Carrasco
Capítulo 27
AO CAIR DA NOITE, OS RESTAURANTES em geral tendiam a ser tranquilos, mas a happy hour do Garage era animada. Drinques pela metade do preço e aperitivos gratuitos deveriam atrair uma clientela de colarinhos-brancos, porque o lugar estava repleto de homens e mulheres com roupas de trabalho. Se Marge tivesse de adivinhar, diria que a maior parte do bando era de advogados, porque os tribunais do centro ficavam a poucos quarteirões de distância. As pessoas que não estavam envolvidas com o sistema jurídico eram provavelmente banqueiros, corretores da bolsa e contadores de empresas antigas de Los Angeles. A maioria era jovem — dos vinte e tantos aos trinta e tantos anos.
Encontrar uma mesa provou-se um desafio, mas com seus olhos de águia, Marge avistou uma no canto. Ela e Oliver sentaram-se e examinaram o cardápio de bebidas e comidas. Finalmente pediram um prato de homus e dois club sodas a uma garçonete chamada Yvette. Ela tinha olhos azuis e cabelo platinado batendo nos ombros, pernas longas e seios enormes. Sua cabeça parecia muito pequena em relação ao corpo, fazendo Oliver pensar numa boneca inflável.
Ela pôs guardanapos sobre a mesa.
— Volto em seguida com as bebidas de vocês.
— Você sabe a que horas Crystal deve chegar?
— Crystal? Como se o nome a tivesse confundido por um instante. —
— Crystal Larabee esclareceu Marge. Ela trabalha aqui como garçonete. — —
— Ela tirou alguns dias de folga.
— Porque a amiga dela foi assassinada declarou Oliver. —
Yvette assentiu.
— Ela estava bastante chateada. Quero dizer, quem não estaria?
Oliver sacou seu distintivo.
— Estamos investigando o homicídio. Você poderia conversar conosco por alguns minutos?
— Hum... Estou meio ocupada. Preciso trabalhar. Eu volto.
— Obrigada. Marge virou-se para Oliver. Mandy tira uns dias de folga, Crystal tira uns — — dias de folga... coincidência. Devo perguntar?
— Todo mundo tem direito a umas férias.
— Ligue para o celular de Crystal. Vamos localizá-la.
Ele discou o número e desligou depois de dez toques.
— Nenhuma resposta.
— Mais uma vez, eu digo: Mandy não está em casa, Crystal não está casa.
— Vamos ao apartamento de Crystal?
— Acho que devemos respondeu Marge. Estou ficando com um mau pressentimento em — — relação a isso, Scott, especialmente porque Garth está desaparecido.
— Como disse o tenente, eles têm direito de sair para jantar.
— Então você pensa que não é nada?
— Não penso, logo sou.
Yvette, a garçonete de cabeça pequena, voltou com as bebidas e o prato de homus. Além da pasta de grão-de-bico, vieram azeitonas, cebolas, picles, tomates e um prato de pão árabe. Marge lembrou-se de repente de que estava com fome.
— Isto está com uma cara ótima. Podemos pedir mais um destes?
— Claro.
— Mas primeiro sente-se disse-lhe Oliver. —
— Só por um minuto — respondeu Yvette. — Na verdade, não posso dizer nada a vocês porque não sei de nada.
— Que tal se começarmos com o básico? — disse Oliver. — Sabemos que Adrianna esteve no Garage na noite anterior a seu assassinato.
— Isso seria domingo à noite — especificou Marge.
— Sei disso disse Yvette. Eu estava aqui também. Estranho. — —
— Estranho em que sentido? perguntou Oliver. —
— Você vê uma pessoa e depois ela desaparece. Seus olhos umedeceram-se. Crystal — — estava servindo drinques como cortesia a Adrianna. Eu disse para não fazer isso, que o chefe iria ficar furioso se descobrisse, mas ela fez assim mesmo.
— Adrianna estava bebendo?
— Sim, é claro.
— Coisa forte?
Yvette pensou um momento.
— Não sei. Por quê?
— Ela não tinha nenhum álcool no organismo. Disseram-nos que só ingeriu bebida não alcoólica, porque tinha de ir para o trabalho.
