Carrasco
Capítulo 47
ENQUANTO DECKER ESPERAVA PARA EMBARCAR EM seu voo para Las Vegas, Marge lhe fez um resumo. Falava muito rapidamente, estava sem fôlego. Decker podia ouvir fortes inalações de ar enquanto ela falava.
— O negócio é o seguinte — disse ela. — Scott e eu estivemos investigando prédios, condomínios e conjuntos habitacionais o dia todo. Não encontramos nada, mas isso era o que esperávamos. Paramos por volta das seis horas, jantamos, e decidimos ir a dois conjuntos habitacionais baratos nas proximidades. Uma última tentativa. Eram cerca de sete horas da noite.
Decker olhou para seu relógio. Eram quase onze da noite.
— OK.
— Você tem de imaginar que estávamos no meio do nada. É uma área remota. Essas unidades específicas fazem fronteira com o deserto, e depois delas, são quilômetros de espaço vazio. Compra-se uma unidade nos conjuntos sem dar entrada e fazendo pequenos pagamentos mensais. Além disso, cerca de dois terços das casas ainda vão ser construídas. Scott e eu não vimos nenhum sinal de uma construção sendo erguida. Imaginamos que seria um lugar perfeito para um solitário sem muito dinheiro.
— Posso imaginar o que você está tentando dizer.
— Sim, e não é uma coisa boa. De qualquer jeito, há um escritório numa casa-modelo. Por pura sorte, havia uma mulher lá dentro. Veja, hoje é domingo e não há nada acontecendo. Ela nos disse que estava tarde e que já ia encerrar o expediente. Dissemos a ela que só precisávamos de alguns minutos. Perguntamos por Garth Hammerling. Nenhuma resposta. Em seguida, Oliver lhe mostrou as fotos de Garth que temos. O rosto dela se iluminou, mas tentou disfarçar, embora estivesse dando um tell que até um cego perceberia.
— Um tell como no pôquer, uma dica disse Decker. —
— Sim. Exatamente. Afinal, estamos em Las Vegas. Seja como for, pressionamos a mulher... o nome dela é Carlotta Stretch. — Marge soletrou-o. — Pressionamos Carlotta e ela admitiu que alguém que se parecia com Garth comprou uma casa no conjunto cerca de seis meses atrás. Não é espantoso?
— Muito espantoso.
— Sim. Exatamente. Mas tínhamos uns dois problemas. O sujeito que comprou a casa não se chamava Garth Hammerling. O nome dele era Richard Hammer. Scott e eu ligamos para nossos camaradas Lonnie Silver e Rodney Major e perguntamos a eles o que achavam. Eles são bons sujeitos. Vieram no mesmo instante. Carlotta queria ir para casa, mas continuamos segurando-a. Então conversamos e concluímos que com a identificação de Garth por Carlotta, qualquer pessoa sensata concluiria que Richard Hammer é Garth Hammerling. Mas ainda tínhamos alguns problemas. Primeiro, Garth ou Richard não estava devendo nada, e segundo, não tínhamos realmente nada contra Garth Hammerling a não ser o fato de estar desaparecido em circunstâncias peculiares.
— Portanto, vocês não tinham um bom motivo para entrar na propriedade.
— Sim. Exatamente.
— O que acha de perigo iminente?
— Foi a isso que todos nós chegamos. Garth e Mandy desapareceram mais ou menos no mesmo momento. Mandy quase morreu, portanto Garth poderia estar em apuros. Seria negligente não verificar a casa. Silver ligou para um juiz. Ele disse que não havia problema em entrar na casa e examiná-la, contanto que não destruíssemos o lugar. Nada de abrir gavetas ou coisas do gênero. Se víssemos alguma coisa bem à mostra, podíamos examiná-la. Fora isso, estávamos de pés e mãos atados. Eram cerca de oito horas da noite quando finalmente entramos. Tudo parecia bem. Vimos umas fotos de Garth, assim soubemos que estávamos no lugar certo. Ficamos morrendo de vontade de revistar as gavetas, ver se havia mais fotos dele e de Mandy mascarados, mas isso estava claramente além do permitido. Então concluímos: paramos por aqui.
— O embarque para o meu voo começou, Marge. Tenho provavelmente mais dez minutos antes de ter de entrar no avião.
