Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 45 de 50

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Carrasco

Capítulo 45

 

 

QUANDO DECKER ENTROU NA DELEGACIA, ÀS onze horas, Wanda Bontemps estalou os dedos para chamar sua atenção. Ela estava ao telefone e apontou para uma extensão desocupada. Decker apertou o botão iluminado e pegou o fone silenciosamente.

— Não compreendo como vocês puderam perder todo um saco de joias!

Era Chuck Tinsley. Decker pegou um bloco de anotações.

— Tenho certeza de que ele não foi perdido, sr. Tinsley — disse Wanda —, apenas posto no lugar errado. — Eu só queria lhe assegurar de que todas as peças foram fotografadas e descritas. Se tivermos de substituí-las, você receberá plena compensação monetária.

Decker fez-lhe um sinal de positivo com a mão. Ela sorriu.

— Não estou dando a menor bola para compensação. As peças tinham valor sentimental. Pertenciam à minha falecida mãe. Como vocês vão substituir relíquias de família, hein?

— Tenho certeza de que vão aparecer...

— Sabe, eu nunca tive muito respeito pela polícia. E sabe por quê? Vocês aí não têm nenhum respeito pelas pessoas a que servem. Isto é, vocês me trataram como um criminoso e enquanto isso o verdadeiro imbecil que matou Adrianna ainda está solto. Vocês são um bando de palhaços, sabia disto?

— Sei que deve estar frustrado, sr. Tinsley...

— Que foi que vocês fizeram com as minhas coisas? Levaram para casa para vocês mesmos?

— Eu o avisarei quando encontrarmos as peças.

— Sim, certo. Nesse meio-tempo, me dê o dinheiro.

— Você quer compensação em dinheiro pelas peças?

— Não, quero as peças. Mas se vocês não conseguem encontrá-las, deem-me dinheiro. E não levem o ano inteiro para fazer esse cheque, se você entende o que estou dizendo.

— Solicitarei o dinheiro agora mesmo, se quiser.

Fez-se silêncio na linha.

— Depois o que acontece se vocês encontrarem as joias?

— Eu as entregarei de volta para você e você devolve o dinheiro.

— Vocês deveriam me dar as joias e o dinheiro por todo o aborrecimento que estão me causando. Ele desligou abruptamente. —

Wanda e Decker puseram seus respectivos fones no gancho.

— Ele quer seus troféus de volta.

— Certamente parece apegado a eles.

— Pode esquecer a mentira de que é só um ladrão. Se esse fosse o caso, teria ficado entusiasmado com o dinheiro. Não precisaria se incomodar com um receptador. — Ela se levantou e se esticou. — Faz umas duas horas que estou aqui. Preciso de uma mudança de cenário. Vou levar as joias ao laboratório eu mesma. Quer uma atualização?

— Sempre.

Wanda folheou seu bloco de anotações.

— Falei com o Departamento de Polícia de Oxnard. Vou até lá amanhã para examinar o arquivo e comparar anotações. O detetive encarregado não está trabalhando hoje. Deixei uma mensagem. Seria ótimo se o nome de Tinsley aparecesse no arquivo de Oxnard.

— Podemos torcer para isso. E quanto ao Departamento de Polícia de Oceanside?

— Lee Wang entrou em contato com eles. Você terá de falar com ele sobre isso. Estivemos também procurando uma conexão militar com Tinsley. Isso ainda não apareceu.

— Do modo como Tinsley está agindo, não vamos chegar nem perto de sua casa.

— Estou também me perguntando se ele não desconfia, lá no fundo, que estamos de olho nele — disse Wanda.

— Mantenha-se em estreito contanto com a equipe de vigilância.

— É claro, mas... estou também me perguntando... não sei, tenente. Que se as joias eram seus troféus, agora que ele acha que as peças estão perdidas, talvez possa tentar encontrar alguns novos para substituir os antigos?

— Vamos pôr uma outra equipe na cola dele.

— Sim, isso faria com que eu me sentisse um pouco melhor.

 

Pelo telefone, Marge disse:

— Frieda Kowalski está com ela na UTI. Está segurando a mão dela.

— Como ela está se saindo?

— Mandy ou Frieda?

— Ambas.

— Mandy vai sair dessa, mas vai sentir muita dor. Ela tem queimaduras na parte inferior do corpo, um braço quebrado e o rosto machucado e inchado por causa do airbag.

— E a mãe?

