Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 12 de 50

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Carrasco

Capítulo 12

 

 

HANNAH SOUBE QUE ALGUMA COISA ESTAVA acontecendo quando Cindy não tomou o vinho e Eema não parou de lhe empurrar comida.

— Que tal um pouco mais de torta? — perguntou Rina.

— Se eu comer mais um pedaço, vou explodir — respondeu Cindy.

— Então o que acha de levar para casa? Vou separar também um pouco de paella. — Rina levantou-se da mesa de jantar e foi para a cozinha antes que a enteada pudesse protestar. Cindy consultou seu relógio. Passava das nove.

— O tempo passou depressa. Temos de ir. Vou ajudá-la a embalar.

— Vou ajudar também. Hannah correu atrás da irmã e encontrou-se com ela na cozinha. ——

Você tem certeza de que não tem nada para me contar? perguntou-lhe. —

Cindy sentiu seu rosto ficar quente.

— Você é uma abelhuda, não?

— Sim, não, talvez?

— Hannah, você está tendo um comportamento completamente inadequado — disse Rina.

— Pooor favooor...?

— Fale baixo disse Cindy. A resposta é sim, mas não tive muito jeito de dizer algo na — —

frente do menino.

Hannah bateu palmas com as pontas dos dedos.

— Para quando?

— Fim de dezembro.

— Sabe se é menino ou menina?

— Chega, Hannah! — disse Rina.

Ela se virou para a mãe.

— Há quanto tempo você sabe?

— Desde que Cindy quis que eu soubesse. E fale baixo, por favor.

— Sua mãe está certa. Vamos ser discretas sobre isso.

— Posso ir comprar o berço com você?

— Você pode ir comprar um berço comigo. Vamos deixar um aqui — disse Rina.

— Não posso acreditar que você e Abba esconderam isso de mim. — Hannah fez uma pausa. — Posso acreditar que você escondeu, mas não Abba. Ele deve estar tão feliz!

— Feliz é pouco disse Rina. Não foi assim tão difícil, porque vocês raramente se — —

cruzam, com seus horários cheios.

Hannah não conseguia tirar o sorriso de seu rosto.

— Vou ajudar Eema a embalar a comida para você. Vá se sentar e relaxar.

— Estou me sentindo ótima, não sou uma inválida. Vá se sentar você. Cada vez que você sai da mesa, aquele pobre menino parece ter engolido soda cáustica. Faça um favor a ele e peça licença para se retirar, para que ele possa fazer isso também.

— Certo. — Hannah deu um enorme abraço na irmã. — Amo você.

Em seguida, ela voltou aos pulinhos para a sala de jantar, onde trocou sorrisos largos e cúmplices com o pai. Gabe não pareceu notar. Ele e Koby falavam sobre música. Veio à tona o fato de que Gabe tocava um zilhão de outros instrumentos.

— Vi que há alguns cases de instrumentos no armário. Você se importa se eu der uma olhada? — perguntou ele a Decker.

— É uma guitarra e um baixo disse Decker. Acho que nenhum dos dois tem tocado — — muito. Faça o que bem entender.

— Nenhum de nós tem qualquer talento musical disse Hannah. Koby tem uma bela voz, — — mas é só porque não é nosso parente de sangue. Posso me levantar?

— Ainda vejo pratos na mesa disse Decker. —

Hannah suspirou com impaciência e começou a recolher os pratos de sobremesa. Quando Gabe se levantou para ajudar, Decker disse:

— Você é um hóspede. Ela pode fazer isso.

— Não me incomodo, tenente. Isso faz eu me sentir normal.

Decker consentiu com a cabeça. Quinze minutos mais tarde, o casal fora embora e a porta do quarto dos seus filhos estava fechada.

Música de verdade vinha de trás das paredes, embora o volume do amplificador estivesse muito baixo. Decker ouviu por um momento enquanto notas fluíam em rápida sucessão — distorcidas, deformadas, retorcidas. Riffs atonais, mas interessantes. Quando Decker bateu suavemente, a música parou. Gabe abriu uma fresta na porta.

— Alto demais?

— De maneira alguma. Quero apenas comunicar a você qual será minha programação, caso você precise de mim. Seu pai deve chegar daqui a umas três horas. Ainda tenho um pouco de trabalho para fazer. Voltarei por volta das onze horas. Quero estar aqui quando ele vier apanhá-lo. Tenho de conversar com ele de qualquer maneira. Se quiser entrar em contato comigo mais cedo, ligue para meu celular, tudo bem?

— Obrigado. Ficarei bem.

— Está com as malas prontas?

— Estarei. Não tenho muita coisa para arrumar.

— Precisa de alguma coisa?

— Não, estou bem. Obrigado. O adolescente fez uma pausa. Obrigado por tudo. — —

— Gabe, se você quiser alguns dias para pensar sobre as coisas, posso fazer isso acontecer. Você não tem que ir com ele de imediato.

— Ficarei bem.

— Só para você saber, certo?

Ele assentiu com a cabeça.

— Não tive nenhuma notícia ruim sobre sua mãe ou o carro dela. Talvez ela tenha apenas precisado de alguns dias para pensar.

Gabe engoliu em seco enquanto assentia com a cabeça.

Decker pousou a mão no ombro dele.

— Você é um garoto forte, mas mesmo garotos fortes precisam de ajuda de vez em quando. Não hesite em ligar.

— Tudo bem.

— Até mais tarde.

— Certo. Tchau. A porta se fechou devagar. —

A música que se seguiu era suave e melancólica.

