Carrasco
Capítulo 38
AS JOIAS RETIRADAS DO APARTAMENTO DE Tinsley estavam dispostas de maneira ordenada sobre um plástico limpo na escrivaninha de Decker. Ele explicou para Kathy Blanc em que ponto estavam na investigação e qual era o objetivo da identificação. Ela ficou lívida quando ele chegou à parte sobre a soltura de Tinsley.
— Você deixou esse monstro sair daqui como um homem livre?
— Ele não está na prisão, mas está sob vigilância — disse Decker. — Podemos pegá-lo a qualquer momento depois que tivermos provas contra ele.
— Uma mulher do bar identificando-o como o homem com quem minha filha conversou não é suficiente? O cartão de visitas dele no casaco da minha filha não é suficiente? Encontrar minha filha morta no local de trabalho dele não é suficiente? Do que vocês precisam para prender alguém, seus palhaços?
As perguntas eram retóricas, mas Decker as respondeu como se fossem sinceras.
— Se tivéssemos encontrado o cartão de visitas de Tinsley na bolsa dela, eu poderia tê-lo mantido preso. A verdade é que ele nos falou sobre o cartão. De outra maneira, não teríamos sabido de sua existência.
Kathy estava penteada e com joias, vestindo calça cinza e camiseta vermelha de algodão. Sua cútis combinava com o tom da blusa.
— Ele jogou uma isca e vocês engoliram.
— Estamos de olho nele. Tenho homens na cola dele. Infelizmente, preciso de evidências sólidas. Conversei com a promotora pública esta manhã. Ela não vai levar o caso a júri popular a menos que tenhamos mais.
— Então ela é uma idiota.
— Sra. Blanc, o que tenho com relação a Tinsley é facilmente explicado por sua história. Além disso, Garth Hammerling e Mandy Kowalski continuam desaparecidos. Por que Garth não deu as caras, ninguém sabe, mas isso certamente é ruim para ele.
— Você me disse que Garth estava a oitocentos quilômetros de distância quando a coisa aconteceu.
— Não, eu disse que Garth estava a oitocentos quilômetros de distância quando Adrianna foi trabalhar no St. Timothy domingo à noite. Sabemos que ele voltou para Los Angeles. O que não sabemos é se viu Adrianna ou não.
— Então por que você não consegue encontrá-lo? Não é o seu trabalho?
— Sim, é o nosso trabalho. E estamos fazendo tudo que podemos para encontrar tanto ele quanto Mandy Kowalski. Se ele estiver com Mandy, isso pode ser preocupante.
Kathy cruzou os braços sobre o peito.
— Nunca confiei nessa menina.
— É interessante que diga isso. Ela mentiu para a polícia pelo menos uma vez. Posso lhe perguntar por que nunca confiou nela?
— Não sei. — Ela baixou a voz. — Ela parecia simpática, mas era muito séria. — Seus olhos encheram-se de lágrimas. — Se ela tivesse sido amiga de Bea, eu poderia ter tido outra impressão. Mas Adrianna não tinha amigos como Mandy. Ela gostava que seus amigos fossem como ela... despreocupados. Eu sentia também que ela... reprovava Adrianna.
— Nesse caso, por que acha que se tornaram amigas?
— Isto vai soar terrível... e não é baseado em nada...
— Continue disse Decker. Gosto de conjecturas. — —
— Eu tinha impressão de que Mandy gostava de Adrianna porque podia se sentir superior a ela, instruindo-a, por exemplo, ao longo do curso de enfermagem. E ela a ajudou. Mas depois que Adrianna parou de ser... dependente de Mandy, sinto que Mandy ficou ressentida.
— Foi você que me contou que Mandy apresentou Garth a Adrianna?
— Acho que sim. — Kathy fez uma pausa. — Talvez fosse por isso que Mandy era ressentida. Talvez Mandy gostasse de Garth. De qualquer maneira, Mandy certamente não era como os outros amigos de Adrianna.
— Não como Crystal Larabee, por exemplo?
— Pobre Crystal. Lágrimas correram pelo rosto de Kathy. A mãe dela vai chegar esta — — tarde. Convidei Pandy a se hospedar conosco até que ambas as meninas... soluços agora — —
sejam enterradas.
— Foi muita gentileza sua.
Kathy enxugou os olhos com um lenço de papel.
— Você vai ao funeral?
— Quando é?
