Carrasco
Capítulo 14
— CRYSTAL LARABEE CONSEGUIU PARA NÓS UMA identificação do número misterioso. É o celular de Aaron Otis — disse Marge pelo telefone.
Decker fez uma careta, embora Marge não pudesse vê-la.
— O companheiro de canoagem de Garth?
— O próprio. A caixa postal de Otis continua cheia, portanto faz sentido que ele esteja no meio do nada, mas Crystal tem suas dúvidas.
— O que você quer dizer?
— Um dos outros caras, Greg Reyburn, contou a Crystal que eles iriam também para Reno a fim de repousar e relaxar um pouco. Ela resumiu a entrevista deles. Parece que Garth gosta — — de um jogo de azar e de todos os vícios imediatamente associados a isso.
— Interessante. Decker estava esparramado na cama, falando na extensão de sua mesa de —
cabeceira. — Quando os rapazes devem voltar à cidade?
— Segundo a mensagem no telefone de Garth, deve ser dentro de alguns dias — disse Marge. — Ao que parece, Adrianna ficou zangada quando soube do desvio de Garth. Talvez ela estivesse pensando em finalmente terminar o namoro.
— Se Adrianna queria romper com Garth, por que ligar para Aaron e não para Garth?
— Talvez soubesse que se ligasse para o número de Garth, ele não atenderia.
— Ou talvez estivesse tendo alguma coisa com Aaron.
— Parece que trair era um passatempo dos dois. Alguma indicação no diário de Adrianna de alguma coisa entre ela e Aaron?
— Até agora não, mas só passei os olhos por ele. A última anotação estava datada de cinco dias atrás e dizia apenas que Garth ia sair da cidade numa excursão para fazer canoagem. A leitura cuidadosa de todo o diário vai tomar tempo. Decker olhou para o relógio sobre a mesa de —
cabeceira. Passava um pouco da meia-noite e Donatti ainda nem telefonara. Talvez eu tenha —
bastante tempo. Ainda estou esperando que Chris Donatti venha buscar o filho.
— Ele está atrasado?
— Ainda não, mas até que ele chegue aqui, estou cético. De qualquer maneira, a maior parte do que li até agora respalda o que Crystal disse a vocês sobre Adrianna e Garth — que a vida sexual dela era insatisfatória e que ela se perguntava algumas vezes se ele não estava fazendo sexo com outras pessoas.
— Ela estava irritada?
Decker fez uma pausa.
— Mais desiludida que qualquer outra coisa.
— Alguma candidata para as aventuras de Garth no diário dela?
— Não até agora, mas estive pensando em Mandy Kowalski. Você não me disse que Garth deu em cima dela?
— Isso foi o que ela nos disse. Ela contou que Garth era um mulherengo e provavelmente está certa quanto a isso.
— Se Garth era um mulherengo, por que Mandy o aproximou de Adrianna? perguntou —
Decker.
— Não faço ideia.
— Pergunte a ela sobre isso. E descubra onde ela estava na manhã do assassinato.
— Ela estava trabalhando.
— Obtenha uma linha do tempo das coisas que ela fez. Talvez haja algumas ausências não explicadas.
— A investigação criminal está bastante convencida de que Adrianna morreu de asfixia. Ela tinha petéquias nos olhos e no rosto. Mandy é enfermeira. Poderia ter envenenado Adrianna, mas não a vejo tendo força suficiente para sufocá-la até a morte, depois pendurar o corpo. Peso morto, sem querer fazer trocadilho, é muito pesado.
— Talvez ela tenha tido ajuda — disse Decker. — É por isso que você precisa conversar com ela novamente. E qual é a desse Farley, o homem com quem Adrianna se encontrou no Garage? Isso é um nome ou um sobrenome, aliás?
— Não sabemos, Pete disse-lhe Marge. Crystal estava muito bêbada quando — — conversamos, por isso tudo é duvidoso. Vamos fazer outra tentativa no Garage esta noite.
Decker consultou a hora no rádio-relógio da mesa de cabeceira.
— Eu deveria desocupar a linha para o caso de Donatti estar tentando ligar.
— Como está se sentindo com relação a entregar o garoto para Donatti?
— Ele é o pai. Estou legalmente de mãos atadas, a menos que possa provar abuso, e não posso.
— E nada sobre Terry?
— Nem um pio.
— Isso é inquietante.
— Sim, é. Durma um pouco, sargento. Eu a verei amanhã.
