Carrasco
Capítulo 42
DIGITANDO OS PARÂMETROS NO COMPUTADOR — “homicídio”, “mulher”, “estrangulamento” , —
Decker, Wanda e Lee Wang obtiveram uma dúzia de casos não resolvidos, mas ainda em aberto dentro da jurisdição do Departamento de Polícia de Los Angeles. Quando Wanda inseriu os dados nos arquivos da Unidade de Casos de Homicídio Pendentes, os números se elevaram significativamente. E isso nem levava em conta casos dos departamentos de polícia próximos: San Fernando, Culver City, Beverly Hills, Oxnard, Ventura, San Bernardino, San Diego e um grande número de outros departamentos menores acima e abaixo do estado. Não havia atalhos. Seria preciso reler casos, entrar em contato com detetives encarregados, fazer perguntas.
Entre as coisas que eles procuravam ao ler os arquivos estavam: o nome de Chuck Tinsley, como testemunha ou suspeito, e joias associadas com as vítimas. Decker não precisava de um Sherlock Holmes. Precisava de detetives como Wanda e Lee, capazes de ler durante horas e concentrar-se em detalhes. Era um trabalho tedioso, que geralmente produzia mais dor de cabeça e vista cansada que resultados.
Às cinco da tarde, Decker estava pronto para ir embora quando seu celular tocou. O número estava restrito e isso fazia sentido. Ninguém que o conhecesse bem lhe ligaria num sábado.
— Decker.
— É Eliza Slaughter.
— Olá, detetive, como vão as coisas?
— Nada de especial. Eu queria apenas lhe contar que os técnicos examinaram o carro que Donatti alugou. Borrifaram luminol no carro todo, no porta-mala e sob o carpete do porta-malas, entre os eixos, sob a carroceria. Não há nenhuma evidência de sangue. O carro foi lavado pela locadora, mas não de maneira imaculada. Recolhemos muitos fios de cabelo e fibras. Vamos examiná-los para ver se algum pertencia a Terry, mas sinceramente, não tenho grande esperança.
— Certo. E quanto à Mercedes que foi sucateada?
— Não tenho nada sobre Atik Jains. Ele pode ter sido dono do carro, mas não tem carteira de motorista da Califórnia. Estou checando licenças fora do estado. Ponho-o no sistema, mas não há nenhum retorno. Mais cedo esta tarde, voltei ao hotel e interroguei o que resta do pessoal. Ninguém viu Terry sair em seu carro. Não sei o que dizer a você. Seria possível que sua fuga estivesse planejada muito antes de domingo e ela poderia estar em qualquer lugar.
— Isso é verdade.
— Sei que não rastreamos o marido dela, mas sem um corpo, uma cena do crime e testemunhas, nossas pistas estão escasseando. A impressão que dá é que ou o marido fez isso ou ela fugiu por conta própria.
— Estou começando a pender para a fuga.
— Por quê?
— Conversei com Gabe e ele me contou algo interessante. Uma vez ele encontrou a mãe conversando com um médico indiano. Um homem mais velho, um cardiologista visitante cujo pai é um marajá na Índia.
— Isso significa que ele é rico?
— Eu pensaria que sim.
— Temos um nome?
Decker tergiversou.
— Gabe nunca soube qual era.
— Por que ele ficou com esse médico na cabeça? Tenho certeza de que a mãe dele conversou com um zilhão de médicos.
— Aí é que está. Ela não fazia isso. A única coisa que ele disse foi que havia simplesmente alguma coisa na maneira como os dois conversavam que o deixou com a antena ligada. Você sabe como esses garotos podem ser perceptivos para esse tipo de coisa.
— Ele disse alguma coisa para a mãe?
— Perguntou com quem ela estava conversando. Foi quando ela lhe contou que o sujeito era um cardiologista visitante cujo pai era um marajá.
— E?
— Foi isso.
— Você acha que ela estava tendo um caso com esse homem?
— É possível. E se ela de fato fugiu para a Índia, parece que o homem é rico e bem protegido. Ela precisaria das duas coisas para escapar do marido.
— Então onde isso nos deixa?
— É um caso em aberto. Se ela estiver viva, vai acabar tentando fazer contato com o filho. Portanto, na minha opinião, devemos esperar.
— Onde está o garoto?
— Comigo.
— Certo.
— Sim, vamos deixar isso como está. Bipe de ligação à espera. Número de Marge na tela. ——
Tenho uma ligação que preciso atender. Mantenha-me informado.
— Farei isso. Até logo.
Ele apertou o botão.
— O que está acontecendo, sargento?
— Lamento perturbá-lo no Shabbos disse ela. Encontramos Mandy Kowalski. — —
— Morta? perguntou Decker, empertigando-se. —
— Não, está viva, mas não está bem. Tem queimaduras em cinquenta por cento da parte inferior do corpo. Está num coma medicamente induzido.
