Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 39 de 50

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Carrasco

Capítulo 39

 

A CASA DE DECKER ERA MUITO MENOR que a casa de Gabe em Nova York, e com todo mundo entrando e saindo, o espaço ficara lotado.

Os irmãos tinham chamado um bando de seus velhos amigos, e horas depois, rapazes ocupavam cada centímetro de espaço disponível. O aperto e o barulho o deixavam nervoso. Quando tentou se refugiar na cozinha, ela lhe pareceu uma confusão de panelas e caçarolas, embora os cheiros das comidas fossem maravilhosos. Rina usava um avental, a testa úmida de suor. Por educação, Gabe perguntou se podia ajudar. Ficou aliviado quando ela recusou a ajuda.

— Nesse caso, talvez eu saia para uma caminhada.

— Está mesmo uma loucura por aqui. Eu mesma não estou mais acostumada com isso. — Rina entregou-lhe um bloco de anotações e um lápis. — Anote o número do seu celular, por via das dúvidas. E coloque o número do meu celular no seu telefone. Você deve tê-lo, no caso de uma emergência.

— Farei isso, embora ache que vou ficar bem.

— E se seu assaltante voltar para se vingar?

Gabe tirou o iPod do bolso e sorriu.

— Ainda tenho mão direita. Quer que eu compre alguma coisa para você quando estiver na rua?

— Não, não preciso de nada. Rina despenteou-lhe o cabelo. Não se perca em sua música. — —

— Na verdade, essa parece ser uma coisa perfeita em que se perder.

Ele deixou o rebuliço e não tinha andado por mais de dez minutos quando sentiu o telefone vibrar contra sua perna. Puxou o telefone, olhou para a tela e viu que o número era restrito. Ele sabia que a linha fixa dos Decker aparecia como não identificada. Provavelmente era Rina querendo ver se estava tudo bem. Pensou em deixar tocar, mas ela provavelmente ficaria ligando até que ele atendesse. Ele tirou do bolso seu fone de ouvido, tocou no botão verde para atender e disse:

— Oi, ainda estou vivo.

— É bom ouvir isso. O que aconteceu com sua mão?

A voz grave na outra ponta não era a de Rina.

— Chris? Gabe começou a tremer. Onde você está? — —

— Responda à pergunta. Que aconteceu com sua mão?

— Nada. Estou bem.

— Então por que foi a um cirurgião de mão?

O homem tinha olhos de lince.

— Não é nada, Chris. Nem vale a pena falar sobre isso.

— Fale sobre isso assim mesmo.

— Entrei numa briga. Ficou um pouco dolorida. Estava tudo bem, mas Rina... a sra. Decker insistiu que eu fosse ao médico. Como soube disso? Onde você está?

— Você entrou numa briga? — Silêncio na linha. — Você é a pessoa menos agressiva que eu conheço. Que merda aconteceu?

— Alguém tentou agarrar minha pasta. Eu me defendi.

— Por que cargas d’água fez isso?

— Porque eu tinha todas as coisas que você me deu dentro dela.

— Gabriel, toda aquela merda é substituível. Suas mãos não são. Onde você está com a porra da sua cabeça?

— Bem, eu não sabia até que ponto as coisas eram substituíveis, sendo que tem sido difícil entrar em contato com você ultimamente e você fica muito irritado quando eu o incomodo.

— Que eu fique irritado é melhor do que arruinar sua vida. Não faça besteira com suas mãos, tudo bem?

— Não fiz de propósito. Onde você está?

— Tenho de ir.

— Decker acha que você é inocente.

Donatti deu uma risada sem alegria.

— Ele está enganando você. Quer me ferrar.

— Talvez. Ele quer que você venha aqui e passe pelo detector de mentiras.

— Nem fodendo.

— Acha que isso vai inocentá-lo. Disse que você passaria no teste mesmo que tivesse matado a mamãe.

Dessa vez a risada de Donatti foi genuína.

— Ele está certo quanto a isso. Diga para ele se foder.

— Que acha de eu dizer que você não está interessado? Ele vai saber deste telefonema. Verifica meus registros telefônicos. O que quer que eu diga a ele?

— O que você quiser.

— O que está acontecendo com a mamãe?

