Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 40 de 50

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Carrasco

Capítulo 40

 

COM OS RAPAZES MORANDO FORA e Hannah raramente em casa, Decker tinha se esquecido do quanto 240 metros quadrados podiam ser apertados. Rina gostava de eufemismos, referindo-se à situação como “compacta” ou “aconchegante”. Ela estava fazendo ajustes de última hora em seu tichel do Shabbos — o lenço de cabeça especial para o sabá. De acordo com a lei judaica, mulheres casadas cobriam o cabelo. O que ela escolhera era de xantungue de seda entremeado com fios de lamê. Seu rosto mal mostrava os sinais da idade: linhas de expressão no canto dos olhos, uma ou duas rugas na testa. Ainda lhe faltavam alguns anos para completar cinquenta, o que fazia dela uma garota para Decker.

— Quanto tempo tenho antes que o Shabbos comece? — ele lhe perguntou.

— Cerca de 15 minutos. — Rina aplicou um gloss rosa-claro nos lábios. Houve uma pausa. — É bom ter todo o mundo aqui junto.

— É sensacional disse Decker. Os meninos estão parecendo ótimos. — —

Os olhos de Rina ficaram úmidos.

— Não os vejo com muita frequência. Já são homens.

— São mesmo. Foi realmente generoso da parte deles encontrar tempo para vir aqui.

— Era uma ocasião especial.

— Suponho que foi um pretexto conveniente. Pelo menos sessenta anos servem para alguma coisa.

— É uma celebração da vida. — Rina olhou no espelho. — Que está passando numa velocidade recorde. É simplesmente encantador ter todo mundo aqui.

— É mesmo. E você sabe o que é ainda mais encantador? Ele a beijou no alto da cabeça. ——

Eles estão indo embora daqui a alguns dias.

Ele pensou que Rina iria censurá-lo. Em vez disso, ela disse:

— Sei o que quer dizer: seis adultos parrudos ocupando espaço. Sete, se contarmos Gabe. E ele está comendo aqui, portanto, acho que temos de incluí-lo. Acho que cozinhei o suficiente, mas posso ter me esquecido do quanto os homens comem.

— Vou me servir por último disse Decker. —

— Não, você é o aniversariante disse Rina. Você é o primeiro a se servir. Fiz carneiro. — — Não é apenas o seu favorito, mas é o favorito de Yonkie também. O garoto está radiante.

— Carneiro... tipo costelas de carneiro?

— Sim.

— Puxa! Quantas costelas você fez?

— Quando a gente desossa, não sobra tanta carne assim. Por isso precisei de muitas.

— Quanto tudo isso custou? perguntou Decker, fazendo uma careta. —

— Você não quer saber. — Rina ficou na ponta dos pés e beijou-o no rosto. — O melhor que você faz é comer. Eu também assei um peru inteiro. Isso será suficiente para amanhã e mais um pouco. Sei que você gosta muito de sanduíches de peru frio fatiado.

— Provavelmente não estarei em casa a tempo para o almoço amanhã.

Rina fez uma pausa.

— Provavelmente ou certamente?

— O funeral de Adrianna Blanc é às onze. Vou tentar estar em casa às duas da tarde.

— Não se apresse, Peter. Vamos esperá-lo. Ela calçou seus sapatos. Pobres pais. Que — — crime brutal. Que idade ela tinha? Próxima à da Cindy?

— Um pouco mais velha que Sammy. Não há uma boa idade para morrer assassinado, mas realmente machuca quando são tão jovens. Só é mais triste quando são crianças. — Ele ficou em silêncio, depois livrou-se daquele pensamento. — O que teremos para a sobremesa esta noite?

— Se estivéssemos nos atendo à tradição, eu deveria ter assado um bolo para você. Em vez disso, fiz tortas.

— Boa pedida. Gosto muito de tortas.

— Por isso minha decisão. Você poderá escolher entre pêssego, morango e cereja, com ou sem sorvete de baunilha e/ou creme de chantili pareve de acordo com as leis dietéticas judaicas.