— Vou resumir o mais rápido que puder. Então ficamos ponderando nossas opções. Deveríamos deixar um carro de polícia vigiando a casa, para o caso de Garth voltar? Mas então concordamos que qualquer idiota perceberia isso. Não há lugar para se esconder ali. Ainda estávamos ruminando ideias quando recebi um telefonema de Frieda Kowalski. Eu lhe contei que eles iriam tirar Mandy do coma induzido esta manhã, certo?
— Certo.
— Então Frieda me ligou, muito perturbada. Começou a me contar coisas enquanto ainda estávamos no conjunto, tentando planejar nosso próximo passo. Além disso, estávamos sob pressão para nos apressarmos. Carlotta Stretch queria fechar o escritório e ir para casa.
— O que Frieda lhe disse?
— Bem, lá vai. Os médicos começaram a tirar Mandy Kowalski do coma por volta das nove horas da manhã. No começo da noite, segundo Frieda foi por volta das sete, Mandy recobrou a consciência o suficiente para abrir os olhos e reconhecer a mãe. Ela sabia que estava num estado grave. Estava realmente agitada. Sua pressão sanguínea estava nas alturas, seus batimentos cardíacos a mil, e ela tremia como se estivesse tendo uma convulsão. Os médicos pensaram que talvez a tivessem tirado da sedação depressa demais. Ou talvez ela estivesse sentindo muita dor por causa das queimaduras. Porque, segundo sua mãe, ela estava se contorcendo em agonia.
— Isso é horrível.
— Cara, fiquei aliviada por não estar lá para ver isso. — Uma inalação profunda na linha. — Então Frieda começou a pedir analgésicos para a filha, mas antes que pudessem dopá-la de novo, Mandy começou a balbuciar palavras. A princípio, Frieda não conseguiu entender nada claramente, mas em seguida Mandy ficou se repetindo. Por fim, a mãe acha que ouviu a palavra “masmorra”.
— Ai, Deus!
— Sim, exatamente. Frieda teve a presença de espírito de repetir a palavra “masmorra” de volta para a filha. E isso realmente fez a pressão sanguínea de Mandy dar um salto. A moça ficou superagitada e os bipes recomeçaram. A enfermeira chegou correndo e estava prestes a misturar a medicação intravenosa dela com narcótico, mas graças a Deus Frieda estava lá. Ela deteve a enfermeira. As duas discutiram. Frieda queria que um médico administrasse a sedação. A enfermeira ficou ofendida e se afastou irritada e o médico foi chamado pelo pager.
— Parabéns para a mãe.
— Tem razão, porque antes que o médico pudesse chegar ao tubo de medicação intravenosa de Mandy, a mãe conseguiu entender mais algumas palavras: “masmorra”... “assassinato”. Depois Mandy começou a repetir, muitas vezes: “a menina, a menina, a menina.”
— Ai, meu Deus!
— Sim. Exatamente. Nessa altura, o médico chegou e ficou realmente irritado com Frieda. E Frieda ficou irritada com o médico e com a enfermeira. Assim todo o mundo ficou irritado com todo o mundo, e finalmente o médico dopou Mandy, ela se acalmou, e tudo ia bem. Eram cerca de sete e meia da noite nesse momento. Frieda estava finalmente calma o bastante para pensar. Ela decidiu que seria uma boa ideia me ligar e me contar o que Mandy dissera em seu delírio. Quando a busquei no aeroporto, dei a ela meu cartão, o número do meu celular e o número do celular do Scott. Ela decidiu me dar um toque.
— É espantoso que ela tenha tido a presença de espírito de ligar.
— Sim, e foi na hora H. Porque tudo isso estava acontecendo no exato momento em que Carlotta caminhava para seu carro, prestes a ir embora. Com as palavras “masmorra”, “casa”, “assassinato” e “a menina”, achamos que tínhamos um bom motivo para uma segunda busca, mais intensa. Scott correu atrás de Carlotta e a alcançamos no momento exato em que saía com o carro. Na verdade, ela quase o atropelou. Não consigo descrever como as coisas foram frenéticas.
— Posso imaginar. Marge, estou entrando no avião agora. Vou ter de desligar meu celular dentro de poucos minutos.
