Carrasco
Capítulo 30
DOIS PERITOS CRIMINAIS HAVIAM RETIRADO CUIDADOSAMENTE o corpo da geladeira, depositando-o sobre um cobertor. A mais velha dos dois — uma mulher hispânica de seus quarenta anos chamada Gloria — voltou-se para Decker.
— Precisamos deixar o corpo se aquecer antes de a desdobrarmos. Se já trabalhou algum dia com carne crua gelada, sabe que ela não é maleável como carne à temperatura ambiente. Não queremos rasgar nada.
— Entendi.
Decker agachou-se para estudar o corpo. Livre dos limites da geladeira, ele se desdobrara um pouco. Crystal estava agora na posição fetal. Suas unhas pintadas pareciam intactas, embora o esmalte estivesse descascando. Os peritos iriam apará-las para determinar se havia material estranho ou biológico presente. Ela tinha ficado na geladeira por algum tempo, porque estava lívida, o sangue descendo para as metades inferiores das panturrilhas, coxas e torso. A olho nu, Decker não podia ver nenhum ferimento de tiro ou facada. O tom da pele dela pairava em torno de um cinza azulado, os lábios estavam azul-escuro. Ele observou o pescoço. Parecia haver alguns pontos roxos petéquias em volta da parte visível. Isso em geral significava estrangulamento. — —
Ele se levantou e examinou o interior da geladeira. Fazia um bom tempo que ela não era limpa. Havia partículas de legumes podres grudadas nas paredes e na gaveta de verduras junto com alguns derramamentos e manchas no fundo e nos lados.
Oliver entrou na cozinha.
— Recolhi os lençóis, as toalhas, as roupas espalhadas no chão, a sujeira do chão, o lixo no quarto e no banheiro, a escova de dente e a escova de cabelo. Quer mais alguma coisa do quarto e do banheiro?
— E quanto a moscas e larvas?
— Algumas moscas. Não encontrei um monte de larvas. Acho que a menina era inteligente o bastante para não deixar carne crua por aí.
— Ou alguém foi inteligente o bastante para enfiá-la na geladeira de modo que ela não atraísse moscas. Decker expirou. Ou para nos confundir em relação à hora da morte. — —
— Sela Graydon falou com ela ontem de manhã. Oliver checou suas anotações. Crystal — — sugeriu que elas saíssem para tomar um café, mas depois nunca ligou de volta para Sela.
— Que me diz do telefone celular de Crystal?
— Não o encontramos.
— Ela tem um telefone fixo?
— Não.
— Encontraram objetos pessoais?
— Só uma porção de porcarias. Nenhuma bolsa com alguma carteira de identidade. O carro dela continua na vaga.
— Faz sentido. Vamos obter os registros de seu telefone celular.
Marge juntou-se a Oliver e Decker. Arrancou as luvas.
— A moça era uma porcalhona. Isso torna difícil diferenciar as evidências do lixo. Ela —
olhou para o corpo... que se desdobrava lentamente. Caramba, isso é triste. Parece que alguém —
lhe quebrou o pescoço.
— Estou pensando que ela pode ter morrido por estrangulamento.
— Sim, ela tem as petéquias. Marge bufou. Adrianna morreu por enforcamento... que é — — estrangulamento.
— Afinal, quais são os vínculos entre as duas moças? — perguntou Decker.
Marge foi marcando as possibilidades com os dedos.
— Elas eram muito amigas, ambas estavam no bar do Garage na noite de domingo antes da morte de Adrianna, ambas estiveram conversando com o mesmo desconhecido no bar e ambas conheciam Aaron Otis e Greg Reyburn.
— Aaron não admitiu que transou com Adrianna? — perguntou Oliver.
Marge confirmou com a cabeça.
— Ele poderia ter transado com Crystal também?
— Talvez disse Marge. Talvez Greg tenha transado com ambas. Crystal e Greg eram — —
bons amigos.
