Carrasco
Capítulo 19
O QUE HAVIA DE MELHOR EM TOCAR era que essa atividade o absorvia inteiramente. Quando estava tocando, Gabe simplesmente não tinha energia para lidar com mais nada. Tocar o transportava para um outro lugar. Ficava tão concentrado no que estava fazendo, que era capaz de esquecer o mundo. Infelizmente, tinha apenas uma hora de intensa solidão antes que Hannah e os outros entrassem para o ensaio do coral. Da maneira como estavam seus nervos — expostos e explodindo por qualquer coisa —, por certo se beneficiaria muito com uma semana inteira de isolamento — só ele e o sr. Steinway.
Hannah foi a primeira a chegar. Ela se aproximou dele imediatamente.
— Ei disse, e sentou-se no banco do piano ao lado dele. Onde foi que você se meteu? — —
Gabe sentiu sua pele ficar quente.
— Alguém notou meu sumiço?
— Sim, eu notei. Você me deixou preocupada.
— Preocupada? Ele ficou espantado. Por quê? — —
Hannah ficou confusa.
— Depois do que aconteceu com sua mãe, eu achei que você ficaria um pouco cuidadoso.
— Fui só tomar um café. Estou bem. Faça um favor para mim e não se preocupe comigo, certo?
Ela ficou em silêncio.
— Não pretendo ficar no seu pé, Gabe. Só que meu pai está um pouco preocupado com você.
— Por quê? O que ele acha que vai acontecer?
— Provavelmente está um pouco inquieto com o que seu pai poderia fazer.
Mais uma vez, Gabe sentiu seu rosto ficar quente.
— Já disse várias vezes para o seu pai que o meu pai não dá a mínima para mim. Seus dedos —
dançaram para cima e para baixo do teclado. — Olhe, seu pai está pensando como um pai. Meu pai não pensa dessa maneira. A menos que eu tenha alguma coisa que queira, ele não quer saber de mim para nada. Quando eu estava ligado à minha mãe e nós formávamos um único pacote, ele queria minha mãe, por isso tinha que ficar comigo, mas agora minha mãe desapareceu. Então, ele não está nem aí para mim.
— Tenho certeza de que isso não é verdade.
— Tenha certeza de que meu pai está fora da jogada. Ele se virou de volta para o teclado, —
esperando que suas mentiras bem, meias-mentiras fossem convincentes. — —
Quando ele era pequeno, antes que seus pais se casassem, Chris costumava visitá-los em Chicago, onde sua mãe estudava medicina. Ele e Chris sempre passavam um dia juntos. Iam ao parque de manhã, almoçavam num restaurante, depois voltavam para o apartamento, onde Chris o sentava ao piano para uma aula de duas a três horas. Embora não fosse um pianista, Chris era um músico e reconhecia a excelência em qualquer instrumento.
Foi um dos melhores professores que Gabe já tivera.
Depois que seus pais se casaram e eles se mudaram para Nova York, as coisas foram piorando rapidamente e se transformaram em caos. Ninguém conseguiria viver com aquele homem o tempo todo.
— Vou conversar com seu pai disse Gabe a Hannah. E pare de se preocupar comigo. — — Posso cuidar de mim mesmo. Tenho feito isso minha vida inteira.
Mais alguns garotos começaram a entrar.
— Vou ajudar você a armar as cadeiras — disse Gabe, levantando-se.
Hannah pôs a mão no ombro dele.
— Não fique bravo.
— Não estou bravo, estou só... Seu maxilar cerrou-se com tanta força, que seus dentes —
doeram. De vez em quando... a gravidade do que aconteceu simplesmente me atinge, me —
arrasta como uma onda gigantesca... e é de fato muito difícil me manter à tona, porque a água continua vindo, vindo, vindo. E cada vez que você sobe e toma fôlego, há mais uma onda gigantesca para enfrentar. Ele olhou para ela. Tenho tanta raiva dentro de mim. Ele — — — percebeu que estava assustando a menina e forçou um sorriso. Mas depois isso passa e fico —
bem.
Ela deixou sua mão escorregar do ombro dele.
— Você não tem de ficar feliz, Gabe. Você está passando por uma coisa muito ruim.
— Vou ficar bem.
Ela estudou o rosto dele.
— Sabe, é por isso que não devemos julgar as pessoas com base em primeiras impressões. Você é realmente bonito e é realmente talentoso, e todas as meninas na escola não param de me mandar mensagens sobre você. E todos os meninos perguntam sobre você porque parece ser um cara realmente legal com esse seu jeito arrogante.
— Não tenho jeito arrogante.
— Tem, sim.
— Meu pai tem um jeito arrogante disse Gabe, rindo. Eu não. — —
— Sim, você tem.
A voz da sra. Kent interrompeu o debate.