— Vou acelerar a história. Voltamos à casa e começamos a bisbilhotar. Nessa altura, estávamos tentando achar um alçapão ou uma parede falsa ou alguma coisa que pudesse indicar um aposento oculto. Não tivemos sucesso. Verificamos a garagem. Nada. Então eu estava do lado de fora, nos fundos, olhando em volta. Mas veja, esse não é um condomínio chique.
— Entendi.
— Todas as casas têm terrenos pequenos, com muros baixos de blocos de concreto para separar uma casa da outra. E você consegue ver o quintal do seu vizinho se olhar por cima do muro. Eu estava espiando os quintais dos vizinhos, imaginando que talvez Garth nos tivesse visto chegar e tivesse se escondido em uma das casas. Era a hora do desespero. Então notei por acaso que as duas propriedades vizinhas à de Garth, dos dois lados, tinham quintais pavimentados com lajes de cimento. O de Garth é pavimentado com tijolos. Pensei comigo mesma: “Por que alguém se preocuparia com essa melhoria aqui?” Depois olhei com mais atenção. É um quintal de tijolos, mas não há nenhuma argamassa ou cimento, Pete. São só tijolos pousados na areia, e os tijolos do lado direito não estavam tão bem assentados.
— Ai, meu Deus.
— Sim, é isso mesmo que você está pensando. Como Mandy tinha mencionado alguma coisa sobre uma menina, uma masmorra e assassinato, começamos a tirar os tijolos do lugar. Debaixo do pátio, cavada diretamente no chão, há uma... Uma pausa. Bem, algo como um abrigo — — antiaéreo. É feito de blocos de concreto com um alçapão fechado a cadeado. Rodney Major o arrebentou a tiro, abrimos o alçapão, e o fedor nos atingiu imediatamente. Há uma porra de uma fossa ali — escura como breu e fétida. Silver tinha uma lanterna. Peguei-a e me propus a descer primeiro. Eu tremia como gelatina. Você sabe como me sinto com relação a lugares escuros, confinados.
Decker sabia bem demais. Desde que salvara um grupo de crianças de um culto que usava túneis como rotas de fuga, Marge se tornara claustrofóbica.
— Bom trabalho, Dunn.
— Sim. Parabéns para mim. Porque além de ser pequena e escura, a masmorra realmente fede. Nesse ponto, eu estava sendo guiada por pura adrenalina. Saltei lá embaixo... são uns bons dois metros e meio. Um grande suspiro. Encontrei a menina, Pete. Estava nua, envolta em sacos — —
plásticos de lixo com uma ligadura em volta do pescoço. Por meus cálculos aproximados, a julgar pelo tempo que Mandy já tinha passado no hospital, ela estava daquele jeito havia pelo menos dois dias.
A voz de Marge ficara embargada.
— Tomei o pulso dela... não senti nada. Estava frio lá embaixo e ela parecia fria. Mas não gelada. Porém, não estava se mexendo. Supus que estava morta. Tipo, como poderia estar viva? Então mirei a luz nos olhos dela. Ela piscou!
Decker não conseguiu falar. Como conseguiria?
— Estava inconsciente, mas viva. Rasguei a ligadura do seu pescoço. Chamamos os paramédicos. Eles a tiraram dali e a levaram às pressas para o hospital. Neste momento, ela está em estado crítico. Não sabemos se vai sair dessa. Por enquanto, porém, continua entre os vivos. Como imaginar uma coisa assim?
— Não há como. Mandy sabe quem é ela?
— Mandy ainda está sob sedação. Vamos ter de esperar que o efeito passe para podermos falar com ela.
A porta do avião estava se fechando. Decker tinha cerca de trinta segundos.
— Você mencionou algo sobre um forte fedor. Há mais alguém lá dentro além da menina?
— Há dois outros corpos lá dentro em diferentes estágios de decomposição. Os investigadores da perícia criminal retiraram um corpo até agora. Ele está inchado e cheio de larvas, e grande parte da pele descamou. É medonho. E esse é o melhor dos dois.
— Que horror! Quanto tempo você acha que eles vão levar para limpar o lugar?
— Não sei, Pete. Eles ainda têm um cadáver para retirar. Depois disso, vão ter de trabalhar no ossário. Os corpos estavam sobre uma pilha de ossos.