— Garth transou com Crystal?
— Não sei.
— Chamem Aaron Otis e Greg Reyburn de volta para mais entrevistas — disse Decker. — Vejam o que eles têm a dizer sobre os últimos desdobramentos.
Oliver olhou para seu relógio.
— Passa das onze. Quer que façamos isso esta noite?
— A equipe vai continuar até o amanhecer. Ainda temos coisas a fazer por aqui.
— Vou ligar para Aaron e Greg de manhã, assim que chegar disse Oliver. A propósito, — — Marge teve uma ideia interessante.
— Que ideia foi essa? perguntou Marge. —
— Farley, Charley.
— Sim, sim. — Ela se virou para Decker. — Pois é, Adrianna estava sendo cantada por esse sujeito misterioso no Garage. Crystal achou que podia ter ouvido alguém o chamando de Farley. Fiquei pensando que talvez ela tenha ouvido “Charley”, em vez de “Farley”. Esse seria um dos apelidos de Tinsley.
— Algumas horas atrás entrevistamos uma mulher chamada Yvette Jackson que trabalha no Garage. Ela disse que achava que podia identificar o cara com quem Adrianna estava. Ficamos pensando em apresentar um conjunto de fotos com a do Tinsley obtida no Departamento de Trânsito e ver se ela consegue distingui-lo disse Oliver. —
— Tinsley tem ficha na polícia? perguntou Decker. —
— Ele não está no sistema. Mas não chequei além do Departamento de Polícia de Los Angeles.
— Faça uma tentativa — disse Decker, dando de ombros.
Ninguém falou enquanto os três pares de olhos abaixavam em direção ao corpo. Gloria, a inspetora-chefe, aproximou-se e apalpou a pele de Crystal com a mão enluvada. — Ela ainda está fria.
— Quanto tempo vai levar para se aquecer?
— Algum tempo.
— Vou esperar aqui disse Decker a seus detetives. Por que vocês dois não começam a — — pesquisar o condomínio? Não há muitos apartamentos, isso não deverá tomar muito tempo. Eu lhes darei um toque quando eles estiverem prontos para remover o corpo.
— Você manda. Marge olhou para o chefe e velho amigo. Você está bem, Rabino? — —
— Apenas cansado.
— Como está o garoto?
— Continua sem os pais. — Decker massageou as têmporas. — Sinto pena dele. Sinto-me também estúpido por ter me envolvido na vida da mãe dele. Fez para eles uma minuciosa —
recapitulação de seu dia. Não sei se ela está legitimamente em apuros, caso em que me sinto —
culpado por estar furioso com ela, ou se me enganou, usando minha casa como um lugar seguro para jogar o filho enquanto ela se reinventa.
— E você não teve notícia de Donatti?
— Não, mas o garoto admitiu para mim que o viu ontem.
— Então ele está na cidade ou...
— Provavelmente foi embora há muito tempo. Donatti deu a Gabe o passaporte dele, o cartão da Previdência Social e um maço de dinheiro. Provavelmente lhe deu outras coisas, mas isso é tudo que o garoto admite. Está claro para mim que Donatti não pretende vir buscar sua prole tão cedo.
— A tia dele não mora em Los Angeles? perguntou Oliver. —
— A tia e o avô.
— Então ele tem opções. Por que você está carregando o fardo?
— Ele se ofereceu para ir para a casa da tia. Mas prefere ficar comigo.
— Não é ele quem tem de escolher, Rabino, é você.
— Eu sei. Eu deveria deixá-lo ir embora. Mas minha consciência me diz que colocá-lo sob a custódia de uma garota irresponsável não é a coisa certa a se fazer.
— Veja, esse é o seu problema disse Oliver. Você está ouvindo sua consciência. Posso — — dizer por experiência própria, Deck, daí nunca vem nada de bom.