— Pergunte ao seu camarada Decker. Ele andou seguindo minhas pegadas. Que mais ele anda lhe dizendo?

— Preciso pensar... — Nota para si mesmo: finja refletir. — Ele soube que você estava na cidade na terça-feira. Disse que vocês estão ambos na mesma trilha, só que ele está alguns passos atrás de você.

Silêncio do outro lado.

— Continue.

— Decker acha que talvez tenha encontrado o carro da mamãe. Disse que você esteve procurando por ele no mesmo lugar em que esteve.

— E?

— O carro que ele encontrou não estava registrado no nome da mamãe. Portanto, talvez não fosse o carro dela. Ele está investigando isso. Você encontrou a mamãe?

— Não, Gabriel, não encontrei. O que mais ele disse sobre o carro?

Observação para si mesmo: tente não parecer ensaiado.

— Disse que o carro pertencia a um sujeito indiano. Ele me disse o nome, mas esqueci.

— Atik Jains.

— Sim, é isso.

— O nome soa familiar?

— Não conheço o cara. E você?

— Não. Donatti fez uma pausa. Então você nunca viu sua mãe com um indiano? Você — —

estava com ela muito mais do que eu.

Aqui estava a parte em que ele realmente precisava soar convincente.

— Eu não a via tanto assim. Estava na escola ou trancado praticando. A única razão que tínhamos para nos encontrar era o fato de minhas aulas serem na cidade.

— Interessante, Gabe, mas você não respondeu à pergunta. Você a viu algum dia com um indiano?

— Não me lembro de ver a mamãe com homem algum, muito menos um indiano — ele mentiu. Isto é, claro que a vi falando com homens, mas nada que chamasse atenção como algo —

estranho.

Houve uma longa pausa.

— Certo. Se você descobrir alguma coisa, me fale, certo?

— É claro mentiu Gabe de novo. Você está em Los Angeles? — —

— Não. Vou ligar para você se encontrar sua mãe. — Donatti ficou em silêncio. Por um momento, Gabe pensou que tivesse desligado. Por fim, Chris disse: — Você está bem onde está?

— Eles são realmente muito legais para perfeitos estranhos.

— Quando a poeira baixar, você pode vir morar comigo. Se quiser voltar para Nova York, arranjo uma governanta para você. Pessoalmente, acho que você está melhor onde está.

— Concordo, principalmente porque encontrei um professor.

Uma pausa.

— Quem?

Havia real curiosidade na voz do pai. Ele e Chris só tinham duas coisas em comum: sua mãe e a música. Ambas eram fatores dominantes em suas vidas.

— Nicholas Mark.

Novamente Donatti ficou em silêncio.

— Como você conseguiu isso?

— O médico dele é o cirurgião de mão que me atendeu. Por acaso, ele me ouviu tocar e depois concordou em me aceitar para algumas aulas. Estou na esperança de que minha dedicação o convença a me aceitar em caráter permanente. Vou precisar de alguém com o calibre dele se quiser ter alguma esperança de fazer o Chopin International dentro de cinco anos.

— O que você tocou para ele?

— Fantaisie-Impromptu e “La Campanella”.

— Você tocou “La Campanella” com a mão esquerda machucada?

— Sim. Cometi erros, mas não foi tão ruim, considerando-se que eu estava relaxado. Eu não sabia que estava tocando diante de Nicholas Mark. O principal foi que ele concordou em me dar algumas aulas.

— Talvez você esteja finalmente atingindo a porra do seu potencial. Eu sempre disse a você que se parasse de perder tempo, poderia ser um dos grandes.

— Obrigado pelo elogio... eu acho.

— Não seja arrogante. Uma pausa. Caras como Mark não podem sair barato. Se você — — precisar de mais dinheiro, ligue para uma de minhas casas e porei mais grana em suas contas. Por melhor que seja bater papo com você, Gabriel, o dever me chama. Tenho de ir.

Mas Gabe não estava pronto para desligar.

— Você não teme que esta ligação esteja sendo rastreada?

— Eles rastreiam ligações de celular por torres de retransmissão. E as torres podem ser embaralhadas se você tiver o equipamento certo.

— Se você encontrar a mamãe, por favor não a machuque.

