Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 34 de 50

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Carrasco

Capítulo 34

 

EDDIE BOOKER CARREGAVA UM FARDO. O ex-funcionário da manutenção deveria estar com um aspecto descansado depois de um cruzeiro em mar aberto. Em vez disso, seu rosto destilava estresse. Ele era um homem alto, ossudo, na casa dos cinquenta, com cansados olhos escuros. Tinha uma boca larga e cabelo grisalho bem crespo. Estava vestido com uma camisa branca de colarinho abotoado e calça marrom. Estava suando e a entrevista ainda não tinha nem começado. Decker o chamara originalmente em prol da completude. Agora perguntava a si mesmo se não estava olhando para um suspeito.

— Gostaria de beber um pouco de água?

— Não, quero apenas acabar com isto. — Booker pegou uma caixa de lenços de papel próxima e usou um para enxugar a testa.

— Conte-me sobre isso — disse Decker.

— Eu sabia que estava errado. Um suspiro. Trabalhei nessa atividade durante 36 anos e — — nunca aconteceu nada parecido. Não sei que merda eu estava pensando.

Decker assentiu com a cabeça.

— Minha mulher acha que eu deveria arranjar um advogado.

— Por quê?

— Era isso que eu estava dizendo para ela. Vou só devolver o dinheiro e pronto. Mas agora que você me diz que a sra. McLaughlin está desaparecida, isso pode parecer meio complicado. — Os olhos dele estavam úmidos. — Juro que foi a primeira e única vez que fiz alguma coisa assim. E só peguei o dinheiro porque ela me disse para fazer isso.

— A sra. McLaughlin lhe disse para pegar o dinheiro?

— Sim, senhor.

Decker sacou seu bloco de anotações.

— Sr. Booker, vamos começar do início. Comece com a hora. Quando tudo isso aconteceu?

— Eram cerca de... três, três e meia da tarde.

— Domingo à tarde?

— Sim, domingo à tarde. Eu estava fazendo minhas rondas, só checando o terreno. Ouvi a discussão vindo do quarto da sra. McLaughlin.

— Certo. Decker manteve uma fisionomia inexpressiva. Quando você diz “discussão”, — — poderia definir isso?

— Gritos.

— Quem estava gritando?

— Os dois.

— A sra. McLaughlin e…

— Não sei o nome do homem. Ele não o disse em momento nenhum. Só me ofereceu o dinheiro e, eu, como um maldito idiota, peguei-o. A única razão que me levou a pegar aquilo foi ela me dizer para pegar.

— A sra. McLaughlin disse.

— Sim, senhor. Cara, ela estava furiosa. Furiosa com ele… mas pareceu furiosa comigo por incomodá-los. Ele pôs a mão no bolso e puxou um maço de notas de cem dólares. Eu nem — — gastei isso. Sabia que era errado. Ele empurrou as notas no rosto de Decker. Tire isso logo — — de mim. Essa coisa é veneno!

— Não posso fazer isso, senhor.

— Bem, eu com certeza não quero isso. — Ele jogou o dinheiro na mesa.

As notas começaram a se desenrolar. Decker não fez um movimento para pegá-las, mas soube mais tarde que recolheria o dinheiro como evidência. Talvez ele fosse pagamento de Donatti para fazer alguma coisa errada. — Vamos recuar um pouco, sr. Booker. Você estava fazendo suas rondas. Eram cerca três, três e meia da tarde de domingo.

— Sim.

— Você ouviu uma discussão vindo do quarto da sra. McLaughlin.

— Sim.

— Que aconteceu depois?

— Bati à porta. Chamei o nome dela, perguntando se estava tudo bem.

— O que aconteceu depois que você bateu à porta e chamou-a?

— Bem, para começar, a discussão parou. A gritaria. Depois que bati, ninguém disse um pio.

— Certo. Continue.

— Bati de novo, chamando o nome dela. Comecei a teclar minha senha na porta, mas ela a abriu antes que eu conseguisse.

— Como ela estava?

A pele do homem escureceu.

— Ela era uma mulher bonita.

— Quero saber qual era o estado emocional dela.

— Furiosa.

— Furiosa e amedrontada?

— Não, senhor, só furiosa. Se estivesse parecendo amedrontada, eu não teria ido embora. Ela parecia emputecida, com perdão pela má palavra.

— Então o que aconteceu depois que ela atendeu a porta?

— Ela me disse... Deixe-me ver se consigo me lembrar exatamente... — Ele deu outra batida na testa com o lenço de papel. — Ela disse “obrigada” por minha preocupação. Que ela lamentava estar fazendo uma algazarra, mas estava tudo bem.

— Ela dava a impressão de ter sido maltratada?

— Maltratada? Booker pareceu horrorizado. Como se tivesse apanhado? — —

— Bem, o cabelo dela estava desgrenhado, ela tinha alguma marca no rosto...?