— Decker, você terá tempo de sobra para namorar depois do coral. Agora tenha a bondade de armar as cadeiras.
— Imediatamente. — Hannah pegou uma pilha de cadeiras desdobráveis e começou a armá-las. Para Gabe, ela disse: Não sou uma papa-anjo. Não namoro garotinhos. —
— Eu sei. É disso que gosto em você. Você é muito... como... uma irmã para mim.
— Essa sou eu disse Hannah, com um suspiro. Sou sempre a irmã mais velha de todo — — mundo.
— Não falei nesse sentido.
— Estou só provocando você, Gabe.
— Quero dizer que acho você muito bonita.
— Pode parar agora disse Hannah, abrindo um grande sorriso. —
— Tenho certeza de que todos os meninos têm uma queda por você. Quer dizer, eu tenho uma queda por você.
— É o seu próprio túmulo que você está cavando?
— É só que preciso de uma amiga muito mais do que de uma namorada.
— Entendo. — Ela pôs as mãos nos ombros dele. — Para sua informação, não estou disponível. O nome dele é Rafi. Fomos acampar juntos no verão passado. Ele está no centro de estudos judaicos Yeshiva HaKotel, mas está fazendo Shana Bet, para que possamos ficar juntos em Israel no próximo ano.
— Entendi tudo que você disse, exceto a última frase.
— Não tem importância. Ela significa que no que diz respeito à minha disponibilidade, Whitman, você está sem sorte.
— Bem... então está certo.
— E não se atreva a ficar todo tristonho. Você acabou de me dizer que me considerava uma irmã mais velha.
— É assim mesmo que a considero. E não estou tristonho. E mesmo que estivesse, não seria por sua causa. Só estou triste porque estou numa situação ruim. Por isso, pare de querer ser o motivo da minha tristeza.
— Bem, me desculpe!
Os dois caíram na risada.
A sra. Kent estava com os olhos cravados neles.
— Talvez queiram compartilhar conosco o que estão achando tão engraçado, srta. Decker.
Hannah sufocou mais uma rodada de risos.
— Por que está implicando comigo, sra. Kent? Ele estava rindo tanto quanto eu.
— Você é presidente do coral. Tem de dar o exemplo.
Ela começou a arrumar a última fileira de cadeiras.
— Então eu levo uma repreensão e ele é absolvido?
— Realmente, srta. Decker, o mundo não é um lugar justo.
— A senhora gosta mais dele simplesmente porque uma contralto medíocre é sempre mais fácil de substituir que um acompanhador espetacular.
— Está brincando com fogo, mocinha.
— Eu sei, eu sei — disse Hannah. — A verdade dói, mas não é sua culpa. Entre nós dois, eu escolheria o Gabe também.
Os olhos da sra. Kent se suavizaram.
— Hannah, você é única e totalmente insubstituível. Ela bateu as mãos. Todos tomem — — seus assentos. Srta. Decker, como foi devidamente eleita presidente, poderia nos conduzir numa estimulante execução do hino nacional dos Estados Unidos e do de Israel, “Hatikvah”?
— Será um prazer, sra. Kent disse Hannah, abrindo um sorriso radiante. —
Alex, o atendente do estacionamento sem manobrista, estava na casa dos sessenta, era um homem alto de cabelo branco que estava elegante com sua camisa turquesa, calça branca e sapatos brancos sem cadarço. Ele estava sentado atrás de uma bancada sombreada por uma barraca de praia. Às cinco da tarde, o sol estava baixo e quente. Decker reconheceu-o como o homem que lhe dera um tíquete no domingo. Isso significava que Alex estava de serviço quando Chris chegara e saíra.
Quando Decker lhe mostrou a fotografia de Terry, ele a identificou de imediato.
— Ela é uma mulher realmente simpática. Sempre sorrindo e enfiando alguns dólares no meu bolso cada vez que entrava e saía com seu carro, mesmo sem ter obrigação de fazer isso.
— Qual foi a última vez que a viu? — perguntou Eliza Slaughter.
— A última vez que a vi? — Alex franziu as sobrancelhas. — Aconteceu alguma coisa com a sra. McLaughlin?
— Parece que está desaparecida disse Decker. —
— Desaparecida? Alex fez uma careta. Meu Deus, isso não é bom. — —
— Ela pode ter ido embora por vontade própria disse Decker. É por isso que estamos — — tentando reconstituir seus passos. Quando se lembra de tê-la visto pela última vez?
— Puxa, deve ter sido uns dois dias atrás. Talvez domingo. O atendente estudou o rosto de —
Decker. — Já vi você antes.
— Eu também estive aqui no domingo. Saí por volta das duas e meia.
— Ahã.
