Carrasco
Capítulo 22
MANHÃ DE QUARTA-FEIRA, OITO HORAS, DECKER estava em seu escritório bebericando um cappuccino obtido graças a uma máquina de expresso e às recentes habilidades de Marge como barista. Ela trouxera a máquina cerca de um mês antes, e o café da sala da patrulha nunca mais fora o mesmo. Atualmente, ela ocupava o primeiro lugar entre os detetives mais queridos. Era a única que sabia espumar leite.
— Você examinou todas as fitas?
— Examinei. — Ela tomou um gole e ficou com um bigode de leite, que limpou com a língua. — Eu estava ficando com a vista cansada no fim. Povich disse que podemos ficar com elas por mais um dia, assim vou olhar todas novamente.
— Você a viu entrar, mas não a viu sair.
— Como eu disse a você ontem, houve uma grande quantidade de pessoas que não consegui identificar. É por isso que gostaria de vê-las de novo.
— E Garth Hammerling?
— Se ele esteve lá, não notei, mas como eu disse antes, houve muitas pessoas não identificadas.
Oliver entrou na sala.
— Isso está cheirando bem. Eu adoraria beber um desses.
— Vou fazer um para você, mas só se eu puder ensinar a você como se faz — disse Marge.
— Sou inapto quando se trata de café.
Ela não fez nenhuma menção de se mexer.
— Eu estava acabando de contar ao tenente que não vimos Adrianna depois que ela deixou o carro e entrou no hospital domingo à noite.
Oliver puxou uma cadeira.
— Sim, toda esta vista cansada e eu nem estava assistindo à pornografia.
— Tive um sonho na noite passada disse Marge. —
— Eu estava nele?
— Não, não estava, mas Adrianna Blanc estava.
— Como? disse Oliver, tirando a xícara da mão de Marge. —
— Pode beber. Estou na xícara número dois, de todo modo.
— Seu sonho? perguntou Decker. —
— Ah, sim, meu sonho. Durante a noite toda fiquei vendo as fitas... pessoas granulosas em preto e branco andando pelos fotogramas... Depois acordei de supetão cismada com uma coisa. Nem sei ao certo se é real ou um fantasma produzido por uma noite de sono ruim.
— O que você viu? perguntou Oliver, empertigando-se. —
— Houve uma série de fotogramas em que vimos uma mulher de roupa cirúrgica saindo pela entrada principal por volta das seis da manhã. Ela estava olhando para seu celular, depois tirou uma coisa do bolso que parecia um segundo celular, em seguida voltou a entrar.
Oliver franziu a testa.
— Sim... Acha que era Adrianna Blanc?
— Isso ficou na minha cabeça. Por que não pensamos que era ela?
— Não a excluímos, Marge, apenas não pudemos ver seu rosto. Além disso, Adrianna ficou no hospital até cerca de 8h15. Portanto, mesmo se fosse ela, isso não nos ajuda muito.
— Eu gostaria de ver a fita de novo disse Marge. Estou me perguntando por que alguém — — sairia do hospital e depois imediatamente daria meia-volta e entraria de novo. E por que estaria com dois telefones celulares?
— Ela poderia ter saído para fazer uma ligação em seu celular porque trabalha num ponto sem sinal.
— Certo. Isso explicaria um telefone celular. Por que dois?
— Talvez o segundo celular fosse um pager e ela tenha olhado o número e retornado porque precisavam dela.
Marge assentiu.
— Suponho que a coisa sensata a fazer seria tentar descobrir se Adrianna recebeu uma mensagem pelo pager naquele momento.
— Ela não fez nenhuma chamada em seu celular antes das 8h15.
— Alguma coisa a perturbou. Para quem ela ligaria de manhã tão cedo?
— Talvez ela estivesse prestes a fazer a ligação para terminar com Garth, mas foi chamada pelo pager e teve de entrar novamente.
— Mas por que fazer uma ligação para terminar naquela hora?
— Ela teve alguns minutos livre e quis acabar logo com aquilo.
— O que está pensando, Marge?
— Estou me perguntando se ela não se encontrou com alguém no Garage que finalmente lhe deu coragem para terminar o namoro. E depois, talvez ela e o novo eleito tenham se encontrado na manhã seguinte e foi ele que a assassinou.
— Mas como ela iria se encontrar com alguém se não a vimos sair do hospital? perguntou —
Oliver.
— Ela tem de ter saído. Simplesmente não a notamos. Se pudermos melhorar a imagem dessa mulher que não para de reaparecer na minha cabeça, poderíamos pelo menos ver qual era a aparência dela no dia em que foi assassinada.