— Não, não, não. Nada desse tipo. Eu teria desconfiado de alguma coisa, teria chamado meu supervisor ou até a polícia.

— Como estava vestida? — perguntou Decker.

— Vestida? — Booker pareceu aflito. — Tenho de pensar um minuto. Ela usava alguma coisa vermelha... como uma blusa vermelha solta. Estava com uma calça escura. O cabelo estava solto. Ela ficava tirando-o dos ombros. Tinha grandes brincos de diamante nas orelhas.

— Estava usando maquiagem? Como batom ou rímel?

— Não me lembro.

— Parecia ter estado chorando?

— Os olhos dela não estavam vermelhos nem nada disso. Não havia nada escuro escorrendo pelo rosto dela. Parecia simplesmente furiosa. O que era diferente das outras vezes que a vi. Normalmente, era muito simpática e sociável. Não dessa vez.

— Você por acaso viu com quem ela estava discutindo?

— Sim, claro. Era com o sujeito que me deu o dinheiro.

— Como ele era?

— Muito alto. Cara grande, louro. Olhos assustadores. Fiquei preocupado com ela.

— E ela não parecia amedrontada?

— Não. Não estava com medo, nem chorando, só irritada. Quando ele me ofereceu o dinheiro por meu “incômodo” — Booker traçou aspas no ar —, eu quase chamei a polícia. Mas em seguida ela me disse para pegá-lo. Disse: “Pegue o dinheiro, Eddie. E guarde este pequeno incidente para você. Seria embaraçoso para mim se você contasse para alguém.” — Ele franziu a testa. — Ela disse alguma coisa sobre o homem ser o pai do menino e que eles estavam tendo uma divergência sobre a maneira certa de educá-lo. Foi por isso que perguntei a você sobre o filho. Ele está mesmo bem?

— Sim, ele está bem. Acha que era sobre isso que estavam discutindo?

Mais uma vez, Booker pareceu aflito.

— Eu não poderia dizer sim e não poderia dizer não. Se quer minha opinião, acho que a discussão era sobre assunto mais pessoal que a educação de um menino.

— Como assim?

Booker bufou.

— Eu o ouvi chamando-a de "putinha mentirosa". Ela o chamou de paranoico e maluco. Foi quando bati à porta e tudo ficou quieto. Esse tipo de palavras... para mim, isso não dá a impressão de que estavam discutindo sobre o filho. Eu sei que devia ter dito alguma coisa, mas... Sacudiu —

a cabeça, envergonhado.

— O quê?

— Isto vai soar mal.

— Mas me conte mesmo assim.

Booker cobriu o rosto.

— Ele me deu mil dólares. Eu poderia realmente ter usado aquele dinheiro. Mas não houve nenhuma dúvida em minha mente de que eu não ia ficar com ele. Assim que eu chegasse do cruzeiro... eu iria devolvê-lo.

— Então por que o pegou?

— Você não vai acreditar em mim.

— Ponha-me à prova.

— Peguei o dinheiro por causa da sra. McLaughlin... Bem, como posso dizer isto? Como eu disse, ela era uma linda mulher com uma voz bonita, suave, e com um sorriso encantador. Ela sorria para mim sempre que eu passava por ela. Sempre se dirigia a mim pelo meu nome e encontrava tempo para me dizer umas duas palavras. Sempre me tratou como uma pessoa e não como um móvel.

— Soube que ela era muito amistosa.

— Amistosa, mas nunca passou disso. Apenas uma boa alma. E como eu disse, era tão bonita. — Ele baixou os olhos. Eu tinha uma espécie de queda por ela. Peguei o dinheiro porque não —

queria que ela ficasse zangada comigo.

 

— Você o deixou ir embora? perguntou Marge. —

— Vou segurá-lo aqui com base em quê?

— Talvez ele tenha entrado lá furtivamente depois que Donatti saiu e a matado.

— Ele me fez uma descrição completa de seus movimentos. A única maneira pela qual ele poderia tê-la matado e descartado o corpo teria sido fazer isso no terreno do hotel. E um número grande demais de pessoas o viu entre a hora em que ele pegou o dinheiro e aquela em que Gabe chegou em casa e descobriu que sua mãe desaparecera.

— Talvez ele a tenha assassinado, enfiado num closet e depois voltado para descartar o corpo.

— Ele foi embora depois das seis e meia e chegou em casa quarenta minutos mais tarde. Afirma que ficou com a mulher o tempo todo, fazendo as malas para suas férias. Examinei seu rosto, as mãos, os braços e as pernas. Ele me mostrou até suas costas e a barriga. Não havia arranhões em parte alguma. Ele concordou em se submeter ao teste do polígrafo. Você viu o quarto. Havia alguma coisa que indicasse que acontecera uma luta lá dentro?

— Tenente, ele admitiu ter uma queda por ela. Talvez ela tenha rejeitado os avanços dele.