— Quando fui embora, a sra. McLaughlin ainda estava no hotel. Você lembra se a viu depois da três da tarde?
— Não, senhor, estava muito ocupado.
— Mas você se lembra do tenente? disse Eliza. —
— Ele é um homem difícil de não se notar.
Decker mostrou-lhe uma foto de Donatti.
— E o que me diz deste homem?
Alex olhou para ela por algum tempo.
— Este sujeito... — O atendente bateu na foto com os dedos. — Ele esteve aqui no domingo. Estava carregando flores. Quem é?
— O marido da sra. McLaughlin.
— Ela é casada?
— Sim disse Eliza. Isso surpreende você? — —
— Sim, um pouco. É que ela parecia tão despreocupada para ser casada.
Quando Decker e Eliza caíram ambos na risada, Alex acrescentou:
— Não falei nesse sentido. Estando casado há 42 anos...
— Tenho um casamento feliz, também disse Decker , mas sei do que você está falando. — —
— Então você se lembra desse cara carregando flores. Você lhe deu um tíquete?
— Dou um tíquete a todos que não são hóspedes por um período longo. Eles têm de validá-lo no hotel ou no restaurante. Do contrário, não podem estacionar aqui.
— Você se lembra a que horas ele chegou?
— O brunch de domingo é entre as onze da manhã e as quatro da tarde. Isto aqui fica muito movimentado. Ele estalou os dedos. Mas vou dizer uma coisa que talvez ajude. Cada vez — —
que alguém chega aqui, anoto o número da placa no tíquete. Assim, no fim do dia, quando entrego os tíquetes, o pessoal da contabilidade pode fazer a correspondência entre as validações e os carros.
— Um número de placa seria útil, porque eu mesmo não me dei ao trabalho de anotá-lo — disse Decker.
— Você sabe por quanto tempo a contabilidade guarda os tíquetes? perguntou Eliza. —
— Não, vocês vão ter que ver com eles.
— A que horas você deixou o trabalho no domingo? — perguntou Decker.
— Eu? Por volta das cinco.
— E você se lembra da sra. McLaughlin entrando no estacionamento para pegar seu carro?
Alex concentrou-se.
— Não posso dizer que sim ou que não. Não quero dizer alguma coisa que poderia atrapalhar vocês depois.
— Está ótimo disse Decker. Vamos ver se podemos conseguir o tíquete do marido dela. — —
Obrigado, Alex, você foi de grande ajuda.
— Gostaria de ter ajudado mais — disse o atendente. — Mas vocês sabem como é, não se pode prestar atenção a tudo.
— Nem se espera que prestem atenção a tudo — disse Decker.
Já ele, por outro lado, era uma porcaria de um tenente. Por que não tinha anotado a placa de Chris?
Uma omissão considerável.
Pensou sobre isso por um momento, tentou recuar no tempo.
Viu o carro indo embora. Então se lembrou. As placas da frente e de trás eram de papel.
— Ei, Eliza.
— Quê?
— O Lexus que Chris estava dirigindo. Ele tinha placas de papel. Portanto, ou ele as trocou ou o carro era novo e alugado.
Enquanto Eliza anotava os nomes das agências locais de aluguel de carros, Decker checou seu celular. Havia uma mensagem urgente de Marge. Ele retornou a ligação, e quando ela atendeu, disse:
— Diga que encontrou Garth Hammerling.
— Ainda não respondeu Marge. Mas acabo de ter notícia de Aaron Otis. Os dois — —
rapazes estarão na cidade dentro de cerca de uma hora.
— Marge, mal estou conseguindo ouvir você. Há muita estática na linha.
— É porque estou num estacionamento... espere, Pete.
Ela subiu rapidamente as escadas até chegar ao térreo. Em seguida, caminhou para fora.
— Melhorou?
— Muito. Qual estacionamento?
— O do hospital St. Timothy. Estamos no processo de extrair as fitas das câmeras de segurança no estacionamento. O chefe dos guardas nos disse que as fitas são apagadas e substituídas uma vez por mês.
— Dê-me boas notícias.
— Escapamos por pouco, Rabino. Elas deveriam ser trocadas daqui a alguns dias. Qual é a nitidez do registro, ou se Adrianna ou seu carro sequer estão no filme, isso é outra questão.
— Quantas câmeras captariam a área em torno do carro de Adrianna?
— Uma câmera capta indiscutivelmente aquela área. Podemos obter uma visão periférica de alguma outra. Estão também extraindo as fitas das entradas e saídas do estacionamento para ver a que horas Adrianna deixou o hospital. Provavelmente as veremos daqui a um instante.
— Na delegacia?
— Não, no posto de segurança aqui no hospital. Os guardas estão guardando as fitas como falcões.
— Fazem muito bem. É pena que não tenham sido tão diligentes com Adrianna.