Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 3 de 50

Páginas do PDF

Carrasco

Capítulo 3

 

 

ENQUANTO DECKER ESTAVA NA CIDADE — a cerca de trinta quilômetros de sua casa , Rina fez —

reserva para jantarem juntos em um dos muitos restaurantes kosher ao longo de Pico Boulevard. Eles saíram da casa dos pais dela às seis, e meia hora depois, estavam em um lugar reservado, bebericando vinho. Embora não fosse muito de falar, nesta noite Peter parecia excepcionalmente dócil, de modo que Rina sentiu-se feliz por se encarregar da maior parte da conversa. Talvez Peter estivesse com fome. Ela imaginou que ele participaria quando lhe desse na telha. Porém, mesmo depois de comer rapidamente seu filé de costela, batatas fritas e salada, o marido continuou calado.

— O que está se passando dentro dessa sua cabeça? — Rina finalmente perguntou.

— Nada.

— Não acredito em você.

— Veja, é aí que vocês, mulheres, cometem um grave erro. Sempre que nós, homens, não falamos, vocês atribuem isso a alguma profunda meditação íntima que estaríamos tendo com nós mesmos. Em meu caso, eu estava pensando sobre a sobremesa... Se as calorias valeriam a pena.

— Se você quiser, podemos dividir alguma coisa.

— O que significa que eu como noventa por cento.

— Que tal se nos abstivéssemos da sobremesa e tomássemos apenas um café? Você parece um pouco extenuado.

— Pareço? — Decker deu uma batidinha em seu bigode ruivo e branco como se estivesse pensando em algo profundo. Embora sua barba ainda conservasse um pouco de sua cor juvenil, flamejante, seu cabelo estava mais branco que laranja, embora ainda fosse abundante. Ele sorriu para sua mulher. Rina mudara de roupa, agora estava com um vestido de cetim roxo-escuro que mantinha no armário da mãe. Embora fosse religiosa demais para algum dia exibir um decote, a linha do pescoço acentuava seu lindo colo. Ele lhe dera um par de brincos de diamante de dois quilates pelo seu aniversário de quarenta anos, e ela os usava em todas as oportunidades. Ele gostava de vê-la com coisas caras, mesmo que, com seu salário, isso não acontecesse com muita frequência. — Acho que estou um pouco cansado.

— Então vamos logo para casa.

— Não, não. Gostaria de tomar uma xícara de café.

— Tudo bem. Rina tocou-lhe as mãos. Você não está só cansado, está aborrecido. O que — — aconteceu esta tarde?

— Eu contei a você. Tudo correu tranquilamente.

— No entanto, você continua confuso.

— Quando falava com ele disse Decker, escolhendo as palavras , ela parecia confiante... — — Claramente no controle.

— Talvez estivesse, com você ali junto.

— Tenho certeza de que esse era um dos motivos. E ele estava contrito, de modo que ela tinha certo grau de liberdade de ação. Não sei, Rina. Ela estava quase autoritária. Enquanto almoçavam, praticamente só ela falou.

— Você conseguia ouvi-los?

— Podia vê-los. Ela claramente dominou a conversa.

— Talvez ela fale mais quando fica nervosa.

— É possível. Antes de nos encontrarmos com ele para o almoço, conversamos por alguns minutos. De repente, ela começou a tremer e a suar frio.

— Está vendo?

— Mas houve mais uma coisa, Rina. Se eu não soubesse nada dos antecedentes, teria jurado que ela estava bancando a sedutora no almoço... Estava extremamente sexy. Havia algo de estranho.

— O que é tão estranho? Ela gosta dele.

— Ele lhe deu uma surra seis semanas atrás.

— Ela sabe o que ele é e ainda há alguma coisa nele que ela acha atraente. Ela faz escolhas ruins. Foi o que a pôs nessa situação, para início de conversa. Ninguém mandou Terry visitá-lo na cadeia e fazer sexo com ele sem se prevenir contra uma gravidez.

— Ela não é uma menina tola, Rina. É uma mãe cuidadosa e uma médica emergencista.

— Como todos nós, ela tem aspectos positivos e alguns negativos. No caso de Terry, suas fraquezas são prejudiciais. — Rina inclinou-se para frente. — Mas como eu disse esta manhã, Peter, isso não é problema nosso. Você foi contratado para ajudar. Ela pagou e você fez o seu serviço. Que tal esquecer isso?

— Você está certa. — Decker empertigou-se e beijou-lhe a mão. — Estamos jantando fora e você não merece um marido em estado de coma.

— Que tal um café agora?

— Café seria ótimo! disse Decker com um sorriso. Eu até pediria uma sobremesa. — —

— O que acha da torta de pêssego?

