Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 28 de 50

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Carrasco

Capítulo 28

 

 

— ESTAMOS PERDENDO EM DUAS FRENTES. — Oliver desligou o aparelho. Mandy não está atendendo o telefone e tampouco Crystal.

— Crystal gosta de uma farra — disse Marge. — Não me surpreende que não atenda seu telefone fixo, mas deveria estar atendendo o celular.

— Talvez esteja num bar lotado e não consiga ouvi-lo.

Eles estavam dirigindo para o norte pela Rodovia 5, com Griffith Park à sua esquerda — uma negra e vasta faixa de folhagem e árvores doada a Los Angeles como recompensa depois que o coronel Griffith atirou em sua mulher. Só Deus sabia que tipos de animais estavam escondidos no escuro de quatro patas, tanto quanto de duas. Eles tinham conseguido evitar a maior parte —

do trânsito vespertino da volta do trabalho. A neblina da noite baixava quando chegaram às maiores elevações, passando pelo alto do morro e voltando a descer para o Valley.

— Ligue para Sela Graydon. Veja se ela consegue se comunicar com Crystal.

— Certo. Oliver fez uma pausa. O que você acha de Mandy se ausentar sem licença? — —

— Pelo que ouvi falar, a menina é tão confiável quanto o nascer do sol, e de repente não atende seus telefones. O que você vai querer fazer se ela não atender a porta?

— Que horas são?

— Oito e meia.

— Sabemos se ela tem algum amigo ou parente que poderia ter uma chave?

— A vida social dela não parece ser grande coisa disse Oliver. —

— Estou ficando com um pressentimento estranho em relação a isso. Ela pode ter ouvido uma confissão além da conta, entende o que estou dizendo? Sabe que tipo de carro ela dirige? Gostaria de ver se ele está no estacionamento do prédio. E se ele estiver lá e ela não estiver atendendo sua campainha, poderíamos justificar a entrada em sua casa sem sua permissão.

— Vou ligar para o Departamento de Trânsito. Quer que eu faça isso antes ou depois de ligar para Sela Graydon?

— Consiga a informação sobre o carro primeiro. Isso é fácil de fazer.

Oliver falou com o Departamento de Trânsito enquanto Marge fazia a descida para o Valley, viajando em paralelo ao leito de cimento do rio Los Angeles. A essa hora da noite, ele era um abismo escuro à sua direita. Ela passou a saída para o Zoológico de Los Angeles desembocando na 134 West, cortando junto ao Forest Lawn Cemetery.

— É um Toyota Corolla 2003 preto. Oliver recitou o número da placa. Você tem o — — número do telefone de Sela Graydon?

— Não aqui comigo.

Oliver fez uma segunda chamada e dentro de minutos tinha os dígitos de que precisava. Quando chamou, ela não atendeu. Ele deixou seu número. Olhou para Marge, que parecia imersa em reflexão.

— O que tem na cabeça?

Ela fez uma pausa.

— Eu estava só pensando.

— Isso é sempre perigoso.

— Lembra-se de quando estávamos conversando com Yvette Jackson, a garçonete? Perguntei se ela conhecia alguém chamado Farley. E depois eu disse que talvez fosse Charley?

— Sim, ela não conhecia nenhum dos dois.

— Pensei em uma coisa. Talvez fosse Charley... que poderia ser um dos apelidos de Charles Tinsley, o Chuck. Quando ele não respondeu, ela disse: Sim, não, talvez? — —

— Interessante — disse Oliver. — O tenente nos disse para entrevistá-lo de novo. Vamos fazer isso.

— Por que não conseguimos uma foto de Tinsley, a inserimos num conjunto de seis e a mostramos para Yvette Jackson?

— Você acha que ele seria estúpido o bastante para enforcá-la na propriedade que estava supervisionando e depois notificar sua morte?

— Tivemos contato com muitos criminosos em nossos anos na polícia disse-lhe Marge. ——

Pessoalmente, nunca conheci nenhum que se qualificasse como intelectualmente brilhante.

 

Rina bateu, mas não esperou ser convidada para entrar no quarto.

— Acabo de ligar para Matt Birebaum. Ele vai nos encaixar amanhã.

— Ele? perguntou Decker. —

— Sei que ele é um pouquinho excêntrico, mas é também um cirurgião de mão de primeira linha.

Gabe compreendeu que falavam a seu respeito.

— Estou bem, sra. Decker. Nada está quebrado.

— É possível, mas precisa ser examinado. Mesmo que você não fosse um pianista, eu faria isso. Kal v’chomer, eu devo fazer isso para alguém que precisa das mãos para ter uma carreira.

Gabe não entendeu tudo que ela estava dizendo, mas sentiu que sua melhor defesa era não discutir.

— Kal v’chomer significa que devo especialmente fazer você ser examinado disse Rina. — —

Eu me esqueci da expressão jurídica equivalente em inglês. Temos uma consulta marcada para as onze horas. O dr. Birenbaum se orgulha do próprio desempenho ao piano, portanto, pelo menos saberá quais são suas necessidades.