— É possível. Eu não estava prestando atenção. Mas fosse o que fosse, Crystal estava servindo sem cobrar tanto Adrianna quanto aquele cara fortão com quem ela estava conversando. Tenho certeza de que ele estava bebendo.
— O que ele estava bebendo?
— Cerveja. Depois que ele tomou algumas, eu disse para a Crystal parar de dar bebidas, ou eu contaria para o chefe. — Uma pausa. — Ela ficou irritada comigo. Mas, de qualquer maneira, isso não teve importância. Adrianna foi embora. E depois de uma meia hora, o bonitão saiu.
— Que horas eram? perguntou Marge. —
— Cerca de nove e meia.
— Eles davam a impressão de estar gostando da companhia um do outro?
— Estavam conversando. Mais do que isso, não posso afirmar.
— O bonitão tinha um nome? perguntou Oliver. —
— Não ouvi o nome disse Yvette, dando de ombros. —
— O nome Farley soa familiar?
— Farley?
— Crystal se lembrou de que o bonitão foi chamado de Farley — disse Oliver.
Quando a reação de Yvette foi um confuso dar de ombros, Marge perguntou:
— Ou talvez fosse Charley?
— Não sei.
— Como ele era fisicamente?
— Musculoso. Peito largo, braços grandes... como se malhasse muito. Se você o pusesse num bar gay, se encaixaria muito bem. Não estava de terno, mas estava usando uma jaqueta.
— Que tipo de jaqueta?
— Tipo um blazer. Jaqueta preta, camiseta preta e jeans. Estava de sandália.
— Parece mais do tipo de Hollywood que advogado ou corretor da bolsa — disse Oliver.
— Bom palpite. Ele realmente parecia de Hollywood. Ou fazia o gênero Hollywood.
— Acha que poderia identificar o rosto dele? perguntou Marge. —
— Dei uma boa olhada nele. Tinha queixo quadrado, traços masculinos. Olhos escuros.
— Você poderia ir até a delegacia amanhã e descrevê-lo para um retratista da polícia? — sugeriu Oliver.
— Acho que sim.
— Isso seria ótimo — disse Marge. — Muito obrigada.
— Você foi muito útil. Tem um número para que possamos entrar em contato?
Yvette procurou no bolso e deu-lhes um cartão.
THE YVETTE JACKSON BAND
ESPECIALIZADA EM JAZZ, ROCK E NOS VELHOS CLÁSSICOS
ANIME SUA PRÓXIMA FESTA COM O QUE HÁ DE MELHOR
PREÇOS ESPECIAIS PARA DIAS ÚTEIS
Havia um número de telefone celular e um endereço de e-mail.
— Você é cantora? — perguntou Marge.
— Cantora, dançarina, música. Estudei na Western Conservatory School of Music por cinco anos. Especializei-me em violão clássico, mas deixei isso de lado. Ninguém acorda uma manhã e decide se tornar uma garçonete. Mas a remuneração é bastante boa se você reprimir o ego e fizer o serviço. Tenho um sorriso simpático e seios grandes. Até agora, a maioria dos clientes tem se lembrado dos meus atributos na hora de dar a gorjeta.
— Obrigada pelo cartão disse Marge. Talvez eu contrate você um dia. Por acaso, adoro — — violão clássico.
— Eu também, mas isso tem suas desvantagens. Estamos sendo mais ou menos tão requisitados quanto uma datilógrafa. Esta piada é velha: qual é a diferença entre um violonista clássico e uma pizza?
— Não faço ideia disse Oliver. Qual é a diferença? — —
— Uma pizza pode alimentar uma família de quatro pessoas respondeu ela, levantando-se —
da mesa.
O garoto falava ao celular quando Decker entrou. Suas roupas estavam organizadamente dispostas sobre a cama. Pelo seu tom de voz, parecia agitado.
— Está certo, Missy, vamos deixar para outra vez. — Gabe revirou os olhos. — Acho que vou recusar, mas obrigado por me convidar... sim, tenho certeza. Está ótimo. Certo... tudo bem... OK, ligo para você quando voltar. Tchau.
Ele desligou, jogou o telefone na cama e olhou para Decker.
— Olá.
— Vai para algum lugar? perguntou Decker, olhando para as roupas. —
— Pensei que poderia ser uma boa ideia ficar algum tempo com minha tia. Mas ela está indo passar o fim de semana em Palm Springs.
