Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 6 de 50

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Carrasco

Capítulo 6

 

 

QUANDO DECKER FEZ UMA PAUSA PARA o almoço, tinha feito telefonemas e caminhado o suficiente para se certificar de que não tinha havido nenhuma atividade no celular de Terry McLaughlin desde as quatro horas da tarde do dia anterior. Seus principais cartões de crédito não tinham sido usados, a não ser para débitos diários efetuados pelo hotel, e mesmo esses tinham sido feitos mais cedo no dia. Seu nome não tinha aparecido em nenhuma lista de passageiros da American ou da United, em voos domésticos ou internacionais, mas Decker certamente não tinha os meios e recursos para verificar todas as companhias aéreas e todos os aeroportos locais. Se a mulher quisesse fugir, poderia ter feito isso de mil maneiras. Mais especificamente, seu carro não havia sido localizado. Só lhe restava esperar notícias e desejar que elas não fossem ruins.

Donatti também não estava atendendo seu celular. Segundo Gabe, ele sempre trocava de telefone e muitas vezes usava aparelhos descartáveis. Era possível que o número que fora dado a Decker não fosse o do celular que estava usando atualmente. O tenente conseguira descobrir que Donatti chegara ao Aeroporto Internacional de Los Angeles sábado de manhã em um voo da Virgin America Airlines, um dia antes de seu encontro com sua mulher, que estava vivendo separada dele. Não havia registros de que tivesse alugado algum carro. Para descobrir onde Donatti se hospedara antes de se encontrar com Terry, Decker começou a telefonar para hotéis, começando pelo lado oeste. Ligou para o Ritz-Carlton, em Marina, avançando lentamente em direção ao leste. Quando estava prestes a ligar para o Century Plaza, alguém bateu à porta de seu escritório.

Ele pousou o telefone.

— Entre.

Vestindo uma camisa cor de trigo, calça marrom e sapatos sem salto com sola de borracha, Marge entrou em seu escritório. Seus olhos castanhos estavam arregalados e as faces, pálidas. Decker ficou alarmado. — Que foi?

— Um mestre de obras acaba de encontrar uma vítima de homicídio em uma construção... uma mulher jovem pendurada nos caibros...

— Meu Deus! Decker sentiu-se nauseado. Pendurada? — —

— Por um cabo... Pelo menos, foi o que me contaram.

— Alguma identificação?

— Até agora não. Os policiais estão na cena, isolando a área.

— Alguém a desprendeu?

— Não. O mestre de obras não tocou nela. Ele ligou para 911 e a polícia chegou cedo o bastante para preservar a cena. A perícia criminal foi comunicada.

Decker consultou seu relógio.

— São duas da tarde. O mestre de obras acaba de descobrir o corpo? Há quanto tempo ele está no canteiro de obras?

— Não sei, Pete.

— Qual é o lugar? — Quando Marge lhe deu o endereço, o coração de Decker disparou. O rosto de Terry com um laço em volta do pescoço surgiu por um instante em seu cérebro. — Isso não fica longe do lugar em que Cheryl Diggs foi assassinada.

— Eu me dei conta disso. É por isso que estou contando isso para você.

Muito tempo antes, quando Chris Donatti, nascido Chris Whitman, estava no último ano do ensino médio, Cheryl Diggs fora sua namorada de adolescência. Na noite da festa de formatura, Donatti tinha sido acusado de assassiná-la e logo depois foi para a cadeia por causa da ideia nobre, mas equivocada, de que estava poupando Terry McLaughlin da experiência penosa de testemunhar no julgamento. Na realidade, Chris era inocente, provavelmente o único crime de que foi inocentado algum dia.

— Estou indo para lá com Oliver disse Marge. Devo mantê-lo atualizado ou você quer — — ir?

— Vou também. Ele pegou o paletó, o telefone celular e a câmera. Vou em um carro — — separado e encontro vocês dois lá.

— Alguma coisa que eu deveria procurar?

— Você sabe qual é a aparência de Terry McLaughlin?

— A última vez que a vi, tinha 16 anos. Uma menina bonita, pelo que me lembro.

— Ela amadureceu, mas continua bonita — Decker bateu o punho contra a palma da mão. — É claro que, se for ela, não estará parecendo nada bonita.

 

A criminalidade estava em toda parte, e embora a comunidade policiada pela subdelegacia de Devonshire tivesse sua cota de assaltos, roubos e furtos, ela não era considerada uma área de risco no departamento de homicídios. Assim, quando um assassinato ocorria, destacava-se como uma anomalia. Enforcamentos eram tão raros quanto neve em Los Angeles.

Decker dirigiu pelo bulevar principal, dando voltas até chegar a uma das áreas residenciais mais ricas. Era um condomínio planejado, e as casas tinham dois pavimentos e três garagens em terrenos de dois mil metros quadrados. Podia-se escolher entre alguns estilos arquitetônicos: espanhol, Tudor, colonial, italiano e moderno, o qual era basicamente uma enorme caixa com enormes janelas. Havia várias casas em construção.

No endereço indicado, um grupo considerável de curiosos se movia, espichando os pescoços para ver o que estava acontecendo. Uma rádio já havia chegado e, sem dúvida, várias outras estavam a caminho. Decker estacionou a cerca de meia quadra de distância da balbúrdia e caminhou até o local da ação. Mostrou seu distintivo para um dos policiais e abaixou-se sob a fita amarela que demarcava a cena do crime.