 

O Port Hole era um bar e restaurante esportivo de frente para o mar que anunciava tira-gostos gratuitos durante a happy hour, ofertas especiais nos dias úteis e jogos locais transmitidos numa tevê de tela plana de 120 polegadas. Fazendo jus à propaganda, a gigantesca televisão estava transmitindo o jogo de basquete do Lakers contra o Nuggers com Kobe Bryant na linha de ataque, seu rosto suado filmado de perto, revelando cada poro aberto. A alta resolução podia ser excessiva, pensou Marge. A descrição que Sela Graydon fizera de Crystal Larabee fora a seguinte: loura, olhos azuis, corpo bonito, provavelmente vestindo roupas sexy e tomando cosmopolitans. Havia três candidatas, todas no bar: uma loura com uma regata e jeans, outra loura de camiseta vermelha e minissaia de lamê, e, por fim, uma loura usando um tomara que caia preto e jeans de cintura baixa com a calcinha aparecendo.

— Minha intuição diz que é a número três disse Oliver. —

— Estou com você, parceiro.

Os dois foram furtivamente rumo à multidão com três fileiras de pessoas aglomeradas junto ao bar, até que Marge estava olhando sobre o ombro de Crystal à direita e Oliver estava à esquerda dela. Os seios da moça estavam praticamente saltando do tomara que caia justo e seu rímel era espesso como alcatrão. Conversava animadamente com um homem parrudo e de pescoço grosso que tinha a mão na parte baixa das costas dela, um dedo enfiado sob a tira da calcinha. Ele parecia uns bons dez anos mais velho que sua presa.

— Crystal? — perguntou Oliver.

— Oi... — Ela se virou lentamente para encará-lo. — Quem é você?

Sua fala estava enrolada. Havia uma gota de saliva no canto de sua boca.

Oliver sacou seu distintivo.

— Polícia. Eu gostaria de falar com você.

As pálpebras pesadas da moça estavam semicerradas.

— Que está acontecendo?

— Sim, o que está acontecendo? ecoou o homem parrudo. —

— Precisamos de um pouco de privacidade disse Marge, mostrando seu distintivo. Dê-— — nos uns dois minutos e a deixaremos em paz.

— Está certo disse Crystal. Estou cansada mesmo. Jogou um suéter preto nas costas e — — — pendurou a bolsa no ombro. Quero cair fora daqui. —

Escorregou de seu banco junto ao balcão e tropeçou. Oliver segurou-a antes que fosse ao chão.

— Que tal fazermos uma pequena caminhada?

— Não preciso de uma caminhada... — Ela pescou suas chaves.

Marge as tirou de sua mão delicadamente. Nenhuma resistência.

— Realmente acho que você precisa andar um pouco primeiro.

Ela olhou para Marge, piscando várias vezes.

— Quem você é?

— Somos da polícia disse Marge. Precisamos falar com você sobre Adrianna Blanc. Você — —

se lembra dela. É uma de suas melhores amigas.

Imediatamente, Crystal caiu no choro.

Marge pôs o braço em volta dela e Crystal apoiou a cabeça contra o peito da detetive e soluçou.

— Eu sei, querida. Está sofrendo.

— Muito! — Crystal gemeu.

Um elegante e moreno barman latino levantou os olhos.

— Podem tirá-la daqui, por favor?

Oliver segurou um braço de Crystal e Marge, o outro. Juntos, levaram-na para fora do restaurante, atravessaram o estacionamento asfaltado e fizeram-na dar meia dúzia de passos até chegarem ao píer. Era uma noite nublada e os postes de luz esporádicos emitiam uma tênue luz amarela aureolada por neblina. Eles a conduziram com dificuldade ao longo do vacilante caminho de madeira, passando por rampa após rampa após rampa, os espaços abrigando tudo — de lanchas-cruzeiro de tamanho médio até enormes iates com antenas e pratos de satélite. Uma suave brisa salina soprava do oceano. Com suas plataformas, Crystal tinha dificuldade para se manter ereta.

— Por que, por que, por quê?

— Isso é o que estamos tentando descobrir disse Oliver. E você pode nos ajudar, — — Crystal, mas tem de se concentrar.

— Não quero me concentrar. Ela enxugou os olhos no braço, tatuando a pele com uma —

mancha preta de rímel. — Quero ir para casa. Quero dormir! — Fungou e começou a remexer na bolsa à procura das suas chaves.

— Onde você mora? — Marge já sabia a resposta. Ela e Oliver tinham passado pelo lugar mais cedo.

— No Valley.

— Muito conveniente! Eu moro lá também. Por que não a levo para casa e o detetive Oliver dirige seu carro para você?

— Estou... bem.

— Eu sei, meu bem, mas dessa maneira você pode descansar. Marge já a conduzia de volta —

para o estacionamento. Onde está seu carro, querida? —

Ela apertou os olhos.

— Acho... Cambaleou e parou. —

— Qual é a marca do seu carro? — perguntou Marge.

— Um Prius. Ele é tipo... econonológico.

Havia vários deles no estacionamento.

— Que cor?

— Azul.

— Já o vi. Marge jogou as chaves para Oliver. Até mais tarde. — —

— Boa sorte.

Marge ajudou-a a se acomodar no banco do passageiro do carro de polícia sem identificação e afivelou seu cinto de segurança.

— Confortável? — Nenhuma resposta.

Marge ligou o motor e rumou para a autoestrada.

Crystal roncou durante todo o trajeto para casa.