Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 13 de 50

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Carrasco

Capítulo 13

 

 

ADRIANNA MORAVA NUM CONDOMÍNIO QUE SE estendia por toda uma quadra, com prédios pardos de três andares num terreno plantado com samambaias e palmeiras e iluminado à noite por refletores coloridos. O número de seu apartamento era 3J, e Decker percorreu silenciosamente o apartamento de dois quartos e dois banheiros. Ela podia ter sido uma garota festeira, mas mantinha sua casa bem-arrumada. Talvez isso fizesse parte da formação dos enfermeiros. Quando ele era paramédico no exército, descobriu que organização não era apenas conveniente, era imperativa. Vidas dependiam disso.

Era um projeto de sala e cozinha integradas. A sala de estar/sala de jantar estava equipada com o básico — um sofá modular com uma poltrona, um par de mesas laterais e um baú fazendo as vezes de mesa de centro. Havia uma mesa de jantar quadrada e quatro cadeiras. A cozinha era minúscula, com bancadas de azulejos beges e utensílios brancos. Uma tela plana fora instalada na parede em frente ao sofá. O apartamento poderia pertencer a qualquer pessoa nos Estados Unidos, a não ser pelo único item revelador no espaço — uma estante de livros.

Não muitos livros, mas grande quantidade de DVDs. Mais importantes eram as fotografias emolduradas de Adrianna. Ela havia sido uma mulher atraente, com um longo cabelo castanho e um amplo sorriso. Em uma delas, estava parada num declive segurando esquis com um sorriso bobo; em outra, posava com as amigas num restaurante levantando uma taça de margarita; também exibia-se orgulhosa de capelo e beca com um dos pais de cada lado. Havia várias fotos dela com o mesmo homem — altura mediana, cabelo louro-escuro espetado, olhos claros e vários piercings no lóbulo de cada orelha. Rapaz bonito. Provavelmente Garth Hammerling. Decker enfiou uma das fotos dele na sua pasta.

Passou ao banheiro analgésicos vendidos sem prescrição médica, cremes faciais, pílulas —

anticoncepcionais e um saco de bom tamanho de maconha. Deixou tudo como estava e foi ao outro quarto, que Adrianna arrumara como um escritório. Havia uma escrivaninha barata, com um laptop Dell e uma impressora em cima, uma cadeira de balanço e um sofá-cama desdobrável.

Um computador era algo valioso. Ele desconectou o laptop, fechou a tampa e enfiou-o com cuidado numa maleta. Em seguida, começou a vasculhar a escrivaninha lápis, papéis, recibos, —

recortes de papel, elásticos, fita adesiva, Post-its e dúzias de fotografias soltas.

Ele passou os olhos em algumas das fotos. Adrianna tinha uma mente ordenada. No verso da maior parte das fotos, escrevera os nomes das pessoas e as datas. Os mesmos nomes e rostos estavam sempre aparecendo: Sela Graydon, Crystal Larabee, Mandy Kowalski, Garth Hammerling o rapaz bonito da foto emoldurada na sala de estar e alguns amigos de Garth, — —

como Aaron Otis e Greg Reyburn. Mais uma vez, Decker selecionou algumas fotos e guardou-as na sua pasta.

Não havia muito mais coisas na escrivaninha. Uma gaveta era dedicada a papel para impressão; outra continha um emaranhado de cabos. Ele se levantou e examinou o armário. Era usado como sobressalente: havia casacos pesados de inverno, um par de esquis, uma prancha de body board, seis vestidos de festa pretos e um jogo de malas.

O quarto também estava em ordem. Um edredom com estampa paisley cor-de-rosa cobria uma cama queen. Dois abajures, um de cada lado, sobre duas mesas de cabeceira idênticas, sobre as quais se viam um rádio-relógio, um telefone fixo, um bloco e um lápis. Decker pegou o bloco em branco e um lápis. Com um toque leve, esfregou o lado da ponta do lápis contra o bloco, as marcas revelando uma antiga lista de armazém. Deixou o bloco.

Uma tela plana fora colocada em cima de um rack. O armário do quarto estava abarrotado. Era arrumado, mas não compulsivo. Diferentes seções para blusas, camisas, saias, calças e vestidos, mas não arrumados por cor. Roupas formais se misturavam às informais. Ela tinha grande quantidade de sapatos e de tênis para correr. Dúzias de bolsas, cintos e lenços de pescoço e dez pares de óculos escuros. Nada assinado por estilistas famosos, apenas eram de excelente qualidade.