A estrutura da casa de dois pavimentos estava pronta: os cômodos tinham sido delineados, as janelas estavam colocadas, o telhado, instalado. A multidão estava reunida nos fundos, principalmente policiais uniformizados, mas Decker podia ver também flashes espocando a pequenos intervalos. Marge, que fora de carro com seu companheiro, Scott Oliver, chegara antes de Decker ao local. Scott exibia a elegância costumeira, usando uma jaqueta pied-de-poule, calça preta, uma gravata jacquard de seda preta e camisa branca engomada. Quando Decker chegou mais perto do cadáver, o ar tornou-se fétido, com odor de excreção. Um funil de borrachudos, mosquitos e outros insetos alados girava em torno do espaço. Oliver estava enxotando os bichos.

— Sumam daqui, bichos. Vão comer carniça.

Do bolso do paletó, Decker tirou um tubo de Vick Vaporub e aplicou o produto nas narinas. Abanou a mão em frente ao rosto para dispersar os insetos enquanto fitava o corpo que pendia dos caibros. O rosto da mulher estava tão descolorido e inchado que ela mal parecia um ser humano. Estava seminua, seu longo cabelo escuro tentando inutilmente lhe emprestar algum pudor. O cabo fora enrolado várias vezes em torno do pescoço, a ponta amarrada em uma das vigas do telhado. As unhas dos pés, pintadas de vermelho, mal roçavam o chão.

— Alguma carteira de identidade? perguntou Decker. —

— Até agora não respondeu Marge. É a Terry? — —

Decker olhou-a por um longo tempo.

— Gostaria de dizer que não, mas sinceramente ela está deformada demais para se determinar. — Ele puxou seu bloco de anotações e começou a fazer alguns esboços. — Que companhia telefônica atende a esta área?

— A American Lifeline atende a maior parte do Valley respondeu Marge. Vou ligar para — — eles e obter uma relação de quem está trabalhando na área.

— Descubra que tipo de cabo utilizam. Peça também para alguém começar a ligar para lojas de produtos eletrônicos e de computadores na área para descobrir que tipo de cabo eles vendem.

— Farei isso disse Oliver. —

— Não, deixe Lee Wang fazer todas as ligações. Você e Marge, comecem a pesquisar a área. Trarei uns dois outros homens para ajudá-los. — Decker continuou a estudar o corpo. — Vocês têm alguma ideia de quem poderia ser esta pessoa?

— Wynona Pratt está ligando para as outras delegacias, verificando se foi notificado o desaparecimento de alguma jovem.

Decker esfregou a testa e virou-se para o fotógrafo, George Stubbs, um homem atarracado e grisalho na casa dos cinquenta.

— Já terminou de fotografá-la?

— Quase.

— Fez closes do pescoço?

— Fiz alguns. Posso fazer mais.

— Faça isso. Tire também vários instantâneos do nó no teto onde o cabo está amarrado.

Marge calçara luvas e estava estudando o corpo, girando em volta dele como se fosse carniça. Por lei, ninguém podia tocar no cadáver até que o perito criminal autorizasse.

— Isto parece um assassinato sem derramamento de sangue. Nenhum buraco de bala, nenhum ferimento produzido por punhalada. Nenhum ferimento defensivo nas mãos dela. As unhas não estão lascadas ou arranhadas; a francesinha parece nova. Ela levantou os olhos. Por acaso — — você notou se Terry tinha as unhas pintadas?

Decker rememorou, tentando se lembrar das mãos de Terry. Notou então os pés da mulher enforcada unhas vermelho-vivo. —

— Quando falou comigo pela primeira vez, a Terry estava descalça e não me lembro de ver suas unhas dos pés pintadas. — Uma pausa. — Ela pode ter pintado mais tarde, depois que saí, mas será isso provável, a menos que tenha feito isso no salão do hotel?

— Vou ligar e perguntar — disse Marge.

Ele olhou fixamente para o rosto. Não é ela. —

— Tem certeza?

— Quase certeza. Ele observou os traços, depois sacudiu a cabeça. Temos alguma — — evidência forense? Sêmen, impressões digitais, pegadas, talvez algumas marcas de pneu na área? Há muita poeira e sujeira, deveríamos ser capazes de extrair alguma coisa do chão.

— Andei recolhendo lixo disse Oliver. —

— Marcando os locais?

Oliver mostrou alguns pequenos cones laranja marcados com números.

— O que você coletou?

— Principalmente invólucros de sanduíche de fast-food e lixo do food truck. A Divisão de Investigação Científica está a caminho, e também uma dupla de investigadores da Crypt.

— Se isto é um canteiro de obras, onde está toda a atividade? perguntou Decker. —

— Nenhuma atividade, porque eles estão esperando que o inspetor da estrutura autorize. A reunião foi marcada para as quatro da tarde. O mestre de obras, Chuck Tinsley, chegou aqui primeiro e estava percorrendo a propriedade para se certificar de que tudo estava em ordem. Ele estava esperando que o empreiteiro e o arquiteto chegassem quando descobriu o corpo. Ligou para 911, depois ligou imediatamente para o empreiteiro, que está a caminho.

— Onde está Tinsley?

Marge apontou para um carro de polícia.

— Está escondido ali dentro. Devo ir buscá-lo?

Decker assentiu, enquanto seu olhar continuava fixo no corpo pendurado. Seus pensamentos vagavam para vários lugares, e nenhum era bom.