinha pele cor de oliva, com cabelo preto ondulado — aparência mediterrânea que o agradava, porque havia crescido com muitos italianos. As meninas lhe lançavam olhares furtivos, com os olhos semicerrados. Ele não estava interessado, e mesmo que estivesse, de que adiantaria? A única menina verdadeiramente ruiva que vira era Hannah.
Ele gostava de Hannah. Ela era de fácil convívio, não fazia perguntas, tinha um senso de humor travesso, e não havia absolutamente nenhuma tensão sexual entre eles. Era como se ela fosse uma irmã mais velha temporária. Ele estava pasmo ao ver como ela aceitava bem sua invasão. Ele sabia que se a situação fosse invertida, não teria sido nem de longe tão generoso.
A matéria seguinte era Bíblia, e essa era dada em hebraico, por isso ele era dispensado. Ele queria ir para algum lugar e passar 12 horas dormindo, mas como dependia de Hannah para se locomover, não tinha escolha senão ficar por ali. Além disso, se não aparecesse na aula de Biologia, alguém poderia dizer alguma coisa e ele não queria causar nenhum problema.
Durante seus tempos vagos, ele estivera tocando muitas escalas, mas o instrumento estava desafinado e vinha matando seus ouvidos. Ele não se importava de batucar um “My Heart Will Go On” fora do tom, mas Chopin merecia coisa muito melhor. Como a afinação de um piano era um ofício especializado, acabou desistindo.
Havia uma lanchonete do outro lado da rua e uma xícara de café lhe cairia bem. Tecnicamente, alunos do segundo ano não tinham permissão para deixar o campus da escola, mas os guardas eram uma piada. Dentro de segundos, ele sumiu da vista deles e ficou livre fosse qual fosse o —
significado disso.
Não tinha dado mais que alguns passos quando ouviu o assobio um deslizamento melódico —
que ia do sol ao dó sustenido , sempre o mesmo tempo, a mesma duração e a mesma altura. —
Gabe tinha de quem puxar o seu ouvido.
Parou de andar, havia ácido se agitando em seu estômago enquanto seu cérebro ficava momentaneamente preto. Não fazia nenhum sentido fingir que não ouvira — era óbvio que ouvira, porque parara de andar —, portanto agora era apenas uma questão de escolher o carro certo para não ficar parecendo um idiota.
Havia três carros parados junto ao meio-fio. O Honda Accord estava fora de cogitação — prosaico demais e sem aceleração. O Jaguar era vistoso demais e da cor errada ele jamais —
dirigiria um carro azul-celeste. O último era um Audi A8-2008. Bom carro, com bastante aceleração e, o principal, com espaço suficiente na frente para o pai acomodar suas pernas compridas e seu corpanzil de 1,95m. As janelas eram de vidro fumê, mas não escuras o suficiente para despertar suspeita.
Num único movimento, Gabe puxou a maçaneta da porta do carona e deslizou para dentro. Uma vez lá, ficou olhando para fora pelo para-brisa, contando os segundos à medida que eles passavam. Ele sabia que a única maneira de lidar com Chris Donatti era absorver a força dos golpes. Seu pai levou uns bons cinco minutos para pronunciar um som.
— Você está bem?
Gabe assentiu com a cabeça, os olhos ainda fixos à sua frente.
— Tudo bem. Podia ouvir seu pai respirando com força. Nenhum cheiro de bebida; o —
homem estava sóbrio e isso o deixou mais amedrontado. Um momento depois, um envelope caiu no seu colo. Estava com um fecho de metal e colado com fita adesiva várias vezes em volta da aba.
