Carrasco

Faye Kellerman · Capítulo 11 de 50

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Carrasco

Capítulo 11

 

 

EMBORA A HAPPY HOUR JÁ TIVESSE passado, o bar estava lotado. O Ice era um daqueles restaurantes elegantes com paredes e tetos compostos de painéis em cores pastel iluminados por trás, que mudavam de tom no curso de um jantar. O matiz do momento era azul-piscina, conferindo ao lugar a aparência de um iglu. A temperatura no interior certamente se beneficiaria com um pouco do vento ártico do Polo Norte. O dia havia sido extremamente quente e desagradável para aquela época do ano. Embora estivesse vestida para o calor, com calça de linho bege e uma blusa de algodão branca, Marge sentia-se pegajosa, como se suas roupas tivessem sido coladas em seu corpo. Pelo telefone, Sela Graydon dissera que estaria usando um terninho cinza, blusa vermelha e escarpins pretos, portanto seria fácil localizá-la.

A advogada estava envolta em uma cabeleira castanha ondulada que lhe caía até os ombros. Tinha a cabeça baixa, os olhos fixos no tampo do bar, com o queixo nas mãos. Estava ouvindo a conversa de um homem de trinta e poucos anos com a sombra dourada de uma barba loura por fazer. Volta e meia, Sela levantava a cabeça, enxugava os olhos com as pontas dos dedos e depois abaixava a cabeça e continuava a olhar para o nada. Marge introduziu-se em meio à multidão e apoderou-se do assento junto a ela.

— Sela Graydon?

— Você é da polícia? — perguntou a mulher, levantando os olhos para o rosto de Marge.

— Sargento Marge Dunn. Nós nos falamos por telefone. Obrigada por se encontrar comigo dentro de tão pouco tempo.

Sela mordeu o lábio, mas não disse nada. O homem louro estendeu a mão para Marge.

— Rick Briscoe. Trabalho com Sela na Youngblood, Martin and Fitch. Marge apertou-lhe a —

mão no mais breve dos cumprimentos. Achei que ela não deveria ficar sozinha. —

— Gentil da sua parte. Para Sela, Marge disse: Que tal se ficássemos em uma mesa de — — canto? Elas dão um pouco mais de privacidade.

— Estão ocupadas disse Sela, olhando à sua volta. —

— Meu colega, detetive Oliver, está guardando uma para nós.

— Vá lá, Sela — disse-lhe Rick. — Vou esperar aqui até que você termine. Estou trabalhando nos depoimentos de Claridge, de qualquer maneira. Se precisar de alguma coisa, é só gritar.

Sela assentiu com a cabeça, escorregou do banquinho e ficou de pé. Media por volta de 1,60m. Marge conduziu-a até a mesa em que Oliver bebericava água tônica. Ele se apresentou e perguntou se ela estava com fome.

— Não... Ela se sentou e lágrimas lhe escorriam dos olhos. Não posso pensar em — — comida. Kathy me ligou, me pedindo para ir lá. Eu disse que sim, é claro, mas não sei por quê. Ainda estou em choque. Tenho certeza de que não poderei ajudá-la em nada.

— Kathy é a mãe de Adrianna? Oliver perguntou para confirmar. —

— Sim, desculpe. Ela é quase uma segunda mãe. Vai ser tão horrível.

— Às vezes, a melhor coisa é não dizer nada — disse-lhe Marge. — Você falou com Adrianna esta manhã.

— Não falei com ela — disse Marge. — Ela deixou uma mensagem no meu celular.

— A ligação durou quase dois minutos.

— Ela deixou uma mensagem longa.

— Sobre o quê? perguntou Oliver. —

— Eu gostaria de lhes contar tudo que ela disse. Um grande suspiro. A verdade é que às — — vezes a Adrianna começa a divagar e não presto atenção. Na verdade, deletei a mensagem antes de ouvi-la inteira.

— Sobre o que era?

