Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 1 de 50

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Carrasco

Dedicatória

Para Jonathan,

o homem completo, de A a Z.

E para Lila e Oscar,

abraços e beijos.

1

 

AS FOTOS MOSTRAVAM-NA INCHADA, MACHUCADA E contundida um lábio intumescido, dois olhos —

roxos, um rosto túrgido e brilhoso. Decker achou quase impossível conciliar esses instantâneos com a mulher de aparência extraordinária sentada à sua frente. Terry mudara naqueles 15 anos. Transformara-se de uma bonita menina de 16 anos em uma mulher elegante, deslumbrante. A idade tornara seu rosto mais suave e redondo, com a frágil e delicada beleza de um camafeu vitoriano. Os olhos de Decker passavam da pintura para o rosto dela. Ele levantou uma sobrancelha.

— Horrível, não? — disse ela.

— Seu marido certamente fez um estrago em você. — Se examinasse o rosto dela com os olhos bem apertados, Decker podia ver os vestígios da surra (um tom esverdeado em certos pontos). — E essas fotos foram tiradas há cerca de seis semanas?

— Mais ou menos. Ela mudou de posição no sofá. O corpo é uma coisa maravilhosa. Eu — — costumava ver milagres o tempo todo.

Sendo médica, Terry tinha essa informação em primeira mão. Ter conseguido cursar a faculdade de medicina e criado um filho enquanto esteve casada com aquele maluco eram evidências de sua força de caráter. Era difícil vê-la espancada daquela maneira.

— Tem certeza de que quer ir até o fim com isso? Encontrar-se com ele aqui em Los Angeles?

— Adiei isso o máximo que pude disse Terry. Realmente não faz sentido me esconder. — — Se Chris quiser me achar, vai achar. E não é comigo que estou preocupada. É com o Gabe. Se ele ficar irritado o bastante, pode descontar no menino. Preciso que ele se torne um adulto, tenente, antes de tomar qualquer decisão sobre mim mesma.

— Quantos anos o Gabe tem?

— Cronologicamente, vai completar 15 anos daqui a cerca de quatro meses. Psicologicamente, é um velho.

Decker assentiu com a cabeça. Eles estavam sentados em uma suíte de hotel elegantemente mobiliada em Bel Air, na Califórnia. O esquema de cores era um calmante tom sobre tom de bege. Havia um sortido bar junto à entrada com uma bancada de mármore para o preparo de drinques. Terry enroscara-se no divã em frente a uma lareira de pedra. Ele estava sentado à direita dela, numa poltrona com vista para o pátio privado luxuriantemente jardinado com samambaias, palmeiras e flores — um oásis para a alma ferida.

— O que a faz pensar que vai durar até Gabe fazer 18 anos?

Terry dedicou alguma reflexão à pergunta.

— Você sabe como meu marido é frio e calculista. Essa foi a primeira vez que pôs a mão em mim.

— Mas o que aconteceu?

— Um mal-entendido. Ela olhou para o teto, evitando os olhos de Decker. Ele — — encontrou alguns documentos médicos e pensou que eu tinha feito um aborto. Depois que finalmente consegui fazê-lo parar de me bater e ouvir, ele se deu conta de que tinha lido mal o nome. O aborto fora feito por minha meia-irmã.

— Ele confundiu o nome Melissa com Teresa.

— Temos o mesmo nome do meio. Sou Teresa Anne. Ela é Melissa Anne. É idiota, mas meu pai é idiota. Ainda uso McLaughlin, assim como minha meia-irmã, porque o nome está em todos os meus diplomas e licenças. Ele leu mal o nome e se descontrolou. Não que se importe com crianças, mas a ideia de que eu estaria destruindo sua prole o deixou transtornado. Sou realmente grata por não haver nenhuma arma ao alcance dele. Ela encolheu os ombros. —

— Por que se casou com ele, Terry? perguntou Decker. —

— Ele queria oficializar a situação. Dificilmente eu poderia lhe dizer não, uma vez que estava nos sustentando. Eu nunca poderia ter concluído o curso de medicina sem o dinheiro dele. Ela —

fez uma pausa. — Em geral, ele deixa Gabe e a mim em paz. Enterra-se no trabalho, na bebida ou em drogas, ou se envolve com outras mulheres. Gabe e eu somos especialistas em lidar com ele. Nossas interações são neutras e, às vezes, agradáveis. Ele é generoso e sabe ser encantador quando quer alguma coisa. Dou-lhe o que quer e fica tudo bem.