Decker sentou-se na beira da cama e calçou os sapatos. Foi até a sala de estar, onde Rina estava deitada de lado no sofá, um travesseiro atrás da cabeça. Estava resolvendo palavras cruzadas e levantou os olhos quando ele entrou.
— Posso fazer um pouco de café para você?
— Não, estou bem. Onde está Gabe?
— No quarto dos meninos. Faz algum tempo que não falo com ele. Imaginei que se quisesse alguma coisa, pediria. Suspeito que ele queira privacidade.
Decker sentou-se e pôs os pés de Rina no seu colo, esfregando as solas.
— Por que não vai dormir?
— Detesto deixá-lo sozinho com ele... caso tente alguma coisa.
— Ele não vai tentar nada.
— Peter, você se intrometeu nos assuntos pessoais do homem com a mulher. Você a protegeu dele. Você os ouviu discutir. Você tirou as armas dele, e isso é equivalente a castrá-lo. Em outras palavras, você humilhou Donatti. E não acha que ele vai tentar se vingar?
Ela apresentara alguns argumentos pertinentes.
— Ele tem outras coisas em mente, como encontrar a mulher.
— Se ainda não a matou. Provavelmente está fervendo por dentro. Aposto que está armando para você.
— Por mais furioso que possa estar comigo, ele ainda está atendendo meus telefonemas. Além disso, é um pistoleiro profissional. Se quiser me matar, vai me matar.
— Isso é muito encorajador.
— Ele não vai me ferir disse Decker, sorrindo. —
— Como sabe?
— Por que se ele não tiver matado a mulher, está preocupado com ela e sabe que posso ajudá-lo. Se tiver matado, vai querer me sondar, descobrir o quanto sei sobre isso. De uma maneira ou de outra, sou melhor para ele vivo que morto.
— Você acha que ele a matou?
— É uma possibilidade.
— E você está entregando Gabe para ele mesmo achando que ele assassinou a mulher?
— Se Gabe quer ir com ele, não tenho escolha.
— Gabe só quer ir com ele porque não quer ir com a tia ou o avô. Talvez queira ficar aqui.
— Rina, se Donatti quer o filho e Gabe está disposto a ir com ele, não vou me meter no caminho. Isso seria provocação desnecessária. Neste momento, a única coisa que quero é que ele chegue aqui. Tenho muitas perguntas a fazer para ele.
— Ele não vai confessar para você, Peter.
— Não, claro que não. E há a possibilidade de que ele não seja o culpado. Donatti fez muitos inimigos. Talvez o desaparecimento de Terry tenha a ver com um deles.
Rina pensou sobre essas palavras.
— Isso faz sentido.
Decker deu-lhe um beijo na testa.
— Vá para a cama. Deixe-me acabar logo com isto, certo?
— Não vou conseguir dormir até que você esteja ao meu lado.
— Então provavelmente vai passar a noite toda acordada. Isso vai levar muito tempo.
— Está tudo bem. Vou ficar acordada. — Ela mostrou a revista. — Aqui tem cinquenta palavras cruzadas dificílimas e estou só na de número quatro.
Às três da manhã, Decker levantou-se do sofá e bateu à porta do quarto dos enteados. Depois de alguns segundos, Gabe abriu a porta.
— Ele chegou?
— Você pareceu surpreso. Quando Gabe não respondeu, Decker sacudiu a cabeça e disse: —
— Não, ele não está aqui e não telefonou. Estou com a impressão de que não vai aparecer.
Gabe entrou de novo no quarto e empoleirou-se na beira da cama de Sammy, as mãos cruzadas no colo. Decker sentou-se em frente ao menino, na cama de Jacob. As duas camas eram separadas por uma mesa de cabeceira.
— Sinto muito.
— Eu não — disse Gabe. — Estou aliviado.
— Você está aliviado?
O garoto assentiu com a cabeça.
— Eu disse a você que não tinha de ir com ele.
— Na verdade, sim, eu iria. Quando Chris diz para você ir, você obedece. Mas não aparecendo, ele fez a escolha. Pelo menos uma vez tive sorte no meio de tantas coisas ruins.
— Agora você me põe numa situação difícil. O que eu devo fazer caso ele apareça?
— Tenente, se ele quisesse estar aqui, já teria chegado. Meu pai é obsessivo. Isso inclui ser pontual. Ele não vai aparecer.