— Algo sobre nos encontrarmos hoje à noite porque o Garth está fora da cidade, mas não que a presença dele fosse impedi-la de todo modo, porque ele estava sempre fora. Depois ela começou a dizer que é bom que ele tenha ido, e se ela fosse realmente inteligente se livraria do namorado, porque ele a esgotava emocional e financeiramente. E ele nunca valoriza nada que ela faz por ele e há muitos outros homens por aí e blablablá. — Marcas úmidas riscavam seu rosto. — Apaguei a mensagem quando cheguei à parte do blablablá.

— Você ligou de volta para ela, srta. Graydon.

— Isto é uma afirmação ou uma pergunta?

— Temos o celular dela, por isso sabemos que ligou de volta para ela.

— Liguei para ela. Deixei uma mensagem muito curta. Eu estaria ocupada esta noite. “Que tal nos encontrarmos para um brunch, domingo?” É sempre mais fácil lidar com Adrianna à luz do dia.

— O que quer dizer? — perguntou Oliver.

O sorriso de Sela foi dolorosamente triste.

— Não entendam isso da maneira errada. Eu amava Adrianna de todo o coração, mas às vezes... especialmente se ela estivesse se sentindo deprimida... tinha dificuldade em saber quando parar. Enxugou os olhos novamente. Ela nunca era uma bêbada má... mas podia ficar — — descuidada com suas palavras.

— Pode me dar um exemplo? pediu-lhe Marge. —

— Deixe-me pensar como dizer isso exatamente disse Sela. Quando bebia demais, — — Adrianna começava a dar conselhos... que eu precisava sair mais, que eu precisava fazer mais exercício. Ela tentava promover encontros entre mim e pessoas que eu detestava. Eu sabia que ela estava embriagada, mas percebia que estava dizendo o que realmente pensava. Isso dava nos nervos.

Marge assentiu com a cabeça.

— Ela podia ficar realmente ridícula. Um rubor subira às faces da advogada. Não quero — — parecer esnobe, mas estávamos em níveis diferentes. E a Adrianna insistia em equiparar nossas condições de vida. Eu não me importava com isso, mas mesmo quando ela não estava embriagada, dizia algumas coisas. Como na ocasião em que eu estava me queixando para ela de que tinha marcado alguns clientes para as mesmas horas e não sabia o que ia fazer. Então, em vez de ser solidária, a Adrianna me disse: “Oh, você tem clientes. Não é fofo?” Juro que tive vontade de esmurrá-la.

A mesa ficou em silêncio.

— Ai, Deus, isso é horrível da minha parte! Sela começou a chorar. Ela podia ser difícil, — — mas era a pessoa mais encantadora do mundo. Eu realmente a amava.

— Claro que sim disse Marge, pondo a mão no ombro dela. Vocês eram próximas. E — — pessoas próximas sabem como irritar uma à outra.

— É horrível que ela tenha morrido dessa maneira tão trágica, brutal — disse Oliver. — Mas você não precisa exaltar tudo que ela fez na vida. Pessoas mesquinhas morrem também.

— Ela não era mesquinha, era apenas descuidada.

— Ela podia ser problemática. O próprio pai dela disse isso.

— Ela não se dava bem com ele.

— Deduzimos isso. Por que motivos eles brigavam?

— Que diferença isso faz? Ele não a matou. Isso eu posso garantir.

— Apenas tentando obter um panorama completo — disse Marge. — Por exemplo, quando Garth estava fora da cidade e Adrianna bebia demais, ela se envolvia com outros homens?

Houve uma longa pausa. Finalmente Sela disse:

— Ela não desapareceu de um bar, desapareceu do trabalho.

— Mas talvez tivesse se encontrado com alguém com quem tenha transado na noite anterior — disse Marge. Pelo que ela estava lhe dizendo sobre Garth, parecia que estava furiosa com —

ele.

— Ela sempre estava furiosa com ele, mas sempre voltava... Essa era uma das razões pelas quais parei de ouvir suas queixas. Ela nunca fazia coisa alguma a esse respeito.