— Se ele tentou um contato físico, ela não lutou para se defender, e isso me parece difícil de acreditar. Eu não tinha nenhuma razão para retê-lo. Ele não tem ficha, tem uma histórico excelente como trabalhador, paga seus impostos, os filhos estudam na escola católica. A gente tem uma impressão intuitiva sobre uma pessoa. Acreditei nele, por isso o deixei ir embora.

— Não gosto da parte em que ele disse que tinha uma queda por ela.

— Ela é uma mulher encantadora. Provavelmente ele não era o único.

Marge olhou bem para ele.

— Inclusive você?

— Eu me lembro dela como uma garotinha, por isso, para mim, ela será sempre uma garotinha. Objetivamente, ela é atraente. E acho que tirava o máximo proveito disso. Não comigo, porém. Comigo, ela usava o ardil da mulher desemparada. “Por favor, tenente, você sabe que é a única pessoa que conheço que pode controlá-lo. Sinto-me segura quando está por perto.” E, idiota que sou, engoli.

— Parece estar com raiva.

— Sou um idiota. Mas pelo menos fui inteligente o bastante para pedir a opinião da minha mulher sobre ajudá-la antes de concordar em fazer aquilo.

— E Rina disse sim?

— Rina disse que apoiaria qualquer decisão minha. Mas ambos sabíamos que eu concordaria em fazer aquilo por causa do potencial para violência de Donatti. Pode ser que alguma coisa terrível tenha acontecido com Terry, mas estou começando a pensar que ela planejou isso o tempo todo e que fui usado. E agora tenho um adolescente morando em minha casa e minha mulher alugando um piano para ele.

— Ela está alugando um piano para Gabe? — perguntou Marge, rindo.

— Ela o ouviu tocar piano esta manhã disse Decker, parecendo amargurado. Ao que — — parece, ele é uma espécie de gênio do piano. Agora ela lhe arranjou um professor e não sei o que mais. A única coisa que sei é que isso vai me custar dinheiro. Deu um tapa na testa. Estou — — prestes a me aposentar. Em que enrascada fui me meter, Marge?

— Você não vai se aposentar. Você morreria.

— Talvez não me aposentar, aposentar, mas eu certamente estava prestes a relaxar. Como pude ser engambelado a ponto de deixar esse garoto entrar na minha vida?

— Está perguntando para mim? Eu adotei Vega e desde então nunca mais tive uma noite de sono. — Ela fez uma pausa. — Está melhor agora. Mas ainda me preocupo até receber aquele telefonema, dizendo-me “boa noite, mãe Marge.” — Jogou as mãos para o alto. — Algumas pessoas acolhem gatos abandonados. Nós acolhemos criaturas bípedes. Não é tão inteligente, mas pelo menos não temos de lidar com caixas de areia.

 

Oliver desligou o telefone.

— Era Las Vegas. Olhou para suas anotações. Detetive Silver. Ele disse que daria uma — — passada pelos hotéis, mas que eu não esperasse nada. Os hotéis mantêm seus registros em sigilo completo, a menos que haja um mandado ou um motivo de força maior para expor seus clientes.

— Que tal duas moças mortas? perguntou Marge. —

— Foi por isso que contei com o tipo de cooperação que consegui. Mas até que tenhamos mais evidências, estaremos batendo contra a parede.

— Poderíamos ir lá e procurar nos hotéis, mas acho que não conseguiríamos muita coisa. Garth poderia estar usando um outro nome. Las Vegas é um lugar onde as pessoas vão para se reinventar. E cada hotel é enorme, com muitas alas e centenas de quartos.

— Agulha em palheiro.

Marge deu de ombros.

— O que você vai fazer neste fim de semana?

— Nada.

— Nem eu. Não cheguei a ver O.

— É bom. Oliver sacudiu os ombros. Eu o verei de novo. — —

— Vou verificar quem tem os ingressos mais baratos possíveis. Marge ajeitou a bolsa no —

ombro. — Estou de saída para falar com Yvette Jackson com um conjunto de fotos de identidade enfileiradas. Quer vir comigo?

— Sim, com certeza. — Oliver se levantou e vestiu a jaqueta. — Deveríamos explicar nossa “farrinha” em Las Vegas ao tenente de novo. Tenho certeza de que podemos conseguir alguma recompensa por ela.

— Poderíamos apresentar uma boa justificativa para ela disse Marge. Exceto os ingressos — — para O.

— Então temos apenas de imaginar uma boa maneira de apresentá-la à contabilidade. Que tal... que tal um curso de reciclagem em medicina emergencial e ressuscitação cardiopulmonar?

Marge riu.

— De onde você tirou essa ideia? perguntou Marge, rindo. —

— Todas aquelas mulheres debaixo d’água... e se uma delas tiver uma cãibra de repente?

— Hum... e como você pretende ajudar?

— Sou ótimo em massagens profundas.