— Não vou machucá-la. Estou farto disso. — Dito mais para si mesmo que para Gabe. — Estou puto, mas não deixo de ter discernimento. Sou uma pessoa com quem é impossível viver. E se ela precisa se livrar de um sentimento, posso lidar com isso. Quero encontrá-la principalmente porque eu a amo. Mas também todos os meus negócios estão no nome dela. Tenho impostos vindo aí e ela tem de assinar papéis ou estou fodido.

— Por que você não falsifica a assinatura dela?

— Faço isso o tempo todo. Esse não é problema. O problema é que se ela estiver oficialmente desaparecida não morta, apenas desaparecida , não pode assinar nada. Isso significa que tudo — — que ela possui está num limbo até que haja uma solução legal. Eu preferiria que ela estivesse viva. Mas seria melhor que estivesse morta que desaparecida. Se estivesse morta, você seria o dono de tudo. Eu poderia lidar com isso. Se precisar de alguma coisa, ligue para uma de minhas casas em Elko, está bem?

— O que você quer dizer com eu seria do dono de tudo?

— Você é o herdeiro legal dela, não eu.

— Mas não é meu, é seu.

— Mas legalmente seria seu.

— Então eu teria de assinar alguma coisa para transferir isso para você?

— Gabe, não posso possuir bordéis e cassinos. Sou um criminoso.

— Pensei que tinha sido perdoado.

— Fui solto da prisão, mas ainda tenho uma ficha. Não estou preocupado com o fato de ter meus bens em seu nome. Você não vai me roubar. Isso seria realmente estúpido. Se precisar de dinheiro, é a única coisa que posso lhe dar. Cuide-se. E fique longe de brigas. Uma pausa. ——

Não posso acreditar que você enfrentou um assaltante. Isso é tão diferente de você.

— Talvez eu tenha mais Whitman em mim do que qualquer um de vocês dois pensava.

— Talvez. — Chris ficou em silêncio. — Então talvez você seja realmente meu filho.

Gabe riu.

— Você tem dúvidas?

— Você foi o único descuido meu que levou a um acidente, e fui descuidado a minha vida toda.

— Obrigado por relegar minha existência a um acaso.

— Pare de ser tão sensível. Eu sustento você, não sustento?

— Faça um teste de paternidade, Chris. Estou disposto.

— Você pode estar, mas eu não. Uma pausa. Você tem parentes de sangue, Gabe. Tem — — uma mãe, uma tia e um avô. Você tem um pai... seja ele quem for.

— Você sabe que está sendo ridículo...

— Quem sabe? Donatti desconversou. Estou apostando que no futuro sua mãe vai — — conceber uma criança de outra pessoa e você vai ter uma irmã ou um irmão. Mais ainda, diferentemente de mim, você provavelmente terá seus próprios filhos.

— Você sabe que normalmente sou chamado de seu filho...

— Eu? Eu não tenho ninguém. Não tenho mãe. Não tenho pai. Não tenho irmãos nem irmãs nem avós. Meus pais eram ambos filhos únicos, por isso não tenho tias, tios, primos. Não tenho nenhum parente de sangue, exceto você. Se eu descobrisse que você não era meu, que sua mãe me enganou e fodeu com algum outro cara enquanto eu estava na cadeia, eu diria adiós e enfiaria um revólver na boca. Para mim, é melhor morrer que viver a vida como uma espécie extinta.

 

* * *

 

Marge bateu na esquadria da porta aberta e entrou na sala de Decker.

— Pelo que os vendedores dizem, é um Honda Civic 2004, o mesmo carro que Garth dirige.

Decker apontou para a cadeira em frente à sua escrivaninha.

— Já emitimos um alerta para o carro dele na Califórnia. Ligue para a Metropolitana de Las Vegas e peça ajuda. Diga a eles que poderia fazer parte de uma cena de crime.

— Já foi feito.

— Eles cooperaram?

— Razoavelmente. Acho que o detetive Silver nos levaria mais a sério se fôssemos lá pessoalmente. Falei com Oliver. Gostaríamos de dirigir até lá e dar uma procurada durante o fim de semana.

— Por mim, tudo bem. Eu iria com vocês, mas toda a minha família está na cidade e tenho de ir ao funeral de Adrianna Blanc amanhã.