— Talvez enganá-lo fosse sua maneira de fazer alguma coisa a esse respeito sugeriu Oliver. —

— Como ela teria podido enganá-lo com um cara? Ela trabalhou ontem à noite.

— O turno dela só começou depois das onze da noite — observou Oliver.

— Ela não teria ido a um bar antes do trabalho. — Os olhos de Sela moviam-se de um lado para outro. Oliver podia perceber que estava nervosa. Ela era dedicada ao trabalho. Não a vi —

ontem à noite, se é o que vocês querem saber.

— Você saberia se Adrianna tivesse saído para jantar ou para tomar uma Coca-Cola em um bar antes de ir para o trabalho? perguntou Oliver. —

— Já disse, ela não estava comigo.

— Isso não responde à pergunta — disse Marge. — O que estamos perguntando é: você sabe se Adrianna saiu ontem à noite?

— Certo, o que aconteceu foi o seguinte. — Um suspiro. — Descobri depois, porque a Crystal me ligou. Crystal Larabee. Nós três éramos inseparáveis durante todos os anos na escola. Deus, parece que isso foi séculos atrás. De qualquer maneira, ela me contou que esteve no Garage ontem à noite e que Adrianna estava flertando com alguém. Mas Crystal insiste que eles não saíram juntos... Que o sujeito deu em cima de outras mulheres depois que ela saiu para o trabalho. E como ela foi trabalhar, a história com o cara provavelmente não deu em nada. Por isso Crystal não quis dizer nada, especialmente para a polícia, porque não queria se meter em confusão.

— Por que ela se meteria em confusão?

— Não posso dizer com certeza, mas suspeito de que ela estava servindo a Adrianna sem cobrar. Talvez estivesse fazendo isso também com o cara que estava com ela. Já tinha feito antes. A Crystal provavelmente não queria que o gerente descobrisse que ela servia bebidas gratuitamente.

— Então por que continua a servir pessoas sem cobrar?

— Porque a Crystal é a Crystal. O importante é que a Adrianna não saiu com ninguém, portanto, provavelmente, não houve nada.

— E se Adrianna e o rapaz com quem estava conversando tivessem decidido se encontrar na manhã seguinte? perguntou Marge. —

— Pelo telefonema que ela me deu, não parecia que havia alguém à espera. Ela estava cansada e zangada. Tinha acabado de sair do seu turno, portanto, certamente não estava em sua melhor forma.

— Crystal não está no trabalho disse Oliver. Já ligamos para o Garage à procura dela. — —

— Ela tirou um dia de licença por motivo de saúde disse-lhe Sela. Quando falei com ela, — — estava em casa e de cama.

— Passamos pela casa dela — disse-lhe Marge. — Não estava lá.

— Tem alguma ideia de onde ela poderia estar? — perguntou Oliver.

— Não sei. Não costumo espionar meus amigos.

— Estamos apenas perguntando se você sabe onde Crystal gosta de passar seu tempo livre — disse Marge. Precisamos falar com ela. —

— Mas ela não atende o celular completou Oliver. —

— Talvez ela não goste de receber chamadas de um número restrito. Por isso, tive uma ideia. Por que você não liga e pergunta onde ela está? — disse Marge.

— Vocês querem que eu dê uma de delatora?

— Não é delatar disse Oliver. É... localizar uma pessoa, só isso. — —

— E nós sabemos, Sela disse Marge , que você quer fazer tudo que for possível para — — encontrar o assassino de Adrianna.

Sela tentou massagear sua têmpora. Depois pegou seu celular e digitou alguns números.

— Ei, é você?... Não posso ir aí, tenho de visitar Kathy Blanc. Você já ligou para ela? ... Sim, prometo. Tenho certeza de que ela vai querer vê-la também... Não, não estou mandando você fazer nada, estou só sugerindo... Não, não precisa ser agora mesmo, só... Crys, quão bêbada você está? ... Não, não estou insultando você, mas... eu sei que você sente... ai, meu Deus... pare de chorar, tudo bem ... sinto muito, tudo bem ... Estou me sentindo uma merda também, mas não posso ir para aí e beber. Eu tenho trabalho aman... Eu ligo... certo, tudo bem, tudo bem, eu vou. Tchau. Sela virou-se para os detetives. Agora eu a deixei irritada. Satisfeitos? — —

— Onde ela está? perguntou Marge. —

— No Port Hole, em Marina Del Rey.