— Amanhã, às onze.
A data não apenas era no sabá, mas seria o primeiro fim de semana em anos em que toda a sua família estaria reunida.
— É claro ele respondeu. —
— Seria gentil. Levou o lenço aos olhos outra vez. Isso pouco fez para estancar o fluxo. —
Seus olhos focalizaram as peças de ouro. O que eu deveria fazer exatamente? —
— Encontramos estas peças no apartamento de Chuck Tinsley. Ele afirma que as peças pertenciam à sua falecida mãe. Gostaria que você me dissesse se algum desses itens poderia ter pertencido a Adrianna. Se precisar tocar em alguma coisa, eu lhe darei luvas de borracha.
Ela estudou as peças com as mãos no colo.
— São todas de ouro amarelo. Adrianna nunca usava ouro amarelo. Achava que isso era coisa de senhora idosa.
Decker notou a corrente de ouro amarelo no pescoço de Kathy.
— Então... até onde você sabe, nenhum desses itens é de Adrianna.
— Até onde sei, isso está correto. Não conheço todas as joias dela, mas essas peças não são do seu estilo. Talvez do meu, mas não do dela.
— Isso ajuda muito. Muito obrigado por ter vindo. Ele estudou as joias por alguns —
momentos mais do que deveria. Alguma coisa estava borbulhando em seu cérebro.
— Eu teria ajudado seu processo contra Tinsley se tivesse identificado uma das peças como sendo de Adrianna?
— É claro. Teria ajudado o processo imensamente.
— E você o teria prendido?
— Provavelmente.
— Eu deveria ter mentido. Deveria ter escolhido um item qualquer e dito que ele pertencia a Adrianna. A expressão dela estava furiosa. Estúpida que fui. Tinsley deveria estar atrás das — — grades.
— Somente se tiver feito isso. — Decker parou de recolher as joias e olhou para ela. — Kathy, você tem de acreditar em mim quanto a isso. Você não quer ser responsável por colocar o homem errado na cadeia.
— Não sei, tenente. — Ela estalou os lábios. — Do modo como me sinto agora, eu preferiria ter o homem errado a não ter homem nenhum.
De volta ao Controle de Missão, oficialmente conhecido como Segurança Central para o St. Timothy, Peter, o técnico, estava mudo como sempre. Mas seus olhos claros piscaram quando ele fez um aceno de cabeça para Marge e Oliver, indicando que agora eram camaradas. Ivan Povich sentou os detetives diante de um monitor apagado e serviu café de uma garrafa de vidro em quatro copos de isopor.
— É fresco — disse Povich. — Peter acaba de fazer.
— Está bom disse Marge, tomando um gole. Há alguma coisa que Peter não faça bem? — —
O técnico silencioso lhe prestou continência.
— É Kona disse Povich. Menos cafeína, menos ácido. Peter, você pode trazer a fita — —
original do estacionamento de veículos de emergência... aquele antes do realce.
Peter começou a examinar as fitas e introduziu uma no aparelho.
— Como foi isso? perguntou Marge. Algum dos traços é reconhecível? — —
— Você verá tudo por si mesma. — Instantes depois, imagens em preto e branco floresceram no monitor. — Este é o original. — Povich apontou para a figura feminina isolada à espera na plataforma de embarque. Com cada zoom, ela crescia em tamanho. — Tudo perde a nitidez à medida que a imagem fica maior, não é? Agora olhem. Peter, insira a fita realçada.
Quando as novas imagens chegaram à tela, Marge ficou encantada. Podia ver as diferenças: ângulos mais nítidos, contornos mais claros.
— Nossa. Isso faz uma diferença.
Povich avançou a fita realçada até chegar ao fotograma de interesse. Mais uma vez, todos se concentraram na figura no canto da plataforma de embarque. Ele aumentou o zoom até que o rosto cinza, granuloso, chegasse ao tamanho máximo.
Marge olhou fixamente para a tela.
— Parece Mandy Kowalski para mim. Virou-se para Oliver. O que você acha? — —
— Eu não apostaria minha vida nisso. Oliver voltou a se sentar em sua cadeira. Mas — — apostaria meu dinheiro.
— Qual é a hora na fita?
— São 11h14 — disse Povich.
— E Tinsley encontrou o corpo à 13h45?
Marge assentiu com a cabeça.