— Pete, se você quiser, podemos sair mais tarde e posso ir ao funeral. Sei como você se sente com relação a trabalhar no Shabbos. E com que frequência você tem todos os seus filhos reunidos?

— Obrigado pela oferta, mas tenho de ir. Se eu não aparecer, Kathy Blanc ficará zangada comigo, e ela já está zangada o suficiente. É às onze. Terei tempo de sobra com minha família à tarde. Além disso, tenho essa centelha irracional de esperança de que talvez Garth ou Mandy apareçam.

— As ilusões fazem a vida valer a pena.

— Posso conseguir dinheiro para passagens de avião para Las Vegas, se vocês não quiserem dirigir.

— Obrigada, mas ambos concluímos que dirigir irá não só ser menos complicado como provavelmente demandará menos tempo. Além disso, não precisaremos alugar um carro. Vamos guardar nossos recibos de gasolina e hotel para reembolso.

— Bastante justo. Onde está Scott?

— Ainda está no St. Timothy, tentando rastrear alguém que possa ter visto Mandy ou Garth na plataforma de veículos de emergência. Ele conversou com alguns dos técnicos de emergência médica que estavam de serviço naquela segunda-feira. Os rapazes e moças com quem falou disseram que estavam ocupados demais concentrando-se no que faziam para notar algumas pessoas errantes.

— É bom saber que esses técnicos levam seu trabalho a sério.

— Bom para a sociedade, ruim para nós. Marge esticou-se. Vou fazer aquela ligação para — — Lonnie Silver, da Metropolitana de Las Vegas. Além disso, tenho alguma informação sobre a Beretta que você me deu ontem. Quando Decker pareceu desconcertado, ela disse: Aquela — — arma do assalto de Hannah.

— Ah, certo. Roubada, é claro.

— É claro. Dois anos atrás. Ela pertencia a... — Ela verificou suas anotações. — Dr. Ray Olson, da Pacific Palisades. Estamos submetendo-a a exames de balística. Vou informá-lo se chegarmos a alguma coisa.

— Seria bom se algo positivo resultasse disso.

— Como Hannah está passando?

— Ela parece bem. Ele sacudiu a cabeça. Que coisa terrível passar por aquilo. Eu devia — — ter sido mais compreensivo com ela.

— Por que você não leva algumas flores para ela? Isso sempre agrada a todos. Há um florista há poucos quarteirões daqui. Vou escolher alguma coisa bonita, como girassóis.

— O que eu faria sem você?

— Nem pense nisso. — Marge riu. — A propósito, Chuck Tinsley ligou. Quer as joias de volta.

As células do cérebro de Decker finalmente faiscaram.

— Marge, onde você encontrou as joias?

— Onde?

— Sim, onde no apartamento dele. Estavam à vista?

— Acho que foi na gaveta de cuecas.

— Num saco ou o quê?

Marge pensou.

— Sim, estava num saco de papelão.

— E você as especificou?

— É claro.

— E calçou luvas quando as examinou?

— Sem dúvida. Não queria estragar nenhum DNA se alguma das peças fosse de Adrianna.

Decker assentiu com a cabeça.

— Diga a Tinsley que perdemos as peças, mas temos uma lista dos itens. Se as coisas estiverem permanentemente perdidas, nós as substituiremos por seu valor em dinheiro. E ao preço atual do ouro, ele não deve se queixar.

— As peças estão perdidas?

Enfiando a mão na gaveta de sua escrivaninha, ele tirou saco de papel de evidências com as joias.

— Veja por você mesma.

— Que está acontecendo, Pete?

— Quando a mãe de Tinsley morreu?

— Não faço ideia.

— Por que um sujeito como Tinsley haveria de guardar as joias de sua mãe? Algumas dessas peças parecem valiosas. Há um grande bracelete de ouro cravejado com rubis e há um colar com pingente... um R feito de diamantes. Isso poderia render uma grana. Tinsley lhe parece ser do tipo sentimental?

— Acha que é um ladrão?

— Alguma coisa não está batendo.

— Vou mandar Wanda fazer um cotejo com assaltos. Vou descobrir também quando a mãe de Tinsley morreu.

— Boa ideia. E quando estiver fazendo isso, descubra o nome da mamãe Tinsley.