— Muito obrigada, srta. Graydon.

— Pode me chamar de Sela, e estou me sentindo uma dedo-duro. — Ela se levantou e pegou a bolsa. Se ela perguntar como a encontraram, não mencionem o meu nome. —

 

Assim que Hannah parou na entrada da garagem, o estômago de Gabe revirou. Embora a escola não fosse a sua escola, era um ambiente familiar garotos, professores, salas de aula, —

armários. Na casa dela, ele era um estranho. Não queria ter de conversar com a mãe dela. Ela parecia muito simpática, mas, como a maioria das mães, era uma mãe normal. A mãe dele era diferente: parte mãe, parte colega, parte protetora, parte cúmplice. Os dois estavam sempre tentando descobrir maneiras de evitar deixar o pai dele furioso. Na maioria das vezes, conseguiam. Às vezes não, e um Chris Donatti furioso era uma coisa perigosa. Várias vezes, quando estava bêbado ou chapado, Chris criticava Gabe só para se divertir. Ele sempre dizia a mesma coisa.

Pare de parecer tão apavorado. Se eu tivesse querido matá-lo, você estaria morto.

Ele amava a mãe realmente amava , porém ela tinha feito algumas escolhas de vida ruins. — —

Mas ele não era muito desdenhoso. Se ela tivesse sido mais sensata, ele não existiria. Havia até uma parte dele que amava seu pai. Seus pais eram seus pais. E agora os dois tinham desaparecido e ele estava mais uma vez num limbo. De uma maneira perversa, esse dia tinha sido um dos mais fáceis de que conseguia se lembrar, não tendo tido de lidar com nenhum dos dois.

Hannah desligou o motor.

— Você está bem?

— Sim. — Ele tirou os óculos, limpou-os na camiseta e colocou-os de novo no nariz. — Certamente.

— Hum, acho que minha irmã e meu cunhado estão aqui. Quer dizer, sei que estão. Aquele é o carro deles.

— OK.

— Só quis avisar a você. Minha mãe é uma ótima cozinheira. Provavelmente vai ser uma refeição em grande estilo, com Cindy e Koby ficando para jantar. Não se sinta obrigado a comer nada.

— Acho que me esqueci de comer hoje. Estou com uma certa fome. Quantos anos tem sua irmã?

— Trinta e poucos. Ela é do primeiro casamento de meu pai. É policial. Koby é enfermeiro. Ele é um cara legal. Acho que talvez minha irmã esteja grávida. Talvez seja por isso que estejam aqui. Espero que isso não seja demais para você lidar.

— Tudo bem. — Gabe puxou a maçaneta do velho Volvo de Hannah.

Os dois andaram até a porta e entraram na casa. As irmãs se pareciam — ambas altas, com um rebelde cabelo ruivo, rosto comprido e um queixo forte, mas não desprovido de feminilidade. As duas tinham olhos amendoados. Os de Cindy eram castanhos, os de Hannah, azuis. Cindy era alguns centímetros mais alta tinha cerca de 1,75m , mas Hannah provavelmente ainda ia — — crescer. O cara era negro. Isso o surpreendeu, embora ele não soubesse por quê. Koby era mais alto que ele, mas mais baixo que seu pai por volta de 1,87m. —

— Cindy, Koby... Gabe disse Hannah. —

Koby estendeu a mão e Gabe apertou-a.

— Papai deve chegar em casa a qualquer minuto — disse Cindy a Hannah.

— Uma refeição em família? — Hannah olhou para a barriga da irmã e detectou certa protuberância. Sorriu interiormente. Qual é a ocasião? —

— A ocasião é que não vejo o papai há duas semanas. Cindy sorriu para Gabe. Espero — — que você esteja com fome. Rina cozinhou o suficiente para um exército.