Gabe desabou na cama e abaixou a cabeça na mão direita enquanto afundava e tirava a mão esquerda do saco de gelo, agora uma mistura de água fria e restos de gelo.
— Minha mãe a sustenta desde que ela saiu de casa, três anos atrás. Minha mãe está desaparecida. Pode estar morta. Você acharia que minha tia poderia se sentir um pouco envergonhada por ir se divertir com as meninas em Palm Springs.
Decker não disse nada.
— Não sei disse Gabe. Talvez ela esteja certa. Talvez Chris esteja certo. Porque — —
certamente é mais fácil não ligar a mínima.
— Cuidado para não deixar sua mão ficar fria demais — disse Decker.
— Tem razão. — Gabe tirou-a e flexionou os dedos. Estavam rígidos, mas ele conseguia movê-los. Girou o pulso.
— Como ela está?
— Vou ficar bem. Ele levantou os olhos. Sinto muito, tenente. — —
— Por ser assaltado?
— Eu devia simplesmente ter entregado a minha pasta.
— Isso teria sido inteligente. O que havia nela de tão valioso?
— Partitura. — Os olhos verdes evitaram os de Decker. — A arma está lá dentro agora. Tirei o pente.
— Posso dar uma olhada?
— É claro.
Decker apanhou a pasta na cama, tirou a arma e o pente e jogou-os num saco de evidências de papel. Sentou-se na cama em frente.
— O sujeito não estava de brincadeira. Por que decidiu enfrentá-lo?
— Não pensei disse Gabe. Simplesmente fiz. — —
— Por causa de uma partitura?
Novamente, o menino desviou os olhos. Dessa vez não disse nada.
— Gabe, seu pai esteve na cidade ontem.
O menino não disse nada.
— Vou dizer o que eu acho — disse Decker. — Acho que ele fez contato com você. Suspeito que Chris lhe entregou coisas e que essas coisas estavam na sua pasta. E provavelmente foi por isso que você reagiu daquela forma. Portanto, estou perguntando de novo: o que estava dentro dela?
Mais uma vez, Gabe não respondeu.
— Bem, vou voltar a isso — disse Decker. — O que Chris lhe disse?
— Por que acha que Chris esteve na cidade?
— Porque eu e ele estamos procurando a sua mãe e estamos indo na mesma direção. Ele está apenas alguns passos na minha frente, porque não posso dedicar energia em tempo integral a isso.
— Você viu o Chris?
Foi a vez de Decker de contornar a pergunta.
— Achamos que talvez tenhamos localizado o carro da sua mãe.
Gabe levantou os olhos.
— Localizaram? Onde?
— Ele foi sucateado num ferro-velho. Conseguimos os documentos e o número do chassi do veículo. Estamos tentando associar esse carro de alguma maneira com aquele que sua mãe dirigia. Porque o que encontramos não pertencia a ela.
— Então por que acham que encontraram o carro dela?
— Quantas Mercedes novas são vendidas para serem sucateadas?
O adolescente fez uma pausa.
— Quem é o dono do carro?
— Atik Jains. O nome soa familiar para você?
— Não.
— Ele é indiano. O jainismo é uma religião comum na Índia. Sua mãe conhece algum indiano?
— Não — disse Gabe, e suas bochechas coraram.
— Você sabe que está corando? Decker fez uma pausa, em seguida disse: Gabriel, nós — — dois temos o mesmo objetivo. Encontrar a sua mãe. Precisamos trabalhar juntos.
— Não tenho a menor ideia se ela conhecia algum indiano. Eu não acompanhava a vida social da minha mãe. Até onde sei, ela não tinha muitos amigos.
— No entanto você ficou vermelho quando perguntei se ela conhecia algum indiano. Por que isso aconteceu?
— Provavelmente não é nada.
— Fale assim mesmo.
O menino se contorceu.
— Faz um bom tempo. Eu estava esperando minha mãe terminar o turno no hospital. O lugar estava repleto de caras com turbantes. Pensei que era uma ameaça terrorista ou algo parecido. Quando perguntei a minha mãe sobre isso, ela disse que não era nada, que um marajá realmente muito rico estava sendo operado do coração e que todos aqueles caras eram seus guarda-costas.
