Carrasco
Capítulo 9
DECKER TEVE A IMPRESSÃO DE QUE a linguagem de Mack Blanc era um constrangimento para Kathy, mas ela estava entorpecida demais para detê-lo.
Que porra aconteceu?
Isso é o que estamos investigando, sr. Blanc. Sinto muito.
Não quero as porras das suas desculpas. Quero as porras de algumas respostas!
E assim muitas, muitas e muitas vezes.
Os três estavam na sala de Decker. Kathy permanecia sentada e em silêncio enquanto o marido andava de um lado para outro e praguejava.
Finalmente, Mack tentou uma nova linha de ataque.
— Bem, se você não sabe que porra aconteceu, que porra você sabe?
Decker apontou para a cadeira. Com relutância, Mack sentou-se.
Assim que ele ficou quieto, seus olhos encheram-se de lágrimas. Sem nada dizer, Decker entregou-lhe um lenço de papel.
— O carro dela continua no estacionamento do St. Timothy. Nós o estamos examinando agora mesmo.
— Ela estava... — Kathy sufocou soluços. — Foi no carro que aconteceu?
— Não sei, sra. Blanc. Certamente não quero dar informação errada a você.
Mack segurou a mão da mulher e ela se encostou contra o seu peito, chorando. O pobre homem não podia lhe oferecer nenhuma palavra de consolo.
— Estamos também entrevistando pessoas no hospital para obter uma linha do tempo disse —
Decker. Sua mulher teve a bondade de nos dar o número do celular de Adrianna e descobrimos que ela fez umas duas ligações por volta da hora em que terminou seu turno.
— Ela ligou para Sela Graydon explicou Kathy para o marido. —
— Ela e Adrianna se conhecem desde o início do ensino médio respondeu Mack. E o — — outro número?
— Quando ligamos para ele, ninguém atendeu. A caixa do correio de voz está cheia, por isso não sabemos a quem pertence. Temos como descobrir a quem o número pertence e quanto tempo a conversa durou, mas isso vai exigir algumas manobras. Além disso, não há nenhuma garantia de que a pessoa a quem o número pertence seja aquela que atendeu a chamada.
— Não é um número familiar para mim — disse Kathy ao marido.
— E quanto ao Garth? perguntou Mack. —
— Não é o número de Garth.
— Não confio naquele sujeito disse Mack. Ele é arrogante. Só Deus sabe por quê. — —
— Ele é bonito disse Kathy. —
— Como pode dizer isso? — disse Mack. — O cara tem uns vinte piercings nas orelhas e aquele cavanhaque maluco. O cabelo dele dava a impressão de que ele tinha enfiado a mão em um soquete de lâmpada.
— É a moda, Mack. Todos os astros do rock têm cabelo assim.
— Ele não era particularmente inteligente. Estava sempre indo para Las Vegas e nunca convidava a Adrianna. Deus sabe onde arranjava dinheiro para essas viagens.
Decker notou as faces de Kathy se ruborizando.
— O que sabe sobre o dinheiro, sra. Blanc? perguntou. —
Kathy levantou os olhos.
— Como disse?
— Adrianna emprestou dinheiro para Garth alguma vez?
— O quê? — Mack encarou a mulher. — Ela deu dinheiro para esse idiota?
— Ela não dava dinheiro par ele, ela emprestava.
— Não acredito... — Ele se levantou de uma vez e começou a andar de um lado para outro novamente. Por quê? —
Kathy irrompeu em lágrimas.
— Não sei por que, Mack, a única coisa que sei é que ela fazia isso!
— Ela era uma pessoa fácil de se convencer, em geral? perguntou Decker. —
Mack murmurou alguma coisa baixinho e continuou andando.
— Tinha um coração mole. Foi por isso que se tornou enfermeira.
— Estou tentando apenas compreender como ela era, portanto não se ofendam com minhas perguntas. Até onde vocês sabem, Adrianna consumia drogas ou bebia em excesso?
— Eu não saberia dizer — disse-lhe Kathy.
— É claro que sabemos disse Mack. Encontramos maconha na cômoda dela quando — — estava no ensino médio. Duas vezes!
— Ela disse que parou.
— Disse também que a maconha não era dela, mas, sim, provavelmente fumava maconha e provavelmente bebia demais.
— Ela não tinha um problema, Mack disse Kathy, enxugando os olhos. —
— Eu não disse que tinha um problema.
— Não parece que ela tinha um problema — disse Decker. — Tinha um trabalho importante, e, pelo que ouvi dizer, era muito boa no que fazia.
— Ela trabalhava na UTI neonatal com todos aqueles prematuros doentes. Kathy começou —
a chorar. Todos eles a adoravam. —
— Meu Deus. Mack ficou com os olhos marejados. Que merda aconteceu? — —
Vamos voltar ao início.