— Ele pensa que é Mozart disse Decker. É péssimo e nem ao menos tem ouvido. — —

— É um pouco cheio de si, mas é disso que você precisa num cirurgião. Ela olhou para as —

roupas de Gabe espalhadas na cama.

— Vai a algum lugar?

— Pensei em fazer uma visita à minha tia durante o fim de semana, mas ela não vai ficar em casa. O tenente Decker teve a bondade de me deixar ficar até que ela volte, na segunda-feira.

— Vai se mudar?

— Talvez seja melhor. Muito obrigado pela sua hospitalidade. Um dia, talvez eu possa pagar por ela.

— Nenhum pagamento é necessário. Mas você não vai para lugar nenhum antes de examinarem sua mão. Depois que tiver ido ao médico, pode ir para a casa da sua tia. Combinado?

Gabe assentiu com a cabeça.

— Peter, pegue um saco de gelo adequado para ele.

— Sim, senhora Decker levantou-se e sorriu da expressão infeliz do menino. Ela não — — escolheu, você, Gabe. É dura com todo mundo.

— Isso não deve ser um problema para ele. Deve estar acostumado com mulheres duras. — Depois que Decker saiu, Rina sentou-se na cama em frente à do menino. — Como está sua mão? Uma resposta sincera, por favor.

— Dolorida.

— É por isso que boxeadores usam luvas. Deixe-me vê-la. — Ele tirou a mão do saco de gelo e mostrou a ela. Ela a examinou com atenção. Você está com algumas contusões feias. Consegue —

mexer os dedos?

— Sim.

— Você tem sorte.

— Fui estúpido.

— Pode ter sido estúpido, pode ter sido inteligente. Não sei. Eu não estava lá. Tudo deu certo, então não vou falar mais disso. Está com fome?

— Na verdade, não.

— Hannah também não, mas vocês dois precisam jantar. Depois que começarem a comer, vão recuperar o apetite.

— Hannah está zangada comigo?

— Ela tem agido como sua advogada, por isso suponho que a resposta seja não. O jantar estará pronto em cerca de dez minutos. Você é destro ou canhoto?

— Um destro com uma esquerda forte... pelo menos costumava ter uma esquerda forte.

— Você vai ficar bem. Sendo você destro, seus estudos não serão afetados. — Ela esperou um momento. — Depois da consulta, eu ia levar você para procurar pianos para alugar. Mas se vai se mudar para a casa da sua tia, isso não faria muito sentido.

O menino ficou em silêncio.

— Se você quer ir morar com ela porque é sua tia e se sentiria mais confortável lá, nada tenho contra a sua decisão. É difícil viver com estranhos. Mas não vá embora por achar que estamos aborrecidos com você. Conhecendo seu pai, deveria ser capaz de suportar um pequeno conflito sem se dar por vencido.

— Não é conflito. Estou acostumado com isso. Gabe desviou os olhos. Estou cansado de — — ser um fardo.

— Se você fosse uma carga, não estaria aqui. Eu não assumo fardos, Gabe, estou velha demais. Além disso, não tenho fardos, você tem fardos. Estou muito bem. E não se preocupe com meu nível de estresse. Criei dois meninos. Eles estavam sempre entrando em enrascadas, embora eu deva admitir que acho que nenhum jamais teve uma arma em suas costelas.

O adolescente se encolheu.

— Sou um ímã para problemas. As coisas simplesmente parecem acontecer quando estou por perto.

— Não é inteligente estar num estacionamento naquela área no escuro. Vou telefonar para a escola. No mínimo, podem instalar uma iluminação decente. — Rina olhou para ele. — Conhecendo seu pai, você provavelmente teve armas à sua volta a vida toda.

Gabe assentiu com a cabeça.

— Você tem uma arma? Se tiver, entregue-a para mim e vou guardá-la no nosso cofre de armas.

— Não tenho arma.

— Você não iria mentir para mim, iria?

— Não. Juro. Não teria usado meus punhos se tivesse uma arma.

— Você poderia não estar andando armado, mas isso não significa que não tenha uma arma.

— Não tenho. Reviste o quarto.

— Eu poderia simplesmente fazer isso quando você não está por perto — disse Rina. — Não leria suas coisas pessoais, como correspondências e papéis, mas não sou incapaz de olhar debaixo de colchões e outros bons esconderijos para armas ou drogas.

— Não sou um drogado. Nunca comprei droga em minha vida. Não bebo. Meu pai é alcoólatra e meus avôs dos dois lados eram alcoólatras. Está em meus genes, então fico longe.

— E não tem uma arma?

— Não. Fique à vontade para procurar.

Rina deu de ombros.

— Mas sabe atirar, certo?

— Sim. — Uma pausa. — Chris me ensinou.

— Você é um bom atirador?