— Há quanto tempo foi isso?
— Tenho que pensar. Foi quando comecei a ter aulas na Juilliard. Então deve ter sido dois anos atrás.
Decker pegou um bloco de anotações.
— Certo. Que mais?
— Nada mais — disse Gabe. — Acho que fiz uma piada sobre a Índia ter um bilhão de pessoas e o marajá ter que ir a Nova York para encontrar um cirurgião. Minha mãe me disse que o filho dele era um cirurgião cardíaco visitante no hospital e quis que seu pai fosse operado num lugar onde pudesse ficar de olho nele.
Segundos se passaram.
— Foi isso.
— Então você tinha uns 12 anos?
— Mais ou menos. Só me lembrei disso porque não é todo dia que a gente vê uns vinte caras de turbante.
— Sua mãe disse mais alguma coisa sobre o marajá ou o filho dele?
— Não. O menino desviou o olhar e colocou a mão no gelo de novo. Mas ela o — — conhecia... o filho do marajá... que é, na verdade, um cara velho, de uns cinquenta anos...
Decker sorriu.
— Continue.
Gabe suspirou.
— Eu tinha aulas na cidade, por isso ia muito a Manhattan. Costumava pegar o ônibus da minha casa para lá e depois das aulas caminhava até o hospital e voltava de carro com a minha mãe. Uma vez, isso foi mais ou mais um ano atrás, terminei cedo, o que nunca acontece. Meu ex-professor era um tirano, mas ele não estava se sentindo bem. Então, fui andando até o hospital e vi minha mãe conversando com esse cara que se parecia um pouco com o Zubin Mehta... cabelo grisalho, bem-vestido, sério.
— Certo. — Decker anotou o que ouviu. — Parecia que eles se conheciam bem?
— Bem, eles não estavam se tocando nem nada, mas estavam falando... muito. E minha mãe estava sorrindo... Depois ele recebeu uma mensagem pelo pager e foi isso. Em seguida, minha mãe me viu e fomos para casa. Eu perguntei com quem ela estava conversando. Ela disse que ele era o cirurgião cardíaco filho do marajá que tinha todos aqueles guarda-costas.
Quando Gabe não deu mais detalhes, Decker perguntou:
— Ela pareceu constrangida por estar conversando com ele na sua frente?
— Não respondeu Gabe. Ela estava muito natural. Mas eu me lembro disso porque era — —
raro vê-la à vontade perto de um homem. Geralmente ela evitava homens, mesmo quando meu pai não estava por perto.
— Então ela não parecia inquieta?
— Não. — Gabe organizou seus pensamentos. — Muitas vezes fazíamos coisas e não contávamos para o meu pai. Íamos ao cinema ou a restaurantes quando estávamos na cidade. Uma vez fui a uma festa de Natal com ela. Quando ela queria que uma coisa ficasse em segredo, dizia: “Mantenha isto entre nós.” Ela não disse isso. Então esqueci o assunto.
— Voltou a ver o cirurgião com sua mãe alguma vez?
— Não. Ele olhou para Decker. Se tivesse visto minha mãe com ele de novo, isso teria — —
sido estranho. Então você está achando que o cirurgião era o indiano a quem o carro pertencia?
— Gabe, não faço a menor ideia. Mas gostaria de descobrir o nome do cirurgião.
— Então, se for o mesmo cara... você acha que ele sequestrou a minha mãe ou...
— Não sei. — Não estava sequer alimentando a ideia de que ela poderia ter fugido com ele. Fez uma pausa. Talvez seria melhor pedir a alguém para dar uma olhada na sua mão. —
— Vou ficar bem.
— Só por precaução. Gabe ficou em silêncio. Decker disse: Veja, filho, vou ser franco — — com você. Sei que esteve com seu pai. Seria melhor você não esconder evidências materiais que poderiam envolver seu pai no desaparecimento da sua mãe. Você não é nada parecido com Christopher Donatti. Não se prejudique por ele.
Gabe não o olhava nos olhos.
— Como sabe com toda certeza que meu pai esteve na cidade ontem?