— Torta de pêssego... perfeito! Vamos nos atrever a pedi-la com sorvete de baunilha, ou seja lá que mistura gelada eles preparem para fingir que é sorvete?

— Isso mesmo, vamos enfiar o pé na jaca.

 

O telefone celular tocou exatamente quando o carro havia chegado ao alto da autoestrada 405 e começava a mergulhar no San Fernando Valley. Montanhas dos dois lados deixavam o sinal irregular. Como Decker estava dirigindo, Rina tirou o telefone do bolso do paletó dele.

— Se for Hannah, diga que estaremos em casa dentro de cerca de vinte minutos.

— Não é Hannah. Não reconheço o número. Ela apertou o botão. Alô? — —

Houve silêncio do outro lado. Por um momento, Rina pensou que a ligação tivesse caído, mas viu então que o telefone não fora desligado.

— Alô? tentou de novo. Posso ajudá-lo? — —

— Quem é? perguntou Decker. Quando ela encolheu os ombros, ele disse: Apenas — — desligue.

— Desculpe-me. — A voz era masculina. Ele pigarreou. — Estou procurando o tenente Decker.

— Este é o telefone celular dele. Com quem estou falando?

— Gabe Whitman.

Rina precisou fazer grande esforço para não arquejar.

— Está tudo bem?

— Com quem você está falando? perguntou Decker. —

— Não disse Gabe pelo telefone. Isto é, não sei. — —

— Quem é, Rina? — insistiu Decker.

— Gabe Whitman.

— Meu Deus! Diga-lhe para esperar.

— Ele logo falará com você disse Rina. —

— Obrigado.

Decker manobrou o carro para o acostamento da autoestrada, ligou suas luzes de emergência e pegou o celular.

— Tenente Decker falando.

— Lamento incomodá-lo.

— Incômodo nenhum. O que está acontecendo?

— Não consigo encontrar minha mãe. Ela não está aqui e não atende o celular. Meu pai não atende o celular dele também.

— Certo. O cérebro de Decker girava a mil por hora. Quanto tempo faz que você falou — — com sua mãe, Gabe?

— Voltei para o hotel por volta de seis e meia, sete. Deveríamos ir jantar. Ela não estava aqui. Seu carro não está aqui, sua bolsa não está aqui, mas ela não deixou nenhum bilhete, nada. Ela não faz esse tipo de coisa.

Decker sentiu seu estômago revirar. Seu relógio mostrava que eram quase nove horas.

— Quando foi a última vez que você falou com ela, Gabe?

— Por volta das quatro horas. Você já tinha saído. Mamãe disse que tudo correu bem. Ela parecia estar ótima. Disse que tinha de fazer algumas coisas e estaria de volta lá pelas seis. Não sei se estou reagindo de maneira exagerada, mas com Chris, simplesmente não sei.

— Onde você está agora?

— Estou no hotel.

— No quarto?

— Sim, senhor.

— Tudo bem, Gabe, estou dando meia-volta e estarei aí em cerca de meia hora. Saia do quarto e me espere no saguão. Quero que você fique em um lugar público, tudo bem?

— Certo. Uma pausa. Está tudo certo no quarto... Isto é, nada está revirado ou coisa — —

assim.

— Isso não significa que seu pai não possa aparecer de repente. Não seria bom para vocês dois ficarem a sós.

— É verdade. — Uma pausa. — Obrigado.

— Não precisa agradecer. Simplesmente saia pela porta e não olhe para trás.

Quinze minutos mais tarde, Decker parou seu Porsche no estacionamento. Os funcionários eram diferentes dos que haviam estado ali à tarde. Quando lhe perguntaram quanto tempo iria ficar, Decker respondeu que não sabia.

O resort ocupava seis hectares de um terreno com plantas exuberantes e folhagem tropical situado nos contrafortes de Bel Air. O ar vespertino estava adocicado pelos jasmins que floriam à noite, com um toque de gardênia. Palmeiras de folhas largas, samambaias e arbustos floridos margeavam caminhos de pedra e tombavam sobre as bordas de uma lagoa artificial povoada com patos e cisnes. Decker e Rina atravessaram uma ponte, lançando um olhar para o lago enquanto aves passavam planando.

Decker virou-se para Rina.

— Por que não pega o carro e vai para casa?

— Hannah está na casa de uma amiga. Posso esperar.

— Não sei se quero você por perto caso Chris apareça. Estou com um mau pressentimento em relação a isso.

— E se eu esperar no saguão?

— Você se importaria? Pode levar algum tempo. Se eu não encontrar Terry imediatamente, vou ter de dar uma busca no hotel.