— Ela cozinha muito bem disse Koby. —

— Ótimo. Gabe deu-lhe um meio sorriso forçado. Acho que vou tomar um banho. — —

Depois que ele saiu, Hannah soltou um suspiro.

— Caramba.

— Foi difícil para você? — perguntou Koby.

— Não, ele é um bom garoto. Deve ser estranho para ele. Tenho a impressão de que a vida dele é estranha.

— Legal sua mãe deixá-lo ficar aqui disse Koby. Vou ver se ela precisa de ajuda. — —

— Daqui a pouco vou para lá também disse Cindy. E depois que ele saiu para a cozinha: ——

Acho que papai localizou o pai do garoto. Mas não diga nada, certo?

— Tudo bem. Essa é uma boa notícia.

— Espero que seja uma boa notícia. Acho que o pai dele é um maluco.

— Em que sentido?

— Não sei ao certo. Ele falou sobre o pai?

— Não disse muita coisa... Que é o que eu faria se fosse ele.

Ambas ouviram o carro parando. Decker destrancou a porta e abriu um sorriso ao ver suas meninas.

— Como vão minhas duas filhas favoritas? Beijou ambas no rosto. A que devo esta — — honra?

— Você pareceu mal-humorado ao telefone disse Cindy. Sendo totalmente narcisista, — — imaginei que minha presença o alegraria.

— E alegra. Ele olhou para Hannah. Como foi seu dia? — —

— Sem incidentes.

— Como foi com Gabe?

— Bem. Ele está no quarto. Alguma sorte com os pais dele?

— Nenhum notícia da mãe, mas o pai me telefonou.

— Isso é bom disse Hannah. Alguma razão para ele ter ligado para você e não para — —

Gabe?

— Não faço ideia. Falarei com Gabe daqui a pouco. Onde está o Koby?

— Na cozinha com Eema.

Decker dirigiu-se para a cozinha e entrou no momento exato em que Koby tirava do forno uma enorme travessa de ferro.

— Alguma coisa está com um cheiro incrivelmente bom.

— Bom e intenso disse Koby. —

— Paella de frango com linguiça. Rina beijou o marido. Ela usava um avental estampado —

com borboletas e seu cabelo preto estava puxado para trás num rabo de cavalo. — Adoro refeições de um só prato.

— Há uma salada também. — Koby colocou a travessa quente no fogão.

— Refeições de dois pratos, então.

— E todos os antepastos. E sobremesa. Koby sorriu. Não se preocupe, Rina. Vou comer — — isso tudo. Sempre como.

— Como você pode comer tanto e continuar tão magro? Decker perguntou. —

— Não sei, Peter. Eu diria que a maioria dos homens etíopes é magra, mas a maioria de nós na África está submetida também a uma dieta de subsistência. Acho que é genética e sorte. — Ele deu palmadinhas em seu estômago e pegou uma pilha de pratos. — Vou pôr a mesa.

— Posso fazer isso — disse Decker.

— Você fica com a Rina e banca o sous-chef. Minha mulher e minha cunhada vão ajudar. Elas provavelmente vão me desobrigar de pôr a mesa de todo modo, o que acho ótimo. Não li o jornal hoje.

— Está na mesa da sala de jantar disse-lhe Rina. —

Depois que Koby saiu, Decker fitou os inquisitivos e brilhantes olhos azuis da mulher. Ela estava envolta por um brilho de suor e parecia incrivelmente sexy.

— Encontrei Chris Donatti. Ou melhor, ele me encontrou. Está vindo de carro de Nevada e deve chegar à cidade à meia-noite.

— Isso é bom... Acho.

— Veremos. Tenho de falar com o garoto.

— Ainda não o vi.

— Ele e Hannah já chegaram. Ele está no quarto.

— Tudo bem disse Rina. A conversa de vocês vai ser longa? — —

— Suspeito que não. Precisa de alguma ajuda?