— Não tão bom quanto Chris, mas tenho uma pontaria razoável. Sinceramente, detesto armas.

— Somos dois. Mas eu também sei atirar. Aprendi porque meu marido achava que poderia ser uma boa ideia.

— Com o Chris foi a mesma coisa. Ele ficou pensativo. Meu pai tem muitos inimigos. — — Ele disse que eu precisava aprender para proteger minha mãe e a mim mesmo. Ele costumava me treinar. Atirava na minha direção só para me deixar acostumado com o som de balas zumbindo.

— Isso é uma loucura.

— Meu pai é louco. — O menino sorriu. — Talvez fossem balas de festim. Ele nunca disse.

— Isso é ultrajante, Gabriel.

— Sim, era muito ruim. Chris não teria sido minha primeira escolha em matéria de pais. — Deu de ombros. Suponho que ele estava um degrau acima de seu próprio pai. Chris nunca me —

maltratou.

— Você não considera que atirar no próprio filho seja maltratá-lo?

— Estou falando de agressão física. O pai de Chris costumava bater nele. Normalmente, eu acharia que o meu pai estava mentindo, mas vi as cicatrizes. — Ele olhou para Rina. — Estou aflito por causa da minha mãe. Realmente sinto falta dela. Mas há uma partezinha de mim que sente falta de Chris também. Isso é estranho?

— De jeito nenhum. Tenho certeza de que você sente falta de sua antiga vida.

— Sim, provavelmente. Não era ótima, mas pelo menos me pertencia.

 

Passaram-se cerca de 15 minutos antes que o portão do condomínio se abrisse. Marge entrou atrás do carro, deixando a mulher que o dirigia histérica. Depois que ela e Oliver exibiram seus distintivos, ela se acalmou. A motorista estava na casa dos trinta e tinha uma pele cor de café.

— Vocês quase me mataram de susto.

— Desculpe-nos por isso disse Oliver. Por acaso conhece Mandy Kowalski? Ela é — — enfermeira no St. Timothy.

— Em que bloco ela mora?

Marge deu-lhe o número.

— Ela costuma estar em casa à noite, mas não está atendendo a porta.

— Talvez esteja de molho na banheira.

Ficar mergulhada numa banheira não parecia fazer o gênero de Mandy.

— Você a conhece? perguntou Marge. —

— Não, desculpe-me. Há muitos blocos aqui.

— Se a vir, ligue para nós disse Marge, dando-lhe seu cartão. —

A mulher jogou o cartão na bolsa. Marge e Oliver observaram-na até que ela desapareceu atrás de uma porta que levava aos elevadores. Depois, Marge vasculhou o estacionamento à procura do carro de Mandy.

— São cerca de quarenta vagas duplas?

— Sim, mas um terço está ocupado pela metade — disse Oliver. — Você vai pela esquerda, vou pegar a direita.

Vinte minutos mais tarde, eles se encontraram, e nenhum dos dois teve sucesso na localização do carro de Mandy.

— Passa das nove horas. Não estou gostando disto — disse Oliver.

— Vamos tentar o apartamento de novo.

— O carro dela não está aqui, o que a faz pensar que ela está no apartamento?

— Só dar uma olhada, está bem?

Eles pegaram o elevador até o terceiro andar. Assim que pisaram fora do elevador, o telefone de Oliver tocou. Ele olhou o número e encolheu os ombros.

— Parece familiar, mas não sei quem é. Apertou o botão para falar. —

— Detetive Oliver.

— É a Sela Graydon, retornando sua ligação.

— Sim, srta. Graydon, muito obrigado. Estamos tentando encontrar Crystal Larabee. Por acaso sabe onde ela está?

— Não. Eu ia realmente ligar para você e falar sobre isso. Não estou conseguindo entrar em contato com ela. Não atendeu nenhuma de minhas ligações. Isso está me deixando um pouco nervosa.

— Quantas vezes ligou para ela?

— Cerca de quatro... talvez cinco.

— Quando falou com ela pela última vez?

— Por volta das nove ou dez horas da manhã de ontem. Mencionamos alguma coisa sobre nos encontrarmos para um café e foi a última vez que tive notícia dela. Eu estava pensando em ir até a casa dela, mas não quero parecer ridícula. Ela é uma mulher adulta.

— Que tal se nos encontrarmos com você lá?

— Sabe onde ela mora?

— Sei. Provavelmente poderíamos estar lá em vinte minutos.

— Vou levar cerca de meia hora.

— Então nós a veremos dentro de meia hora.

— Então não acha que estou sendo ridícula?

— Preocupar-se com o bem-estar dos amigos nunca é ridículo. Conhece alguém que poderia ter uma chave da casa dela?

— Tenho uma chave. Não sei se funciona. Nunca a usei.

Leve-a... Para uma eventualidade.

Que eventualidade? — perguntou Sela.

Oliver não respondeu, preferindo desligar o telefone.