Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 4 de 50

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Carrasco

Capítulo 4

 

 

REINOU O SILÊNCIO NO CARRO A caminho de casa, o menino olhando para fora pela janela do carona, parecendo um cãozinho abandonado. Rina nem sequer se deu ao trabalho de tentar puxar conversa. Precisava de toda a sua energia para dirigir o Porsche de Peter. Ele tinha turbinado o motor para Deus sabe quantos cavalos, e a embreagem requeria força. Felizmente, a maior parte da viagem foi feita em uma autoestrada vazia e em uma única marcha.

Assim que ela estacionou na entrada da garagem, o garoto saltou do carro como um gato engaiolado finalmente posto em liberdade. Sua bagagem era uma mochila que ele carregava por uma alça só, um laptop e uma pequena bolsa de lona. Ele era alto para sua idade, com pernas compridas e magras. Sua calça mal se mantinha nos quadris inexistentes.

Rina enfiou a chave na fechadura da porta da frente.

— O tenente Decker e eu temos quatro filhos, mas só nossa filha ainda mora conosco. Tem 17 anos. — Ela abriu a porta da frente e gritou um alô. De dentro do quarto, Hannah respondeu.

— Temos companhia — disse Rina. — Você poderia aparecer por um momento?

— Agora?

— Está tudo bem disse Gabe, encolhendo-se. —

Rina tentou parecer tranquilizadora quando Hannah irrompeu na sala muito irritada, de pijama e roupão. Os dois adolescentes tomaram conhecimento um do outro com uma olhadela.

— Hannah, este é Gabe Whitman. Ele vai ficar conosco esta noite. Você poderia lhe mostrar o quarto dos seus irmãos e fazer a cama?

— Posso fazer isso disse Gabe, com as bochechas coradas. —

— Hannah também pode — disse Rina.

— Farei isso — disse Hannah, dando de ombros. — Você quer comer alguma coisa? Eu ia pegar umas cerejas para mim. Quer dar uma olhada na geladeira?

— Hum... Com certeza. Gabe seguiu-a até a cozinha e tudo ficou resolvido. —

Por vezes, o aconselhamento entre iguais é muito superior aos melhores cuidados maternos.

 

Depois de lavar as cerejas, Hannah lhe deu um punhado em uma tigela de papelão. Estas —

estão realmente boas. Acho que minha mãe comprou na feira dos produtores.

— As frutas e hortaliças são realmente boas por aqui.

— Por aqui? De onde você é?

— Nova York.

— A cidade?

— Do subúrbio. Ele estudou sua fruta. Você conhece Nova York? — —

— Tenho muitos amigos lá. — Ela mordeu uma cereja e cuspiu o caroço. — E meu irmão estuda na Einstein Med School.

— Minha mãe trabalhou no Mount Sinai durante algum tempo. Ela é médica emergencista.

— Você se interessa por medicina?

— Nem pensar. O garoto finalmente escolheu uma cereja e comeu-a. Sabe, sou — — perfeitamente capaz de arrumar minha cama.

— Por mim, tudo bem. Posso perguntar por que está aqui?

— Minha mãe sumiu... Está desaparecida. Acho que seu pai está procurando por ela. Ele disse que era ilegal eu ficar sozinho em um hotel, por isso se ofereceu para me receber por uma noite.

— Isso é a cara do meu pai.

— Ele é um cara bacana?

— É um cara muito bacana — disse Hannah. — Tem um jeitão de policial, mas tem um coração mole. Minha mãe é ainda mais mole. Eles são uns bananas. Quer alguma coisa para beber?

— Não, obrigado. Eu deveria provavelmente ir para a cama. Deixou as frutas na bancada. —

— Obrigado pelas cerejas. Acho que não estou com tanta fome.

— Vai conseguir dormir?

— Provavelmente não.

— Vou mostrar para você como mexer na TV. Ela é um pouco diferente porque é da Idade da Pedra. Faz algum tempo que meus irmãos estão fora de casa. Em que ano você está?

— Eu estava no primeiro ano. Faz pouco tempo que minha mãe e eu nos mudamos para cá, então não tenho ido à escola.

— Então você tem 15 anos?

— Faltam quatro meses. Muita gente pensa que sou mais velho porque sou alto.

— Sim, comigo é a mesma coisa, mas não me importo. Ela saltou da bancada. Venha — — comigo. E tente não se preocupar demais com a situação. Meu pai pode ser um molenga comigo, mas é realmente durão quando se trata de trabalho policial. O que quer que tenha acontecido, ele vai até o fundo.

— Isso é bom. Gabe sorriu debilmente. Só espero que quando ele chegar lá, o fundo não — — desabe.

 

O primeiro telefonema de Decker foi para sua detetive favorita, a sargento Marge Dunn.

— Estou com um problema aqui. Uma ajuda seria útil.

— O que está acontecendo? — Na respiração seguinte, ela disse: — Tem alguma coisa a ver com Terry McLaughlin?

— Ela desapareceu. Depois de explicar a situação, Decker disse: Ela tem uma irmã e um — — pai na cidade. Já liguei para a irmã dela, Melissa, e informei-a do problema. Faz alguns dias que ela não tem notícias de Terry. Ela também me disse para não me incomodar com o pai. Os dois mal mantêm relações cordiais.

— Ela pareceu preocupada?

— Sim, pareceu. Disse-me que Terry jamais deixaria Gabe sem uma boa razão. Eu lhe falei que a manteria atualizada. Quanto a encontrar Donatti, liguei para todos os números dele que tenho e deixei mensagens. Não deu em nada. Ele possui alguns bordéis em Nevada. Consegui falar com uma recepcionista que me disse que Chris chegaria até amanhã à tarde.

— Isso não significa nada.