* * *
Sem nada para obstruir o horizonte, o sol levantou-se em sua plena glória um disco quente —
e dourado pulsando com luzes. Às sete horas da manhã, as luzes exteriores que tinham permitido aos investigadores trabalhar durante toda a noite foram desligadas, embora as instaladas no interior do bunker continuassem a brilhar com toda a força. Foram necessárias muitas outras horas antes que o material biológico pudesse ser apropriadamente removido do túmulo de cimento.
Um alerta geral foi emitido para todas as delegacias, pedindo a prisão de Garth Hammerling, com sua descrição. A polícia de Las Vegas também fez folhetos e os enviou por fax não só para o Departamento de Polícia de Las Vegas, mas para a maior parte dos departamentos de polícia no estado de Nevada, com ênfase em Reno e no lado de Silver State do lago Tahoe. A polícia de North Las Vegas também enviou folhetos por fax para os clubes de pôquer do Sul da Califórnia e os cassinos em Atlantic City. Todos sabiam que aquilo era só o começo, pois havia milhares de cassinos indígenas e estabelecimentos de jogo offshore em todo o país. Decidir como abordar a situação era tão desnorteante quanto urgente. Após discutir o assunto, chegou-se ao consenso de que Garth não era exatamente um jogador. Ele gostava era do que acompanhava o jogo: mulheres fáceis que podia pegar, seduzir e depois assassinar.
A casa no deserto ganhou as manchetes. A procura por Garth Hammerling ampliou-se para uma caçada humana de âmbito nacional por um serial killer. Com sorte, ele seria capturado antes que sua compulsão de matar de novo se tornasse irresistível.
Na segunda-feira à tarde, exatamente uma semana após a abominável descoberta do corpo de Adrianna Blanc, Mandy começou a falar, embora de maneira instável. Eram tantas as perguntas que precisavam ser feitas por tantos detetives, que seriam necessários dias, senão semanas, para que toda a história viesse à tona.
Quatro dias depois que Mandy foi tirada de seu coma induzido, Decker estava num voo noturno da Southwest de volta para Burbank. Ao mesmo tempo, Marge e Oliver estavam na I-15 a caminho de casa. Os três ouviram uma história contada da perspectiva de Mandy. Decker juntara apressadamente uma história inacreditável: uma odisseia de assassinato e destruição que se prolongara por quatro dias. Havia lacunas e algumas coisas que não faziam sentido, mas havia uma narrativa que podia ser seguida do princípio ao fim. Ele escreveu o seguinte resumo enquanto voava de volta para casa.
Dez dias atrás, por volta das oito e meia da manhã, Mandy viu Adrianna bater o telefone quando estava num dos postos de enfermagem e enterrar o rosto nas mãos. Parecia tão transtornada que Mandy se aproximou para lhe perguntar qual era o problema. Adrianna começou a chorar.
Mandy estava surpresa por Adrianna ainda estar no hospital, porque o turno dela havia terminado às oito. Mas ela estava lá, e Mandy, sendo uma boa amiga, percebeu que ela precisava de ajuda. Disse a Adrianna para esperá-la na cantina do hospital. Registrou que estava saindo para um intervalo e apareceu na cantina dez minutos depois para conversar com a amiga.
Adrianna lhe disse que estava furiosa com Garth, suas intermináveis viagens que não a incluíam e sua atitude irritadiça em geral. Ela estava terminando a relação definitivamente dessa vez. Mandy parabenizou-a. Adrianna era boa demais para suportar as idiotices de Garth. Mas, depois, Adrianna se descontrolou. Durante a conversa dos dois por telefone, Garth lhe implorara que reconsiderasse. Ele disse que realmente a amava e provaria isso cancelando sua viagem a Reno e voltando só para conversar com ela. Adrianna disse a Mandy que não sabia o que fazer. Embora quisesse romper, havia uma parte dela que ainda o amava. Mandy, que estava fazendo o papel da terapeuta sensata, encorajou-a a permanecer firme em sua decisão.
Veio à tona muito cedo na entrevista, é claro, que Mandy tinha razões mais pessoais para desejar que Adrianna ficasse longe. A verdade é que Garth nunca tinha pretendido ir com seus amigos para as montanhas. Sua intenção o tempo todo era voltar para Los Angeles e fugir com Mandy por uns dias só os dois. —
Mandy estava apaixonada por Garth.