— Façam uma tentativa disse Decker. —
— O assassinato é estranho disse Marge. O assassino não fez nenhuma tentativa de — — esconder o corpo. Ao contrário, apresentou-o de uma maneira dramática... como se estivesse sendo exibido. E isso parece ter sido planejado. Ela não parece ter lutado. Isso simplesmente não dá a impressão de uma briga de namorados que desandou.
— Você insiste nesse encontro mortal disse Oliver. —
— Quero apenas descobrir com quem Adrianna estava conversando na noite anterior à sua morte.
— Volte ao Garage e entreviste as pessoas para descobrir uma identidade disse Decker. ——
Você sabe que eu disse isto antes. É possível que você não tenha visto Adrianna nas fitas porque ela nunca saiu viva do hospital. Minha suposição é que ela foi sedada ou envenenada antes de ser enforcada. Volte ao St. Timothy. Obtenha uma linha do tempo mais precisa. Isso vai revelar muita coisa.
— Ela tem de ter saído em algum momento, Rabino, porque nós a encontramos morta no canteiro de obras.
— Cadáveres são removidos de hospitais a toda hora por carros de agências funerárias, carros fúnebres e carros da perícia disse Decker. Pode ser que alguém a tenha levado para fora — — num saco para cadáveres.
Ao telefone, Eliza disse:
— Consegui uma pista de Donatti. Um dos tíquetes tinha um Lexus 2009 com placa de papel alugado pela Luxury Carros e Vans, em Westwood. Isso fica a cerca de quinze a vinte minutos do hotel, de carro. O contrato de aluguel foi preenchido por Donatti. Segundo seu tíquete de estacionamento, ele chegou às 12h18 e saiu às 14h47. Donatti devolveu o carro à locadora às 15h27.
— Ótimo trabalho.
— A parte ruim é que a pista fica fria depois disso. Ele precisou de algum tipo de transporte para ir da locadora a seja lá para onde foi. Liguei para as empresas de táxi locais. O lugar mais próximo registrado nos livros onde um passageiro fora apanhado fica a cerca de oitocentos metros, às 16h50. Estou tentando entrar em contato com o motorista. Ver se ele se lembra de Donatti. Mas o passageiro pode não ter sido ele. E ele não é o tipo de pessoa que pega ônibus.
— Provavelmente ele não pegou. E quanto a hotéis? Chris chegou no sábado de manhã. Onde se hospedou?
— Tentei toda a área de Westwood e agora estou checando Beverly Hills: Montage, Beverly Wilshire e Beverly Hills Hotel. Até agora, nenhuma sorte. Talvez eu devesse tentar lugares menores.
— Vai ver ele dormiu no parque... Jesus, como é difícil encontrar esse homem. — Decker passou os dedos pelo cabelo. Gabe falou com a mãe às quatro da tarde. Disse que Terry —
parecia bem. Ele voltou para a suíte do hotel por volta das seis e meia, sete horas, e ela tinha desaparecido. Se Donatti fez alguma coisa com Terry, teve apenas uma janela de, no máximo, duas ou três horas; o que significa que teria de ter retornado imediatamente depois que saiu. Havia algum registro de alguma locadora deixando-o de volta no hotel?
— Nenhum táxi, mas ainda não tentei as locadoras de automóveis.
— Talvez ele tivesse um segundo veículo e estivesse planejando o tempo todo fazer uma segunda visita furtiva à mulher depois que eu tivesse saído.
— Será que ela seria estúpida o bastante para deixá-lo entrar?
— Eles se separaram de modo amigável, relativamente. Ele parecia bem. Talvez ela tenha sido pega desprevenida.
— Ou talvez ele nunca tenha voltado — disse Eliza. — Estamos concentrados nele, mas deveríamos considerar que Terry era uma mulher amistosa. Talvez o tipo errado de cara tenha confundido suas maneiras afáveis com alguma outra coisa.
— Nesse caso, teria havido algum tipo de luta no quarto do hotel. Além disso, o carro dela desapareceu, assim como sua bolsa e suas chaves. Decker pensou um momento. Carros não — — desaparecem tão facilmente quanto pessoas. Seria de esperar que tivéssemos encontrado o carro a esta altura, e o fato de não termos encontrado me faz pensar.
— Vou verificar algumas garagens locais e depósitos de veículos disse Eliza. —
— Boa ideia. Estou apenas me perguntando se ela está longe daqui. Acho que o filho dela encontrou o próprio passaporte e certidão de nascimento no hotel, mas não o passaporte e a certidão de nascimento dela. Talvez ela os tenha pegado e ido embora.
— Parece possível. Uma pausa. Por que você diz que acha que ele está com o documento — —
de identidade?
— Eu pedi a ele para ver os documentos que ela deixou no cofre e Gabe mostrou-se relutante em mostrá-los para mim. Quando perguntei sobre o passaporte e a certidão de nascimento da mãe, ficou quieto. Ele está escondendo alguma coisa. Mais cedo ou mais tarde, vou arrancar isso dele.
