Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 24 de 50

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Carrasco

Capítulo 24

 

 

OS PÉS DE DECKER ESTAVAM SOBRE a mesa. Sua porta estava fechada, e essa era uma das poucas vezes em que ele podia se permitir respirar um pouco. Precisava se reorganizar depois de encerrar uma conversa telefônica carregada de emoção com Kathy Blanc. O desejo de chegar a uma solução num caso de assassinato era como uma coceira permanente que ele não podia coçar. Agora estava ao telefone com Eliza Slaughter e mal podia discernir o que ela dizia.

— Onde você está? Está com estática na linha.

— Estou... no campo. Espere. Vou andar... meu carro. Vou... de volta.

Ela desligou. Enquanto esperava a ligação, Decker olhou suas mensagens. Tinha passado a maior parte da manhã falando com o que restava dos empregados do hotel. Era difícil fazer entrevistas pelo telefone e talvez fosse necessário visitar alguns deles pessoalmente. Tivera também uma breve conversa com o patologista. O relatório da autópsia de Adrianna Blanc mostrava que sua morte resultara da asfixia causada pelo enforcamento. Havia também contusões e marcas em sua pele compatíveis com o arrastamento do corpo.

O telefone tocou e Decker o atendeu.

— A ligação está melhor? — perguntou Eliza.

— Muito. Que há de novo?

— Hora de mostrar o dever de casa. Passei a maior parte do dia de hoje checando garagens, oficinas de desmanche e ferros-velhos. Como garagens e depósitos precisam de chaves e de permissões dos proprietários para serem abertos, comecei com o que era acessível, os ferros-velhos. Ninguém parece se importar que você vasculhe as pilhas de carros sucateados. Estou no número três. Eles ficam todos no Valley.

— Leste e norte do Valley. Já trabalhei em Foothill.

— Este em que estou fica no seu distrito. Conhece o Ferro-Velho Tully’s ?

— É perto da Rinaldi.

— Você devia vir aqui. Algo me chamou a atenção.

— Algo como uma Mercedes E550 2009?

— É o que estou pensando, embora seja difícil distinguir a marca e o modelo quando o veículo está desmantelado e retorcido. É prata.

— Quando ele chegou aí?

— O garoto que está aqui agora não tem certeza. Acha que chegou há uns dois dias. Neste momento, estamos tentando localizar o dono do lote. Ele tem os registros.

— Chego aí daqui a meia hora.

— Até lá. Eliza esperou um pouco. Terry frequentou a escola no West Valley, certo? — —

— Correto.

— Então é possível que conhecesse o lugar.

— Tudo é possível.

— Você tem suas dúvidas.

— Não sei, Eliza. Acho que a questão mais importante é que Chris Donatti, Chris Whitman naquela época, frequentou a escola no Valley. E ele dirigia um carro antigo modificado sensacional quando era adolescente. Terry, por outro lado, andava a pé ou pegava o ônibus.

 

Cappuccinos exerciam um efeito calmante sobre Oliver. Talvez fosse alguma coisa no leite, porque o bebericava com um deleite quase orgástico. Ele não só aprendera a usar a máquina de fazer café, como havia finalmente dominado a arte de espumar. Os dois estavam a caminho do St. Timothy: Marge dirigia e Scott estava no banco do passageiro.

— Estou virando um homem afeminado disse Scott. —

— Tomar lattes não faz de você um homem afeminado. Homens italianos tomam cappuccinos o tempo todo — respondeu Marge, sorrindo. — Claro que não tomam isso à tarde. Tomam expressos, porque cafés com leite são bebidas de café da manhã.

— Estamos na Itália, Marge?

— Estou só dizendo...

— Pelo que sei, a língua oficial não é italiano...

— Estava só lhe ensinando um pouco de história da culinária.

— Sabe, Dunn, vejo um programa na televisão a cabo em seu futuro. Você, com uniforme completo, fervendo leite de soja enquanto diz para seus telespectadores como prevenir um ataque com arma mortífera. Nós o chamaremos de “Um café com a tira”.

— Parece filme pornô.

— Isso funcionaria também — disse Oliver, com um sorriso. Ele terminou seu latte. — Então qual é o plano?

Marge fez sinal para virar à direita.

— Primeiro devolvemos as fitas para Ivan Povich.

— Já falou com ele?

— Deixei uma mensagem, pedindo as fitas das câmeras nas áreas dos veículos de emergência.

— Por que Povich não as entregou para nós logo?

— Não sei. Acho que quando pedimos da primeira vez ele supôs que queríamos apenas as gravações das entradas e saídas de pedestres.

— Então você gosta da teoria de Adrianna sendo carregada para fora num saco para cadáveres? — perguntou Oliver.

— Talvez. Marge fez uma pausa. Se o assassinato ocorreu dentro do St. Timothy, estou — —

pensando no que poderia ter dado errado. Quem, afora Garth, era próximo o bastante de Adrianna para que uma discussão pudesse acabar num assassinato?