Às duas da manhã, o corpo tinha sido removido, a poeira da cena fora espanada, evidências tinham sido recolhidas e o apartamento fora fechado com cadeado. Decker não precisava esperar com seus dois detetives especializados, mas decidiu fazê-lo de qualquer maneira. Antes de ser chamado lá, ele tinha conseguido comer alguma coisa, embora tivesse sido um jantar tenso, com os dois garotos mal tocando sua comida. Quando Marge lhe telefonou com a notícia sobre Crystal, ele ficou chocado, mas em parte se sentiu aliviado por sair e fazer algo de produtivo.
— Vejo vocês de manhã disse Decker. Chegarei lá pelas oito. — —
— Cuide-se. Marge sacudiu as chaves. Eu gostaria de passar na casa de Mandy Kowalski. — —
Oliver checou seu relógio.
— Não sabe que horas são?
— Não vou bater à porta dela. Quero só verificar se o carro está no estacionamento.
— O estacionamento é gradeado. Como pretende entrar?
— Então espio por entre as barras. Veja, Scotty, ela mentiu para nós sobre ter tomado café com Adrianna na cantina. Agora Crystal está morta. Quero apenas ver se o carro dela está lá.
— Você quer que eu vá com ela, Oliver? ofereceu-se Decker. —
— Não, eu vou resmungou Oliver. Estamos apenas tendo nossas discussões habituais. — — Afinal, quem precisa dormir?
— O sono é extremamente superestimado disse Marge. —
— Desde quando você se tornou essa coruja?
— Desde que minha filha saiu de casa. Às vezes tenho dificuldade para dormir. Fico me perguntando como ela está.
— Mas você a adotou quando ela era uma adolescente. Viveu anos sem ela.
— Isso foi no passado, e isto é o presente. Não consigo deixar de me preocupar.
— Filhos são como heroína disse Decker , uma injeção de dor quando estão por perto, — — mas mesmo quando não estão, é como aquela próxima dose. Você simplesmente não consegue parar de pensar neles.
Quando o relógio marcou seis horas, Decker desistiu. Pelas cortinas vinha a insinuação de luz embaçada pelo céu cinzento, encoberto. Ele se esgueirou da cama, vestiu o roupão e decidiu fazer o café. Queria desfrutar de um pouco de solidão antes da correria, mas isso não estava destinado a acontecer. Gabe fora mais madrugador que ele. De camiseta e jeans, estava sentado à mesa do café da manhã, seu laptop aberto, mas afastado para o lado. Lia o jornal matinal de Decker.
— Olá.
— Olá — respondeu Decker — num tom um pouco taciturno, ele decidiu. Ou talvez estivesse apenas cansado.
— Tomei a liberdade de fazer café. Quer uma xícara?
— Obrigado. Vou pegar. Como vai sua mão?
O menino pousou o jornal e meneou os dedos.
— Dolorida. Suponho que agora é só esperar. Vou ficar bem.
— Apenas tome cuidado com ela. Você levantou cedo.
— Não consegui dormir. Ouvi você chegar ontem à noite. Era tarde. Está tudo bem?
Decker sorriu por dentro. Ninguém em sua família pensava duas vezes sobre seus horários.
— Só trabalho. Serviu-se de uma xícara de café e sentou-se. Como vai você? Desta — — — vez estava sendo sincero com a pergunta.
— Estou bem. Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar você?
Decker sorriu de verdade.
— Sua mãe disse que você era um bom menino. Não estava mentindo.
— Esse sou eu. — Ele empurrou os óculos para cima no nariz. — Você pode escrever na minha lápide. Eu era um bom menino.
— Se eu fosse você, estaria fervendo de raiva.
Gabe olhou para o teto.
— Acredito que ela aparece. Tipo ao brigar com aquele idiota aquela noite. Ele sacudiu a —
cabeça e puxou uma folha de papel do bolso de trás. Como não consegui dormir, liguei meu —
computador. Visitei o site do hospital.
— De que hospital?