— Ela é um pouco... reservada. Foi logo me dizendo que ela e Mandy não eram muito próximas. Também não sou tão próxima da minha mãe, mas se eu estivesse sofrendo com queimaduras e ossos quebrados, não acho que essas palavras seriam as primeiras coisas a saírem da sua boca.

— Ela pareceu entorpecida quando falei com ela. Podia ser choque. E eles vão tirar Mandy da sedação hoje?

— Sim, mas é um processo lento. Ela vai passar dias inconsciente. O médico nos disse para não esperar nada antes de amanhã à tarde. Talvez quando você chegar aqui ela esteja desperta o bastante para balbuciar.

— Como está a procura por Garth?

— Nessa frente, fizemos algum progresso. Depois de virarmos uma noite, conseguimos várias confirmações de que sim, ele e Mandy estiveram aqui em North Las Vegas. Os dois foram identificados por uma garçonete no Gold, uma do restaurante do New Lodge Inn. Isso foi na... espere... na quarta-feira à noite. E também na quinta-feira... deixe-me verificar... eles foram vistos no bar do Gin and Rose Pub and Casino. Mas... nem Scott nem eu descobrimos onde realmente se hospedaram. Vamos continuar investigando.

— Que carro Mandy dirigia quando sofreu o acidente?

— Ela tem um Corolla 2002.

— Se Mandy arrebentou seu carro, o que Garth está dirigindo agora?

— Não sei. Ele tem seu próprio carro, mas não sei onde está.

— Eles dirigiam separadamente?

— Talvez. Ou talvez ele tenha vendido seu carro para conseguir dinheiro. Vamos procurar por aí.

— Entendi. Qual foi a última vez que Garth se hospedou num hotel em North Las Vegas?

— Há muito tempo... talvez sete meses.

— Mas ele esteve em Las Vegas várias vezes nos últimos sete meses.

— Eu sei, e isso nos fez pensar, Scott e eu. Talvez tenha alugado um apartamento ou uma unidade num condomínio. O aluguel mensal seria menos do que os hotéis cobrariam por diárias se viesse para cá com frequência suficiente.

Decker pensou sobre isso.

— Se Garth tem sua própria casa, poderia estar guardando seu carro lá.

— Um carro ou uma moto para motocross disse Marge. Oliver e eu gostaríamos de — — passar mais um dia aqui. Vamos levar algum tempo para checar prédios, e, sinceramente, eu gostaria de estar lá quando Mandy começar a falar.

— Posso conseguir mais um dia para vocês. Encontro-a aí amanhã, ou no meio da manhã ou à tarde. Preciso resolver algumas coisas primeiro.

— Vou buscar você no aeroporto.

— Não, não perca tempo. Pegarei um táxi.

— Tudo bem. — Marge sorriu, embora ele não pudesse ver isso. — Se você quiser, Pete, podemos voltar todos juntos. Faz algum tempo que não faço uma viagem de carro.

— Acho que eu não poderia sobreviver a quatro horas e meia num espaço confinado com Oliver Scott.

— Não é tão ruim. Ele ronca quando dorme, mas pelo menos não cheira mal.

Decker riu e desligou. Eram quase duas da tarde. O jantar estava marcado para cedo, porque os rapazes teriam de pegar aviões tarde da noite para voltar à Costa Leste. Decidiu fazer um intervalo para isso e estava na metade do caminho até a porta quando o telefone de sua mesa tocou. Jogou as mãos para o alto e atendeu a ligação.

— Tem um minuto? perguntou Wanda. —

— É claro. O que há?

— Quando a técnica estava examinando as joias à procura de evidências, encontrou um minúsculo fio de cabelo preso no fecho do colar com o R de diamantes. Segundo ela, microscopicamente ele se parece com um daqueles cabelos finos em volta do pescoço que são irritantes quando pomos uma joia.

— Puxa. Isso é um golpe de sorte.

— O que é melhor ainda é que o fio de cabelo tem uma raiz.

Decker sentiu seu coração começar a bater forte.

— Então podemos obter DNA a partir dele?

— Possivelmente. Foi sorte nossa que Tinsley estivesse guardando suas joias num saco de papel. Menos propenso a deterioração.

— Com que rapidez você pode conseguir um resultado, Wanda?

— Vou pedir pressa. Levará no mínimo algumas semanas.