— Eu disse para você. Ele esteve no ferro-velho. Nós nos desencontramos por 36 horas. Ele não ligaria para o seu celular. Isso iria aparecer nos registros do seu telefone. Mas sei que entrou em contato com você. E sei que lhe deu alguma coisa. Quero apenas me certificar de que não é nada que tenha sido usado num crime.
Gabe manteve a cabeça levantada, pensando sobre a melhor maneira de sair daquela situação.
— Eu vi Chris por uns cinco minutos. Ele me deu meu passaporte, minha certidão de nascimento e algum dinheiro.
Não conte a ele sobre os extratos bancários. A origem deles pode ser descoberta.
— Foi isso.
— É um começo disse Decker. O que ele disse? — —
— Disse: “Aqui estão coisas de que você pode precisar. Até logo.”
— E essas coisas estavam na sua pasta?
Gabe assentiu com a cabeça.
— Onde estão essas coisas agora?
Gabe tirou sua certidão de nascimento, o passaporte e um maço de dinheiro da mochila e entregou-os a Decker.
— Se estas coisas forem provas de um crime, fique com elas.
— Não são provas. — Decker folheou o passaporte do garoto. Ele estivera na Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria e Polônia. O que achou da Europa? —
— Eu estava participando de concursos de piano, não vi muita coisa.
— Como se saiu?
— Ganhei alguns, perdi alguns.
— Gabe, se isso foi tudo que ele deu para você, por que não me contou ontem?
O adolescente se encolheu.
— Não sei.
— Você está escondendo alguma coisa.
— Olhe aqui, tenente, se eu achasse que ele matou minha mãe, eu mesmo o mataria. Mas não acho que ele tenha feito isso. Então eu preferiria que você simplesmente o deixasse em paz. Sei que não vai fazer isso. Mas se Chris não fez isso, por que eu deveria?
— Se Chris não feriu sua mãe, eu poderia inocentá-lo. Já fiz isso antes.
— Talvez ele não confie em você.
— Quer saber o que acho? — Uma pausa. — Que talvez você tenha razão. Que talvez ele não tenha matado a sua mãe. Talvez sua mãe tenha fugido do seu pai. E se Chris estiver procurando por ela, Deus a ajude se ele a encontrar. Entendo sua lealdade a seu pai, Gabe. Mas é melhor que eu a encontre antes que ele o faça.
— Concordo, mas não tenho como ajudar você. Não sei onde ela está. Não sei onde ele está.
— Então seu pai apenas entregou as coisas a você e disse adeus?
— Exatamente. Está claro que ele não quer nenhum vínculo comigo. E isso é ótimo.
— No entanto, você permanece leal a ele.
— Ele disse que não a matou. — Gabe estava inflexível. — Acredito nele. Depois me deu essas coisas e foi embora. É isso. Não tenho mais nada para contar a você.
Decker enfiou no bolso a certidão e o passaporte.
Deu uma olhada no dinheiro. Estava tudo em notas de cem, e havia muitas delas. Ofereceu o maço de volta para o adolescente.
— Fique com isso — disse Gabe. — Aluguel.
— Pare com isso. — Decker esperou. — Meu braço está ficando cansado. Pegue o dinheiro.
Gabe o aliviou do maço.
— Preciso realmente passar um tempo sozinho. Minha tia deixou uma chave do apartamento dela debaixo do capacho. Acho que vou me esconder lá durante o fim de semana.
— Você não pode ficar no apartamento dela sozinho. Se quiser se mudar para a casa da sua tia, terá de esperar que ela volte de Palm Springs.
— O que vou fazer lá, tenente? Não bebo nada, não uso drogas. Se eu quisesse fazer besteira, poderia fazer isso aqui tanto quanto lá. Não conheço ninguém na cidade, mas garanto que conseguiria encontrar um traficante em cerca de uma hora.
— Não tenho dúvida.
— Então me deixe simplesmente sair do seu caminho e me mudar para a casa da minha tia e todos ficarão felizes.
— Você é jovem demais, Gabe. Não posso deixá-lo fazer isso.
O garoto resmungou.
— Tudo bem. Irei embora na segunda-feira.
— Não estou expulsando você.
— Não posso ficar aqui. Você está caçando o meu pai. É o inimigo.