— Ah, é. Você não pode ler meu pensamento. O hospital onde minha mãe trabalhou.
Isso prendeu a atenção de Decker.
— Descobriu alguma coisa?
Gabe lhe entregou uma folha de papel.
— Anotei todos os nomes indianos que passaram pela cardiologia ou cirurgia cardiovascular nos últimos oito anos. Antes disso, minha mãe e eu morávamos em Chicago. Acho que alguns nomes podem ser de mulher. Não sei se algum dos caras era aquele com quem minha mãe estava conversando, mas eu não estava fazendo nada mesmo, então...
Decker observou os sobrenomes: Chopra, dois Guptas, Mehra, dois Singhs, Banerjee, Rangarajan, Rajput, Yadav, Mehta e Lahiri.
— Nenhum deles soa familiar?
— Só Mehta, e apenas por causa do regente famoso. Como eu disse, ela não me falou o nome do cara.
— Você o reconheceria numa foto?
— Acho que não. Ele tomou um gole de café. Se você quiser, eu poderia procurar os — — caras pelo Google, um por um, e ver se algum deles é filho de um marajá. Não vou à escola hoje. Isso me daria alguma coisa para fazer.
Decker estudou o menino.
— E o que você faria com a informação?
— Daria para você.
— Que tal dá-la para seu pai?
Gabe cruzou os braços em frente ao peito.
— Por que eu faria isso?
— Por que não faria? Ele está procurando a sua mãe também.
— Tenente, se ele está procurando por ela, isso significa que está tão no escuro quanto nós. Se ele puder encontrá-la mais depressa que você, por que isso seria ruim?
— Está falando sério?
— Ele não vai machucá-la.
— Já a machucou.
— Bem, não acho que vá fazer isso de novo.
— Foi isso que ele lhe disse quando você o viu?
— Sim, disse isso.
— E você acredita nele?
— Sim, acredito. Seus olhos ficaram raivosos. Mas ele não está me ligando para pedir — — ajuda e não posso me comunicar com ele, portanto, toda esta discussão é irrelevante. Se eu quisesse dar a informação a Chris, poderia ter enviado por correio para um de seus endereços. Mas não fiz isso. Se você quiser ajuda, vou procurar esses nomes para você. Se não, tudo bem.
Retroceda, Decker. Chris ainda é o pai do garoto e você não vai alterar esse vínculo nunca.
— Como se diz, de cavalo dado não se olha os dentes. Qualquer ajuda que você puder me dar é bem-vinda. Portanto, claro, procure-os para mim. E no futuro, o que você fizer com seu pai será apenas problema seu.
Gabe ficou em silêncio. Depois disse:
— Não sei por que estou defendendo o filho da mãe.
— Ele é seu pai. Tem toda uma história com você.
— Sim, e a maior parte dela é ruim. — Uma pausa. — Isto não é inteiramente justo. Ele tem alguns pontos positivos. Apenas prefere não os mostrar com muita frequência. — Ele olhou para Decker. — Não confio em meu pai. Nunca confiei. Mas não seria eu que o colocaria na cadeia.
— Totalmente compreensível. Se Decker queria um aliado, tinha de começar a tratar o —
garoto como um. Ele levantou a lista.
— Isto é muito útil. Vou fazer uma cópia e nós dois podemos ver o que descobrimos, certo?
— Claro.
— Gabe, meu principal objetivo é encontrar sua mãe, não acabar com seu pai.
— Eu sei. Mas sei também que se as coisas chegassem a esse ponto, se meu pai tivesse machucado minha mãe, você iria atrás dele sem nenhuma consideração por meus sentimentos.
— É verdade.
— Eu faria a mesma coisa. Isto é, se eu fosse você, faria.
— E que tal se você fosse você?
— Não sei, tenente. Como diria meu terapeuta, talvez não seja um bom momento para visitar essa questão.
Decker riu.
— Você conhece o jargão.
— Sempre tive um excelente ouvido.