Carrasco
Capítulo 15
CAMINHANDO PENOSAMENTE PARA A COZINHA COM uma trouxa de roupas debaixo do braço, Gabe sentia-se acabado. Apesar de seus melhores esforços, não conseguira dormir e desistira às seis da manhã. Ficou surpreso ao encontrar sra. Decker em plena atividade. Ela vestia uma saia de algodão e uma camiseta de mangas compridas e tinha a cabeça coberta com um lenço. Hannah lhe explicara que mulheres judias ortodoxas casadas se vestiam com recato.
Um pouco diferente daquilo a que ele estava acostumado.
As mães de seus amigos eram papa-anjos, vestidas com camisetas regatas e minissaias ou jeans justíssimos. De vez em quando usavam vestidos tão justos quanto uma segunda pele. Todas tinham silicone nos seios. Todas usavam cabelo comprido e rebocavam a cara com maquiagem. A ideia era seduzir o maior número de adolescentes que pudessem. Ele sempre era o troféu entre troféus por ser o filho de Donatti. Elas tentavam e tentavam, e ele rejeitava e rejeitava.
Elas o chamavam de bicha, mas não na sua frente.
A sra. Decker deu-lhe um alegre bom-dia, aliviando-o da trouxa que carregava. Era ótimo estar perto de uma mulher mais velha que não estava tentando agarrá-lo. Ele estava de péssimo humor — furioso, abandonado, enjoado — e queria acertar em alguma coisa. Simplesmente arrebentar o que estivesse no seu caminho. Em vez disso, decidiu que era mais proveitoso lavar suas roupas malcheirosas quando pensava que não haveria ninguém de pé.
— Realmente não tem problema, sra. Decker. Lavo roupa toda hora.
— Eu também. — Mais um sorriso. — Gabe, você parece exausto. Gostaria de ficar dormindo esta manhã e deixar que eu leve você para o colégio à tarde?
— Vou ficar bem, mas obrigado.
— Está com fome?
— Não muita. Silêncio. Talvez eu vá só descansar por meia hora. — —
— É uma boa ideia.
— Certo. — Ele fez uma pausa. — Obrigado por me receber e por tudo.
— Está tudo bem. As camas estão ficando vazias, de qualquer maneira.
— Quantos anos têm os seus filhos?
— Vinte e poucos. Meu filho mais velho, Sammy, está se formando em medicina e fará a residência em Nova York. Não sei do Jacob. Ele se formou em bioengenharia, mas trabalha prestando assistência jurídica como voluntário. Ele sempre fez o que queria.
Gabe assentiu com a cabeça.
— Entendi... De qualquer maneira, obrigado de novo.
Nesse momento, Decker entrou. Olhou para o menino.
— Você se levantou cedo. Ou talvez simplesmente não tenha dormido.
— Estou bem. Um silêncio desajeitado. Acho que vou deitar um pouco. — —
— Tem certeza de que não quer dormir até mais tarde? — Rina perguntou-lhe.
— Não posso. — Abriu um sorriso genuíno. — Ordens do tenente.
— Você sabe que existe um posto acima do de tenente disse Rina. Chama-se esposa. — —
— Obrigado, mas vou ficar bem. Vejo vocês logo mais. Gabe saiu da sala, sabendo que —
assim que se afastasse, eles estariam decidindo o seu destino.
— O café está cheirando bem. Decker sentou-se à mesa da cozinha. —
— Para sua sorte, fiz o bastante para nós dois. Ela lhe entregou uma xícara fumegante. O — — que quer de café da manhã?
— Que tal um cérebro que funcione? — Ele deu uma tapa na própria testa. — O que eu estava pensando, me envolvendo com Terry daquela maneira? Burro, burro, burro.
— Você não poderia deixar que ela se atrapalhasse, Peter. Às vezes precisa se envolver. E não é bom que tenha feito isso? Sua consciência está tranquila e Gabe tem um lugar para ficar. — Ela se sentou ao lado dele. Já contei para você que os meus pais acolheram uma amiga minha quando —
eu tinha 15 anos?
— Não, não contou. Como foi isso?
— Eu tinha essa amiga. O pai dela morrera havia muito tempo e a mãe se suicidou quando eu a conheci. Ela tinha um irmão mais velho e uma irmã mais nova. O irmão vivia sozinho e a irmã mais nova foi mandada para viver com alguns parentes, mas a do meio, a minha amiga, não tinha para onde ir. Perguntei a meus pais se podiam recebê-la.
— E o que eles disseram?