— Não sou o inimigo. Seu pai não deixaria você ficar aqui se eu fosse o inimigo. Ele sabe quem sou e sabe que vou cuidar bem de você. Mas ele também sabe que vou fazer muitas perguntas para você porque sua mãe está desaparecida, e, neste momento, essa é minha prioridade número um. Não seus sentimentos, mas o bem-estar da sua mãe. Se você quiser se mudar para a casa da sua tia na segunda-feira, não vou impedir. Mas não me responsabilize.
Gabe esfregou os olhos sob os óculos.
— Esta é uma situação tão fodida!
— Não xingue. Por que acha que seu pai não matou sua mãe?
O adolescente ficou confuso.
— Não sei. Ele pareceu sincero.
— Seu pai é um mentiroso patológico.
— Eu sei. Mesmo assim, ele parecia realmente preocupado. E agora você me diz que ele está procurando por ela. Por que faria isso se a tivesse matado?
— Tenho algumas perguntas para você.
Gabe esperou.
— Sua mãe usou o carro durante o fim de semana?
— Preciso pensar... Parece que isso foi séculos atrás.
— Não se apresse.
— Sábado de manhã eu fui praticar. Voltei para o hotel, e depois fomos a pé até Westwood, vimos um filme e jantamos. Domingo passei o dia inteiro na sala de prática de piano. Não sei se minha mãe usou o carro, mas ela não me levou para lugar nenhum. Acho que ela disse alguma coisa sobre querer ficar por perto do hotel porque o Chris iria lá.
— E na sexta-feira?
— Sinceramente, não me lembro.
— Tente.
— Sexta-feira, sexta-feira... Fiquei praticando desde... dez até às quatro. Um suspiro. — —
Jantamos no hotel. O que fizemos depois disso? Gabe fez uma pausa. Fui nadar. A noite — — estava quente. Quando voltei ao quarto, ela não estava lá. Voltou uma hora mais tarde vestida com roupa de ginástica, por isso suponho que estava na sala de ginástica. Vimos televisão e depois fomos para a cama. Realmente uma grande diversão. Por que está perguntando sobre o carro durante o fim de semana?
Decker estava tomando notas.
— Porque o dono do ferro-velho disse que o carro chegou lá no sábado.
— Então... isso significa que não é o carro de minha mãe, já que ela desapareceu domingo, não é?
— Ela desapareceu no domingo. Isso não quer dizer que tenha ido embora de carro no domingo. Ninguém se lembra de vê-la partir. Ela poderia ter fugido.
— Por que faria isso?
— Talvez o encontro com Chris não tenha corrido tão bem quanto pensei. Talvez ela tenha se sentido ameaçada por seu pai e aproveitado a oportunidade para ir embora de uma vez por todas.
— Ela me disse que estava alugando uma casa em Beverly Hills.
— Foi isso que ela contou ao seu pai. Mas checamos com a maior parte dos corretores imobiliários em Beverly Hills. Nenhum deles tinha ouvido falar da sua mãe.
— Não entendo... — O menino estava confuso e entristecido. — Por que ela iria mentir?
— Se de fato mentiu, tenho certeza de que tinha seus motivos.
— Acha que ela foi embora sem mim de propósito?
— Não sei, Gabe, mas se ela fez isso, deve ter se sentido muito ameaçada.
Suas palavras proporcionaram pouco consolo ao menino. Ele parecia devastado... desalentado.
— É possível que as coisas não tenham ido bem com seu pai... que sua mãe tenha caído fora assim que Chris saiu, imaginando que era naquela hora ou nunca.
— É isso que você acha? — perguntou Gabe, encolhido.
— É uma possibilidade.
Ou, pensou Decker, ela tinha planejado a coisa toda muito antes da chegada de Donatti... razão pela qual sucateou o carro no sábado. Sabia que não precisaria dele novamente. Imaginando que se fizesse Donatti se sentir seguro, ele voltaria para casa.
Depois que ele foi embora, ela caiu fora.
O que significava que sabia que iria partir sem o filho.
Então talvez tivesse sido por isso que ela lhe telefonara, para início de conversa. Seu objetivo final não era contratá-lo para que ele lhe desse proteção, mas, sim, para que desse ao filho um porto seguro depois que ela tivesse ido embora para sempre. Se esse tivesse sido o caso, Gabe não havia sido o único a ser enganado.