— Sua certidão de nascimento, seu passaporte, seu cartão da Previdência Social, além de cerca de dez mil dólares em espécie, dois cartões de débito e os números de suas contas bancárias. Você tem uma conta que está ativa com cerca de cinquenta mil dólares de saldo. Pode emitir cheques dela ou usar seu cartão de débito. Também tem toda a documentação para sua conta-poupança. Isso é seu quando você fizer 18 anos. Há cerca de cem mil dólares nela. Os últimos são documentos para seu fundo fiduciário. Você terá acesso a ele quando fizer 21 anos: há cerca de dois milhões de dólares nessa conta. O banco é o curador. Se precisar de alguma coisa antes de chegar à maioridade, recorra a eles. Não sei por quanto tempo cinquenta mil dólares serão suficientes para você, mas mandarei dinheiro com certa frequência. Se precisar de mais, serei informado e depositarei o dinheiro na sua conta. Acho que você vai ficar bem.
Gabe ainda não tinha tocado no envelope. Assentiu com a cabeça.
— Alguma pergunta?
Gabe baixou os olhos para o envelope, sua tábua de salvação para o mundo.
— Você vai sair do país?
— Gabe, neste momento estou muito fodido, não sei o que vou fazer.
A revelação o fez lançar os olhos para o pai antes de voltar a fitar o para-brisa. Chris raramente parecia saudável, mas agora parecia excepcionalmente abatido. Seu rosto estava coberto por uma barba loura por fazer. Os olhos estavam patrióticos, nas cores da bandeira dos EUA — vermelhos, brancos e azuis. Às vezes era impossível acreditar que Chris só tinha 34 anos. Por outro lado, havia outras vezes — quando o pai estava limpo, sóbrio, tivera uma boa noite de sono e se alimentara bem em que as pessoas pensavam que eles eram irmãos. —
— Imaginei que a melhor coisa que podia fazer por você era deixar seus negócios em ordem para o caso de acontecer alguma coisa comigo.
— O que aconteceria com você? perguntou Gabe. —
— Está falando sério? disse Donatti, deixando escapar um sorrisinho. —
Silêncio.
— Olhe para mim, Gabriel — disse Donatti. Quando o menino obedeceu, ele enunciou sua frase palavra por palavra: — Eu... não... matei sua mãe.
Gabe desviou os olhos.
— Tudo bem. — Silêncio. — Acredito em você.
— Mas... Donatti levou a mão à boca e tirou. Mas é complicado. — —
Silêncio.
— Voltei ao hotel... depois que Decker saiu... Uma pausa. Como ele está tratando você? — —
— Ele é legal.
— Ele falou com você sobre mim?
Gabe negou com a cabeça.
— Não acredito nisso.
— Quer dizer, ele me pediu para contar se tivesse notícia de você, mas eu não tinha, então...
— Então sobre o que você fala?
— Com Decker?
— Sim, com Decker.
— Nada, na verdade. Quando falamos alguma coisa, ele me pergunta sobre a mamãe. Se ela parecia perturbada na última vez que falei com ela...
— E parecia?
Gabe olhou para o pai
— Na verdade, não, mas eu não estava prestando atenção. Seu coração batia forte em seu —
peito. O que aconteceu, Chris? —
— Voltei depois que ele saiu... Decker. Donatti contorceu-se em seu assento. Ela me — — deixou entrar. Brigamos. Foi uma briga feia, Gabe. Eu me descontrolei.
— Você bateu nela de novo?
— Não, não, não. — Ele fez uma pausa. — Não bati nela e certamente não a matei. Ela estava viva quando saiu do quarto. Estava apavorada, mas muito viva.
— Por que estava apavorada?
— Porque eu disse que se ela não voltasse para a porra da nossa casa, eu iria arrastá-la viva ou morta.
Donatti limpou a saliva que tinha no canto da boca. Acendeu um cigarro.
Chris só fumava quando estava arrasado.
— Devo ter gritado. Você me conhece, nunca grito.
— Não, realmente não.
— Ninguém consegue me deixar tão irritado quanto sua mãe. Ela sabe como me irritar e estava fazendo isso muito bem aquele dia. Merda, simplesmente explodi. Fiz um estardalhaço e foi ruim.
Deu uma tragada no cigarro.
— O que tornou as coisas realmente ruins foi que um dos merdas dos jardineiros ou dos homens da manutenção, ou seja lá que porra que ele era, me ouviu gritando. Bateu à porta, perguntando se estava tudo bem.
