Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 29 de 50

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Carrasco

Capítulo 29

 

 

MANDY CONTINUOU NÃO ATENDENDO A PORTA, mas com seu carro ausente, Oliver e Marge estavam menos preocupados que curiosos. Talvez a mulher tivesse pedido alguns dias de folga para torrar ao sol em alguma praia mexicana próxima. Mais preocupante era Crystal Larabee. Quando os amigos ficavam inquietos, era hora de sentar-se e prestar atenção.

O prédio quadrado de dois andares que Crystal chamava de lar era iluminado com refletores brancos que projetavam manchas ocasionais no estuque entre branco e acinzentado. Sela Graydon estava esperando do lado de fora, vestindo um flamejante terninho vermelho com uma enorme bolsa de couro empoleirada no ombro. Andava de um lado para outro e sacudia suas chaves, mas parou quando viu Marge sair do carro. Sua tentativa de sorrir foi um triste fracasso.

— Olá. — Sela ajustou a bolsa sobre o ombro e estendeu a mão. — Obrigada por virem. Isso faz com que me sinta menos maluca.

Marge apertou-lhe a mão.

— Sua amiga morreu alguns dias atrás. Você tem todo direito de se sentir preocupada.

— Estou uma pilha de nervos. Não consigo me concentrar no trabalho. Tenho de ler tudo duas vezes. Ela mordeu sua unha do polegar. Estou muito triste, é claro. É tão horrível. Não — — paro de me perguntar no que Adrianna se meteu.

— Até que saibamos, é bom ter cautela disse Marge. —

— Cautela com o quê? Quero dizer, isso não tem nada a ver comigo, certo?

— Você consegue pensar numa razão por que a morte de Adrianna teria alguma coisa a ver com você? — respondeu Marge.

— Não. Quer dizer, o simples fato de sermos amigas não significa que estávamos envolvidas nas mesmas coisas. Uma longa pausa. Eu deveria estar preocupada? — —

— Um passo de cada vez disse Oliver. Está com a chave do apartamento de Crystal? — —

Sela mostrou um aro com cerca de uma dúzia de chaves penduradas. Fique à vontade. —

— Crystal deu a chave para você disse Marge. Com isso, deu permissão implícita para — — você entrar na casa dela. Portanto, vamos deixá-la fazer as honras.

O trio subiu as escadas. Quando chegaram à porta de Crystal, Oliver bateu com força.

— Crystal? — Mais uma batida. — Crystal, você está aí?

Sela mordeu a unha do polegar.

— É imaginação minha ou estou sentindo o cheiro de alguma coisa podre?

— Não, alguma coisa está fedendo disse Marge. Você pode abrir a porta? — —

— Não quero entrar.

— Diga-nos que você nos telefonou e quis que déssemos uma olhada no apartamento dela porque suspeitava de que poderia haver alguma coisa errada.

— Eu lhes pedi para dar uma olhada no apartamento dela. Suspeito de que possa haver alguma coisa errada.

— Ótimo — disse Oliver. — Destranque a porta e cuidaremos das coisas daí em diante.

Com a mão trêmula, Sela conseguiu inserir a chave e girar a fechadura de segurança. Quando a porta se abriu, o fedor ficou mais forte. Não exatamente fedor de um corpo em putrefação; parecia mais lixo guardado por muito tempo.

Sela ficou cinza.

— Que tal você esperar lá embaixo, no seu carro? — perguntou Marge.

— Boa ideia. Ela desfaleceu e Oliver segurou-lhe o braço. —

— Deixe-me ajudá-la a descer as escadas.

— Estou... bem.

— Tenho certeza de que está, mas os degraus são íngremes e você está de salto.

Ela não ofereceu resistência enquanto Oliver a guiava até o primeiro pavimento. Um minuto depois, ele voltou pulando degraus. Marge já estava dentro, investigando a cozinha. Ela calçara luvas de borracha e havia aberto um dos dois sacos de lixo encostados à parede.

— Nossa, isto está forte! Eu deveria ter trazido uma máscara.