— Por que acha que o assassinato foi cometido por alguém de quem ela era próxima? — perguntou Oliver. Pelo que Aaron e Greg nos contaram sobre Adrianna, ela podia estar tendo —

um caso que desandou. Talvez estivesse ficando com um médico ou administrador casado. Talvez tenha ameaçado contar tudo.

— Mas nesse caso, por que ela teria decidido de repente começar a expor suas aventuras?

— Porque estava furiosa com Garth, mas descontando em outros homens. É isso que as mulheres fazem.

— Em contraposição aos homens? — Marge riu. — Que me diz dos serial killers que odiavam suas mães?

— Estou só tentando irritar você. Ele esperou um momento. Embora se alguém tentasse — — matar Adrianna, seria de se esperar que ela resistisse.

Marge virou à esquerda.

— A menos que os dois estivessem drogados. E se ela estivesse chapada?

— Não havia nenhuma cocaína, nenhum álcool, nenhuma maconha em seu organismo. Isso nós sabemos.

— Poderia ter sido alguma coisa mais exótica. Quem teria melhor acesso a drogas que uma pessoa num hospital com livre acesso a todos os armários de medicamentos trancados?

— Eles não têm livre acesso — disse Oliver. — Acho que precisam se registrar para chegar a eles. Deveríamos verificar os livros de registro. Nossa conjectura seria reforçada se alguma droga estranha tivesse sido retirada e ela fosse encontrada no organismo de Adrianna.

— O problema é que às vezes você precisa saber o que está procurando para encontrá-la na testagem toxicológica — disse Marge.

Oliver abriu a garrafa térmica e retirou a espuma com o dedo.

— Você parece cética. O que está incomodando você?

— Que o encontro de Adrianna tivesse se tornado mortal de repente. O que poderia ter sido dito ou feito que o fez desandar de maneira tão terrível?

— Você sabe como essas coisas funcionam, Marge. Começa como uma bobagem e termina como algo trágico.

 

Mais uma vez, Marge e Oliver sentaram-se na sala de controle central no St. Timothy. O que era ainda mais espantoso era que Peter ainda estava de serviço.

— Ele vai para casa em algum momento? — perguntou Oliver a Ivan Povich.

— Ele vai para casa, ele volta. — Povich mostrou a fita cassete. — Recebi sua mensagem, sargento. Esta aqui é da área de veículos de emergência. Temos câmeras em toda parte. Você pediu entradas e saídas, não pensei em áreas de emergência. Falha minha. Eu teria dado isto a vocês.

— Sem problema — disse Marge.

— Você está com sorte. Ela estava prestes a ser regravada. Mas tenho aquilo de que precisam.

— Pequenos favores são bons disse Marge. —

Povich encaixou a fita na máquina e a fez avançar até que a ela exibisse a data da última segunda-feira. Os três observaram o monitor. Ambulâncias chegando com desafortunados pacientes ligados a tubos intravenosos, amarrados a macas. No intervalo de tempo que observaram, eram sobretudo as mesmas pessoas nas mesmas ambulâncias, embora diferentes carros de emergência viessem de muitos diferentes lugares.

Nenhum saco para cadáver, mas Marge viu algo interessante. Às 11h13, um carro comum estava recuando em direção à plataforma de embarque e depois desapareceu do olho da câmera. Ela continuou observando por mais uns dois minutos, então seus olhos se arregalaram.

— Pare!

— Que foi? perguntou Oliver. —

Marge não respondeu.

— Recue alguns quadros.

— O que você está vendo, Marge? — perguntou Oliver.

— Não tenho certeza. É por isso que quero olhar de novo.

A fita foi rebobinada, as figuras preto e branco movendo-se abruptamente e pulando enquanto se moviam de quadro em quadro.

— Pare! Marge apontou para uma figura pequena e isolada, parada na plataforma. Você — — pode ampliar esta imagem?

— Peter, venha cá. Você pode ampliar esta imagem aqui? chamou Povich. —

Sem dizer uma palavra, Peter levantou-se, assumiu o controle do monitor e a pequena figura cresceu. Com cada aumento, a imagem perdia nitidez.

— Parece familiar, Scott? perguntou Marge. —

— Não. Só vejo uma mancha.

— Deixe-a menor, Peter. — O operador de segurança mudo reduziu a imagem alguns pontos. — Que tal agora?

Oliver fitou a figura.

— Nada.

— Não olhe para o rosto. Olhe para as roupas cirúrgicas, depois para o tamanho e a estrutura da pessoa.

— Mandy Kowalski.

— Poderia ser.

— Talvez.

— O que ela está fazendo ali? Observando macas serem carregadas e descarregadas de ambulâncias?

— Só há um meio de saber. — Oliver levantou-se. — Vamos procurá-la e perguntar sobre isso.