— Ele chamou a polícia?
— Não. Sua mãe abriu a porta e disse que estava tudo bem, mas teria que ser um idiota para acreditar nisso. O cara estava à beira de dizer alguma coisa. Por isso apareci e ofereci dinheiro a ele. Uns mil dólares.
Donatti riu.
— Ele pegou o dinheiro e fez o problema desaparecer... temporariamente. Deu outra —
tragada no cigarro. Bem, não gosto de Decker. Acho que é um filho da puta hipócrita e —
arrogante que sente prazer em me torturar, mas é um bom detetive. Quanto tempo você acha que ele vai levar para localizar aquela estúpida?
Gabe ficou em silêncio.
— Ele vai descobrir que eu briguei com ela. Vai descobrir que a ameacei. E agora ela desapareceu. — Outra tragada. — Evidências circunstanciais... porque não há nenhum corpo e sem um corpo não se tem boas evidências forenses. Seria difícil provar uma acusação contra mim. Meu advogado afirmaria que ela fugiu e está escondida. Essa é uma rua de mão dupla, dada a mais recente interação dos meus punhos e o rosto da sua mãe. Ela se esconder faz sentido, mas se eu tivesse matado a sua mãe, também faria sentido. Júris são imprevisíveis e não estou querendo correr esse risco.
Ele bateu as cinzas num copo de papel.
— Se ela tiver ido embora para fugir de mim, vou encontrá-la. Ela não tem nenhuma chance.
Gabe olhou de relance para ele, em seguida desviou os olhos.
Donatti expirou ruidosamente.
— O que eu quero dizer é que posso encontrar qualquer pessoa. E quando encontrar, não vou machucá-la. Preciso apenas que ela me ouça. Preciso... você sabe... acertar as coisas.
Gabe assentiu, embora duvidasse que eles dois tivessem a mesma definição para “acertar as coisas”.
— Mas há também a possibilidade de que algo de ruim tenha acontecido com ela... Donatti —
terminou o cigarro e jogou-o no copo. Devia haver líquido ali, porque a brasa chiou. Tenho de —
saber o que aconteceu com ela, e se for ruim, quem fez isso. Fazer meu próprio tipo de vingança com o filho da puta. Se eu estiver preso, como vou fazer isso?
Gabe fitava o envelope — sua vida resumida num pacote de papel.
— Você entende, certo?
— É claro.
— E vai ficar calado a respeito disso?
— É claro.
— Olhe para mim e diga isso.
Gabe olhou nos olhos do pai.
— Se você não machucou a mamãe, eu nunca trairia você. Você é meu pai.
— Seja lá o que isso significa.
— Significa alguma coisa para mim.
— Você me odeia?
— Às vezes. E, às vezes, amo você. Na maior parte do tempo, tento ficar fora do seu caminho.
Donatti fitou o rosto do adolescente.
— Você sabe que você foi um acidente, mas não fiquei infeliz por isso.
— Obrigado... eu acho.
— Então como vai explicar isso para Decker? — Donatti apontava o envelope.
— Antes de sair do hotel, tirei coisas do cofre e coloquei na minha mochila.
— Que tipo de coisas?
— Algumas das joias da mamãe e muito dinheiro. O que interessa é que o tenente não sabe o que peguei.
— Quanto dinheiro?
— Não sei. Não contei.
— Faça uma estimativa.
— Talvez uns cinco mil dólares. Está em notas de cem. Você quer o dinheiro de volta?
— Não, não quero de volta. Donatti acendeu outro cigarro. Se ela deixou dinheiro em — — espécie para trás, isso não é bom. Ele inalou profundamente sua fumaça. Por outro lado, até — — onde ela poderia ir com cinco mil dólares? Merda! Isso está mexendo com a minha cabeça. Não consigo dormir, não consigo fazer negócios, não consigo pensar. Provavelmente não consigo nem atirar direito. Tenho muito inimigos, Gabe. Estou sempre olhando por cima do meu ombro. Tenho que ficar alerta. Preciso saber o que aconteceu com ela. Simplesmente não conseguirei funcionar até ter resolvido isso de uma maneira ou de outra. Uma pausa. Você não vai — — contar a ninguém esta conversa, certo?