— Tempo de sobra para enforcar o corpo na obra. O St. Timothy fica a um pulo de lá. Ivan, pode recuar a fita?
— Recuando até quando?
— Alguns minutos? Marge explicou: Estamos interessados em Mandy porque pensamos — — que ela pode ter tido alguma coisa a ver com o assassinato de Adrianna e ter usado a plataforma para embarcar o corpo.
— Então estão procurando um saco para cadáver?
— Saco para cadáver, saco de lixo, uma caixa grande... alguma coisa. — Marge deu de ombros. — Se Mandy ou Garth estavam descartando um corpo secretamente, ele ou ela teriam provavelmente sido espertos o bastante para evitar as câmeras de segurança. Suponho que estamos procurando alguma coisa menos óbvia... como um carro ou uma pessoa que não se encaixe na cena.
— Talvez seja melhor ver isso na delegacia — disse Povich.
— Quando você pode levar a fita lá?
— Podem ficar com esta. É uma cópia. Peter a fez para vocês.
— Você fez uma cópia para nós? disse Marge, virando-se para o mudo. —
— Fez — disse Povich. — Mas não digam ao hospital. — Ele retirou a fita. — Aqui está. Boa sorte.
— Muito obrigada, cavalheiros. — Marge enfiou a fita na sua enorme bolsa. — Muito obrigada pela ajuda e pela cooperação.
— Sim, obrigado — disse Oliver.
Os dois detetives levantaram-se e apertaram as mãos dos que ficavam.
Ao saírem, Marge deu uma firme palmada nas costas de Peter sua maneira silenciosa de —
dizer “bom trabalho”.
— Exatamente... aqui! Marge apontou para a traseira de um carro com o porta-malas —
aberto. Fique de olho nisto no canto do monitor. —
— Agora veja o que acontece disse Oliver. —
Decker assistiu à fita quadro por quadro enquanto um homem de uniforme cinza ora se tornava visível, ora desaparecia. Em certa altura, ele estava segurando um saco de lixo industrial preto, que levantou com esforço para colocar no porta-malas. Depois fechou a porta e saiu — —
do campo de visão. Instantes depois, o carro partiu.
Marge acendeu as luzes e removeu a fita. Hoje ela vestia um suéter azul-marinho e calça cor de canela.
— Enquanto esse sujeito estava carregando o saco de cá para lá e levantando-o para enfiar no porta-malas, temos Mandy aparecendo às 11h14. Depois vemos o carro partindo cerca de dois minutos mais tarde. Infelizmente, é impossível ver a placa. Temos uma boa foto do porta-malas. Vou visitar alguns vendedores de carros e ver se alguém consegue identificar a marca e o modelo.
— O sujeito de uniforme parece ser mais ou menos do mesmo tamanho e peso que Garth — disse Oliver —, mas isso é o mais perto que conseguimos chegar de identificá-lo.
— Pegue algumas fotos de Mandy e Garth e volte às pessoas que estavam trabalhando na plataforma de emergência na segunda-feira. Pergunte-lhes se se lembram de terem visto um deles ou ambos. Decker esfregou as têmporas. Mais alguma coisa? — —
— Não neste momento disse Marge. Você está bem, Pete? — —
— Sim, estou bem... Ele correu os dedos pelo cabelo. Talvez eu esteja apenas chegando — — aos sessenta. De todo modo, mandei Wanda Bontemps até a Ranger’s Deli para ver se consegue encontrar alguém que poderia corroborar a história de Chuck Tinsley. Ela encontrou uma garçonete que o conhece. Ela disse que ele sempre almoça lá. Acha que ele estava lá na segunda-feira por volta de meio-dia e meia, mas não pode ter certeza.
— Talvez Tinsley esteja dizendo a verdade. Que alguém encontrou seu cartão de visitas no bolso de Adrianna e armou para incriminá-lo.
— É possível.
— Você não gosta de Tinsley, não é? — disse Oliver.
— Ele liga para avisar que encontrou o corpo e tinha se encontrado com ela pela primeira vez na noite anterior. E não nos diz nada sobre isso. Não, não gosto dele. Decker alisou o bigode. —
— Há alguma coisa errada com esse sujeito. Se ele estivesse atrás das grades, eu me sentiria melhor. Mas ele não está sob custódia, e falta alguma coisa que eu não estou conseguindo ver.
— Ela virá a você.
— Sim, virá. Esperemos apenas que não venha tarde demais.