— Isso não é problema, a menos que eles me expulsem. — Ela fez uma pausa. — O que vai fazer com Gabe? Você não sabe o que está acontecendo. Certamente não pode deixá-lo ficar aqui sozinho, mesmo se ele fosse maior de idade.

Nenhum dos dois falou.

— Ele pode ficar conosco — disse Rina.

— Não me parece uma boa ideia.

— Acho que você não tem escolha.

— Ele tem um avô que mora no Valley.

— Então entre em contato com ele de manhã. Uma noite conosco não fará diferença.

— Você realmente é a Mãe Terra.

— Essa sou eu — disse Rina. — Vinde a mim as multidões cansadas, pobres e confusas que anseiam por respirar livremente, et cetera, et cetera. Emma Lazarus e eu tínhamos muito mais em comum que apenas nossos sobrenomes.

 

Embora o hotel propriamente dito fosse uma série de discretos bangalôs conectados, cobertos de estuque cor-de-rosa e com um telhado de telhas vermelhas de estilo mediterrâneo, o saguão era um prédio independente. Pela janela, Decker pôde ver uma mulher uniformizada folheando fichas atrás do balcão, uma mesa de concierge vazia e um conjunto de móveis tradicionais defronte a uma lareira de pedra. Uma das poltronas beges estava ocupada por um adolescente magricela O pensador, mas esculpido por Giacometti. Ele e Rina entraram e o menino magro —

levantou os olhos, em seguida se pôs de pé. Decker tentou dar um sorriso tranquilizador.

— Gabe?

Ele assentiu com a cabeça. Menino bonito um nariz aquilino, queixo forte, uma massa de —

cabelo louro acinzentado e olhos cor de esmeralda atrás de um par de óculos sem aro. Não era muito musculoso, mas tinha o mesmo tipo de musculatura vigorosa que seu pai exibia na adolescência. Parecia estar chegando à marca de 1,82m.

Decker estendeu a mão e o menino apertou-a.

— Como vai você?

O garoto encolheu os ombros, impotente.

— Esta é a minha mulher. Ela vai esperar por mim aqui... ou por nós. Ainda não teve notícia de ninguém?

— Não, senhor. Ele olhava para Rina tanto quanto para Decker. Lamento ter arrastado — — vocês até aqui. Provavelmente não é nada.

— Seja o que for, não é um problema. Vamos caminhar de volta até o quarto.

A mulher no balcão levantou os olhos.

— Está tudo bem, sr. Whitman?

— Ah, sim. Gabe forçou um sorriso. Tudo bem. — —

— Tem certeza?

Gage assentiu com a cabeça rapidamente.

— Vejo você daqui a pouco — disse Decker, voltando-se para Rina.

— Não se apresse.

Decker e o menino saíram para o ar frio e enevoado, nenhum dos dois falou enquanto andavam. À noite, os caminhos pareciam diferentes do que eram de dia. Com a iluminação artificial colorida entre as plantas, todo o complexo parecia surreal, como um cenário de filme. Gabe foi fazendo meandros de um jardim para outro até que os dois chegaram ao bangalô que ele compartilhava com a mãe. Abriu a porta, acendeu a luz, e eles entraram.

— Exatamente como eu o deixei disse Gabe. —

E não muito diferente do que estava quando Decker saíra. As flores que Chris dera a Terry tinham sido postas em um vaso e estavam sobre a mesa junto ao sofá. O copo de uísque de Donatti estava dentro da pia do bar. O cinzeiro fora limpo e o sofá da sala de estar fora aberto, transformando-se em uma cama; um cardápio de café da manhã do serviço de quarto e alguns chocolates haviam sido deixados em uma bandeja de prata. Havia água na mesa de centro e música vinda de um aparelho de som, sintonizado em uma estação de música clássica.

— Você dorme aqui?

Gabe assentiu com a cabeça.

Decker entrou no quarto. A cama de Terry também tinha sido arrumada.

— As cobertas estavam viradas quando você chegou aqui por volta das seis?

— Não, senhor, eles vieram mais tarde. Por volta das oito. Uma pausa. Provavelmente — — eu não deveria ter deixado que entrassem, não é?

— Isso não tem importância, Gabe. Decker estudou o quarto. Havia muitas roupas no —

armário e um pequeno cofre. Ele perguntou ao menino se sabia o segredo.

— Hum, o deste não, mas sei a senha que ela costuma usar.

— Poderia tentar abri-lo?

— Claro.

Gabe digitou uma série de números. Precisou fazer umas duas tentativas, mas finalmente a porta se abriu. O cofre estava cheio de dinheiro em espécie e joias.