— Tenho de escolher entre as tortas?

— Pode comer todas as três — disse-lhe Rina. — É a prerrogativa do aniversariante.

— Nesse caso, comerei todas as três. Provavelmente vou me empanturrar e passar mal. Você devia ter feito apenas uma salada.

Rina riu.

— Minha família está reunida pela primeira vez em séculos, e eu devia ter feito uma salada?

— Não tenho nenhum autocontrole em se tratando da sua comida.

— Se você abrir o armário de remédios, vai notar que ele está plenamente abastecido. Conhece meu slogan: coma, beba e tome antiácidos.

 

A cerimônia na igreja durou 45 minutos, e no fim, o pastor convidou qualquer pessoa que quisesse falar a fazê-lo. Havia cerca de cem pessoas na reunião, nenhuma delas ansiosa para subir ao palco. Finalmente, Sela Graydon enfrentou o microfone, soluçando ao longo de um elogio fúnebre de partir o coração a suas duas melhores amigas. Ela estava envelhecida, com olhos fundos e a tez pálida. Sela foi seguida por uma mulher chamada Alicia Martin, que se apresentou como a melhor amiga de Kathy. Depois, outra amiga tomou o microfone, seguida por outra e depois outra. Quando a cerimônia terminou, passava um pouco de uma hora da tarde.

Decker não queria se impor aos pais enlutados, mas havia parecido importante a Kathy que ele comparecesse. Esperou pacientemente atrás de uma fila para oferecer palavras de consolo e condolências. Kathy, como de hábito, estava elegantemente vestida um vestido preto de tricô — com um cinto dourado, sapatos de salto pretos e óculos escuros de casco de tartaruga. Ela viu Decker rondando o fim da fila e fez sinal para que ele avançasse. Embora ele pudesse vê-la claramente era mais alto que a maioria dos que ali estavam , não era fácil para um homem — — grande se introduzir em meio à massa humana. Quando finalmente chegou à frente, Kathy segurou com as duas mãos sua mão estendida.

— Muito obrigada por vir. Os olhos dela umedeceram-se. O enterro será apenas para a — — família. Espero que compreenda.

— Compreendo. Vocês precisam de privacidade para se despedir.

Ela desviou os olhos e passou um lenço neles. Depois voltou seu olhar para o rosto de Decker.

— Esta é Pandora Hurst. — Referia-se a uma mulher à sua direita. — A mãe de Crystal.

Decker ofereceu sua mão, que ela pegou.

— Lamento muito por sua perda, sra. Hurst. — A mulher fitou-o com olhos pálidos, secos: nariz longo, lábios finos, uma cútis fantasmagórica. Ela permaneceu em silêncio.

— Você me dá licença um momento? perguntou Kathy. —

— Claro respondeu Decker. Por favor, ofereça minhas condolências a seu marido. — —

— Farei isso. Kathy deu alguns passos e desabou nos braços de Alicia Martin, soluçando —

em seu ombro. Decker voltou sua atenção para Pandora Hurst. Ela usava um vestido preto longo que lembrava uma fantasia de bruxa. Seu cabelo grisalho estava apanhado no coque seguro com várias presilhas de marfim.

— Se houver alguma coisa de que precise neste momento, sra. Hurst, por favor, me fale.

— Pode me chamar de Pandy. — Sua voz era desprovida de emoção. — Quando vai liberar minha filha para ser enterrada?

— Vou verificar com as pessoas encarregadas.

— Quero levá-la de volta para o Missouri comigo. — Pandy cruzou os braços. — Deram-me toda espécie de papelada para preencher. Nunca fui boa com esse tipo de coisa nas melhores circunstâncias.

— Providenciarei para que alguém a ajude com os formulários.

— Quando seria isso?

— Quando quiser. Segunda-feira seria melhor para mim, mas posso fazer isso antes.

— Eles vão liberar minha filha na segunda-feira?