— O que mais vocês podem me contar sobre Garth Hammerling? perguntou Decker. —
— Estive com ele uma meia dúzia de vezes. Não confiava nele. Mack parou de andar. — —
Para dizer a verdade, eu nem sempre confiava em Adrianna. Seu julgamento não era o melhor.
— Uma boa garota disse Kathy. Mas podia ser um pouco... — —
— Ela era rebelde. Estragada por mimos também. Nós fomos estragados pela irmã mais velha dela, que nunca nos deu nenhuma preocupação.
— Bea era uma criança diferente. Não faz nenhum sentido comparar.
— Mas nós comparamos de qualquer maneira — disse-lhe Mack. — Mais de uma vez estivemos de pé às quatro da manhã, ligando para os amigos de Adrianna porque o celular dela estava desligado e não sabíamos onde estava. Quando quis ser enfermeira, não acreditei. Mas...
A voz de Mack Blanc falhou.
— A menina provou que eu estava errado. Ele fungou para conter as lágrimas. Ela não só — — se formou, como conseguiu uma função de responsabilidade. Os colegas de trabalho gostavam muito dela.
— Você conheceu os colegas de trabalho dela? Decker lhe perguntou. —
— Ela fez uma festa de Natal em seu apartamento, dois anos atrás. Convidou-nos e nós fomos — disse Kathy.
— Acho que foi quando conhecemos Garth — disse Mack à mulher.
— Vocês se lembram de outros colegas de trabalho?
— Estava lá a amiga dela, Mandy Kowalski — disse Kathy a Decker. — Elas cursaram a escola de enfermagem juntas. Acho que foi Mandy quem aproximou Adrianna de Garth.
— Mandy a aproximou de Garth? repetiu Decker. —
— Acho que sim. Kathy semicerrou os olhos, tentando evocar lembranças. Acho que ela — — conhecia um rapaz que o conhecia... Algo assim.
— Você se lembra do nome do rapaz?
— Não. — Mack agitou a mão no ar. — Nós nos mantemos fora dos assuntos da Adrianna.
— O nome dele era Aaron Otis — disse Kathy.
— Como você se lembrou disso?
— Simplesmente me lembrei.
— Ela é um fenômeno para nomes.
— Isso é muito bom disse Decker. Aaron Otis. Vocês chegaram a conhecê-lo? — —
— Devo ter me encontrado com ele uma vez, porque lembro que ele era alto e tinha cabelo louro-escuro... A menos que eu esteja confundindo as coisas. — Ela baixou os olhos. — Isso é certamente possível.
— Isso é útil — disse Decker. — E quanto aos nomes dos outros amigos de Adrianna?
— Você pode começar com Sela Graydon e Crystal Larabee. As três formavam um grupinho muito unido.
— Alguma delas se tornou enfermeira?
— Longe disso disse Mack. Acho que Crystal queria ser atriz. Aos 29 anos, acho que — —
isso não vai acontecer. O que ela faz? Uma espécie de barwoman?
— Ela é uma das principais recepcionistas no Garage.
— Sim, à espera de ser descoberta.
— Seja legal, Mack. Kathy olhou para Decker. O Garage é o mais novo restaurante de — — Helmet Grass. Fica no centro... Bem perto do New Otani.
— Entendi. E Sela Graydon? O que ela faz?
— É advogada disse-lhe Mack. Sempre foi a mais inteligente das três. — —
— Essas duas mulheres moram na cidade?
— Sim — disse Kathy. — Vou conseguir os números dos telefones delas para você.
— Vocês sabem alguma coisa sobre Mandy Kowalski?
— Apenas que Adrianna a conheceu na escola de enfermagem disse Mack. Ela parecia — — bastante simpática.
— Ela costumava ajudar Adrianna nos estudos, especialmente quando chegavam as provas finais. Adrianna entrou em pânico quando as fez pela primeira vez. Eu não podia ajudá-la. Não sei absolutamente nada sobre o sistema nervoso ou o sistema circulatório, mas depois de estudar com Mandy, ela não só foi aprovada, como se saiu bem. Chegou até a ganhar a nota máxima em algumas disciplinas.
As lágrimas corriam pelas faces de Kathy.
— Ela ficou tão... orgulhosa!
Decker deu-lhe outro lenço e ficou vendo a mulher soluçar. Nem a mais avançada tecnologia do mundo seria capaz de conter essa torrente.
— Não há muita coisa em que possamos nos apoiar. — Marge estava bem ao lado do estacionamento do St. Timothy, porque o sinal do seu celular era melhor ali. — O carro está sendo analisado e encerramos agora mesmo nossas entrevistas preliminares. Falamos com alguns dos colegas de trabalho dela. Além disso, conversamos com uma mulher chamada Mandy Kowalski. Ela e Adrianna cursaram a escola de enfermagem juntas, mas não trabalham no mesmo pavimento.