Mandy sugeriu que Adrianna precisava ir para casa e dormir. Adrianna queria ir para casa também, mas Garth estava chegando. Eles iriam se encontrar no hospital, por isso ela não podia sair. Mandy “ofereceu-se” para falar com Garth. Mais uma vez, disse a Adrianna que fosse para casa e deixasse suas emoções se acalmarem. Depois, com a mente mais clara, poderia conversar com Garth. Mas Adrianna insistiu em ficar e encontrar-se com o namorado.
Esse foi o primeiro erro.
Nesse momento, Mandy estava ficando agitada. Ela passara os últimos seis meses planejando esse encontro amoroso e estava intimamente enraivecida diante da perspectiva de ter que cancelar tudo. O momento escolhido por Adrianna não poderia ter sido pior. Ela passara dois anos tolerando a galinhagem de Garth. Desta vez, tinha decidido mostrar alguma firmeza e isso estava arruinando a escapada romântica de Mandy. Precisava se livrar dela. Não matá-la, disse-lhes Mandy. Isso nunca lhe passara pela cabeça. Mandy queria apenas que Adrianna fosse para casa e dormisse por muito, muito tempo.
Como Adrianna insistiu em continuar no hospital, Mandy sugeriu que ela fosse para um dos quartos vazios destinados a plantonistas e tentasse dormir por umas duas horas antes que Garth chegasse. Adrianna concordou. Então Mandy levantou os olhos e viu sua enfermeira-chefe olhando-a com cara feia na cantina. Deu-se conta de que tinha que agir rapidamente.
Mais que depressa, Mandy encontrou um quarto vazio para Adrianna. Tentou dar um calmante para que ela conseguisse dormir bem, mas Adrianna resistiu, dizendo que o calmante a deixaria apagada pelas 12 horas seguintes. Ela precisava apenas de algumas horas de repouso. Em vez disso, Mandy lhe deu uns dois comprimidos de um ansiolítico de ação leve. Isso a ajudaria a dormir, mas não a derrubaria pelo resto do dia.
Depois que Adrianna estava fora de cena, Mandy voltou para o trabalho, ruminando sobre como Adrianna estava arruinando a própria vida. Sabia que Garth suportava a amiga porque ela era sua galinha dos ovos de ouro. Mandy aceitava isso; Garth precisava de dinheiro. Mas não estava disposta a deixar que Adrianna estragasse seus poucos dias a sós com seu amante secreto. Garth chegaria ao hospital dentro de umas duas horas e tudo que Mandy queria era que Adrianna estivesse “indisposta”. Então ela teria apenas de dizer a Garth que Adrianna fora embora e não queria ser procurada. Os dois poderiam seguir adiante com sua fuga planejada. Garth provavelmente voltaria para Adrianna, mas pelo menos eles teriam seu tempo a sós.
Como trabalhava numa UTI, Mandy decidiu derrubar Adrianna com um forte relaxante muscular usado em cirurgia chamado Pavulon. A droga, cujo nome genérico é pancurônio, é usada para promover paralisia muscular e é administrada antes que o paciente seja ligado a um ventilador pulmonar. A paralisia muscular costuma acontecer dois a quatro minutos após a administração, e os efeitos clínicos duram em geral cerca de uma hora e meia. A completa recuperação em adultos saudáveis costuma ocorrer duas a três horas mais tarde.
Decker tinha alguma familiaridade com o Pavulon porque ele tinha sido um dos medicamentos preferidos do serial killer Efren Saldivar, que era terapeuta respiratório. Ele havia usado Pavulon para assassinar seus pacientes numa matança que se prolongara por uma década quando ele trabalhava no Glendale Adventist Medical Center, cerca de 15 quilômetros de onde Decker trabalhava e morava. O caso local ficou conhecido e ganhou destaque em noticiários nacionais. Havia sido uma história que se arrastara por muito tempo, que incluiu confissão, retratação e exumação de corpos. O mais importante era que Decker sabia que a droga não era detectada num exame toxicológico de rotina.