— Não sei. Tenho de ligar e me informar. Às vezes as coisas caminham mais devagar nos fins de semana.

— Ninguém morre sábado ou domingo?

— O pessoal costuma ser mais reduzido. Se eles puderem, vão segurar as coisas até segunda-feira.

— Então eles trabalham segundo a própria conveniência.

— Vou ligar imediatamente e informá-la assim que me ligarem de volta disse-lhe Decker. —

— Além disso, sei que é um momento muito difícil, mas se eu pudesse conversar com a senhora sobre Crystal, isso poderia me ajudar com o caso de sua filha.

— Não agora. — Ela sacudiu a cabeça. — Não agora.

— Que tal amanhã ou segunda-feira?

— Suponho que amanhã. Vai me ajudar com os formulários?

— Certamente.

— Quero levá-la de volta para o Missouri. Pandy esfregou os braços. Ela jamais gostou — — do Missouri, você sabe.

— Eu não sabia.

— Bem, então... sabe agora.

— Pensei que você tivesse criado Crystal em Los Angeles.

— Criei. Mudei-me para cá por causa de meu marido. Cinco anos mais tarde ele me deixou para andar atrás de rapazes. Fui estúpida ou estava em negação quando me casei com Jack. Quando ele abriu o jogo comigo, eu lhe disse que não guardaria ressentimentos. Mas acho que foi difícil para Crystal.

— O divórcio costuma ser.

— Isso e descobrir que seu pai é gay. Ela se encolheu. Depois que Jack e eu nos — — separamos, eu a levei de volta para o Missouri para visitar meus parentes. Queria que ela conhecesse os avós. Ela simplesmente detestou aquilo. Queixou-se do calor, queixou-se dos insetos, queixou-se da umidade, queixou-se do acampamento para o qual eu a mandei, queixou-se das crianças. Quando me mudei para lá, ela ficou pasma. Por que eu queria viver num pântano com um bando de caipiras? Tentei lhe explicar que sentia falta de minha família. Que à medida que envelhecia, queria estar perto de pessoas que gostavam de mim.

— Compreendo — disse Decker.

— Você pode compreender, mas ela certamente não compreendeu. Mas a Crystal era assim. Ela nunca entendeu realmente o conceito de intimidade e relacionamentos. Todas as pessoas que conhecia eram seus melhores amigos.

 

A viagem de carro para Las Vegas pela I-15 era um tiro direto: cerca de 435 quilômetros que deveriam ter tomado cerca de quatro horas se eles não tivessem parado num dos restaurantes favoritos de Oliver. O lugar se destacava por preços baratos, porções grandes e banheiros limpos — as três melhores pedidas numa estrada. Scott decidiu regalar-se com um cheeseburger com batatas fritas, enquanto Marge escolheu um sanduíche de atum. Ambos comeram torta de maçã como sobremesa.

Eles entraram na Strip por volta das duas horas da tarde. Não havia uma nuvem no céu e a temperatura oscilava em torno dos trinta graus. Quando desceram pelo Las Vegas Boulevard rumando para o norte, o sol estava violento, refletindo-se do Four Seasons sobre as paredes de vidro douradas de Mandalay Bay, o clarão seguindo-os enquanto dirigiram Strip abaixo. Os gigantescos hotéis pouco faziam para proteger contra o calor, porque se elevavam retos como monólitos, sua verticalidade ainda mais pronunciada porque haviam sido erguidos no meio do deserto de Mojave. Oliver tinha reservado um motel pequeno, mas aproveitável, perto da Strip. O saguão era um átrio iluminado que abrigava mesas de uma cafeteria, um balcão de recepção e uma fileira de máquinas caça-níqueis que apitavam e lampejavam mesmo quando ninguém estava jogando.

Depois de se registrar em seus respectivos quartos e desfazer as malas, Marge jogou-se na cama e ligou para o detetive Lonnie Silver do seu celular.

— Sargento Dunn falando.

— Bem-vinda a Las Vegas. Como estava o trânsito?

— Nada mau. O clima está ajudando.