— Sim, sem um minuto de hesitação. Ela morou conosco durante um ano. Depois foi de volta para o Leste por dois anos. Mais tarde voltou e viveu com meus pais por mais seis meses depois que me casei. Não era fácil tê-la em casa. Por vezes eu ficava furiosa com meus pais por concordarem em hospedá-la, ainda que eu mesma tivesse pedido. De vez em quando, eu tinha impressão de que meu espaço havia sido invadido, mas nunca me arrependi de ter pedido. E meus pais fizeram isso porque eram pessoas maravilhosas e provavelmente, sendo sobreviventes do Holocausto, sabiam o que era estar perdido.
— O que aconteceu com a menina?
— Por mais estranho que pareça, não sei. Perdemos o contato. Ela se chamava Julia Slocum. Não era nem judia. Eu a conhecera na aula de arte depois da escola, quando tínhamos uns 12 anos. Logo nos tornamos amigas, porque ela era engraçada e inteligente e estava sempre rindo. As coisas deviam ser muito difíceis para ela, mas nunca deixava transparecer.
— Seus pais são o máximo.
— São mesmo. Rina fez uma pausa. Sei que ela se casou e teve filhos. Não sei nada além — — disso e acho que nunca fiquei curiosa o bastante para procurar saber mais. Foi uma amizade durante aquela época. Meus pais se sentiram moralmente obrigados a ajudar e ajudaram.
— Sei o que está querendo dizer.
Ela lhe segurou a mão.
— Você fez a coisa certa ao se envolver. Rina fez uma pausa. Agora passemos ao — — problema que nos ocupa. O que você quer fazer com o menino?
— Devolvo a pergunta para você, querida. O que quer fazer?
— Há duas soluções: uma solução rápida de curto prazo e uma solução de longo prazo, mais permanente. A de curto prazo é ficarmos com ele aqui e esperar que sua situação se resolva por si mesma... que sua mãe ou pai ou ambos apareçam e o levem para casa.
— Parece bom. Quanto tempo se passa antes que a solução rápida de curto prazo se torne um problema de longo prazo?
— Eu diria um mês.
— E se ainda estivermos na mesma situação após um mês?
— Nesse caso, eu diria para esperarmos pelo menos até que o ano escolar termine. E então reavaliamos.
— Nessa altura, estaremos num estágio um pouco avançado do jogo para tirar o menino da nossa casa.
— Então obviamente não vamos expulsar o Gabe daqui, mas pode haver outras possibilidades. Aposto que ele tem dinheiro. Talvez possa se tornar legalmente emancipado.
— Não aos 14 anos.
— Não, não aos 14 anos. Mais provavelmente aos 16 ou 17. Se ele quisesse morar em sua própria casa, como o pai dele fazia, poderia. Ou poderia passar metade do dia com a tia, metade conosco. Não sei qual seria a solução. Podemos até não ir tão longe. Poderia acontecer que detestasse isto aqui e fosse embora, não sabemos para onde. Vamos levar isto adiante por algum tempo e ver o que acontece.
— O que você vai fazer com relação aos estudos dele? Ele não é judeu.
— Tenho que conversar com a escola. Prefiro que frequente a escola de Hannah a mandá-lo para uma escola pública. Há mais controle na qualidade do ensino. Obviamente ele não vai assistir às aulas de religião, mas não acho que seria muito complicado deixá-lo levar adiante seus estudos seculares até o fim do ano.
Decker não disse nada.
— Em que está pensando? perguntou-lhe Rina. —
— Ainda estou pensando no longo prazo, Rina. Eu estava esperando ansiosamente pela aposentadoria, por netos e por viagens depois que Hannah fosse para a faculdade.
— Tenho certeza de que a tia ficaria com ele sempre que nos ausentássemos. E quantas viagens você vai querer fazer com um neto vindo aí?
— A questão não é essa. Se ele quiser ficar conosco, serão mais três anos educando uma criança. Significa acolher um adolescente cheio de problemas. Você é jovem, mas eu não.
— Aonde você for, eu vou, companheiro. Temos de estar muito unidos nesta decisão, porque ela é muito importante. No entanto, não se trata de uma decisão que precisamos tomar de imediato. Assim, vamos apenas dizer a ele que pode ficar aqui até que as coisas se acomodem. Ele precisa sentir que tem alguma estabilidade. O resto nós resolveremos depois.
— Vamos incluir Hannah nessa decisão?
— A vida dela será afetada, mas acho que a decisão é apenas nossa. Rina beijou-o na testa. —
— Quer ler o jornal?