— Sim, o nome de Mandy veio à tona quando entrevistei a mãe — disse-lhe Decker. — Ela acha que Mandy talvez tivesse aproximado Adrianna de Garth.
— Humm. Mandy deixou de mencionar isso. Ela contou que Garth deu em cima dela.
— Certo disse Decker. Alguém acha que havia um triângulo amoroso? — —
— É possível disse Marge. Vou ver se consigo esclarecer os relacionamentos. Temos — —
também uma hora marcada para entrevistar a enfermeira supervisora de Adrianna amanhã. Ela era querida, fazia seu trabalho, mas várias pessoas comentaram que gostava de se divertir.
— Isso é coerente com a imagem que obtive dos pais dela.
— Eles lhe disseram que ela gostava de uma farra?
— Principalmente o pai dela. Ele a descreveu — e sem muita delicadeza — como uma garota farrista.
— É incomum que um pai admita isso nessas circunstâncias.
— Fiquei com a impressão de que ele andava zangado com a filha havia muito tempo.
— Mas ela está morta, Rabino. Que ele sequer insinue hostilidade... isso é estranho.
— As pessoas enfrentam dificuldades das mais diferentes maneiras. Talvez ele imagine que se puder se sentir zangado com a filha, ela não esteja realmente morta. Seja como for, há outra irmã na família, Beatrice Blanc. Ela precisa ser entrevistada separadamente.
— Farei isso.
— Há também duas grandes amigas dela do ensino médio: Sela Graydon e Crystal Larabee. — Decker soletrou os nomes e deu a Marge os números de telefone. — Por fim, precisamos descobrir o nome do filho mais velho do proprietário
— Fiz isso. Trent Grossman. Tem 26 anos. Mora em Boston com a mulher e estava em uma festa ontem à noite. Portanto, podemos exclui-lo. Os dois meninos Grossman mais novos estavam em casa ontem à noite, segundo os pais. Para verificação, vi que enviaram e-mails e mensagens de texto e postaram no Facebook. Não investiguei mais a fundo, mas farei isso, se você quiser.
— Quantos anos eles têm? Algo como 15 e 13?
— Isso.
— Ponha-os em último lugar por enquanto. Vamos voltar às colegas de Adrianna, Crystal e Sela. Marque entrevistas com elas, porque... tudo bem... aqui está.
Decker folheou suas anotações.
— Adrianna ligou para Sela Graydon esta manhã assim que saiu do trabalho. Descubra do que se tratava. Adrianna também fez uma outra ligação, mas não sabemos de quem é o número. Todas as vezes que liguei para ele, a caixa do correio de voz estava cheia. É um celular, por isso nossos catálogos defasados não vão funcionar. Talvez precisemos de um mandado para descobrir a quem o número pertence. Dê uma sondada por aí e veja se consegue descobrir se é de algum dos amigos dela.
— Farei isso — disse Marge, e perguntou-lhe: — Tivemos alguma sorte com a investigação da área?
— Até agora não recebi nenhuma informação. Que tal nos encontrarmos mais para o fim da tarde e compararmos nossas anotações?
— É uma ideia. Falo com você mais tarde.
Marge desligou seu celular e começava a ligar para o número de Sela Graydon quando uma técnica de cena do crime foi andando em sua direção. A mulher batia no estômago de Marge. Talvez fosse um pouquinho mais alta que isso, mas certamente não passava muito de 1,50m. Era jovem, asiática e delicada como uma teia de aranha, mas tinha uma voz de fumante. Seu nome era Rebel Hung.
— Praticamente terminamos o que podemos fazer aqui. Rebel arrancou suas luvas de —
borracha. Chamei o caminhão. Vamos rebocar o carro para o laboratório e submetê-lo a um —
exame completo.
— Não parece que isto é uma cena de crime disse Marge. —
— Concordo — disse Rebel. — Quem sabe se ela sequer chegou a vir até o carro?
— Pegadas?
— Obtivemos algumas parciais. Conseguimos grande quantidade de impressões digitais latentes. Talvez apareça alguma coisa.
— Espero que sim.
— E quanto à verdadeira cena do crime? perguntou Rebel. Onde vocês a encontraram — — pendurada.
— É uma cena de crime, mas não temos certeza de que é a cena do assassinato. Se ela tiver sido morta lá, parece não ter tentado lutar. Os investigadores da perícia criminal não encontraram ferimentos de bala ou punhalada, mas ela pode ter sido envenenada ou sedada antes de ser enforcada. Vamos submetê-la a um exame toxicológico.
— Foi abusada sexualmente?
— Não parece ter sido, mas saberemos mais depois que a autópsia for feita.
Rebel franziu os lábios.
— O enforcamento é uma maneira estranha de cometer assassinato.
— Sim, alguém a enforcou para produzir um efeito dramático.
— Muito dramático... Como nas ações típicas de um serial killer.
— Sim, de fato, certamente não excluímos essa possibilidade.