— Sim, está bonito lá fora. Agradável demais para se estar às voltas com homicídios.

— Alguma notícia de Garth Hammerling? — perguntou Marge.

— Não encontrei o rapaz nem a mulher. Mas algo interessante chegou através dos cabos cerca de uma hora atrás. Foi bom vocês terem vindo.

— Isso soa agourento.

— Interessante, não agourento. Não ainda. Neste momento estou no meio da elucidação de uma pista sobre outro homicídio em que estamos trabalhando. Que tal nos encontrarmos dentro de umas duas horas?

— Diga-me onde.

Silver perguntou a Marge onde estava hospedada.

— Irei até aí, ligo para você quando chegar. Há uma cafeteria no saguão. Podemos conversar lá. Ele desligou. Um momento depois, Oliver bateu à porta que ligava seus quartos vizinhos. Marge levantou-se e abriu-a.

— Temos um encontro dentro de duas horas. Ele não localizou Garth Hammerling, mas estava satisfeito por termos vindo. Alguma coisa interessante acabou de chegar.

— Que significa isso?

— Não sei, mas suponho que descobriremos muito em breve. Ela deu uma olhada em seu —

relógio. Temos algum tempo. O clima está perfeito. Acho que vou dar um mergulho na —

piscina.

— Divirta-se.

— O que vai fazer?

— Passei as últimas cinco horas sentado. Está bonito lá fora. Acho que vou dar uma caminhada. Ver o que está acontecendo na cidade.

— Você sabe o que está acontecendo na cidade. Jogo, jogo e mais jogo. Quanto dinheiro você trouxe para jogar no vaso sanitário e dar descarga?

— Desde quando você se tornou tão julgadora?

— Não me importo se as pessoas jogam. Apenas não quero que meu amigo e parceiro perca até a roupa do corpo. Ela estendeu a mão. Dê-me a metade. Você vai me agradecer mais — — tarde, depois que a fissura de jogar tiver passado e seus bolsos estiverem vazios.

Oliver pensou sobre isso. Depois tirou cinco notas de cem dólares e colocou-as na mão dela.

— Não sei por que estou fazendo isto.

— Talvez porque eu esteja certa.

— Estarei de volta em uma hora — resmungou Oliver. — Vou jogar nas mesas. A aposta é mais barata durante o dia. Tenho um novo sistema que quero experimentar. E aliás, não pretendo perder.

— Ninguém jamais pretende, Scott. É por isso que as multidões continuam se avolumando e os hotéis ficam cada vez maiores.

 

Por força do hábito, Decker ligou seu telefone celular depois que saiu do funeral de Adrianna Blanc e, como sempre, havia mensagens. Ele imaginou que seria melhor ouvi-las para poder almoçar e aproveitar a companhia de sua família em paz. O jantar da véspera fora ruidoso e marcado por discussões, com o grupo mais jovem falando sem parar. Havia momentos em que ele tinha a impressão de estar numa partida de tênis, com sua cabeça virando para cá e para lá para captar o fluxo da conversa. Mas a energia era excelente. Ele gostava disso por saber que era temporário. Na segunda-feira, teria sua casa semissilenciosa de volta.

Havia duas mensagens no seu correio de voz.

Número um: Olá, tenente, é Wanda. Desculpe-me por perturbá-lo no seu sabá, mas surgiu uma coisa sobre a qual o senhor gostaria de saber. Dê-me uma ligada assim que puder.

Numero dois: Olá, tenente, é Gabe Whitman. A detetive Bontemps deixou uma mensagem na sua secretária eletrônica em casa e está tentando falar com você. Ela diz que é importante. Rina falou que você deveria ir para a delegacia. Ela almoçará com você a qualquer hora em que chegue. Fui escolhido para ligar por não ser judeu. É bom servir para alguma coisa.

Embora o humor de Gabe tenha feito Decker sorrir, o conteúdo de sua mensagem o fez suspirar internamente. Deu meia-volta com o carro e rumou para o trabalho.