— Deveria, poderia, iria — Oliver pôs luvas também, enxotando umas duas moscas agitadas; nunca são um bom sinal.

— Encontrou alguma parte de corpo?

— Não, apenas muitos legumes pegajosos. Ela levantou os olhos, afastou uma mosca com a —

mão e franziu o nariz, enojada. Já que iniciei o trabalho sujo, vou terminá-lo. Por que você não —

olha por aí e me diz se encontrou alguma coisa interessante?

Ele abanou o ar em frente a seu rosto com rápidos movimentos da mão.

— Não vou discutir.

Marge continuou a revirar o lixo. Além de frutas e legumes em decomposição, havia várias caixas de leite descartadas, uma caixa descartada de suco de laranja, queijo mofado, uma velha carne processada manchada de verde. Ela amarrou a boca do saco e abriu o outro. Seus conteúdos incluíam uma grande quantidade de temperos semiutilizados, incluindo, mas não se limitando, a ketchup, mostarda, maionese, molho de soja, molho de picles para cachorro-quente, um pote de geleia de morango cristalizada, vinagre, wasabi de raiz-forte, cerejas marrasquino, cebolas-pérola e azeitonas recheadas com pimentão.

Oliver voltou à cozinha cerca de vinte minutos mais tarde, exatamente quando Marge amarrava a boca do segundo saco.

— Há roupas no chão e a cama está desarrumada.

— Algum sinal de luta?

— Parece mais a casa de uma porcalhona do que uma cena de crime.

— E quanto a sexo recente?

— Nenhum preservativo usado. O quarto não cheira a particularmente limpo, mas não fede a esperma. O banheiro também está desarrumado, mas nada repugnante, como toalhas ensanguentadas ou respingos na parede. E quanto a você?

— Para uma porcalhona, ela acaba de fazer uma grande faxina na cozinha.

Oliver olhou à sua volta. Como da primeira vez, havia pratos com crostas de sujeira na pia e as bancadas estavam sujas.

— O que você quer dizer? O lugar é um chiqueiro.

— Ela limpou a geladeira. — Os dois se entreolharam. — Ou alguém limpou a geladeira dela.

Marge envolveu a maçaneta de uma velha geladeira Amana branca com sua mão enluvada e deu um puxão.

Um braço caiu pesadamente.

Nenhum corpo se seguiu.

Os dois detetives espiaram o interior. O corpo nu de Crystal Larabee havia sido tão socado lá dentro que nem a gravidade conseguira deslocá-la de sua tumba gelada. Prateleiras tinham sido removidas para dar lugar ao cadáver. Ela tinha sido dobrada em pregas. Os pés tinham sido curvados para a frente nos tornozelos, as pernas foram dobradas na altura dos joelhos de modo que as coxas estavam apertadas contra o estômago e o peito. A cabeça tinha sido puxada para frente, virada para a direita, e estava esmagada entre os joelhos e a prateleira superior não removível.

Oliver bufou.

— Você comunica à perícia criminal. Vou pegar o kit de cena do crime no carro.

Marge pegou seu telefone.

— Quando estiver lá embaixo, converse com Sela Graydon. Deveríamos ficar de olho nela.

— Como uma suspeita em potencial ou uma vítima em potencial?

— Neste momento, penso em vítima. Marge digitou o número de telefone de Decker. — —

Não sabemos o que está acontecendo. Certamente não queremos um caso de dois homicídios consumados e um por vir.

 

Sela estava no banco de trás do carro não identificado. A pobre moça tinha vomitado seu jantar. Neste momento, tremia e soluçava.

— Por que... isso está… acontecendo?

— Deve estar parecendo um pesadelo — disse Marge.

— Mas é... um pesadelo! — Sela soluçou num lenço de papel. — Estou apavorada. E se for tipo um daqueles filmes de horror? Alguém... da época do ensino médio está nos punindo com uma vingança?

— Você mora sozinha?

— Sim.

— Há alguém em cuja casa poderia passar esta noite?