— Exceto quando não fica. — Decker apontou para as fotografias. — O que quer exatamente de mim, doutora?

— Concordei em ver Chris, tenente, não em voltar para ele. Pelo menos, não de imediato. Não sei como ele vai aceitar a notícia. Como não posso fugir dele, quero que concorde com uma separação temporária. Não uma separação conjugal, não seria uma boa solução, apenas que concorde em me dar um pouco mais de tempo para ficar sozinha.

— Quanto tempo mais?

— Trinta anos, talvez. Terry sorriu. Na verdade, eu gostaria de me mudar de volta para — — Los Angeles, até o Gabe terminar o ensino médio. Encontrei uma casa para alugar em Beverly Hills. Não só tenho de conseguir que Chris concorde com a separação, como quero que ele pague tudo.

— Como vai fazer isso?

— Você verá. — Ela sorriu. — Ele me treinou, mas eu também o treinei.

— Apesar disso, acha que precisa de proteção.

— Quando se está lidando com um animal selvagem, tudo pode acontecer. É bom tomar precauções.

— Há muitos homens mais jovens, mais fortes que eu, caras que provavelmente a protegeriam muito melhor.

— Ah, por favor! Chris poderia acabar com qualquer um deles. Ele fica mais... cuidadoso perto de você. Ele o respeita.

— Ele me deu um tiro.

— Se quisesse matá-lo, ele o teria feito.

— Sei disso disse Decker. Ele quis provar quem mandava. Expirou. Mais — — — — importante, Chris gosta de atirar em pessoas. Ao atirar em mim, ele matou dois coelhos com uma cajadada só.

Terry baixou os olhos.

— Ele se gabou de que você lhe pediu favores. É verdade?

— Eu lhe peço informação de vez em quando — respondeu Decker com um sorriso. — Uso qualquer fonte que possa me ajudar a chegar a uma solução. Ele fitou o rosto dela: sua pele —

leitosa, os olhos cor de mel e o longo cabelo castanho. Era possível vislumbrar alguns fios brancos, o único sinal de que sua vida fora uma panela de pressão. Ela usava um vestido longo solto, sem mangas algo sedoso com desenhos geométricos cor de laranja, verdes e amarelos. —

Seus pés descalços despontavam sob a bainha.

— Quando ele deverá estar na cidade?

— Eu lhe disse para passar aqui no hotel domingo ao meio-dia. Imaginei que seria uma boa hora para você.

— Onde estará o seu filho quando isso acontecer?

— Ele estará na Universidade da Califórnia, em uma das salas de prática. Gabe tem um celular. Se precisar de mim, ligará. Ele é muito independente. Teve de ser. — Seus olhos estavam longe. Ele é tão bom... O extremo oposto do pai. Dada a criação que teve, poderia ter —

precisado ir para uma clínica de reabilitação pelo menos algumas vezes. Em vez disso, é supermaduro. Isso me preocupa. Há tanta coisa dentro dele que nunca foi dita. Ele realmente merece coisa melhor. Ela levou as mãos à boca e piscou para conter as lágrimas. Muito — — obrigada por me dar a mão.

— Certifique-se de que posso fazer alguma coisa antes de me agradecer. Decker consultou —

seu relógio. Devia ter chegado em casa meia hora antes. — Certo, Terry, virei no domingo, mas você tem de fazer as coisas à minha maneira. Tenho de pensar em um plano, como quero que esse encontro ocorra. Antes de mais nada, você tem de esperar no quarto até que eu tenha revistado o Chris. Depois você pode sair.

— Tudo bem.

— Além disso, tem de instruir Gabe a não voltar para casa até que você lhe tenha dado um sinal de que não há mais perigo. Não quero que ele apareça no meio de uma situação difícil.

— Parece razoável.

A sala ficou em silêncio por alguns momentos. Em seguida, Terry levantou-se.

— Muito obrigada, tenente. Espero que o pagamento esteja OK.

— Está mais do que OK. É muito generoso.

— Uma coisa sobre Chris... Ele é muito expansivo. Se eu oferecesse menos a você, ele ficaria insultado.