Decker deu uma olhada no relógio. Era hora de voltar, para o caso de Donatti decidir exceder o limite de velocidade e chegar cedo. Ele não queria que Chris buscasse Gabe sem sua presença lá. Deu uma olhada final no quarto. Movido por um impulso, andou até a mesa de cabeceira da direita e puxou a pequena gaveta de cima. Estava repleta, com um livro de Sudoku, várias lapiseiras, uma lixa de unha, vários absorventes e um bloco de Post-its. A gaveta da mesa da esquerda continha uma cartela de pílulas anticoncepcionais, o controle remoto para a TV e um caderno de couro com fecho. Decker pegou-o. Um diário.

Não costumava deparar com um desses com muita frequência. Sentiu-se com sorte.

Guardou o diário em sua pasta.

Sua leitura para a hora de dormir.

 

O apartamento de Crystal Larabee ficava num prédio revestido de estuque dos anos 1960. Ela morava no segundo andar e Marge teve pena da pessoa que morava embaixo. Era assombrosa a quantidade de barulho que a moça conseguia fazer usando sapatos com plataforma de cortiça. Assim que os tirou, fazendo um barulho, Marge se deu conta de que Crystal era uma mulher bem miúda, com cerca de 1,52m. As bainhas do seu jeans arrastavam-se pelo chão. Ela desabou em seu sofá e jogou as pernas sobre uma mesa de centro de vidro.

— Que horas são? Quero ir dormir.

— Não está tarde mentiu Marge. Só ficaremos aqui por alguns minutos. — —

— Estou cansada — disse ela, com um bocejo.

A campainha da porta tocou.

— Quem está aí? — perguntou Crystal.

— Meu colega.

— O cara?

— Sim, o cara. Marge levantou-se e abriu a porta. —

— Este é o detetive Oliver. Ele trouxe o seu carro do Port Hole.

— Trouxe? — Crystal esfregou os olhos e notou uma mancha preta em seus dedos. — Tenho que lavar o rosto. — Correu a língua pelos dentes e fez uma careta. — Minha boca está nojenta. Não me sinto muito bem. Isso não pode ser em outro dia?

— Que tal se você lavar seu rosto, e eu faço um pouco de café? Disse Marge. Você tem — — pó de café, não tem?

— Sim.

— Então vou fazer um pouco de café, está bem?

— Como queira. Ela desapareceu, indo para um quarto. —

— Quanto de informação você acha que vamos tirar dela? — perguntou Oliver, revirando os olhos.

— Nesta altura, quero apenas o nome do sujeito com quem Adrianna estava flertando. Ou talvez ele estivesse flertando com ela.

Os dois detetives deram uma olhada no espaço em que Crystal vivia. O tapete não era aspirado havia algum tempo e as persianas estavam salpicadas de poeira. Viam-se exemplares das revistas Cosmo, People e Us espalhados pela mesa e pelo chão. A mobília era simples: sofá, um puff, mesas laterais, uma mesa de jantar e cadeiras, e uma televisão de tela plana sobre um suporte. Desarrumado, mas não imundo.

A cozinha era outra história: pratos na pia, bancadas pegajosas, areia no chão e uma lata de lixo transbordando embaixo da pia. Marge encontrou algum pó de café na geladeira e leite que felizmente ainda estava no prazo de validade. Preparou um bule de café forte, encontrou algumas canecas limpas — enxaguou-as, por via das dúvidas — e serviu uma xícara para Oliver e para si.

Crystal estava demorando a aparecer. Marge levantou-se do sofá.

— Vou ver o que está acontecendo.

Encontrou Crystal em seu quarto, só de calcinha e dormindo profundamente sobre seu edredom.

— Caramba. Marge lhe deu uma leve sacudida. Crystal, precisamos falar com você. — — — Outra sacudida. Acorde, querida. —

— O quê? — disse Crystal, abrindo os olhos.

— A noite passada, querida — disse Marge. — Precisamos falar sobre a noite passada.

— Eu estava no Port Hole.

— Não esta noite, Crystal, a noite passada. No Garage... onde você estava trabalhando.

— Tirei o dia de folga.

— Quero falar sobre Adrianna, Crystal disse Marge, sacudindo-a. Ela estava flertando — — com um homem no Garage. Quero falar sobre esse homem.

— Hum? disse Crystal, virando-se para encarar Marge. —

— Ontem à noite no Garage. Você estava servindo drinques gratuitos aos dois. Poderia se meter em apuros por isso.

Estas palavras chamaram a atenção de Crystal. Ela se sentou.

— Você vai contar alguma coisa?

— Não se conversar conosco disse Marge. Vista um roupão, venha para a sala, e nos — — deixe conversar com você por alguns minutos. Depois pode ir dormir.