— Meus pais... Ela caiu num novo acesso de soluços. Quero ir para casa! — —

— Onde moram os seus pais?

— Em Ventura.

Cerca de 65 quilômetros de Los Angeles.

— Não acho que esteja em boas condições para dirigir neste momento. Que tal se você ligasse para eles pedindo para virem apanhá-la?

— Preciso do meu carro. Sela assoou o nariz. Tenho de ir para o trabalho de manhã. Já — — estou atrasada com alguns trabalhos porque tenho estado tão perturbada... por causa de Adrianna.

— Seus pais são casados?

— Sim, é claro.

— Talvez eles possam dirigir até aqui juntos e depois dirigir de volta para casa separados.

— Vou ligar para eles disse Sela, enxugando os olhos. —

— Antes que você ligue, quero lhe fazer algumas perguntas.

Marge pegou seu bloco de anotações.

— Para quem eu deveria telefonar para falar sobre a Crystal?

— Ai, meu Deus! As lágrimas começaram de novo. Acho que para a mãe dela. Ela não — — mora mais em Los Angeles. Mudou-se.

— Você tem o número dela?

Sela sacudiu a cabeça.

— E o nome?

— Pandy Hurst — Sela soletrou-o. — É apelido de Pandora.

— E não tem ideia de onde ela mora?

— Tenho certeza de que o número de telefone dela está no celular de Crystal.

— Tudo bem. Vamos encontrá-la. Marge fez uma pausa. Consegue imaginar uma razão — — pela qual alguém haveria de querer fazer mal a Crystal e Adrianna?

— A única coisa em que posso pensar é naquele cara com quem Adrianna estava conversando no bar. Talvez ele fosse um serial killer.

— Sim, nós o estamos investigando. Uma observação mais pessoal: ainda não conseguimos encontrar Garth Hammerling. Pelo que ouvimos falar, o homem não era confiável. Ele poderia estar tendo alguma coisa com Crystal em paralelo?

— É totalmente possível. Garth é um idiota.

— E quanto a Aaron Ortis? Ele teve um breve caso com Adrianna.

— Não o conheço bem... Sela ficou pálida de repente. Acho que estou enjoada de novo. — —

Ela abriu a porta e vomitou sobre o meio-fio, tendo ânsias e tossindo. Ao fundo, Marge ouviu a aproximação de sirenes gemendo.

— Me dê licença por um momento. Marge saiu do banco traseiro e foi ao encontro dos dois —

carros de polícia, dando ordens aos policiais uniformizados para bloquear a rua e proteger o prédio. Uma multidão estava se formando e Marge precisava da ajuda deles. Oliver já estava lá em cima, isolando o apartamento.

Sela havia parado de vomitar e estava sentada no banco traseiro com a cabeça entre os joelhos. Lentamente, ela levantou a cabeça e limpou os olhos e o rosto.

— Meu Deus, estou um lixo! Estava babando e deu batidinhas nos cantos da boca com um —

lenço de papel. — É engraçado. — Uma pausa. — Não engraçado de fazer rir, mas ironicamente engraçado. Durante os últimos quatro anos, aproximadamente, venho tentando me afastar dessas duas. E agora elas não estão mais aqui... e me sinto péssima! Como se eu tivesse causado isso por ter desejado.

— Você não causou coisa alguma, sabe disso. Marge deslizara para o banco traseiro do —

carro. É tão vítima quanto elas. —

— Com a diferença de que ainda estou aqui.

A culpa dos sobreviventes.

— Graças a Deus. Vou ligar para os seus pais agora, se quiser.

— Eu faço isso. Dou conta disso. — Sela falava tanto para si mesma quanto para Marge. Digitou os números, mas assim que sua mãe atendeu, voltou a chorar. A mãe começou a gritar, alto o suficiente para Marge ouvir.

— Estou bem, estou bem, estou bem disse Sela aos soluços. —

Marge pegou o telefone e apresentou-se.

Mais uma conversa telefônica dilacerante.

Mais uma longa noite.