— É claro. Telefonei para o Departamento de Polícia de Elko e pedi que me comuniquem quando ele chegar à cidade.

— Eles estão cooperando?

— É difícil saber. Os bordéis rendem uma dinheirama, de modo que é possível que o departamento não esteja ansioso para entregar um dos seus. Estou tentando reconstituir os passos de Donatti a partir do momento em que chegou a Los Angeles. Estou verificando companhias aéreas comerciais, empresas de fretamento de jatos particulares. E empresas de aluguel de carros. Ele tem de estar dirigindo alguma coisa, mas não tive nenhuma sorte com isso.

— Você deu uma busca no hotel?

— Ainda não. Se as coisas tomarem esse rumo, vou ligar para a delegacia de West Los Angeles. É o distrito deles. Por enquanto, gostaria de lidar com isso eu mesmo... com uma pequena ajuda.

— Estou a caminho.

— Voltei do jantar para o hotel... Dei meia-volta assim que o garoto ligou. Não estou com nenhum de meus equipamentos ou sacos para coleta de evidências.

— Alguma coisa está errada?

— Não, tudo parece estar praticamente como deixei. Há um copo que eu gostaria de recolher.

— Vou levar o material.

— Só consigo pensar em duas razões pelas quais Terry teria ido embora sem avisar ao filho. Alguma coisa a assustou ou ela teve um revólver apontado para a cabeça. Pegou a bolsa, as chaves e o carro, mas deixou para trás um maço de dinheiro e suas joias.

— Ai, isso não parece muito bom. Você não disse que o encontro deles tinha corrido bem?

— Pensei que tivesse, mas Donatti é imprevisível. — Decker deu o endereço do hotel a Marge. — Você vai levar cerca de quarenta minutos, se o trânsito estiver bom.

— Onde está o menino?

— Está com a Rina. Vou mantê-lo em nossa casa por esta noite.

Houve uma pausa.

— Você não está ficando um pouco envolvido demais?

— Olha só quem fala retrucou Decker. Se você não tivesse adotado Vega depois da ruína — — de Father Jupiter, ela teria ficado sob a custódia do Estado e sido incluída no programa de acolhimento familiar do Estado. Provavelmente teria se tornado uma delinquente, engravidado dez vezes, se viciado em drogas e se transformado numa prostituta. Em vez disso, você se envolveu demais e agora Vega está quase terminando sua dissertação para um PhD em astrofísica. Portanto, diga-me se estou errado ao ficar um pouco envolvido demais.

Houve uma longa pausa na ligação. Em seguida, Marge perguntou:

— Foi um dia difícil, Pete?

— Um pouco desafiador.

— Logo estarei com você.

— Quanto antes, melhor.

 

Marge chegou com os equipamentos, os sacos e as luvas. Ela engordara um pouco no último ano, mas a maior parte do peso era músculo. Com 1,78m, era uma mulher de 61 anos enxuta e que fazia exercícios na academia como parte de sua rotina diária. Seu rosto tinha linhas na testa e leves rugas se entrecortavam nos cantos de seus olhos castanhos. O cabelo louro — antigamente castanho claro estava amarrado em um rabo de cavalo e ela exibia um brinco de pérola em cada —

orelha. Vestia calça esporte cinza e um suéter preto e calçava sapatos de sola de borracha nos pés.

— Obrigado por vir disse Decker. —

— Alguém tem de levar você para casa respondeu Marge. —

Os dois levaram mais de três horas para fazer uma busca preliminar no hotel, indo primeiro ao bar e ao restaurante, depois percorrendo quarto por quarto e finalmente checando o spa, as áreas de armazenagem e finalmente o restaurante vazio. Gastaram mais uma hora vasculhando o quarto de Terry. Quando acabaram de recolher todas as provas que havia para levar, por mais insignificantes que fossem, o relógio marcava uma hora e Marge viu que Decker ainda estava agitado. O tenente costumava ser completamente profissional.

— O que vou dizer àquele menino?

— Provavelmente ele está dormindo.

— Você conseguiria dormir se fosse ele?

— Não. — Alguns minutos passaram. — Se ele estiver acordado, é isto que você vai lhe dizer: que você fez tudo que podia fazer em uma noite de domingo. Amanhã você vai ligar para a companhia telefônica para ver se o celular da mãe dele foi usado, vai ligar para a companhia de cartão de crédito e ver se houve alguma atividade, e vai ligar para o banco dela para ver se houve alguma retirada suspeita. Marge sorriu. Mas provavelmente você vai designar alguém para — — fazer isso, porque você é um sujeito ocupado e isso nem sequer aconteceu em sua jurisdição. Já ligou para a delegacia de West L.A.?

— Liguei. Fiz um pedido de localização do carro de Terry pouco antes de você chegar. É uma Mercedes E550 de 2009. Alguém terá de voltar e entrevistar todo o pessoal do hotel. Só falei com a funcionária da recepção e ela não sabe de nada.

— Só há uma equipe mínima neste momento, que ficará até o amanhecer.

— O sargento do atendimento me disse que alguém do departamento de Pessoas Desaparecidas da delegacia vai me ligar. Quem quer que receba a ligação tem de saber com quem está lidando.

— Então tudo está sob controle. Vamos embora.

— Estou muito nervoso para encarar o garoto neste momento.

— Você estará bem quando chegarmos ao Valley. Se não, compro para você um copo de chocolate quente em uma das lojas de conveniência.

— Chocolate quente? perguntou Decker, sorrindo. —

— Uma vez mãe, sempre mãe. A Vega pode ser brilhante, mas ainda cuido dela. Marge deu- —

lhe uma palmadinha no ombro. — Sabemos melhor do que ninguém no planeta que as pessoas mais inteligentes podem fazer as maiores bobagens.