— Certo. Crystal piscou várias vezes. Suas pálpebras, livres do peso esmagador do rímel, —

podiam se mover. Com o rosto limpo e sem maquiagem, parecia muito mais vulnerável.

— Vou sair daqui a pouquinho.

— Vamos esperar na sala de estar.

Um pouquinho foram 15 minutos, mas ela apareceu, e quando o fez, Marge lhe deu um copo de café.

— Beba.

Crystal obedeceu. Sua voz estava trêmula.

— Você não pode contar ao meu chefe... sobre os drinques. Ela esfregou os olhos com o —

punho direito. Se ele descobrir, vou ser demitida. —

— Por servir alguns drinques como cortesia? perguntou-lhe Oliver. —

— É que não foi... a primeira vez. — Outro gole de café. — Não é que seja lá uma grande coisa. Meu Deus, eles diluem a merda, de qualquer maneira. O que estou servindo como cortesia é principalmente água.

— Você é uma boa amiga — disse Marge.

Os olhos de Crystal encheram-se de lágrimas.

— Eu não esperava a Adrianna ontem à noite. Ela simplesmente apareceu, mas eu não devia ter ficado surpresa. Ela faz isso muito quando Garth não está por perto.

— Faz o quê?

Crystal pareceu refletir profundamente.

— Quando ele viaja, ela se sente solitária. Gosta de um pouco de companhia. Geralmente não vai ao Garage porque é caro... as bebidas são. Mas ela sabia que eu estava trabalhando e sabia que eu facilitaria as coisas para ela.

— Você conhece o cara com quem ela estava flertando?

— Não me lembro de conhecê-lo — disse Crystal. — Ele não é um frequentador habitual.

— Soube qual é o nome dele?

Ela fez um grande esforço para lembrar.

— Acho que ouvi alguém chamando o cara de Farley.

— Esse é o primeiro nome dele ou o sobrenome?

Ela deu de ombros.

— Como ele é fisicamente? perguntou Oliver. —

— Não sei. Altura mediana, peso mediano... ombros realmente grandes.

— Bonitão? perguntou Marge? —

— Não era dos piores.

— Tipo forte e atraente?

— Sim. Ombros enormes.

— Os dois estavam se entendendo bem?

Crystal tomou mais um gole de café.

— Talvez ele achasse que sim. Adrianna não estava muito a fim de transar naquela noite. Tinha que trabalhar.

— A que horas ela saiu do Garage?

— Por volta das dez.

— Farley pareceu irritado quando ela se levantou para ir embora?

— Não sei se esse era o nome dele, detetive.

— Vamos apenas chamá-lo assim neste momento. Ele pareceu zangado quando ela saiu do bar?

— De maneira alguma. Acho que eles até trocaram um aperto de mão.

— Poderiam ter planejado se encontrar mais tarde, depois do turno de Adrianna?

— Não sei. Ela terminou o seu café. Ela saiu e ele se aproximou de outras mulheres. — — Talvez tenha até saído com uma. E mesmo quando Adrianna “chega aos finalmentes”, não é sério. Ela é realmente vidrada pelo Garth.

— O que seriam os “finalmentes”?

Um grande suspiro.

— Para Adrianna, não é nada sério. Pelo menos na cabeça dela, mas vocês sabem como é... Valorize a pessoa com quem você está. Garth some várias vezes.

— Ouvi avaliações variadas sobre o namorado dela — disse-lhe Oliver.

— Ele é realmente um gato e sabe disso. Ele se aproveita dela.

— De que maneira?

— Está sempre pedindo dinheiro emprestado para ela. Acho que talvez ele tenha um problema. Posso tomar outra xícara de café?

— Vou pegar para você. — Marge foi à cozinha e preparou uma xícara de café fresco para a jovem. Ao voltar, perguntou: — Qual é o problema de Garth? Para mim, isso significa uso de drogas.

— Ele fuma maconha, mas não é disso que estou falando. Ele pede dinheiro emprestado para viajar nos fins de semana. Vai muito para Las Vegas.

— Ele joga disse Oliver. —

— Sim, isso, e talvez esteja pondo chifre nela.

— Talvez eles tenham um acordo disse Oliver. Ela põe chifre nele, ele põe chifre nela. — —

— Ela só põe chifre nele porque ele viaja o tempo todo. Crystal pensou por um momento. —

— Adrianna me contou que, às vezes, Garth tem um pouco de dificuldade no departamento amoroso. Ela põe a culpa na maconha que ele fuma... Ele fuma muito mesmo, mas eu fico achando que isso acontece com Garth porque ele faz sexo com outras pessoas.

— Então você está dizendo que Garth está basicamente explorando Adrianna.

— Talvez isso seja um pouco forte.