Eliza fez uma pausa.
— Então você não deu uma olhada na certidão de nascimento dele?
— Não. Por quê?
— Eu só estou me perguntando se ela mencionou Chris como o pai. Talvez Terry estivesse escondendo um grande segredo e Chris tenha descoberto. Quero dizer, sempre sabemos quem é a mãe. Mas nem sempre sabemos quem é o pai.
— Não sei nada sobre isso. Ela tinha 16 anos e era virgem quando o conheceu.
— Ele tirou a virgindade dela. Isso não significa que a tenha engravidado. Você não disse que ele passou algum tempo na prisão? Talvez ela tenha ficado cansada de esperar.
— Talvez. — Decker fez uma pausa. — Ele a teria matado se tivesse descoberto que o filho não era seu.
— É isso. Talvez o verdadeiro pai esteja na certidão de nascimento. Ou talvez ela esteja escondendo um teste de DNA. Sabe como é, tenente. Não há fúria maior que a do homem desprezado.
A mulher na linha parecia idosa. Ela se identificou como Ramona White.
— Estou procurando o tenente Detter.
— Aqui é o tenente Decker.
— Ah, é Decker? Não consigo ler a letra do meu neto muito bem.
— Como posso ajudá-la, sra. White?
— Estou retornando sua ligação.
— A respeito...
— Não sei a respeito de quê. Apenas recebi um recado de que deveria ligar para você.
Decker precisou pensar por um momento. Neto... avó.
— Ah, sim. Liguei para falar sobre seu genro, Eddie Booker. Sabe onde ele está?
— Está com minha filha num cruzeiro.
— Sabe quando estarão de volta?
— Dentro de uns dois dias. Foram num cruzeiro para Acapulco. Eles me convidaram para ir, mas fico enjoada no mar. Além disso, alguém tem de tomar conta dos monstros em casa.
— Sabe qual é a companhia de cruzeiros?
— Seacoast ou Seacrest. Algo assim.
— Há alguma maneira de entrar em contato com eles?
— Provavelmente por meio da companhia. Eles me deixaram um itinerário em algum lugar. É uma emergência?
— Não, não é. Se Eddie se comunicar com a senhora, poderia dizer que estou tentando falar com ele?
— O que está acontecendo? Eddie está encrencado?
— Não que eu saiba. Ele esteve encrencado?
— Não que eu saiba, mas nunca se sabe. Fui casada três vezes. No início, eram todos anjos. No fim, eram umas porcarias. Desculpe-me se estou sendo cínica. Os homens fizeram isso comigo.
Por mais que desacelerassem a fita, os detetives não conseguiram distinguir um rosto claramente. A mulher que saiu do hospital às seis da manhã só para entrar de novo instantes depois permanecia um mistério.
Oliver acendeu as luzes.
— Fracassamos nesta.
— Realmente. Poderíamos repassar as fitas mais uma vez.
Oliver olhou para o relógio de parede.
— Aaron Otis e Greg Reyburn vão chegar em cerca de meia hora. Por que não revisamos as fitas depois que entrevistarmos os rapazes?
— É uma ideia. Marge checou seu celular. Hum... Ligou para seu correio de voz e — — — ouviu as mensagens. Era do St. Timothy. Uma pessoa chamada Hilda ou coisa parecida. —
Adrianna recebeu uma mensagem por pager às 6h07. Portanto, o segundo telefone era um pager.
— E isso significaria que a mulher no vídeo provavelmente era ela — disse Oliver.
— Para quem estava tentando ligar? — perguntou Marge.
— Provavelmente Garth, mas isso não ficou registrado em seu telefone. Possivelmente a ligação não chegou a ser feita. Que tal uma pausa para um café?
— Decker me deu o diário de Adrianna. Vou dar uma olhada nele antes de conversarmos com os rapazes. Ver se consigo encontrar um indício de uma ligação amorosa entre Aaron e ela. Mas fique à vontade para usar a máquina.
— Você sabe que não sei fazer isso.
— E isso seria um problema meu por quê?
— Certo, certo. — Ele se levantou. — Vou enfrentar o problema. Ensine-me a espumar.
— Agora isso vai ter de esperar, Scott. Tenho coisas a fazer.
— Quanto tempo levaria isso?
— Na verdade, provavelmente não levaria muito tempo, mas esse não é o ponto. Eu estava disposta a me desdobrar para ajudá-lo esta manhã, mas você não quis.
— E se eu suplicar?
Ela se levantou.
— Se você vai se humilhar, peça mais que um latte.
— Querida, já me humilhei por muito menos. Pelo menos um latte não me dará um tapa na cara depois que eu acabar de beber.