— Que coisa horrível. Decker sentiu seus batimentos cardíacos acelerarem-se. O que — — aconteceu?
— Ela foi trazida para o Las Vegas Medical Center como mulher não identificada, vítima de um acidente com um único carro no meio do Mojave. Originalmente, a polícia pensou em suicídio, porque só um carro estava envolvido e havia Xanax no organismo dela. Depois que a identificamos como Mandy Kowalski, estamos considerando homicídio.
— Como se alguém tivesse apertado o acelerador e a deixado voar?
— Talvez. Ela não parece do tipo que estaria apostando corridas de curta distância no deserto.
— Como vocês a encontraram?
— Não fui eu. Las Vegas fez todo o trabalho de investigação. Marge lhe forneceu os —
detalhes. Eles dizem que fizeram um esforço adicional porque nós fizemos um esforço —
adicional e viemos até aqui.
— Vocês têm certeza de que é ela?
— Positivo. A parte inferior de seu corpo está queimada, mas seu rosto permaneceu relativamente ileso. Ela tem contusões decorrentes do acionamento do airbag, mas está certamente reconhecível.
— Se foi homicídio, por que será que o assassino não desativou o airbag?
— Talvez não tenha sido tão esperto. E é claro, pode ter sido suicídio. Talvez tivesse testemunhado alguma coisa com que não podia viver... como o assassinato de sua amiga.
— É possível.
— A mãe de Mandy, Frieda Kowalski, é viúva. Ela mora em Mar Vista. Não tenho o endereço, mas tenho o número de telefone. Deu-o para Decker. Você poderia mandar alguém lá para — — informá-la do que está acontecendo?
— Farei isso. Vou querer conversar com ela, de qualquer maneira. E quanto a Garth Hammerling?
— Nada sobre ele ainda, mas ainda nem começamos a falar com pessoas. Tenho uma lista de hotéis que ele frequentou. Scott e eu vamos conversar com o maior número possível de pessoas. Em geral, ele se hospedava em North Las Vegas.
— Pensei que um de seus amigos tinha dito que ele ficava na Strip.
— Pode ter se hospedado lá, também. Talvez goste de mudar de um lugar para outro.
— Quando Mandy deve sair do coma?
— Vão começar a despertá-la amanhã, mas mesmo depois que estiver consciente, passará algum tempo dopada. O médico diz que ela ficará inconsciente durante vários dias. Além disso, há uma boa chance de que não se lembre muito do acidente ou do que o provocou.
— Ela se lembrará do assassinato de Adrianna, caso tenha estado lá?
— Não faço ideia de como o acidente afetará sua memória. Não sou médica, mas nem os médicos sabem. Estamos todos esperando contra todas as probabilidades que ela seja capaz de lançar alguma luz sobre Garth Hammerling.
— Sabemos com certeza que ela estava viajando com Garth?
— Não, não sabemos isso. Mas encontramos Mandy e ela está viva e talvez possa nos dizer alguma coisa.
— Amém disse Decker. Vou conversar com a sra. Kowalski. Quando ela souber da — —
notícia, vai querer ir para Las Vegas. Vou descobrir seus horários. Vá apanhá-la e leve-a ao hospital.
— Posso fazer isso.
— Você e Scott trabalham durante o fim de semana. Vou rendê-los na segunda-feira. Quero estar aí quando Mandy for capaz de falar.
— Venha quando quiser. Não faltam hotéis. — Marge pensou um momento, depois disse: — Por que está trabalhando hoje? Não é seu aniversário?
— Na verdade, é amanhã. E vou sair com a ninhada toda para jantar. Mas provavelmente estarei trabalhando durante o dia. Decker atualizou-a sobre o assassinato de Roxanne Holly e —
seu colar desaparecido. Devia haver mais de um colar idêntico ao R de diamantes, por isso —
estamos examinando outros casos de estrangulamento, tentando encontrar entre as joias que Tinsley escondia outra que esteja associada a um assassinato.
— Então Tinsley voltou direto para topo da lista.
— Com certeza. Ele esteve com Adrianna e Crystal no Garage, domingo à noite. Ainda estamos tentando obter uma linha do tempo para ele no dia do assassinato.
— Onde ele está agora?
— Andando por aí sob vigilância durante 24 horas. Kathy Blanc não ficou feliz com isso. Se soubesse o que descobrimos, ela provavelmente me mataria. Ligo para você se descobrir mais alguma coisa sobre Tinsley.
— Farei o mesmo com relação a Garth. Ah, esqueci de dizer a você. Meu telefone ficará desligado entre as oito e as dez horas esta noite. Vamos ver O.
— O espetáculo do Cirque du Soleil?