— Então está tudo bem para você?
— Sim, assim está realmente tudo bem para mim.
Decker fitou o adolescente. Havia bolsas sob seus olhos e ele parecia abatido, apesar de ter jantado bem.
— Tem certeza de que ele nunca bateu em você?
— Não. Nunca. Mas o simples fato de ele não ter me machucado não significa que quero viver com ele, especialmente sem minha mãe. Ele é maluco.
— Então por que não me disse isso logo?
— Porque se ele quisesse a minha custódia, ele teria. Não quero deixar Chris com raiva. Isso é suicídio. — Gabe tirou os óculos e esfregou os olhos. — Se ele me quisesse, teria vindo me buscar. Está me jogando em cima de você, tenente. Você sabe que é isso que ele está fazendo.
— Eu convidei você para ficar aqui, Gabe. Você não está sendo jogado em lugar nenhum.
Porém, Gabe sabia a verdade. Embora não fosse completamente desprovido de recursos, seu futuro era sombrio. Então, o que mais era novidade?
— Conhecendo meu pai, provavelmente ele vai mandar algum dinheiro. Isso seria algo do estilo dele. Ele pensa que dinheiro resolve tudo. Gabe levantou os olhos para Decker. E — — agora, o que vai acontecer?
— Não sei, Gabe. Não pensei com tanta antecipação.
— Não vou viver com meu avô. Minha mãe o detestava. Ele levantou os olhos. Acho que — — minha tia Missy poderia ficar comigo. Ela é legal... infinitamente melhor que adoção.
— Ninguém vai pôr você para adoção, Gabe. Isso não está em questão. Você pode ficar aqui até que tenhamos resolvido isso.
— Obrigado. — Ele passou a mão nos olhos e voltou a pôr os óculos. — De verdade. Está tudo bem para a sua mulher?
— Ela tem o coração mais mole que eu. É tarde demais para começar a pensar em soluções. Vamos dormir e as coisas ficarão mais claras de manhã. Decker sorriu. Tenho trabalho e — —
você tem escola.
— Tenho de ir para a escola amanhã?
— Sim.
— São três e meia da madrugada.
— Você ficará apenas um pouco cansado. Tenho certeza de que já passou por coisas piores. — Isso arrancou um sorriso do garoto. — Você precisa de escola porque precisa estar em um ambiente normal, embora Hannah possa contestar minha definição de “ambiente normal”. Se você estiver lá, sei onde está e você será supervisionado, caso Chris apareça.
— Eu me sinto mal por colocar você nessa situação.
— Sua mãe está desaparecida. É um problema da polícia. Então você não está me colocando em lugar nenhum. Ele pôs a mão no ombro do menino. —
— Durma um pouco, tudo bem?
— Certo. Obrigado por tudo.
— Não há de quê.
Gabe mordeu o lábio.
— Se importa, minha mãe gosta realmente de você, sabe. Ela sempre falou sobre como gostaria que você fosse meu pai.
— Sua mãe é uma boa menina.
— E eu acho que, de uma maneira estranha, o Chris gosta de você também.
— “Gosta” não é a palavra certa. Decker pensou por um momento. “Respeita”, talvez. — —
— Sim... é uma palavra melhor.
Decker levantou-se.
— Vou contar uma coisa, Gabriel. Quando seus pais eram jovens, não muito mais velhos do que você é agora, eles eram loucamente apaixonados. É fácil entender por que sua mãe caiu de amores pelo seu pai. Ela era jovem e ingênua e seu pai era não só bonitão e talentoso como um cara realmente encantador. Mas, sinceramente, seu pai se apaixonou com a mesma intensidade por sua mãe. Ele era completamente louco por ela.
— Ainda é. Ele é absolutamente obcecado por ela. É por isso que não acho que ele machucaria a minha mãe. Sei que ele bateu nela, mas acho que isso foi um acidente. Por mais que eu ache que ele é maluco, não acho que mataria a minha mãe.
Decker concordou com a cabeça, embora soubesse a verdade. A primeira vez era sempre a mais difícil. As vezes subsequentes ocorriam muito mais facilmente.
Gabe tinha uma expressão distante nos olhos.
— Eu fui o que meu pai usou para se aproximar dela. Se não tivesse sido por mim, ela poderia ter fugido. Ele fitou o teto. Coitada da minha mãe. Tinha só 16 anos. Não sabia no que — —
estava se metendo.