— Você tem alguma coisa em que possa transportar as coisas de valor?

— Por quê?

— Se sua mãe não voltar, você não pode ficar aqui sozinho.

— Ficarei bem.

— Não tenho dúvida de que pode cuidar de si mesmo, mas sou um policial e você é um menor. Eu estaria violando a lei se deixasse você ficar aqui sozinho. Além disso, nas atuais circunstâncias, eu não gostaria que você ficasse sozinho mesmo que tivesse 18 anos.

— Para onde vai me levar?

— Você tem uma escolha. — Decker esfregou suas têmporas. — Sei que tem um avô e uma tia que moram em Los Angeles. Iria se sentir confortável ligando para qualquer um dos dois? Será um prazer levá-lo até lá.

— Essa é minha única escolha?

— Você poderia passar a noite em minha casa, e tenho fé de que as coisas se resolverão de manhã.

— Essa seria minha primeira escolha. Eu preferiria isso a ficar com meu avô. Minha tia é legal, mas um pouco avoada. Ela não é muito mais velha que eu.

— Quantos anos tem a Melissa?

— Tem 21... É muito imatura para 21.

— Está certo. Então é isso que vamos fazer. Você vai para casa com minha mulher. Vou ficar por aqui algum tempo e tentar descobrir o que está acontecendo.

— Por que não posso ficar aqui com você enquanto tenta descobrir isso?

— Porque pode levar muito tempo. É melhor você ir para casa com minha mulher e me deixar fazer meu trabalho. Eu o verei amanhã de manhã. Se sua mãe voltar, ligo para você imediatamente. E se por acaso você tiver notícia ou da sua mãe ou do seu pai, ligue para mim na hora, assim não perco tempo. Está certo?

O menino assentiu com a cabeça.

— Muito obrigada, senhor. Fico realmente agradecido.

— Por nada. Decker tirou um bloco de anotações do bolso. Tenho o número da sua mãe. — — Vou precisar dos números do celular do seu pai e do seu.

Gabe desfiou uma série de números.

— Sabe que meu pai troca de telefone o tempo todo. Um número pode estar funcionando um dia e sem funcionar no seguinte.

— Qual foi a última vez que você falou com seu pai?

— Preciso pensar. Chris me ligou sábado de manhã... por volta das onze horas. Tinha acabado de pousar. Contou que estava no aeroporto e iria se encontrar com a mamãe no dia seguinte.

— E você disse o quê?

— Não me lembro realmente. Algo como... “legal”. Depois ele perguntou como ela estava e respondi que estava bem. Foi uma conversa de uns dois minutos, o que é muito típico para nós. — Gabe mordeu os lábios. — Chris não gosta realmente de mim. Eu sou um estorvo, algo que fica entre ele e a mamãe. Raramente fala comigo, a menos que seja sobre minha música ou minha mãe, mas é obrigado a lidar comigo, porque eu sou o que o liga à mamãe. É realmente uma confusão.

— Seu pai é confuso. Você não saberia por acaso o número do voo dele, não é?

Gabe sacudiu a cabeça.

— Sabe que companhia aérea ele costuma escolher?

— Quando não viaja de avião particular, pega a primeira classe da American para viajar de costa a costa. Gosta de se esticar.

— Se ele saísse da área de Los Angeles, para onde você acha que ele iria?

— Iria para casa. Ou poderia ir para Nevada e acampar por lá durante algum tempo.

— Ele possui bordéis em Elko, não é? — Quando o menino ruborizou, Decker disse: — Você saberia o nome dos estabelecimentos dele?

— Um é Domo do Prazer. — Seu rosto estava da cor de um pimentão. — Palácio do Prazer... Ele tem uns três ou quatro lugares com a palavra “prazer” nos seus nomes.

— Já tentou telefonar para esses lugares?

O menino sacudiu a cabeça.

— Não tenho os números. Talvez estejam no catálogo. Posso ligar para o serviço de informações, se você quiser.

— Não, posso fazer isso daqui. Por que não põe algumas coisas em uma mala e tira o dinheiro e as joias do cofre? Depois eu o levo de volta ao saguão.

— Peço desculpas por ser uma chateação. Estou me sentindo um idiota.

— Não há nenhum problema. — Ele pôs o braço em volta dos ombros do menino. A princípio, Gabe enrijeceu, mas depois seus ombros relaxaram sob o peso do braço de Decker. — E não fique preocupado demais. Provavelmente, tudo vai se resolver.

— Tudo se resolve. Às vezes as coisas se resolvem bem. E às vezes se resolvem mal. É o mal que me preocupa.