— Como se eu não estivesse deprimido o bastante. Mas ele pegou o jornal de qualquer —
maneira, lendo sobre um mundo muito menos organizado que sua própria vida. Cinco minutos depois, Gabe voltou à cozinha.
— Olá — disse Rina. — Você foi rápido.
— Estou um pouco nervoso.
— Compreensível. Quer algumas torradas?
— Ainda tem café?
— Tem. Sente-se. Talvez você possa animar o tenente. Ele parece um pouco chateado esta manhã.
— Você me deu o jornal disse Decker entre dentes atrás do jornal. Como eu deveria me — — sentir depois de ler todas estas notícias deprimentes?
— Você é muito sensível — disse-lhe Rina. — Sente-se, Gabe. Coma um pouco de cereais. — Ela colocou uma tigela de cereais diante dele. — Coma.
Alguns minutos depois, Hannah entrou na cozinha, com olhos sonolentos e semivestida em seu uniforme escolar. Estava com uma saia azul, mas ainda vestia a blusa do pijama. Olhou para Gabe.
— Você ainda está aqui.
Uma afirmação, não uma pergunta.
— Desculpe-me por isso.
Hannah sentou-se.
— O que aconteceu?
— Meu pai não apareceu disse Gabe. Grande choque. — —
— Você pode ficar aqui, se quiser. — Ela olhou para os pais. — Quero dizer, não tem problema, certo?
— Vamos conversar sobre isso um pouco mais tarde — disse Gabe.
— Você pode ficar aqui, Gabe — disse Rina. — O tenente e eu já conversamos sobre isso. Nesse meio-tempo, vamos matricular você na escola de Hannah.
— Coitado de você disse Hannah. Vai para a minha escola e nem é judeu. — —
— Não se sinta pressionado a ficar, Gabe disse Decker. A decisão é sua. Estamos aqui — — para apoiar você. Pense sobre isso e diga-nos o que é melhor para você.
— Estou bem aqui. Gabe tirou os óculos e esfregou seus olhos vermelhos. Gosto daqui. — — Muito, muito obrigado.
Decker levantou-se da mesa.
— Vejo vocês todos à noite, contanto que a boa gente de meu distrito se comporte.
— Tchau, Abba. Amo você.
— Eu também amo você, querida. — Ele beijou o cabelo ruivo da filha. — Dirija com cuidado. Ah, e talvez você queira trocar de blusa.
— Haha.
— Preciso verificar algumas coisas no meu computador antes de ir para o trabalho. Rina —
deu um beijo na filha. Vejo vocês dois mais tarde na escola. Dirija com segurança. —
— Tchau. Depois que seus pais saíram, Hannah virou-se para o menino. Você está bem? — —
— Cansado, mas estou bem.
— Que pena quanto ao seu pai.
— De verdade, é melhor assim. Conheço seu pai há dois dias e gosto bastante dele, muito mais que do meu próprio pai.
— Ele é um cara legal... meu pai.
— Você tem realmente muita sorte, por ter uma mãe e um pai normais e irmãos e uma irmã e um jantar normal e todos esses tipos de coisas normais.
— Tenho sorte. Amo minha família, mas não somos normais, Gabe, porque não existe isso de família normal. — Ela chegou sua cadeira mais perto dele para que pudesse baixar a voz, evitando que a mãe a ouvisse. — Minha irmã é do primeiro casamento de meu pai, meus irmãos são do primeiro casamento de minha mãe. Minha mãe e seu primeiro marido se casaram quando ela tinha só 18 anos. Depois ele morreu de um tumor cerebral quando meus irmãos eram muito pequenos. Meu pai os adotou. Na verdade, meu pai é adotado. Meus avós do lado dele são batistas realmente religiosos que provavelmente acham que eu vou para o inferno porque sou judia, mas eles me amam e eu amo os dois, e vovó Ida faz as melhores tortas de todo o mundo. O irmão do meu pai, tio Randy, foi casado umas três ou quatro vezes. Os pais da minha mãe são sobreviventes do Holocausto, então há sempre esse fantasma rondando. O irmão de minha mãe vive em Israel e é um fanático religioso. O outro irmão dela é médico e ele e minha tia são legais. Os dois primeiros filhos deles são médicos também, mas o mais novo tem entrado e saído de clínicas de reabilitação desde que tinha 16 anos. Se eu escavasse mais fundo, provavelmente iria arrancar mais patologia. — Ela sacudiu os ombros. — Perdão por desapontá-lo, mas no que diz respeito à nossa família, você vai se encaixar muito bem.