— É claro.
— Não acredito em você disse Donatti. Não porque você seja desonesto, mas porque é — — sincero demais. Vai escapulir.
— Sei mentir. Ele olhou para o pai. Aprendi com os melhores. — —
— Você acha? Donatti riu. Você é o filho da sua mãe. Se seu ouvido não fosse tão bom — —
como é, eu juraria que sua mãe fodeu com algum outro sujeito alto enquanto eu estava na cadeia. Seu rosto é fácil de decifrar, e se eu consigo decifrar você, Gabe, Decker também consegue.
— Juro que não vou dizer nada. O que mais você quer de mim?
Donatti ficou em silêncio por uns dois minutos. Depois disse:
— Dê-me três dias para desaparecer. Posso fazer meus rastros sumirem em três dias, tudo bem?
— Tudo bem.
— Depois disso, quero que você conte para ele que conversamos. Conte que vim e assim pude dar toda essa merda que dei para você. Diga para ele que não matei sua mãe, mas não conte sobre a briga e não conte sobre o cara que subornei. Deixe Decker descobrir isso por si mesmo. Combinado?
— Tudo que você quiser, Chris. Você manda.
— É isso que eu quero.
— Vou fazer e dizer tudo que você quiser que eu faça, contanto que você não tenha ferido a minha mãe.
— Quando eu saí, ela estava viva. Juro sobre o túmulo de minha mãe, essa é a verdade.
— Então, negócio fechado.
Donatti pôs sua mão grande no ombro do menino.
— Você vai ficar bem?
— Estou bem. Na verdade, estava aliviado pela confissão do pai. Claro, sua mãe continuava —
desaparecida, mas, naquela altura, o que mais lhe convinha era acreditar em Chris.
Donatti deu uma última tragada em seu segundo cigarro e jogou-o no copo também.
— Você sabe que está em boas mãos. Melhor do que comigo. Nós dois sabemos disso.
— Eu ficaria bem com você, Chris. Estou bem onde quer que esteja.
— Essa menina com quem você está andando... ela é filha de Decker, certo?
— Certo.
— Você deveria trepar com ela.
Gabe sentiu seu rosto ficar quente.
— Não acho.
— Por que não? Donatti fez uma pausa. Você é bicha? — —
— Não, não sou bicha.
— Eu não me importaria se fosse.
— Sei que não. — Era verdade. Seu pai provavelmente era bissexual. Muitas vezes, quando sua mãe estava trabalhando até tarde ou fora da cidade, Gabe via Chris levando para o quarto tanto as mocinhas quanto os garotos que “trabalhavam” para ele.
Chris Donatti transava com tudo que se movia.
— Você ainda é virgem?
— Podemos falar sobre alguma outra coisa?
— Sim ou não?
— Chris, nenhum cara com mais de 14 anos no St. Luke ainda é virgem. Isso também era —
verdade. Era um ritual: uma das meninas de classe alta do St. Beatriz transaria com você no carro dela. Sua primeira vez tivera mais ou menos a mesma complexidade de uma execução de “Heart and Soul” no piano. Ela gostara dele e se oferecera para fazer aquilo de novo. Ela tinha uma aparência esquisita, mas, mesmo assim, ele disse que sim. Como seu pai, ele nunca teve dificuldade para conseguir meninas.
Chris estava falando com ele.
— ... não quer transar com ela?
Ele olhou para o pai, fitando olhos frios, mortos. Por incrível que parecesse, eles ficavam ainda mais frios quando Chris se irritava.
— Você sabe, pai, nem tudo gira em torno de sexo.
— Você está errado, Gabriel. Donatti deu uma batida em seu rosto cinzento. Tudo gira — — em torno de sexo.