 

— Ouça, se você não quer que eu faça isso, não farei — disse Decker.

— Claro que não quero que você faça isso respondeu Rina. Ele atirou em você, pelo — — amor de Deus!

— Então vou ligar para ela e dizer não.

— Um pouco tarde para isso, não acha? Rina levantou-se da mesa de jantar e começou a —

tirar a louça: dois pratos e dois copos. Hannah raramente comia com eles. Ela iria iniciar a faculdade em Israel no outono e, a três meses de terminar o ensino médio, já tinha praticamente ido embora.

Decker acompanhou a mulher até a cozinha.

— Diga-me: o que você quer? — Quando Rina abriu a torneira, ele disse: — Eu lavo a louça.

— Não, eu lavo.

— Melhor ainda, por que não usa a máquina de lavar louça?

— Para dois pratos?

Contando todos os copos, utensílios e panelas, era muito mais do que isso, mas ele não discutiu.

— Eu deveria ter consultado você antes de concordar. Desculpe-me.

— Não estou interessada em desculpas. Estou preocupada com a sua segurança. Ele é um pistoleiro, Peter.

— Ele não vai me matar.

— Você não me diz sempre que as situações domésticas são as mais perigosas porque as emoções ficam exacerbadas?

— São mesmo, se a pessoa não estiver preparada.

— Não acha que sua presença vai agravar o estado das coisas?

— É possível, mas se ela não tiver ninguém por perto, pode ser pior.

— Então deixe que ela contrate outra pessoa. Por que tem de ser você?

— Ela acha que eu tenho mais chances de desarmar o temperamento de Chris.

— “Desarmar” é a palavra certa — disse Rina. — O homem é uma bomba! — Ela sacudiu a cabeça e abriu a torneira. Silenciosamente, entregou a Decker o primeiro prato.

— Obrigado pelo brunch. O salmão estava realmente uma delícia.

— Todo homem merece uma última refeição.

— Isso não tem graça.

Rina passou-lhe outro prato.

— Se alguma coisa acontecer com você, nunca vou perdoá-lo.

— Entendido.

— Não me importo com o que aconteça com ela. Tenho certeza de que é uma boa mulher, mas se meteu nessa confusão. — Rina sentiu sua raiva aumentando. — Por que você tem que tirá-la disso? O pedido de ajuda que ela está fazendo a você é chutzpadik, é impertinente.

— É como se ela estivesse gravada em mim. Decker deixou o prato de lado e pôs as mãos —

nos ombros da mulher. As pontas de seu cabelo preto roçavam nos ombros, dando-lhe ao rosto uma aparência jovial. Rina era tudo, menos isso. Intensa, focada, objetiva: esses eram os adjetivos apropriados. Vou ligar para ela e dizer não. —

— Você não pode fazer isso agora, Peter. Ele deve aparecer lá dentro de umas duas horas. Além disso, se desse para trás, você pareceria um covarde aos olhos de Chris, e essa é pior coisa que pode fazer. Você não tem saída.

Ela ficou nas pontas dos pés e beijou-lhe o nariz. Ele era alto e grande, mas Chris também.

— Acho que eu deveria ir com você.

— Nem pensar. Eu preferiria cair fora.

— Ele gosta de mim.

— E é precisamente por isso que ficaria tentado a me dar um tiro. Ele tem uma queda por você.

— Ele não tem uma queda por mim...

— É aí que você se engana.

— Bem, então pelo menos deixe-me ir de carro com você para a cidade. Pode me deixar na casa dos meus pais.

— Posso fazer isso. Decker olhou para o relógio da cozinha. Deixe a bagunça. Eu cuido — — disso quando voltar.

— Você está saindo agora?

— Quero preparar o lugar antes que ele chegue.

— Certo. Vou pegar minha bolsa. Ligue para mim quando tiver terminado e tudo estiver bem.

— Farei isso. Prometo.

— Sim, sim desdenhou Rina. O casamento não consiste na promessa de amar, honrar e — —

obedecer?

— Algo parecido disse Decker. E se devo me gabar, eu diria que tenho cumprido meus — —

votos muito bem.

— Tem cumprido muito bem os dois primeiros — admitiu Rina. — É o terceiro que parece derrubar você.