Enquanto Adrianna dormia, Mandy, enfermeira hábil, dona de um toque delicado, injetou-lhe o medicamento no pescoço. O perito criminal não percebeu isso porque a ligadura do cabo rompera parte da pele e obscurecera o ferimento provocado pela picada. Quando Garth chegou, Mandy deu desculpas, mas Garth não as engoliu. Quando ele se tornou ameaçador, ela finalmente confessou que Adrianna estava dormindo em um dos quartos do plantão.
Ele estava ameaçador de que maneira? Decker lhe perguntara.
Não ameaçador... ela havia sussurrado… apenas ele sabia algumas coisas embaraçosas sobre ela. Com essa confissão, o monitor de Mandy começara a apitar. Sua pressão sanguínea começou a subir muito e os enfermeiros foram correndo lhe dar assistência. Mandy havia falado o suficiente para o dia.
Fim da entrevista.
Decker voltou no dia seguinte. Levou algum tempo para chegar de volta ao ponto em que tinham interrompido a entrevista, mas finalmente ele conseguiu que Mandy lhe desse a informação necessária que Garth a levara a admitir que ela havia nocauteado Adrianna com —
Pavulon.
Mandy continuou a saga.
Depois que ela confessou que Adrianna ainda estava no hospital, Garth insistiu que os dois fossem ao quarto do plantão para despertá-la. Nessa altura, duas horas haviam transcorrido e os efeitos do medicamento deviam estar desaparecendo, mas quando eles tentaram acordá-la, Adrianna não reagiu. Na verdade, parecia estar morta.
Mandy entrou num pânico total. Garth acalmou-a e disse que iria ajudá-la. Disse-lhe que a melhor maneira de lidar com a situação era fazer com que parecesse que Adrianna tinha sido assassinada. A princípio, Mandy ficou horrorizada. Eles tinham de ir à polícia e explicar o que havia acontecido que fora um acidente. Mas Garth disse que eles a indiciariam por assassinato —
premeditado e foi aí que ela realmente se descontrolou. Quando ele lhe propôs uma saída, ela a aceitou. Ele explicou seu raciocínio.
Adrianna estava morta. Nada do que pudessem fazer a traria de volta. Se ela fosse “assassinada”, eles dois teriam álibis e seriam inocentados de qualquer delito. O álibi dele seria estar fora, acampando com os amigos. Aaron e Greg poderiam lhe dar cobertura. A desculpa dela era estar no seu turno de trabalho.
A primeira coisa que eles precisavam fazer era tirar o corpo do hospital. Eles a enfiaram num saco plástico de lixo duplo, e quando fizeram isso, o cartão de Chuck Tinsley caiu no chão. Mandy apanhou-o e ambos se deram conta de que era um cartão que algum cara dera a Adrianna. O cartão tinha o nome dele, sua ocupação empreiteiro , seu endereço residencial, e no verso — — estavam o número de seu celular e o seu endereço de trabalho uma casa perto do hospital. Ler —
o cartão pareceu deixar Garth irritado. Mandy achou que isso era bom. Quanto mais irritado ele estivesse com Adrianna, mais a ajudaria a descartar o corpo.
Junto com o corpo de Adrianna, enfiaram outros lixos no saco plástico papéis jogados fora —
e coisas semelhantes — para o caso de alguém perguntar o que havia no saco e eles terem de abri-lo.
Mas ninguém os questionou quando arrastaram o saco de um lado para outro na plataforma de embarque destinada a veículos de emergência. Garth parou seu carro junto à plataforma, abriu o porta-malas e colocou o saco de lixo. Disse a Mandy que ligaria para ela e os dois se encontrariam mais tarde. Mandy nunca sequer pensou sobre as câmeras de segurança na plataforma — um grande lapso que levou a polícia a olhar na direção certa.
Quando o assassinato de Adrianna chegou aos noticiários que o corpo fora encontrado —
pendurado num caibro , Mandy soube o que acontecera. Garth deixara o corpo de Adrianna no —
endereço que estava no cartão, pondo o foco sobre Chuck Tinsley. Quando Tinsley não foi imediatamente chamado para depor, os dois imaginaram que alguma coisa dera completamente errado.