— Tinsley nos deu uma raspagem bucal. Vamos levar isso ao laboratório assim que possível. Se o cabelo pertencesse à mãe de Tinsley, o perfil de DNA dele seria relacionado ao DNA do cabelo. Se não, nós o pegamos numa mentira. E se for cabelo de Roxanne, o que ele está fazendo com o colar dela? O detetive encarregado do caso dela chegou a ligar de volta para você?

— Sim. O nome dele é Ronald Beckwith. Vamos nos encontrar amanhã às dez horas.

— Ligue de novo para Beckwith. Descubra se o DNA de Roxanne está no arquivo.

— Fiz isso. Está.

— Pergunte-lhe também se eles recolheram alguma evidência estranha que poderia gerar um perfil de DNA do perpetrador.

— Entendido.

— Vamos correr com isso. Tinsley está por aí e isso está me deixando cada vez mais nervoso.

Mais uma vez, Decker desligou o telefone. Esfregou os olhos e depois esfregou o pescoço. Estava cansado, mas esses dois dias estavam se revelando produtivos. Garth fora visto com Mandy, portanto eles estavam na trilha certa com Las Vegas. E Mandy, embora num estado que inspirava cuidados, ainda estava viva. Ela acabaria ficando bem o suficiente para falar. E que sorte haver um fio de cabelo com raiz no fecho do colar. Um perfil de DNA resolveria muitos problemas. As coisas pareciam estar se encaixando, mas ainda havia muitas questões fundamentais não respondidas.

Onde estava Garth?

Quais foram os acontecimentos que levaram à morte de Adrianna Blanc?

Quais foram os acontecimentos que levaram à morte de Crystal Larabee?

As mortes das duas mulheres estavam relacionadas?

E Chuck Tinsley era um serial killer?

Tantos crimes, tão pouco tempo.

 

Enxugando o suor da testa, Marge olhou para o céu ofuscante. O sol do deserto, que havia sido tão perfeito ontem, quando ela descansava em volta da piscina, transformara-se agora no inimigo quando eles andavam de cá para lá, de um prédio para outro, sob um calor de 32 graus.

E, caramba, Clark County certamente tinha muitos prédios.

Tinha prédios, condomínios, conjuntos e hotéis desleixados que alugavam quartos por longas temporadas. Eles tinham feito isso durante horas antes de fazerem, finalmente, uma pausa para jantar. A única coisa aberta às cinco horas da tarde era um restaurante que anunciava o melhor churrasco da cidade. Eles não mentiram. As costelas estavam se desmanchando e eram bem temperadas, exatamente como Marge gostava. Quando terminou, ela se limpou com uma tolha de papel umedecida.

— Isto estava ótimo.

Oliver ainda mastigava carnes tiradas de um osso.

— Bom demais.

— O que temos pela frente?

— Se você insiste em trabalhar, temos uma porção de condomínios numa área de alguns quilômetros.

— Quanto é uma porção?

— Cinco, cada um com cerca de trinta apartamentos. Dois deles têm uma empresa administradora no local.

— Vamos começar por eles. Marge fez sinal à garçonete para pedir a conta. —

— Estamos procurando uma coisa que talvez não exista. Oliver fez uma pausa. Meio — — como o amor.

A garçonete aproximou-se uma senhora robusta com cabelo grisalho arrepiado. —

— Não vão querer sobremesa?

— Gostaria que pudéssemos — disse-lhe Oliver. — Temos de voltar ao trabalho.

— Trabalhando nos domingos? O que vocês fazem?

— Policiais. Oliver mostrou seu distintivo. De verdade. — —

Ela olhou para o escudo sem examiná-lo com atenção.

— Nesse caso, vou embalar umas duas rosquinhas para viagem. Por conta da casa.

— Muito obrigada, podemos pagar por isso disse Marge. —

— Faço questão.

Oliver derramou-se com sinceridade.

— É muita gentileza sua.

— Não tenha dúvida! — Ela tocou no ombro de Oliver gentilmente e se afastou.

— O que algumas pessoas não fazem por uma rosquinha de graça disse Marge —

— Nós nos oferecemos para pagar. Ela recusou.

— Eu me ofereci para pagar corrigiu Marge. —

— Sim, você é o policial do bem, eu sou o policial do mal. Já decidimos isso. Podemos passar para outra, por favor?

Marge sorriu.

— Trate de assegurar que ela inclua uma rosquinha com xarope de bordo.

— Tenho de assegurar isso?

— Você é o grande conquistador, Scott. Se pedir com jeitinho, aposto que ela põe duas.