— Eu ia pedir para você escolher uma garrafa de vinho, mas posso fazer isso. Que tal um Sangiovese?

— Qualquer coisa, desde que tenha álcool. — Decker fez uma pausa. — Mas não demais. Tenho trabalho para fazer com um novo homicídio e depois lidar com Donatti. Preciso estar alerta.

— Sim, o enforcamento. Foi horrível. Como vai indo isso?

Decker bufou.

— Parece que a moça gostava de se divertir. Nada errado com isso, mas comportamento de risco amplia a rede de suspeitos. Estamos longe de resolver.

— Vai ser uma longa noite para você.

— Quando não é? Decker puxou a mulher para seus braços. Para minha sorte, tenho — — uma mulher compreensiva que cozinha maravilhosamente bem.

Ela lhe deu um beijo prolongado.

— O que é mais importante para você? A parte da compreensão ou a parte da cozinha?

— Depende da minha fome. Neste momento, você poderia ser malvada comigo e eu não daria a mínima. Contanto que eu recebesse minha justa porção de paella.

 

Deitado numa das camas, as mãos atrás da cabeça, Gabe sentiu seus olhos se fecharem alguns segundos antes de ouvir a batida. Não era hesitante, não era excessivamente forte. Era uma batida de detetive. Ele se sentou.

— Entre.

Decker entrou e sentou-se na outra cama.

— Não sabemos nada sobre sua mãe, mas seu pai me ligou cerca de uma hora atrás, de Nevada. Ele não conseguiu um voo que fosse conveniente, por isso vem dirigindo. Deve estar aqui por volta da meia-noite.

Gabe sentiu sua voz ficando presa na garganta. Assentiu com a cabeça.

— Como se sente em relação a isso? perguntou-lhe Decker. —

— Está tudo bem.

— Está mesmo? Quando o menino não respondeu, Decker disse: Não faz sentido ser — — evasivo. Ambos sabemos quem e o que seu pai é. Quão seguro você se sente estando com ele?

— Seguro. Ele não é mau.

— Ele bateu na sua mãe. Algum dia bateu em você?

— Não. — Gabe fez uma pausa. — Foi a primeira vez que ele bateu nela, você sabe?

— Talvez — disse Decker. — Mas sei também que seu pai tem métodos muito mais sofisticados que seus punhos para intimidar. Se você realmente conhecesse seu pai, morreria de medo dele.

— Conheço meu pai. Gabe lambeu os lábios. Sei lidar com ele. — —

— Ninguém deveria viver com medo. Isso é o básico.

— A questão é... Ele sacudiu a perna para cima e para baixo. Se minha mãe continuar — — desaparecida, meu pai não vai ficar por perto para me criar. Mesmo quando está em casa, ele cuida de suas próprias coisas. Sou um estorvo para ele. Além disso, não preciso de ninguém para me criar. Só preciso de um lugar para morar, acesso a um carro e motorista, e um professor de piano. Chris me dará dinheiro.

— Você tem outras opções, Gabe.

— Mal conheço meu avô e não vou morar com a minha tia. Ela é uma pessoa relaxada e sou obsessivo-compulsivo. Os hábitos dela me incomodam muito mais que o temperamento do meu pai. Pelo menos ele é tão organizado quanto eu.

— Certo — disse Decker. — Se precisar de alguma coisa, basta me ligar. Você é certamente bem-vindo para passar alguns dias aqui para resolver tudo isso.

— Obrigado. O menino tirou os óculos e limpou-os na camisa. Conseguiu exibir um —

sorriso, embora seus olhos estivessem à beira das lágrimas. Muito obrigado. Então você não —

soube nada mesmo sobre minha mãe?

— Você será o primeiro a saber. Decker levantou-se. Estamos quase prontos para comer. — — Tem muita comida. Espero que esteja com fome.

— Estou. Daqui a pouco vou.

Decker fechou a porta e deu ao menino sua privacidade. Fingiu não o ouvir chorar.