— Sim. Silver e Major, os policiais que estão nos ajudando no caso, insistiram para que fôssemos. Depois vamos sair para jantar. Mas ligarei meu telefone quando estivermos comendo.
— Fico feliz em ver que vocês incluíram repouso e relaxamento no programa disse Decker —
secamente.
— Suspeito, Rabino, que você está sendo sarcástico — disse Marge. — Mas sendo a pateta ingênua que sou, vou levar o que você disse a sério e simplesmente dizer obrigada.
Falar com Frieda Kowalski o tirou do escritório, e esse foi o único aspecto positivo da visita. Quando ele deu a notícia sobre Mandy, a mãe dela arquejou e pôs a mão no peito, tropeçando para trás. Decker ajudou-a a se equilibrar, sentou-a em seu sofá floral e levou-lhe um copo d’água, que ela tomou aos golinhos. Não havia lágrimas em seus olhos, mas seu rosto pálido sardento havia ficado cinzento. Ele esperou até que ela conseguisse encontrar sua voz. A mulher parecia ter cinquenta e poucos anos, com uma maçaroca de cabelo ruivo e olhos escuros. Era pequenina; provavelmente, pesava uns 45 quilos.
Quando ela finalmente falou, pediu detalhes. Decker lhe contou o que sabia, minimizando qualquer sanguinolência, depois ajudou-a a reservar um voo para Las Vegas.
— O sargento Dunn, da minha equipe, está lá agora. — Decker deu-lhe o número do telefone de Marge. — Ela vai buscá-la no aeroporto e levá-la ao hospital.
— Obrigada sussurrou ela. —
— Sei que é um momento difícil, mas tudo que puder me contar sobre Mandy será útil: seus hobbies, seus amigos, seus namorados. Ela bebia? Usava drogas?
A mulher pareceu atordoada.
— Eu raramente tinha notícia dela, exceto por um telefonema dado por obrigação a cada duas semanas, aos domingos. Amanhã era dia. — Ela olhou para o rosto de Decker. — Não é que não nos déssemos bem. Éramos apenas... diferentes. Eu era uma mãe solteira. Posso não ter feito o melhor dos trabalhos, mas cuidei dela.
— Certamente cuidou.
Ela assentiu com a cabeça. Ainda não se viam lágrimas.
— A verdade é que, mesmo quando bem pequena, Mandy era fechada. Era muito reservada em relação aos amigos e certamente em relação a namorados.
— Então havia namorados? perguntou Decker. —
Frieda refletiu sobre isso.
— Ela foi à festa de formatura com um rapaz. Acho que foi a primeira e única vez que a vi com alguém do sexo oposto.
— Lembra-se do nome dele?
— De jeito nenhum.
— Poderia ser Garth Hammerling?
— Garth quem? — Frieda apertava uma mão com a outra.
— Ele é um técnico que trabalha no St. Timothy, onde Mandy trabalha. Ainda nenhuma —
resposta. Garth está desaparecido. Gostaríamos de falar com ele. —
— O que ele tem a ver com Mandy?
— Não sabemos ao certo se ele tem alguma coisa a ver com ela. Neste momento, é apenas uma pessoa de nosso interesse.
— Não posso ajudá-lo. Não sabia muito sobre Mandy quando ela vivia comigo. Certamente, não sei muito sobre ela desde que me deixou... saiu de casa.
— Ela tem um pai?
— Todo mundo tem um pai. Ele foi embora quando ela estava com seis meses. Não sei onde ele está e ele nunca enviou nenhuma ajuda para Mandy. Acho que uma vez ela quis encontrá-lo. Eu lhe disse que fosse em frente, mas me deixasse fora disso.
— Qual é o nome dele?
— James Kowalski. Não sei se ela o encontrou, e se tiver encontrado, não sei o que ele lhe disse. Imaginei que se ela o encontrou algum dia, deve ter tirado suas próprias conclusões. Ela —
se levantou. — Eu preciso descansar um pouco. Amanhã será um longo dia. Obrigada por ser tão prestativo.
— Se precisar de mim, por favor, ligue-me. — Decker deu-lhe seu cartão.
— Ela está sofrendo muito?
— Tenho certeza de que farão tudo que for possível para mantê-la confortável. Irei a Las Vegas na segunda-feira e falarei com Mandy. Provavelmente a verei no hospital.
— Quando chegará?
— Em algum momento da tarde de segunda-feira.
— Talvez nos desencontremos. Quando Decker não respondeu, ela acrescentou: Mandy — — jamais gostou quando eu... invadia seu território. Além disso, já perdi muitos dias de trabalho com meus próprios problemas médicos. Ela abriu a porta. Obrigada novamente. Até logo. — —
Seus olhos continuavam secos. Ela provavelmente esgotara suas lágrimas havia muito tempo.