Decker levantou os olhos de suas anotações. A sorte interviera. Chuck Tinsley tinha sido o primeiro a chegar ao canteiro de obras e topara com o corpo. Ele encontrara seu próprio cartão no bolso dela e o furtara para que a polícia não soubesse que estivera com Adrianna na noite anterior. Decker voltou às suas anotações.
O dia seguinte foi terça-feira. Garth e Mandy hospedaram-se num hotel enquanto calculavam seu próximo passo. Na quarta-feira, as coisas estavam ficando fora de controle. Eles precisavam sair de Los Angeles. Precisavam pensar sem ter a polícia atrás deles. Garth disse que tinha uma casa em Las Vegas. Poderiam ficar escondidos lá.
Os dois pegaram a estrada.
Desse ponto em diante, tudo ficava confuso na mente de Mandy. Eles passavam os dias e as noites fazendo sexo, bebendo e usando e drogas. De algum lugar no fundo de sua mente, veio-lhe a lembrança de que Garth levara para a casa uma menina uma fugitiva. Os três se drogaram e —
Mandy se lembra de que Garth fez sexo com a menina. Depois as coisas ficaram realmente fora de foco. Mandy lembrou-se de que a menina desaparecera... mas não de que fora assassinada. Simplesmente fora embora. Ela também não tinha nenhuma lembrança de seu acidente de carro.
Estava tudo muito bem, pensou Decker, mas havia alguns buracos importantes, grandes o bastante para que um elefante os atravessasse. Isto é, Crystal Larabee.
Ela ficara ainda mais confusa com relação à morte de Crystal do que com relação ao que acontecera em sua fuga. Garth foi inicialmente à casa de Crystal apenas para lhe perguntar pela investigação sobre Adrianna. Quando Crystal lhe disse que os policiais estavam atrás dele, ele ficou realmente apavorado. Depois Crystal começou a falar sobre o cara com quem Adrianna estava conversando no Garage. Disse a Garth que o sujeito lhe parecera uma figura suspeita e que ele dera em cima dela depois que Adrianna saíra do bar. Crystal tinha a impressão de que ele provavelmente tinha algo a ver com o assassinato de Adrianna. Não era preciso ser um gênio para descobrir que Crystal estava se referindo a Chuck Tinsley.
Foi então que Garth teve uma ideia brilhante. Pensou que se Crystal fosse encontrada assassinada, isso realmente iria apontar o dedo para Chuck Tinsley. Tinsley tinha conversado com as duas mulheres e agora ambas eram encontradas mortas. Então, Garth matara Crystal. Simplesmente.
Embora Mandy lamentasse por Crystal, não sentia nenhuma culpa. Ela não sabia do plano de Garth e não estava lá quando as coisas aconteceram. A morte de Crystal não era sua culpa. E ela não parecia sentir muita culpa por Adrianna, tampouco. Mandy apressava-se em ressaltar que a coisa toda isto é, a morte de Adrianna não passara de um terrível “acidente”. — —
No entanto, ali estava Mandy, envolvida numa trama que iria certamente terminar com sua condenação a cumprir uma pena, talvez prisão perpétua. Por que ela concordara com os planos de Garth? Como ele a convencera em participar de coisas tão terríveis?
— Ele iria... me expor ela lhe disse. —
O monitor da pressão sanguínea apitou ruidosamente. Decker sabia que não poderia trabalhar por muito mais tempo.
— Mas você sabia que isso viria à tona, Mandy. Que vocês deram Pavulon a Adrianna. Por que agravar o seu erro? Por que não ir à polícia, simplesmente? Esse foi o seu primeiro instinto, e ele era bom.
— Não era só Adrianna — ela gemeu. — Era a outra... ele iria me expor.
— Você se refere às fotos de você com roupa de couro?
Os bipes do monitor da pressão sanguínea recomeçaram. Ela ficou em silêncio.
Decker fez uma adivinhação lógica.
— E havia vídeos de sexo também.
— Ele iria... me expor.
A enfermeira entrou. Mais uma vez, ele foi solicitado a sair.
Decker iria voltar para Los Angeles dali a algumas horas. Seria naquele momento ou só muito tempo depois. Ele perguntou:
— Quem fez as fotos e o vídeo, Mandy? Isso poderia ajudar seu caso mais adiante. É importante que saibamos.
— Crystal Larabee sussurrou Mandy. A vadia... — —