— Ele pede dinheiro emprestado a ela, fuma muita maconha, faz sexo com outras mulheres. O sujeito tem alguma coisa de positivo?

— É lindo.

— Estamos tentando entrar em contato com Garth disse Marge , mas ele viajou para — — fazer canoagem.

— Ah, tá bom! Crystal falou com desdém. Por coincidência, ele está fazendo canoagem — — perto de Reno.

— Realmente disse Marge. Como você sabe? — —

— Sou amiga de Greg Reyburn, um dos amigos de Garth. Ele me contou que iriam fazer canoagem, mas fariam também um desvio até os cassinos. Ele também me disse para não contar para a Adrianna.

— E você contou? — perguntou Oliver.

— Eu não ia contar, mas então ela pareceu tão solitária... Então, posso ter dito alguma coisa sobre Garth não ser totalmente honesto com ela e que ela devia se divertir e tirá-lo da cabeça. — Crystal olhou para o teto. Acho que isso foi um erro. —

Você acha?

— Como Adrianna reagiu? perguntou Marge. —

— Ela perguntou o que eu queria dizer. Eu contei que soubera que os garotos iriam também a Reno para repousar e relaxar um pouco. Ela perguntou como eu tinha sabido disso. Eu disse que tinha sido pelo Greg. Daí ela perguntou por que eu não tinha contado para ela. Eu disse que tinha falado para o Greg que não contaria. Aí ela perguntou por que eu tinha acabado de contar a ela. E eu disse que achava que ela devia saber a verdade para poder se divertir um pouco.

Os olhos de Crystal moveram-se rapidamente para a esquerda.

— Ela ficou furiosa. Contou que emprestara quinhentos dólares ao Garth porque ele tinha dito que iria fazer canoagem, não jogar. Se ela tivesse sabido que eles iriam para Reno, não teria emprestado o dinheiro, mas depois ela se levantou e começou a conversar com Farley, ou seja lá qual for o nome dele. Começou a rir e levantou o polegar para mim. Eu ainda me sentia culpada. Por isso servi alguns drinques como cortesia para eles.

— Garth parece ser um verdadeiro babaca — disse Marge. — Tem alguma ideia de por que ela não rompeu com ele há muito tempo?

— Como eu disse, ele é lindo. Mais bonito que Adrianna, para falar a verdade. E ela me contou que quando eles realmente transavam, ele era bom de cama. Então, talvez isso bastasse. Ou talvez ele fosse um acompanhante de encher os olhos, e isso fazia a Adrianna se sentir bem. Algumas meninas realmente gostam desse tipo de merda.

— Crystal, quero sua opinião sobre uma coisa disse Marge. Depois que você contou — — sobre a mentira de Garth, poderia ela ter ligado para ele e terminado o namoro?

— Não sei. Veja os registros no telefone dela.

— Fizemos isso disse Oliver. Ela não ligou para ele, mas ligou para duas pessoas — —

diferentes quando saiu do trabalho. Uma foi Sela Graydon. O outro número é um mistério para nós, mas sabemos que não é o do telefone celular de Garth.

— Talvez você possa nos ajudar a identificá-lo — disse Marge.

Quando leu os dígitos, Crystal sacudiu os ombros.

— Não conheço esse número. Não é o do Greg, com certeza. O que acontece quando vocês ligam para ele?

— A caixa postal está cheia, sem nenhuma identificação. Parece que a pessoa não checa as mensagens há algum tempo.

— Talvez essa pessoa tenha viajado para fazer canoagem disse Oliver. Que tal outro — — amigo de Garth... Aaron Otis?

— Não sei o número do celular do Aaron. Poderia descobrir para vocês. Tenho que ligar para algumas pessoas.

— Ótimo. Vamos esperar.

— Por que ela ligaria para o Aaron?

— Para entrar em contato com Garth.

— Por que não ligaria simplesmente para o Garth?

— Não sei, Crystal. Estamos apenas explorando todas as possibilidades neste momento.

— Vocês sabem, mesmo que Adrianna tivesse ligado para o Garth e rompido o namoro, não acho que ele iria se importar. Ele não era tão ligado nela assim, sabe.

— Ele poderia não se importar com ela, mas se importar com o dinheiro disse Oliver. —

— E a gente nunca conhece de verdade as pessoas, meu bem disse Marge. —

— É verdade. — Crystal pousou sua caneca. — É como o que eu aprendi em ciências lá no ensino médio... que energia útil... vocês sabem, energia que faz as coisas... ela quer se transformar em caos. Bem, isso é verdade com as pessoas também. Às vezes nós compreendemos as pessoas e tudo faz sentido, mas geralmente nós simplesmente fazemos uma cagada e tudo vira merda.